A situação difícil do Montepio, a maior associação mutualista do país

– €86 milhões de prejuízos em 2020
– Em três anos (2018-20) já perdeu mais de €432 milhões de capitais próprios
– Só com a participação dos associados e com o governo a situação pode ser resolvida
– É urgente substituir a administração Virgílio Lima na Assembleia de Dez/2021

Eugénio Rosa [*]

Logo Montepio. Após inúmeros adiamentos, e com grande atraso (deviam ter sido publicadas no fim do 1º trimestre de 2021), e com o claro propósito de esconder aos associados a verdadeira situação do grupo Montepio, o atual conselho de administração da Associação Mutualista acabou, devido à pressão de muitos associados, por publicar as Contas consolidadas da Associação Mutualista de 2020 que incluem os resultados de todas as empresas do grupo Montepio. Só estas contas é que dão um retrato completo do grupo Montepio e, em particular, da Associação Mutualista, que é a “empresa-mãe”. Elas mostram de uma forma muito clara que, com a atual administração do Montepio, que é ainda uma herança de Tomás Correia, a situação continuou a degradar-se, e que ela é totalmente incapaz de reverter a situação e destruição do enorme valor que sofreu o grupo Montepio nos últimos anos.

OS PREJUIZOS CONTINUAM A ACUMULAR, A DELAPIDAÇÃO DO PATRIMONIO E DOS CAPITAIS PRÓPRIOS DA ASSOCIAÇÃO MUTUALISTA PROSSEGUE E O NÚMERO DE ASSOCIADOS DO MONTEPIO CONTINUA A DIMINUIR

Para que os associados possam obter rapidamente uma ideia clara da situação em que se encontra a Associação Mutualista e para onde continua a caminhar, reunimos no quadro 1, dados importantes dos seus Relatórios e Contas que mostram que os prejuízos continuam a acumularem-se, a destruição dos seus Capitais Próprios prossegue, e também a perda de associados não para. Tudo isto consequência de uma gestão desastrosa de Tomás Correia/Virgilio Lima, agora continuada por Virgilio Lima

Os resultados, os Capitais Próprios e o número de associados da Associação Mutualista, 2014/2020
Os resultados, os Capitais Próprios e do número de associados da Associação Mutualista, 2014/2020

Em sete anos (2014/2020), como consequência ou da administração conjunta de Tomás Correia/Virgilio Lima, ou apenas da de Virgilio Lima, a Associação Mutualista acumulou a nível das suas Contas Individuais 989,9 milhões € de prejuízos, e a nível das suas Contas consolidadas, que incluem os resultados das 34 empresas que constituem o grupo Montepio, 618,8 milhões € de prejuízos. E que não pararam em 2020. São prejuízos enormes que causaram uma enorme destruição de valor, fruto de uma gestão que não acautelou devidamente o património e as poupanças de cerca de 600.000 associados.

Como consequência desta gestão desastrosa, o ATIVO TOTAL da Associação Mutualista, ou seja, o que ela possui ou tem a haver, sofreu uma forte delapidação, passando a ser inferior ao PASSIVO TOTAL da Associação Mutualista, ou seja, aquilo que ela deve ou tem de pagar.

Como revela o quadro 1, em 2014, o ATIVO TOTAL da Associação mutualista era superior ao seu PASSIVO TOTAL em 951,1 milhões €, portanto o que possuía a Associação Mutualista era mais que suficiente para pagar o que devia, que incluía as poupanças e outros benéficos que devia aos associados e ainda sobrava um elevado valor. Os seus Capitais Próprios (ATIVO – PASSIVO) eram positivos no montante de 951,5 milhões €. Atualmente a situação é muito diferente. Em 2020, como mostram as contas que o conselho de administração foi obrigado a divulgar, embora com muito atraso, se deduzirmos ao ATIVO os 808 milhões € designados por “Ativos por Impostos Diferidos”, que não são ativos reais com quais se possa, por ex., pagar as poupanças aos associados, mas apenas resultam de uma operação de engenharia contabilística/fiscal, que permitiu a sua criação para esconder a verdadeira situação da Associação Mutualista; repetindo, se deduzirmos estes 808 milhões €, que não são ativos reais, então o ATIVO TOTAL (o que Montepio possui) é já inferior ao PASSIVO TOTAL (aquilo que deve ) em 712,6 milhões €.

