EUA: Comerciar com a guerra
e fazer guerra com o comércio
Tratando-se do imperialismo americano podemos afirmar que este comercia com a
guerra faz guerra com o comércio. E isto não é um simples
jogo de palavras e sim uma realidade que resulta das peculiaridades da nova
hegemonia mundial e do gravíssimo perigo que esta
administração dos EUA, com a sua carga de neoconservadorismo
neoliberal e seu apetite de domínio global, significa para o mundo.
O belicismo americano alimenta-se por diferentes vias e não só
é o resultado de uma ideologia de domínio global como
também repousa na peculiar posição dos EUA na economia
mundial frente aos demais países e na urgências internas em tirar
a economia americana da crise e ganhar a reeleição em 2004.
A guerra, seja a do Afeganistão, a do Iraque, ou qualquer outra que
esteja na "carteira de projectos" do governo Bush é precedida
e sustentada na despesa militar. Esta despesa militar é o eixo central
em torno do qual se ordena o funcionamento da hegemonia americana porque
é aqui que a superioridade desse país se torna clara e inclusive
esmagadora e porque além disso a despesa militar está a ser usada
com visão eleitoralista de curto prazo como estímulo para sair da
recessão. A despesa militar está a actuar como recurso supremo
para manter disciplinados a Europa e o Japão e para aplicar um
"keynesianismo militar" que estenda uma curazinha superficial sobre
uma infecção grave.
A nova hegemonia tem entre os seus ingredientes alguns que desejo enfatizar:
1) uma economia mundial na qual os EUA actuam como parasita ou predador que
absorve os capitais e a poupança de todos como um grande aspirador; 2)
uma economia americana que, depois de dois anos de séria recessão
económica, principia uma recuperação vacilante e parcial
induzida pela despesa militar e; 3) um grupo compacto de neoconservadores
fundamentalistas colocados no poder nos EUA e dotados de uma visão de
"direito natural" imperial que os auto-designaram para mudar governos
e atacar, atacar qualquer um e em qualquer "escuro rincão do
mundo". Estes três ingredientes conduzem todos à
justificação de uma altíssima despesas militar mediante
inimigos reais ou inventados e às guerra como o seu desenlace
lógico.
O primeiro ingrediente é a função parasitária da
economia dos EUA, a qual absorve capitais e poupanças do mundo inteiro
como um aspirador gigantesco que subtrai da Europa, do Japão, do
Terceiro Mundo, do mundo todo, enormes recursos financeiros que poderiam ser
utilizados para o desenvolvimento próprio e que vão financiar o
funcionamento de um sistema absurdo, no qual os EUA com superioridade manifesta
só em capacidade militar cobra um pesado tributo ao mundo para sustentar
o seu consumo desperdiçador. Em troca desse tributo os EUA assumem as
tarefas da "defesa".
É uma versão do comércio de troca em que a Europa e o
Japão entregam passividade aos Estados Unidos em troca de
"defesa".
O défice comercial dos EUA era de 35 mil milhões de
dólares em 1992 e tem estado a subir até alcançar 420 mil
milhões no ano passado. Isto demonstra que, apesar da sua agressiva
política comercial, a competitividade norte-americana cede frente aos
seus competidos inclusive no segmento de bens de alta tecnologia. A "nova
economia" foi o sector que primeiro recebeu o golpe da recessão e
onde a queda manifestou-se com mais intensidade.
Os EUA enfrentam uma competição renhida da parte da Europa e do
Japão no sector de alta tecnologia, enquanto cedem frente à
China, Coreia do Sul, Brasil e outros países em manufacturas de uso
corrente frente à América Latina e outras áreas do
Terceiro Mundo na agricultura.
O défice em conta corrente dos Estados Unidos superou os 500 mil
milhões de dólares em 2002, em comparação com uns
50 mil milhões em 1992. Este défice exige o ingresso de 1500
milhões de dólares diários procedentes do exterior e
alcançará este ano entre 5 e 6% do PIB.
Este país deixou de ser o grande investidor no estrangeiro para
converter-se no grande receptor de investimento estrangeiro. Recebe quase o
dobro do que exporta. O investimento estrangeiro nos Estados Unidos, que era
em 1995 de 8% do investimento no país, é agora de 30%.
A dívida externa deste país saltou de 268 mil milhões de
dólares nos primeiros anos dos 90 para mais de 2,5 mil milhões
(25% do PIB), quase o tamanho das economias da Alemanha e França somadas.
