Lucros e preços aumentam, o poder de compra dos salários dos trabalhadores dos setores privado e público diminui

– No entanto, “Mário Centeno não quer aumento de salários”
– Como governador do Banco de Portugal ele recebe 17470€/mês (quase o dobro do presidente da República, que ganha 8902€/mês)

Eugénio Rosa [*]

Mário Centeno, cartoon de Fernão Campos.

Em 21/3/2023, Mário Centeno, governador do Banco de Portugal, deu uma entrevista à Rádio Renascença. Este órgão de comunicação social resumiu-a com o seguinte título “Mário Centeno não quer aumento de salários”. O argumento por ele utilizado, segundo a Rádio Renascença, foi textualmente o seguinte:   “A subida generalizada dos salários só alimenta o aumento de preços, e porquê? Porque se tivermos dinheiro suficiente para continuar a consumir os preços não vão descer. Com menos dinheiro, haverá um corte no consumo, o que pode obrigar a uma redução de preços. É essa a expectativa”.

Para Mário Centeno a única forma de reduzir a atual escalada de preços é empobrecer ainda mais os trabalhadores portugueses, agravando ainda mais as suas condições de vida, generalizando a pobreza e a fome, pois assim reduz-se o consumo e os preços baixam. Mas esquece-se por ignorância ou deliberadamente de analisar as causas da atual escalada de preços que é muito diferente da que ele certamente aprendeu nos livros de economia que leu. E isto porque a redução drástica do poder de compra dos trabalhadores reduz o consumo interno, gera o incumprimento (o que já está a suceder a nível do crédito à habitação e ao consumo), diminui as vendas das empresas, e, consequentemente, gera mais falências e mais crise. Mas como não serve aos interesses que defende, oculta.

A ATUAL ESCALADA DE PREÇOS NÃO SE RESOLVE EMPOBRECENDO AINDA MAIS OS PORTUGUESES COMO DEFENDE MÁRIO CENTENO

A atual escalada de preços tem fundamentalmente duas causas. A primeira, resulta de tudo aquilo que o país importa (energia, cereais, produtos alimentares) com preços agravados devido à guerra. Deve-se principalmente às sanções que obrigaram os países da UE, inclusive o nosso, a proibir importações de mercados onde os preços são mais baixos. Assim, tiveram de recorrer a mercados com preços mais altos, aumentando a procura nesses países o que determinou aumento de preços, empolados por intermediários (corretores) a que se adicionou custos de transporte mais elevados. É evidente que não é reduzindo ainda mais o consumo dos trabalhadores e pensionistas que se resolve este problema.

A segunda causa é a de ser uma inflação pelos lucros devido a total falta de controlo pelo governo. Este, só recentemente, devido à pressão popular, tomou medidas que não resolvem o problema, já que são limitadas (até out/2023) mas recusando-se a controlar as margens de lucro.

A ESCALADA DE PREÇOS RESULTA, EM GRANDE PARTE, DA INFLAÇÃO IMPORTADA CAUSADA PELAS SANÇÕES QUE IMPEDEM O NOSSO PAIS DE ACEDER AOS MERCADOS COM PREÇOS MAIS FAVORÁVEIS

A primeira causa da escalada de preços é, em grande parte, inflação importada como prova o quadro 1:

Quadro 1– Aumentos dos custos das importações de produtos agrícolas, alimentares e da energia entre 2021 e 2022.