Mesmo incluindo os “Ativos por Impostos Diferidos”, que não são ativos reais, que, em 2017, fizeram aumentar os Capitais Próprios negativos de -250,6 milhões € de 2016 para 527,6 milhões € positivos, desde 2017 tem-se registado uma redução continua dos Capitais Próprios da Associação Mutualista a nível consolidado sendo, em 2020, apenas 94,8 milhões €. Desapareceram 432,8 milhões € em 3 anos. É assustador este ritmo de delapidação dos Capitais Próprios. A AAMG não sobreviverá a não ser que se ponha um travão substituindo uma administração que já mostrou que é passiva, autista e incapaz.

O DISVIRTUAMENTO DA MISSÃO DA ASSOCIAÇÃO MUTUALISTA

Como mostra o quadro 2, retirado do Relatório Contas Individuais da Associação Mutualista 2020, a maior parte das poupanças dos associados estão aplicadas não em produtos mutualistas, mas sim em produtos de capitalização de curto prazo, muito semelhante a um depósito a prazo

O Valor das poupanças dos associados na Associação Mutualista por modalidades
O Valor das poupanças dos associados na Associação Mutualista por modalidades

Em dez.2020, os associados tinham aplicados na Associação Mutualist16 a 3.206,1 milhões €, sendo 79%% (2.534,7 milhões €) em modalidades de capitalização com uma duração máxima de 5 anos, e apenas 671,3 milhões € em modalidades verdadeiramente mutualistas. Mas a esmagadora maioria destas poupanças estão aplicadas nas empresas do grupo Montepio que são investimentos de longa duração, situação esta que envolve riscos, cuja rentabilidade tem sido muito baixa ou mesmo nula (o Banco Montepio há mais de 13 anos que não transfere qualquer dividendo para a Associação Mutualista)

NÃO É POSSIVEL SALVAR A ASSOCIAÇÃO MUTUALISTA SEM SALVAR O BANCO MONTEPIO
COM A ATUAL ADMINISTRAÇÃO (2017-JUN/2021), O BANCO MONTEPIO PERDEU €412 MILHÕES DE CAPITAIS PRÓPRIOS

Contrariamente ao que se pode pensar ou afirmar, não é possível resolver os graves problemas que enfrenta atualmente a Associação Mutualista sem antes resolver os problemas do Banco Montepio e da Lusitânia SA (não vida), pois a Lusitânia vida foi sempre bem gerida e deu sempre lucros. E isto porque a destruição enorme do Capital da Associação Mutualista resultou da aplicação da maior parte das poupanças dos associados nestas empresas e dos enormes prejuízos que elas acumularam devido à má gestão. Portanto, a solução para a Associação Mutualista passa obrigatoriamente por reverter essas enormes imparidades, e isso é só possível se o Banco Montepio e Lusitânia SA criarem organicamente capital, ou seja, obtendo e acumulando resultados positivos

Como consta do Relatório e Contas Individuais de 2020 (pág. 117), a Associação Mutualista investiu em apenas 13 nas 34 empresas que constituem o grupo Montepio 2760,6 milhões €, sendo 2375,6 milhões € no Banco Montepio e 137,8 milhões € na Lusitânia SA. Como consequência dos elevados prejuízos que se verificaram nestas duas empresas resultantes de gestões desastrosas, a Associação Mutualista já teve de registar, em 2019, nas suas contas 1.039,7 milhões € de imparidades que reduziu significativamente os seus Capitais Próprios levando-os ao VERMELHO. Esta situação de “VERMELHO” traduz-se no facto de que, em 2020, o ATIVO REAL, portanto sem os chamados “Ativos por Impostos Diferidos” seja já inferior ao seu PASSIVO em 712,6 milhões € (quadro 1).

Em relação a Lusitânia SA, com a substituição há cerca de dois anos de uma administração incompetente, que tinha só acumulado prejuízos, em que a própria ASF não permitiu a recondução do presidente; repetindo, a sua substituição por uma administração competente, iniciou-se uma lenta e difícil, mas segura, recuperação desta seguradora tendo já apresentado resultados positivos (10 milhões € em 2020). Infelizmente isso não sucedeu no Banco Montepio que continuou a acumular prejuízos (2020 e 2021) o que mostra que as pessoas fazem a diferença

O quadro 3, com dados das Demonstrações de Resultados e dos Balanços da CEMG/Banco Montepio referente ao período 2010/1ºsem.2021, permite compreender rapidamente as consequências da gestão das diferentes administrações que se sucederam no tempo no Banco Montepio no período 2010/2021.