MERECEM PLANO DE AJUSTE DO FMI
Que perfeita colecção de desequilíbrio para merecer um
plano de ajuste do FMI, mas sabemos bem que os EUA é o grande
administrador dos planos de ajuste para aplicá-los aos outros!
O tributo cobrado em forma de absorção de capitais pelo
parasitismo da economia americana torna possível a despesas militar e
também a torna necessária e permanente, pois só com a
intimidação militar disfarçada como defesa pode ser
mantido o sistema tributário dos vassalos para com o império.
Por outro lado, o mercado financeiro americano e a grande
atracção e refúgio para o capital especulativo de todas as
procedências, e inclusive mais de 700 mil milhões de
dólares das reservas dos Bancos Centrais de todo o mundo encontram-se
colocadas nesse mercado financeiro que oferece financiamento barato a longo
prazo para os défices do país mais rico do mundo.
Este país mais rico pode manter a sua despesa militar e o seu consumismo
exacerbado absorvendo recursos financeiros que se tiram da
recuperação económica da Europa e do Japão e das
necessidades sempre insatisfeitas de investimento de capital do Terceiro Mundo.
Este pesado tributo cobrado pelos EUA ao mundo, incluindo naturalmente a Europa
e o Japão, por que se pode sustentar?
Pela influência perversa daquilo que Samir Amin chama "o
vírus liberal" que contamina as mentes e paralisa inclusive a
esquerda e pelos serviços de "defesa" frente a inimigo
"terrorista" difuso e irreal. Não é mais do que um
tributo cobrado na base de uma superioridade militar obrigada a manter-se para
intimidar. Esta "locomotiva" da economia mundial tem como motor as
transferências financeiras que, a modo de tributo, é arrancada
àqueles que se supõe sejam por ela arrastado no crescimento.
Como parte da mesma lógica, a guerra e a superioridade militar
aplicam-se para a corrida reintensificada pelo controle do petróleo, do
gás, da água, da biodiversidade. A guerra do Iraque não
será por acaso um reforço do controle sobre os europeus e os
japoneses que equivale a sentar-se sobre as mangueiras que abastecem de
petróleo a partir do Médio Oriente 80% do consumo europeu e 76%
do consumo japonês? A ALCA não será por acaso um projecto
para apoderar-se não só dos mercados como também do
petróleo, do gás, da água, da biodiversidade da
América Latina e do Caribe com base não só na
superioridade económica como numa rede de bases militares que tecem uma
teia sobre a região?
A despesa militar encontra outras justificações adicionais para a
lógica neoconservadora na própria recessão que nos
últimos anos se tem abatido simultaneamente sobre os EUA, a Europa e o
Japão, com a maior intensidade já registada no pós-guerra.
Depois de dois anos de recessão em que se evaporaram mais de 2,5
milhões de milhões de dólares pelo derrube da Bolsa, em
que a "nova economia" se desfez como bolha de sabão, em que o
desemprego superou os 6% e produziu-se uma cadeia de bancarrotas fraudulentas
de grandes e até então brilhantes e respeitáveis da
economia dos EUA parece iniciar-se uma vacilante e discutida
recuperação, sem que o desemprego diminua e sem que a
própria recuperação apareça clara em meio ao manejo
interessado e embusteiro da estatística.
Neste ambiente de economia em retrocesso, alto desemprego e
eleições presidenciais próximas em 2004, os falcões
norte-americanos ensaiaram novamente o velho procedimento de tentar travar a
queda da economia criando procura pela via da despesa militar acrescida.
Não é meu propósito entrar agora no velho e extenso debate
entre economistas acercado efeito da despesas militar sobre a boa ou má
saúde de uma economia. Ao longo de muitos anos de debates acumularam-se
fortes argumentos para demonstrar que, a longo prazo, o recurso de utilizar a
despesa militar como estímulo produz dano, estanca o crescimento, gera
inflação e défice fiscal.
Mas, o longo prazo, a estratégia de grande alcance, não é
o forte dos neoconservadores. O longo prazo é invocado só para
afirmar um futuro ilimitado de hegemonia norte-americana.
No curto prazo, a urgência de travar a recessão frente à
eleição presidencial, com uma despesa militar maciça capaz
de criar uma ilusão de recuperação, foi mais forte do que
tudo.
