O preço de uma vida

por Keilla Mara de Freitas [*]

Clique para aceder à Escola Latino-Americana de Medicina. Gostaria de fazer uma pergunta: Qual é o preço de uma vida? Pensem nas crianças no Afeganistão: pensando que os pacotes caindo dos aviões eram comida iam de encontro à morte numa bomba, pensem nas vidas de civis no Iraque. Qual é o preço de uma vida? Pensem nas pessoas mortas na Colômbia pelos paramilitares. Pensem nos milhares de palestinos bombardeados pelos EUA através do testa de ferro Ariel Sharon. Qual é o preço de uma vida? Pensem nos mortos no Kosovo, nos Balcãs, no Haiti, na África negra, nos guetos dos EUA.

CIA, FMI, BM, petroleiras, multinacionais, neocolonialistas do mundo, quantas almas pagarão seus barris de petróleo, suas bolsas de valores, de quantas almas se necessitam para sustentar a sua indústria bélica?

Qual é o preço de uma vida? Pensem nas crianças dormindo semidesnudas embaixo de uma marquise, aprendendo com o trafico de drogas o único caminho para sobreviver sendo respeitado, pensem nos pais de família vendo sua família ser desalojada saindo todos os dias para buscar um emprego que nunca encontra, na mãe que leva o recém nascido ao peito e percebe suas mamas secas, ou daquelas que levam o filho doente ao hospital e voltam com um receita na mão e os bolsos e estômagos vazios,.

Qual é o preço de uma vida, detentores do capital? Quantas vidas de camponeses sem terra se necessita para fertilizar os latifúndios improdutivos, quanto sangue no semi-árido nordestino se necessita para manter a indústria da seca?

Talvez haja quem pense que estas perguntas não se conectam, talvez alguém ainda creia que não tem nada a ver com isso. Não pretendo com estas perguntas chegar ao coração de todos os leitores, quero tratar de uma atitude correspondente a um sector bem específico, quero aqui a partir de hoje abrir um debate que a imprensa está comprando desde a visita a Cuba da tal comissão interministerial para a revalidação dos títulos dos estudantes brasileiros graduados na Ilha. Pergunto: quantas mortes de inocentes carentes se necessita para encher de clientes os consultórios dos médicos brasileiros?

De que estou falando? Falo de uma frente de luta, a luta que deve travar cada país pela justiça social e, dentro de algo tão abrangente, mais especificamente, a luta pela melhoria da saúde da população.

Vivo em Cuba há quatro anos, nem em 20 anos poderia eu compreender a complexidade deste sistema que tem tanto de exemplar na construção de uma sociedade melhor quanto de problemas ainda não completamente respondidos. Como acreditar em quem quer que seja que passe 15 dias ou menos aqui com a cabeça cheia de preconceitos e interesses pessoais e volta ao Brasil dizendo que respondeu às suas perguntas sobre Cuba ou sobre seu ensino superior, mais especificamente a formação de médicos?

Entre algumas dificuldades que enfrentam os que estudam medicina em Cuba está o acesso à Internet. Não somos filhos de burgueses com um computador com Internet em baixo do braço, e aqui em Cuba o Estado tem que garantir — apesar do bloqueio económico — que tudo que entre, até mesmo os computadores, seja distribuído entre todos. Esta é uma das razões porque este diálogo, tão importante entre nós e os profissionais e estudantes da saúde que se graduaram ou se graduam no Brasil, não se faz da melhor forma possível.

Não estudamos com livros supernovos, atualizamos técnicas de diagnósticos e tratamento oralmente, e com pesquisas em rede eletrônica, nossos pais não têm dinheiro para custear nossos livros.

Nos não viemos a Cuba fugindo do exame vestibular no Brasil, viemos a Cuba porque em nossa pátria mãe, a frase que diz que filho de peixe peixinho é, traduz uma realidade na qual o filho do trabalhador nunca vai chegar a ser doutor, e será que o filho do doutor pode ser doutor porque é mais inteligente? Também, porque sabemos que se a quantidade suficiente de alimento para o pleno desenvolvimento mental da criança não lhe for oferecida em seu devido momento, ela terá seu desenvolvimento intelectual afetado pelo resto da vida, mas não é este o principal motivo, o que conta aqui é que o filho do doutor estuda em magníficas escolas particulares, e tem toda a bibliografia e ambiente de estudo para se preparar para o vestibular e ganhar um carro se aprovado, o filho do trabalhador muitas vezes desempregado não, ele estuda toda a sua vida numa escola pública absorvendo o sucateamento do ensino, e nunca nem jamais terá as condições para competir com este filho de doutor.

Acontece que Cuba, nos adota e dá a possibilidade de o filho de trabalhador ser doutor. Quais são as diferenças?

