Carta aberta sobre os acontecimentos de Cuba
por Michael Leibowitz
[*]
Caros amigos e companheiros:
Confesso a minha impaciência quando discuto
com aqueles que falam de graves violações dos direitos humanos e de
repressão em relação aos recentes julgamentos dos chamados dissidentes cubanos,
sem
terem lido senão um comunicado da Amnistia Internacional (se é que o leram).
Os casos mais significativos e repressão em
Cuba (onde resido desde princípios de Fevereiro, salvo uma curta estadia na
Venezuela) deram-se na repressão à delinquência comum.
Em primeiro lugar contra uma rede de traficantes de droga e também em casos de
aluguer ilegal de habitações, serviços ilegais de refeições obtidas nos
"paladares"
ou no mercado negro, e inclusive pessoas detidas por venderem amendoins na
rua sem licença para fazê-lo.
A repressão e as multas de circulação
também aumentaram significativamente.
Uma
vez que estas pessoas dependem em grande medida da obtenção de recursos
(por vezes
grandes) junto a actividades marginais, estas detenções tiveram um grande
impacto.
Minha opinião pessoal (que não é a oficial
cubana) é que esta é em grande medida a razão que explica o incremento de
casos de
sequestro (não só os mais conhecidos, também as 27 tentativas fracassadas),
e porque a
participação mais destacada nos mesmos é de pessoas com antecedentes
criminais.
Contudo, não é essa repressão que preocupa
aqueles que se interessam pela situação de jornalistas independentes,
editores,
sindicalistas, activistas de direitos humanos, etc, como se estas pessoas
tivessem sido
julgadas por essas actividades e não por receber dinheiro e instruções dos
Estados
Unidos.
Por favor, amigos, gastem uns minutos
e leiam o texto da lei Helms-Burton.
Gastem
algum tempo a ler, por exemplo, os artigos 205 e 206 da referida lei, nos
quais se
especifica a mudança de regime que se exige, o carácter que deveria ter o
"governo
de transição" e quem não pode dele fazer parte.
Ou os artigos 109 e 115 relativos aos meios financeiros que serão proporcionados
para a derrubada do actual governo, tanto abertamente através da USAID como
secretamente.
Deem uma olhadela também às declarações
oficiais dos EUA sobre o dinheiro que a USAID assinala para esta missão:
mais de 22 milhões de dólares.
E, finalmente, leiam algumas das provas que se
podem encontrar na Internet (cópias de notas manuscritas com instruções e
envio de
dinheiro destinado ao Projecto Varela, concebido, financiado e dirigido a
partir do
exterior) ou leiam, numa versão resumida, o texto da conferência de
imprensa do ministro
das Relações Exteriores, Felipe Pérez Roque (disponível em muitos sítios da
Internet,
como
http://www.ratb.org.uk
ou
http://www.rebelion.org/internacional/030412roque.pdf
).
Quando tiverem lido as declarações de
alguns do agentes secretos cubanos que recebiam até 450 dólares por mes
(mais de 20
vezes o salário médio cubano) e as provas que apresentam sobre artigos
escritos para sua
divulgação no estrangeiro sobre temas específicos sugeridos por funcionário
dos EUA,
compreenderão porque os chamados dissidentes são considerados em Cuba como
mercenários
ao serviço do Governo dos EUA para derrubar o governo cubano.
Naturalmente, é muito mais fácil horrorizar-nos
se os considerarmos jornalistas independentes perseguidos!
Ao contrário dos meus sentimentos para com
os defensores desses mercena´rios, respeito aquelas pessoas cuja crítica a
Cuba decorrer
das suas convicções sobre a inviolabilidade absoluta da vida humana
(pessoas que
assinaram manifestos de condenação ou que se manifestaram contra Cuba por
este motivo),
sempre que fizerem sua condenação da pena capital extensiva também aos seus
próprios
países e aos EUA (incluindo a atrós aplicação da tortura de pessoas,
inclusive
adolescentes, na parte ocupada de Cuba, ou seja, em Guantánamo).