Embora não estejam disponibilizadas pelo INE as quantidades importadas, é evidente que este aumento médio de 56,3% nos custos das importações destes três grupos produtos, cuja subida de preços é a principal causa do aumento da inflação anual em Portugal, se deve principalmente, não ao aumento das quantidade importadas, mas sim ao aumento significativo dos preços das importações: Quem conheça esta área, sabe bem que nela dominam os corretores de matérias-primas. Estes aproveitam as dificuldades e obstáculos criados pelas sanções para maximizar lucros pois. Para eles as sanções são uma coisa dos políticos, o que lhes interessa é aproveitar os obstáculos por elas criados. Ao torneá-los e inflacionarem os preços, arrecadam gigantescos lucros que acabam por ser pagos pelos consumidores finais. Foi o que aconteceu mesmo com as sanções aplicadas ao Iraque de Saddam e com o “programa petróleo em troca de alimentos”, e certamente está a acontecer com as sanções aplicadas à Rússia que proíbe Portugal de aceder a fornecedores com preços mais baixos. Será que Mário Centeno desconhece esta realidade? Ou finge desconhecer para assim manipular a opinião publica?

A ESCALADA DE PREÇOS NO NOSSO PAÍS É CAUSADA TAMBÉM PELA INFLAÇÃO DE LUCROS (enormes lucros)

Uma segunda causa da escalada de preços que se verifica é chamada “ inflação pelos lucros”, ou seja, um aumento de preços determinada por um aumento enorme de lucros, já que o “Capital” aproveita a situação internacional, a subida de preços que ela determina, e a ausência de qualquer controlo por parte do governo e das chamadas entidades reguladores. Estas, na prática não fiscalizam, o que aumenta enormemente os lucros.

No fim de out/2022, o INE publicou “Empresas em Portugal” com dados referentes ao período 2008/2021. Foi dessa publicação que se retiraram os dados que constam do quadro 2, os quais revelam o aumento enorme dos lucros das empresas no período 2019/2021 (2021 é o último ano disponibilizado).

Quadro 2.

Segundo o INE, o aumento dos lucros das empresas não financeiras foi enorme entre 2020 e 2021 – +61,8% no total das empresas e + 96,1% nas grandes empresas – apesar do valor da produção ter crescido, respetivamente, apenas 16,3% e 18,5%. Este aumento de lucros determinou que, em 2021, os lucros das empresas não financeiras já fossem superiores aos de 2019 (+25,2% se considerarmos todas as empresas, e +11,6% nas grandes empresas) . Na banca que é o principal grupo das empresas financeiras, segundo os seus relatórios e contas, os lucros dos cinco principais bancos (CGD, BCP, Novo Banco, Santander-Totta e BPI) aumentaram 80% entre 2021 e 2022, pois passaram de 1406 milhões € para 2531 milhões €. É evidente que este aumento enorme dos lucros contribuiu também para a escalada de preços. Isso prova que a justificação de Mário Centeno não tem qualquer consistência técnica.

A PERDA DE PODER DE COMPRA DOS TRABALHADORES DO SETOR PÚBLICO E DO SETOR PRIVADO

Quadro 3.

Para evitar interpretações incorretas interessa não esquecer que a diferença de remunerações médias entre o setor privado e publico resulta de que no setor publico 55,2% dos trabalhadores têm o ensino superior enquanto no setor privado são apenas 26,9%. Para muitas profissões idênticas a remuneração no setor público é já inferior ao do setor privado, o que impossibilita a contratação de técnicos com qualificações elevadas (médicos, professores, eng. informáticos, etc.) com consequências graves na qualidade de serviços prestados aos portugueses.

Segundo o INE entre 2019-2022 os trabalhadores da Administração Pública perderam entre 5,5% e 5,8% de poder de compra, e os do setor privado perderam entre 2021-2022 uma parcela do aumento do poder de compra que haviam obtido entre 2019/2020 como revelam os dados do quadro, o que prova também que Mario Centeno não tem razão.

A INFLAÇÃO ANUAL CONTINUOU A AUMENTAR EM 2023 SEGUNDO O INE APESAR DO GOVERNO DIZER O CONTRÁRIO

Gráfico 1.

08/Abril/2023

[*] edr2@netcabo.pt

O original encontra-se em www.eugeniorosa.com

Este artigo encontra-se em resistir.info

10/Abr/23