O orçamento militar para o ano 2003 é de 396 mil milhões,
ao que se somam 63 mil milhões adicionais solicitados por Bush ao
iniciar a guerra, num total de uns 460 mil milhões (4,1% do PIB). Esta
despesa é superior em 100 mil milhões à do ano 2002 e
representa 50% da despesa militar mundial.
Esta enorme despesa público que deve continuar a crescer com
orçamentos anuais acima dos 500 mil milhões de dólares
foi despejada sobre empresas privilegiadas, ajudando-as a evitar a
recessão. A General Electric actualmente vende mais motores de
aviação ao Pentágono do que os destinados a
utilização civil. Ao suavizar a tendência à baixa
dos lucros corporativos em alguns sectores chaves, a despesa militar evitou uma
queda abrupta e profunda dos títulos de valor na Bolsa e,
indirectamente, sustentou as compras dos norte-americanos.
O PREÇO DA RECUPERAÇÃO
É claro que o preço a pagar por esta reanimação de
curto prazo pode ser pavoroso. Um défice fiscal crescente alimentado
pela despesa militar e pela redução dos impostos, unido à
enorme dívida externa e interna, pode ser dificilmente
sustentável a partir da muito baixa taxa de juros actual. Mas o que
ocorrerá quando a necessidade de financiar o défice crescente
fizer aumentar a taxa de juros, puser em evidência a insustentabilidade
do défice comercial e colocar o imperativo de desvalorizar o
dólar com uma cadeia subsequente de efeitos turbulentos?
O recurso de utilizar a despesas militar para procurar uma saída
superficial para a recessão contribui para encobrir as causas mais
profundas que prejudicam a economia norte-americana como são as
deficiências do sistema de educação. A urgência
re-eleicionista une-se ao anterior para estimular a visão
neoconservadora da hegemonia e acelerar mais a despesa militar que por sua vez
exige inimigos para justificar-se e guerra para realizar-se.
O campeões da guerra continuam a manter para o Terceiro Mundo o seu
discurso neoliberal de equilíbrio fiscal, enquanto no seu país
actuam como fortes keynesianos aos quais não importa o
desequilíbrio porque sabem que as regras do jogo desigual são
criadas por eles para serem aplicadas aos outros.
Quanto a fazer guerra com o comércio, apontarei só alguns
elementos. O primeiro é que na maltratada balança comercial
norte-americana há um tipo de produto em que a vantagem comparativa
parece funcionar na perfeição e os Estados Unidos obtêm
excelentes rendimentos com as exportações. Trata-se das armas.
Entre 1995 e 2002 esse país exportou 114,732 milhões de
dólares em armas, muitas delas para alimentar rivalidades
estéreis entre países do Terceiro Mundo.
A inferioridade comercial não militar dos Estados explica a Lei de
Comércio Exterior desse país, com a sua agressividade e a sua
intenção de abrir pela força os mercados que não
pode alcançar pela acção do comércio livre do qual
se declara primeiro defensor.
O que é a pormenorizada lista de medidas anti-dumping, de barreiras
técnicas ao comércio, de subsídios abertos e encobertos,
senão armas para uma guerra comercial que se anuncia cada vez com maior
agressividade?
A actual despesa militar mundial, que se aproxima dos 900 mil milhões de
dólares por ano, equivale a 17 anos daquilo que o Terceiro Mundo recebe
agora como ajuda oficial ao desenvolvimento.
As Nações Unidas calcularam que bastariam 80 mil milhões
de dólares por ano durante uma década para acabar com a fome, a
pobreza, a falta de saúde, de educação e de
habitação no planeta. Essa modesta soma anual contrasta com os
200 - 250 mil milhões de dólares que o Terceiro Mundo entrega a
cada ano como serviço da sua dívida externa. É apenas a
sexta parte do orçamento militar dos Estados Unidos, ou 8% das despesas
mundiais em publicidade comercial ou apenas a metade da fortuna das quatro
pessoas mais ricas do planeta.
A despesas militar e a guerra que faz a administração Bush
é não apenas uma ameaça mortal como também uma
vergonha para os humanos.
Uma vergonha que temos de travar por razões de sobrevivência, de
desenvolvimento a atingir e de ética.
Março/2004
[*]
Director do Centro de Investigación de la Economía Mundial
(CIEM), de Havana.
O original encontra-se em
http://www.cubasocialista.cu/texto/cs0031.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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