Os resultados da gestão das administrações de Tomás Correia (2010-2015),
de Félix Morgado (2016-2017) e de Carlos Tavares/Pedro Leitão (2018-2021)

Os resultados da gestão das administrações de Tomás Correia (2010-2015), de Félix Morgado (2016-2017) e de Carlos Tavares/Pedro Leitão (2018-2021)

Para tornar mais claras as conclusões que se tiram dos dados do quadro 3, vai-se dividir a analise em três partes a saber: (1ª) A dimensão das imparidades e provisões constituídas e do credito abatido ao Ativo por se ter considerado totalmente perdido e incobrável; (2ª) Os elevados prejuízos acumulados; (3ª) Os aumentos de capital do Banco Montepio que a Associação Mutualista teve de fazer com as poupanças dos associados, e a parcela que já foi delapidada devido aos elevados prejuízos.

No período Dez/2010 a Jun/2021, O Banco Montepio teve de constituir imparidades de crédito no montante de 2157 milhões por considerar, com fundamento económico, que a probabilidade de o não cobrar era muito elevada, que somadas as provisões criadas deu 2743 milhões € custos. Este enorme montante de perdas previstas no crédito concedido resultou fundamentalmente de uma deficiente análise do crédito, ou mesmo da ausência de qualquer analise de crédito. Cerca de 2004 milhões € acabaram por serem efetivamente abatidos ao Ativo e colocados numa conta extrapatrimonial, invisível a terceiros, a somar às centenas de milhões que já lá estavam.

Este abate de 2004 milhões € de créditos concedidos que não conseguiram cobrar, na sua maioria consequência de uma gestão irresponsável, determinou um enorme prejuízo ao Banco Montepio (neste mesmo período o Banco acumulou 829 milhões € de prejuízos). Para compensar este valor que foi destruído, consequência também de má gestão, a Associação Mutualista teve de recapitalizar a CEMG/Banco Montepio, com poupanças dos associados, com 1620 milhões €a que juntaram mais 140 milhões de divida subordinada.

Em Dez/2010, os Capitais Próprios da CEMG eram apenas 895,4 milhões €, se somarmos o valor das recapitalizações feitas pela Associação Mutualista – 1620 milhões € – obtém-se 2.515 milhões €, que era o valor mínimo que devia existir no Banco Montepio em 2021. No entanto, em Jun/2021 os Capitais Próprios do Banco Montepio eram apenas 1.351 milhões €, o que significa que 1.164 milhões € de fundos investidos pela Associação Mutualista no Banco Montepio desapareceram devido aos elevados prejuízos que este banco tem registado.

Entre dez/2017 e jun/2021, com a atual administração (16 membros=CGD) os Capitais Próprios do Banco Montepio diminuíram de 1763 milhões € para apenas 1351 milhões €, desapareceram 412 milhões € em 3,5 anos, o que destruiu valor do banco para o acionista (ele esta registado na Associação Mutualista por 1500 milhões €, ou seja, por mais 149 milhões €), e diminui a capacidade do banco para fazer negocio bancário devido à escassez do seu capital (os rácios de capital estão nos mínimos e não permitem aumentar significativamente o crédito concedido).

A GESTÃO ERRADA DA ATUAL ADMINISTRAÇÃO DO BANCO DE FECHAR AGÊNCIAS E DESPEDIR TRABALHADORES

Perante a incapacidade para encontrar soluções para inverter a situação de prejuízos do Banco Montepio e, consequentemente, a delapidação do seu escasso capital, a atual administração do banco decidiu enveredar pela redução drástica do número de agências e prepara-se para fazer um grande número de despedimentos de trabalhadores, no caso de Virgilio Lima ganhar as eleições. Este já certamente se comprometeu com tal “solução”. É só possível impedir a execução desse plano de destruição do Banco Montepio, chamado pomposamente “PLANO DE TRANSFORMAÇÃO, se os trabalhadores e os associados se unirem, pois a atual administração já revelou que é incapaz de encontrar medidas para inverter a situação de contínuos prejuízos e de perda de quota de mercado .

No entanto a “solução” de Pedro Leitão/Virgilio Lima, para além de determinar uma elevada destruição de empregos e revelar uma total falta de sensibilidade humana, de consideração e de respeito pelos trabalhadores do Banco Montepio (cerca de 3000), é o caminho certo para o desastre, pois tornará o Banco Montepio uma entidade irrelevante no setor bancários português, e incapaz de fazer face à concorrência cada vez mais violenta que se verifica neste setor. Esta “solução”, embora contrária aos interesses nacionais, está de acordo com as orientações da Comissão Europeia, que tem também o apoio de Mario Centeno, que defendem abertamente a redução do número de bancos em Portugal, através da absorção dos pequenos e médios bancos, como é o Banco Montepio, pelos grandes, como o Santander. E certamente a preço de saldo, como aconteceu com o BANIF. Se isso acontecesse seriam os trabalhadores do Banco Montepio, cuja maioria perderia o emprego, e os associados que certamente perderiam uma parte das suas poupanças, os sacrificados. O caminho não pode ser este, e opor -se a isso será a orientação da nossa ação futura. Mas para isso precisamos do apoio e unidades dos trabalhadores Montepio e dos associados. Ficar passivos, isolados e à espera é o que a outra parte mais deseja.