Fizeram-se duras declarações acerca da pena
capital, afirmando que sua proibição deve ser considerada como um
imperativo moral e que
não pode ser justificada em caso algum.
Neste
sentido, as execuções recentes que se verificaram em Cuba devem ser
condenadas.
(É preciso distinguir esta posição daquela que
afirma que a utilização da pena capital foi um erro táctico ou estratégico,
que teve
por efeito a redução do apoio a Cuba neste momento crítico).
Considero inquestionável que os Estados
assassinos não podem fazer parte da sociedade que queremos construir.
Da minha perspectiva marxista, contudo, que
articula uma visão do mundo dialéctrica, considero que as partes não existem
independentemente do todo, suas propriedades são aquelas que adquirem nesse
todo
concreto, ou seja, da combinação específica com outras parte.
Exemplo:
o
dinheiro tem qualidades diferentes quando é um meio de troca entre
agricultores e
artesãos independentes e quando é parte do intercâmbio entre capitalistas.
Desta perspectiva, devemos sempre considerar o
contexto e a combinação.
Se estamos a aceitar o princípio de que em
determinadas circunstâncias extremas, ou seja, num contexto particular, a
pena capital
pode ser aceitável, então o nosso debate deixa de ser uma discussão de
categorias
absolutas e passa a ser um debate em torno da questão se sim ou não as
circunstâncias
de Cuba justificam de algum modo a pena capital.
Ou
seja, como George Bernard Shaw afirmou em outro contexto, uma vez
estabelecido o
princípio, passemos a regatear o preço a pagar.
Contudo,
é importante avaliar o contexto e não aceitar juízos mal fundamentados
sobre a
repressão em Cuba.
Ainda que no passado haja sustentado a
necessidade de separar a questão da pena capital dos julgamentos por
espionagem, agora
penso que ambos os assuntos devem ser compreendidos em conjunto, ou seja,
que as acções
do Governo cubano em ambos os casos devem ser localizadas num contexto
particular.
Há duas perguntas que devemos fazer-nos:
a primeira, por que após vários anos de
moratória da pena capital (que fez com que os terroristas que colocaram
bombas nos
hotéis, provocando com isso um morte, continuem vivos no cárcere apesar de
terem sido condenados à morte), o Governo aplicou a pena de morte aos
sequestradores
de um pequeno transbordador.
A segunda, tendo em conta o
evidente isolamento e pouca efectividade dos "dissidentes" dentro
de Cuba, por
que o Governo cubano optou por tornar públicas as identidades de doze
agentes inflitrados
que ocupavam postos tão importantes como a direcção do Partido dos Direitos
Humanos, o
decano dos "informadores independentes cubanos" (que era da
confiança da
Secção de Interesses dos EUA, ao ponto de terem um passe permanente de
acesso à mesma),
e a secretaria de uma das dissidentes mais conhecidas, uma pessoa da
confiança total
desta, até ao ponto de conhecer a
password
do seu correio electrónico.
Ou seja, por que lançar neste momento borda
afora anos de trabalho de inteligência?
Em
parte, a resposta óbvia é a escalada da campanha dos EUA para derrubar o
Governo cubano,
que começou com a tomada de posse de James Cason como chefe da Seção de
Interesses dos
EUA em Havana.
Suas actividades, que incluem
a criação de um partido político cubano, estão devidamente documentadas.
Acrescente-se a isto a acolhida que os EUA
dispensaram recentemente aos sequestradores de aviões cubanos:
ao invés de devolvê-los a Cuba e deixar assim
bem claro que o sequestro de meios de transporte não serão recompensados,
gozam de
liberdade sob fiança em Miami, onde passeiam-se com outros terroristas
cubanos.
Acrescente-se também que, apesar de o acordo
conceder um tecto anual de 20 mil autorizações e imigração para os EUA,
assinado por
ambas as partes, desde Outubro a Seção de Interesses dos EUA concedeu
apenas 505 vistos.
