A necessidade de voltar à realidade
por Keilla Mara de Freitas
[*]
Alienar significa transformar a consciência. É o processo pelo
qual se vai alterando a percepção da realidade até que o
indivíduo passa a viver num mundo irreal. Contudo, não se
dá conta disso e continua a sua vida quotidiana respondendo
negativamente a toda interferência externa que questione a legitimidade
deste mundo, tapando olhos e ouvidos aos fatos que dançam diante de si.
Sendo capaz de qualquer coisa para se manter neste mundo ou para
alcançá-lo.
Criticamos a alienação dos povos, mas não nos damos conta
que existe não só a alienação da direita como
também a da esquerda.
Como chegamos até a alienação de esquerda? Por que
não a combatemos? Trata-se de erva tão ou mais daninha que a de
direita, uma vez que cresce nos campos onde se supõe que pretendemos
construir um mundo melhor. Quem ganha com a alienação de esquerda?
É necessário irmos desmontando ambas as alienações
a fim de podermos construir uma consciência coletiva a respeito da
realidade tal como ela é. Para, quem sabe, podermos transformá-
la. Mas nunca poderemos transformar uma realidade cuja percepção
foi alterada de acordo as conveniências de quem a maneja.
Este processo de desmonte deve ser efetuado a partir de, para e com a
juventude. Tem de ser com uma linguagem jovem e de acordo com cada grupo. A
linguagem empregada, por exemplo, para com um grupo universitário
não é a mesma para com trabalhadores da construção.
Ela não é melhor nem pior, só diferente.
Assim vamos desalienando a partir da base. Além de atrair novos jovens,
vamos formando e criando quadros ao invés de informar jovens e criar
paus de bandeira.
Um exemplo comprovado da consequência de não levarmos a cabo este
processo foi o que passou depois da destruição da URSS. A
esquerda mundial vinha há anos seguindo a doutrina do PCUS, como se o
marxismo fosse uma bíblia. Olhava a URSS com devoção e,
ao invés de questionar os caminhos que ia tomando, limitava-se a engolir
as suas contradições e brechas como um ato de fé. Estas
brechas foram crescendo cada vez mais ao longo dos anos e ninguém queria
perceber. Quando estas crateras levaram o muro de Berlim à
ruína, este parecia que havia caído como por um ato de magia.
Isto levou o movimento comunista mundial a uma crise teórica, os
partidos não sabiam para onde ir.
É fácil perceber este erro agora, mas será que é
tão fácil perceber embriões mutantes deste mesmo erro no
presente?
Talvez já estejamos vacinados contra a epidemia do seguimento cego das
experiências socialistas em outros países. Talvez tamanha crise
teórica, como aquela vista depois da queda do bloco socialista, nunca
volte a acontecer. Aprendemos com a queda ou, pelo menos, aprendemos a cair.
Mas eu me pergunto o preço que cada militante paga pela
alienação de esquerda e, de indivíduo a indivíduo,
o desgaste da legitimidade da ideologia partidária, da sua força.
A questão de Cuba, por exemplo. No Brasil há duas imagens sobre
ela, uma construída pela direita e outra pela esquerda. Nenhuma delas
corresponde à realidade, ainda que a projetada pela esquerda seja a mais
certa.
Falar de Cuba é sumamente importante. Talvez os quadros mais
preparados, os militantes com maior experiência, tenham uma
visão mais panorâmica e profunda do mundo o suficiente para
saber que todos os países e suas respectivas experiências formam
um grande emaranhado onde não existem graus de importância.
Mas para muitos, Cuba tem sido o caminho a seguir de toda uma vida, o sonho
alcançável, a prova de que vale a pena lutar pelo amanhã,
e de certa forma o é. Mas não é uma luz condensada em si
mesma. Cuba significa muito e continuará significando, simplesmente por
existir, por resistir, só que ainda não foi construído
sobre a terra o lugar dos nossos sonhos. Quando achamos que este lugar existe e
um dia de alguma maneira nos damos conta de que não, nos perguntamos se
realmente vale a pena lutar pelo que não existe . E o mais interessante
é que sim, vale a pena. Mas só se chega a esta conclusão
depois de levar muito porrada e isto não tem porque ser sempre assim.
É importante que consigamos garantir um contato constante entre
nós os que vivemos em Cuba e os que vivem no Brasil. O papel que isto
desempenha entre nós que vivemos em Cuba é uma
retroalimentação da realidade brasileira, ter bem presente para
que e para quem estamos sendo formados. Enquanto isto devemos mostrar para os
que vivem no Brasil a realidade cubana.
Para todos que visitam Cuba (refiro-me à Cuba das ruas e do povo,
não à Cuba dos hotéis e dos dirigentes políticos)
é extremamente difícil chegar ao Brasil e relatar suas
experiências. Em geral chegamos aqui cheios de certezas e saímos
cheios de perguntas. Aqueles que vêm por pouco tempo podem até se
conformar em voltar só com as perguntas ao invés de tirar
conclusões precipitadas, mas os que passam anos de vida aqui devem
procurar voltar com pelo menos algumas respostas.
Não se trata de esconder a verdade e muito menos de dizer os fatos sem
um critério, não devemos tapar o sol com a peneira mas tão
pouco julgar o que não entendemos.
Então, aquele projeto de nos formarmos em Cuba técnica e
politicamente, conhecer a realidade do modelo político economico vigente
em Cuba, deve ser destrinchado um pouco mais.
Piso em território minado, assunto espinhoso, falar dos processos
revolucionários sempre o é, mas se tivermos a coragem de olhar
para o presente sem medo e com o apoio teórico necessário para
analisar o contexto histórico e as possíveis causas para os fatos
encontrados, poderemos com certeza construir um futuro com menos erros.
A realidade de Cuba em alguns pontos pode parecer já conhecida mas
está em proporções distintas e responde a causas
completamente diferente das existentes no Brasil, pelo que não é
a mesma coisa.
Devemos trazer nossa Cuba à tona. Quem sabe não é a Cuba
que queríamos que fosse, mas com certeza tão pouco é a
Cuba que a direita pinta. É simplesmente nossa Cuba, que todos queremos
que viva e não que simplesmente sobreviva, que siga adiante em seu
processo revolucionário.
Aos que tanto dizem sermos capazes de dar a vida por um mundo melhor e para
defender Cuba, talvez a atualidade não exija este tipo de
sacrifício mas exija um conhecimento maior de todos estes
fenomenos que ocorrem nesta ilha guerreira, nos exija a coragem de ver o que
não queremos ver, para valorizar o que veremos de bom e, principalmente,
aperfeiçoar nossa pequena Cuba e regar as sementes semeadas em nossos
corações em todos estes anos de Revolução Cubana.
[*]
Estudante do 5º ano da Escola Latino-Americana de
Ciências Médicas, Havana.
Este artigo encontra-se em
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