Nós não temos consultório pré-construído para quando nos formarmos, ou clientela garantida como se fosse uma loja de roupas, nós não estamos sendo formados para vender saúde, queremos construir saúde, não pretendemos ficar famosos curando várias doenças, queremos evitar que se contagiem, a grande diferença é que muitos de nós que estudam medicina em Cuba realmente viemos da classe social injustiçada para a qual vai direcionada a nossa proposta de trabalho.

Não vemos os estudantes brasileiros como futuros concorrentes, os vemos como colegas, companheiros de luta, a grande luta pela saúde da nossa população, pensamos nos complementar, os companheiros no Brasil têm durante o seu curso um contato mais direto com doenças que aqui em Cuba já foram erradicadas há muito tempo, e que só as vemos em livro. Por outro lado, aqui em Cuba convivemos com um sistema de saúde cujo principal pilar é a prevenção, aprendemos dia a dia como fazer diagnósticos com poucos recursos complementares, como curar doenças com pouca variedade de medicamentos, aprendemos que médico e população trabalham ombro a ombro em prol da saúde comunitária, aprendemos que um paciente não é um conjunto de órgãos, é um ser biopsicosocial, e que o médico deve ser integral e analisar o paciente integralmente. Aprendemos que muita vezes, uma atenção é todo o remédio que um ancião solitário necessita, vemos o interesse dos professores em transmitir seus conhecimentos para nós, sua dedicação.

Qual é o medo? Que sentimentos escondidos despertamos em alguns profissionais? Por que o cinismo, o que está por trás das máscaras, por que nos querem condenar sem ao menos considerar nossas propostas? Não me digam que a associação dos hospitais privados está muito preocupada com a nossa incapacidade de atender pacientes depois de permitir direta ou indiretamente a morte de várias pessoas todos os dias simplesmente por não terem condições de pagar o tratamento das suas afecções ou a estadia nos hospitais.

Outra coisa que nos ensina Cuba, ver os nossos professores chegarem muitas vezes suados do transporte lotado, em bicicleta, ou pedindo carona no sol quente depois de 24 horas de plantão voluntário, não é que seja bonito as dificuldades económicas, isto é só para provar que os médicos cubanos sabem muito bem de onde vem, para quem trabalham e que as noites e noites de estudo não os tornam superiores a ninguém.

Não digo tudo isto por ser uma filha de trabalhador que quer se infiltrar no requintado mundo dos doutores, isto a mim não me interessa.

Hoje mesmo, quando escrevo este texto, acabei de sair de um plantão de 24 horas em que passei toda a noite ao lado do meu paciente com um caso de apendicites. Levava três dias de evolução por não apresentar um quadro clinico muito forte, esta entidade é critério de cirurgia de urgência, pelo tempo de evolução já estava bastante complicada, havia material fecal na cavidade abdominal e processo fibrinoplástico que envolvia o órgão. Foi operado imediatamente, e coberto com antibióticos, ninguém lhe perguntou sequer quanto dinheiro ganhava por mês, fiquei um bom tempo velando o seu sono quando já estava na sala de recuperações: 20 anos, fiquei pensando no preço que tem uma vida, pensava em quantas pessoas devem morrer por algo similar que ninguém sequer se inteira o motivo, “vontade de Deus”, quem sabe. Pensei em todas as “itis“ que reinam sobre este Brasil tão debilitado, pensei o que se passaria se este jovem fosse um brasileiro filho de mãe solteira desempregada, ele sem estudo e sem emprego, imigrantes nordestinos, que chega em qualquer favela de São Paulo e no meio da luta pela sobrevivência começa com uma ligeira dor na boca do estômago, que depois passa a ser mais embaixo do lado direito, começa com vómito, três dias, pensará em tudo, menos que se está morrendo, ou será que morrendo está nossa capacidade de acreditar que somos também responsáveis pelo destino de nosso país?

Toda e qualquer vida é incalculável, não importa se está no Oriente Médio ou rastejando na esquina de nossa casa, não importa se está morrendo por guerras civis, por diferenças religiosas, por fome, ou por falta de atendimento médico.

É por isso que uma vez mais eu os convido a participar deste debate: os rumos da saúde no Brasil, o papel que podem desempenhar os poucos médicos graduados em Cuba no processo de implantação da medicina preventiva em todo o Brasil, ou pelo menos a que pensem em tudo isto quando escutarem algo sobre o sistema de saúde cubano, ou sobre os brasileiros que se graduaram em Cuba e querem fazer concorrência no mercado saturado da medicina brasileira.

[*] Estudante de medicina do projeto Escola Latino-Americana de Medicina , Cuba, 4º ano.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

13/Jun/04