Acrescentem-se ainda as recentes declarações de
funcionários dos EUA no sentido de que considerariam um êxodo maciço ilegal
a partir de
Cuba como uma ameaça à sua segurança nacional, as ameaças de que Cuba possa
ter o
destino do Iraque, e o comentário do secretário da Defesa, Donald Rumsfeld,
de que não
tem intenção de atacar Cuba... por enquanto.
Tendo
em conta duto isso, é compreensível que Cuba tenha entendido que os EUA
estavam tentando
provocar um incidente que justificasse um ataque.
Mas ainda há mais do que as provocações
directas e os ataques a Cuba.
O contexto
essencial para compreender as acções de Cuba é a guerra dos EUA contra o
Iraque, tanto
a execução do ataque como a impotência para fazer-lhe frente.
A decisão dos EUA de execubatar seu plano apesar
das manifestações históricas por todo o mundo contra a guerra revela que,
independentemente dos efeitos a longo prazo que a mobilização possa ter, no
momento
actual as manifestações não podem demover um país agressor decidido a
atacar.
Ou seja, sempre o ataque seja uma questão de
"assuntos correntes" e não implique custos elevados para o
agressor, nenhum
país se encontra ao abrigo do perigo.
Cuba está exposta, e é de pensar que o
Governo da Venezuela esteja a chegar a conclusões parecidas tendo em vista
o desprezo dos
EUA pelas Nações Unidas e pela opinião pública mundial.
Por esta razão os cubanos falam da existência de um nazi-fascismo que se
encontra
à espreita no mundo.
Considero que Cuba
optou por uma versão própria da operação "comoção e pavor"
(shock and awe)
ao revelar identidade dos seus agentes infiltrados a fim de demonstrar aos EUA
a
capacidade dos serviços de inteligência cubanos.
E
caso alguém não tenha entendido a mensagem, o ministro Pérez Roque
enfatizou numa
conferência de imprensa o seguinte:
"Que
não pensem que somos bobos, revelámos unicamente uma parte do que sabemos:
e (...) nosso
povo aprendeu a defender-se".
Além
disso, Cuba tomou a dramática e dolorosa decisão de executar os
sequestradores.
Como disse o próprio Fidel aos participantes
estrangeiros numa conferência sobre Marx, e a seguir a um correspondente
mexicano, numa
reunião noturna não programada, "a questão colocada era entre optar
por essas
mortes ou por muitas outras que teriam podido ocorrer com plano
estadunidense de provocar
uma crise migratória, que teria podido servir de pretexto para um bloqueio
naval,
preâmbulo inevitável da guerra".
"Não
há dúvida de que isto teve um preço, pois um número importante de amigos,
incluindo
alguns dos nossos mais próximos, opõem-se à pena de morte por motivos
religiosos,
humanitários ou filosóficos", afirmou Fidel Castro.
Mas, insistiu, "não tínhamos o direito de duvidar e não duvidaremos".
Com isto enviava uma mensagem tanto àqueles que
em Cuba pensam em sequestrar aviões contando que serão postos em liberdade
sob fiança
nos EUA como àqueles que nos EUA estão a pensar numa continuação em Cuba da
guerra
contra o Iraque.
A mensagem tinha como
signicado que Cuba estava preparada para fazer o que fosse necessário para
defender-se.
Considero que os amigos de Cuba que criticam
este país neste momento deveriam explicar o que fariam nas circunstâncias
actuais, mas
não tendo como referência uma sociedade socialista ideal e sim que o que
fariam pondo-se
no lugar de Cuba nesta situação real.
E se
chegassem a conclusões deferentes acerca do que fez Cuba, deveriam então
explicar porque
pensam que conhecem mais correctamente do que os serviços de inteligência
cubanos as
ameaças reais que Cuba enfrenta.
E deveriam
explicar também o que é que estão decididos a fazer para ajudar Cuba a
defender-se.
Solidariamente,
Michael Leibowitz
__________
[*]
Economics Department, Simon Fraser University, Burnaby, B.C., Canada
O original encontra-se em
http://www.rebelion.org/internacional/030527leibowitz.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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