Em 28 de Abril de 2025, às 12h33 (CEST)[1], as redes eléctricas de Espanha e Portugal sofreram um incidente que as levou ao colapso mais grave ocorrido na Europa nos últimos 20 anos. A enorme dimensão do evento, popularmente conhecido como “apagão”, afectou as populações, infraestruturas, equipamentos e a socio-economia em toda a extensão geográfica dos dois países ibéricos e, ainda, numa pequena área em França junto à fronteira espanhola.
No Relatório Final, o Grid Incident in Spain and Portugal, emitido a 20 de Março de 2026, daqui avante designado como Relatório, refere-se que "as primeiras horas da manhã de 28 de Abril de 2025(...) caracterizaram-se por um aumento da produção das renováveis (...) até que, pouco depois das 10h30, a tensão numa parte da rede de transporte de 400 kV se aproximou dos 435 kV"[2] .
Regista-se, depois, que a "produção de electricidade no sudoeste do País (Espanha) foi muito elevada (...)", resultando isso em elevadas transferências eléctricas a partir das províncias da Andaluzia, Extremadura e Castela La Mancha. Durante a meia hora que antecedeu o apagão, observaram-se dois períodos de oscilações – variações de potência, tensão e frequência – o primeiro entre as 12h03 e as 12h08, e o segundo entre as 12h19 e as 12h22.
Mais à frente menciona-se que, cerca das 12h30, várias unidades alteraram a potência e, entre as 12h32:00 e as 12h32:48, os grandes produtores baseados em fontes de energia renováveis (RES ou FER), baixaram substancialmente as produções face às grandes oscilações sentidas na rede. Mais especificamente, diz-se que "entre as 12h32:00 e as 12h32:57, 208 MW de unidades de produção eólica e fotovoltaica (...) sofreram ou uma rápida alteração descendente". Simultaneamente, ter-se-á verificado um aumento da carga líquida "nas redes de distribuição de aproximadamente 317 MW", que é atribuída "aos desligamentos de sistemas fotovoltaicos instalados em telhados".
Apesar da objectividade e clareza verificada na maior parte do Relatório, os peritos relatores mencionam, subitamente, que terá havido desconexões "por motivos desconhecidos", sem clarificarem e quantificarem os eventos cujas causas são desconhecidas!? Esta indiciação de dúvida, que foi notoriamente induzida por posições político-corporativas desde muito cedo explicitadas em público[3], pode enviesar parcialmente as conclusões, caso haja actores/produtores nisso interessados, e sabe-se que eles existem.
Contudo, a dúvida artificialmente introduzida é classificável como não fundamentada e, por isso, descartável, já que surge totalmente a contrario sensu com o que de essencial é mencionado no Relatório.
É disso exemplo claro o que consta da página 14:
"por volta das 12h32:20, verificou-se um aumento particularmente acentuado da tensão local numa subestação na zona de Granada", e, logo depois, "alguns milissegundos após as 12h32:57, um transformador de 400/220 kV na mesma subestação disparou devido à activação de uma protecção contra sobretensão (...) do transformador, que liga várias instalações de produção (fotovoltaica, eólica e termo-solar) à rede de transporte";
Depois, houve "dois conjuntos de disparos, resultando numa perda (...) de 727 MW de instalações fotovoltaicas e termo-solares ligadas a duas subestações de transmissão de 400 kV na área de Badajoz". Em seguida, devido a tensão excessiva, ocorreram "vários desligamentos (...), levando à desconexão da produção eólica e solar em Segóvia, Huelva, Badajoz, Sevilha e Cáceres, num total de 928 MW".
Entre as 12h32:57 e as 12h33:18,020, dados os diversos disparos ocorridos, o apagão tinha-se desencadeado!
Numa figura inserida no Relatório (Figura 4-124), titulada como “Árvore de Causas Fundamentais e Respectivas Recomendações”, ilustra-se muito bem, mesmo se em linguagem técnica bastante hermética, as causas fundamentais do apagão, que justificam inteiramente as afirmações que fazemos neste texto[4].

Pode concluir-se que a enorme quantidade de unidades produtoras de electricidade, alimentadas por energia solar (fotovoltaica) e eólica, quantificável em dezenas de milhares[5], que se encontram a produzir e a injectarem simultaneamente electricidade nas redes públicas de distribuição e de transporte, estiveram na origem do catastrófico apagão.
O que aconteceu era, aliás, previsível e vinha sendo alertado por diversos intervenientes especializados[6], já que as tecnologias utilizadas maioritariamente nas unidades de produção fotovoltaica não incluem tecnologias de interligação às redes que permitam o controlo e gestão central, bem como o imprescindível controlo de tensão, frequência e potência reactiva. As unidades também não são, em geral, comandáveis a partir das salas de despacho central das redes, além de serem, naturalmente, intermitentes e imprevisíveis.
As fontes renováveis, em particular a solar fotovoltaica, não devem ser classificáveis de forma abstracta como más por natureza e responsáveis pelo apagão.
A causa fundamental está, de facto, nas decisões políticas que concebem, permitem e estimulam a incorporação de milhares de unidades deste tipo, dispersas nos territórios, em nome de uma suposta mitigação das causas das alterações climáticas antrópicas. Ora, objectivamente, a transição imposta até há cerca de um mês por Bruxelas, além de não ajudar até agora na resolução das questões climáticas, têm vindo a propiciar imprevisibilidades e oscilações técnicas nas redes, desequilíbrios económicos e perversas subsidiações às corporações de interesses privados, tanto as grandes empresas eléctricas, como as petrolíferas que também investem nas FER, como os fundos financeiros apócrifos e especulativos.
É este conluio entre uma ideologia climática e os interesses do lucro privado a alavanca central que formata uma catastrófica política energética europeia. E é nesse referencial que se propiciam os estratosféricos lucros rentistas, sempre à custa dos consumidores comuns de electricidade, ou seja, das famílias e das pequenas unidades empresariais que, periodicamente, têm de pagar as crescentes facturas.
Quase um ano após o apagão, têm surgido arautos que insistem na continuidade da receita tóxica, acrescentando que as “redes” devem ser ampliadas e dotadas com sistemas que lhes "aumentem a resiliência", designadamente através da caríssima capacidade química de armazenagem. Isto, a acontecer, irá fazer aumentar ainda mais as facturas endossadas aos consumidores de electricidade. Acrescentam eles que, face aos acontecimentos no Médio Oriente, Portugal tem de cuidar da sua soberania energética!? Mas, omitem, que foi exactamente no contexto desta transição, que descura o planeamento, a programação, o cuidado ambiental e que se baseia essencialmente na satisfação rápida das ambições de lucro privado, que Portugal, tem, ano a ano, vindo a importar cada vez mais electricidade de Espanha e da França.