HÁ SOLUÇÕES PARA INVERTER A SITUAÇÃO QUE NÃO SÃO FECHAR AGÊNCIAS, DESPEDIR CENTENAS DE TRABALHADORES COMO ESTÁ PREVISTO E DE REDUZIR O BANCO MONTEPIO À IRRELEVÂNCIA PARA SER RAPIDA E FÁCILMENTE ABSORVIDO POR UMA GRANDE BANCO ESTRANGEIRO COMO FOI O BANIF

Contrariamente à mensagem que Pedro Leitão/Virgilio Lima fazem passar, existem outras soluções que não passam fundamentalmente nem pelo fecho maciço de balcões nem por despedimentos em massa como defendem. Há outras soluções que defendemos perante o Presidente da República, 1º Ministro, ministro das Finanças e supervisores (Ministério do Trabalho, da Solidariedade e Segurança Social, Banco de Portugal e ASF)

Em março de 2021, enviamos a todas aquelas entidades um extenso estudo com 78 páginas cujo titulo era “CONTRIBUTOS PARA UM PLANO DE RECUPERAÇÃO E VIABILIZAÇÃO DO GRUPO MONTEPIO – Análise da situação atual e como se chegou a ela, e medidas para recuperar o Grupo Montepio”. Este documento, embora assinado por mim, continha na capa, logo por baixo do título, o seguinte esclarecimento “Este documento, elaborado pelo economista Eugénio Rosa, ex-membro do Conselho Geral da Associação Mutualista e do CGS e da CMF da CEMG/Banco Montepios, incorpora também contributos de outros associados, alguns deles ex-membros dos corpos sociais da CEMG/Banco Montepio e da Associação Mutualista Montepio Geral”. Portanto, não era um documento individual, mas sim um trabalho coletivo de quem conhece e trabalhou e se preocupa em defender o Montepio. E na análise feita nem nas propostas de medidas apresentadas não constam nem fecho de balcões nem despedimento de trabalhadores.

Como o próprio título diz é um contributo para um plano de recuperação do grupo Montepio, com uma análise realista da gravidade da situação, de como se chegou a ela, e de um conjunto de propostas realistas para a recuperar o Banco Montepio, porque pensamos que a recuperação da Associação Mutualista passa pela recuperação do Banco Montepio, pois sem recuperação deste será impossível recuperar aquela. É uma proposta para ser discutida com o governo, com os supervisores e com os trabalhadores, pois sem a sua força, determinação e competência será impossível recuperar o Montepio. É essa a minha convicção profunda. E uma coisa é clara para mim. Sem a unidade dos trabalhadores e dos associados será impossível recuperar o Montepio. No período que antecedeu as eleições esforcei-me para constituir uma lista de unidade abandonando posições hegemónicas e ideológicas, e colocando acima de tudo os interesses do Montepio, dos seus trabalhadores e dos seus associados. Infelizmente isso não foi possível, mas não desisto. Se a nossa lista tiver a preferência dos associados, tomo o compromisso de continuar a trabalhar para construir essa unidade, sem a qual é impossível recuperar o Montepio e a confiança e segurança que os associados e os portugueses tinham no Montepio. Até porque, depois de ter estado no CGS/CMF do Banco Montepio, fiquei com a certeza de que há muitas competências internas e muita experiência interna que têm sido e se encontram desaproveitadas em benefício de falsas competências externas.

O documento enviado ao Sr. Presidente da República, ao governo, e aos supervisores (MTSSS, BdP, e ASF) tem também outro objetivo: mostrar que há soluções realistas para o Montepio que preservam a maior associação mutualista do país e para que mais tarde não se possa dizer que “NÃO SE SABIA”.

19/Setembro/2021

  • Convocatória para a Assembleia Geral Eleitoral
  • [*] Economista e associado do Montepio

    O original encontra-se em www.eugeniorosa.com/shared/docs/2021/09/39-2021-montepio-consolidadas.pdf?ts=1632244651

    Este artigo encontra-se em resistir.info

    22/Set/21