por Mike Whitney
O Bank of America está a comprar a Merrill Lynch por US$45 mil
milhões, o AIG precisa de uma salvação de
emergência de US$40 mil milhões do Tio Sam a fim de continuar a
flutuar, e a Lehman Bros está acabada. Uau! O mundo financeiro foi
virado de pernas para o ar da noite para o dia. Pela frente está um dia
duro no pregão das bolsas.
As notícias do massacre de domingo na Wall Street puseram as bolsas
estrangeiras num desfalecimento profundo. As acções
ruíram na Ásia e caíram mais de 4 por cento na Europa. O
dólar está constantemente a perder terreno para o euro e o ouro
está em ascensão. A questão não é se o
índice Dow cairá, mas "quanto" e que efeito terá
isso sobre instituições financeiras cada vez mais frágeis.
A Lehman Brothers, o cavalo de batalha da Wall Street com 158 anos de idade,
anunciou domingo que solicitará a bancarrota depois de haverem
fracassado os planos de resgate por não ter encontrado um comprador.
Temores de contágio do crédito e de uma recessão global
voltaram à superfície e tornaram-se mais generalizados. O
fracasso do Lehman sugere que os outros gigantes da Wall Street estarão
logo a seguir o mesmo caminho rumo à extinção. O
economista Nouriel Roubini coloca isto assim:
"Todos os correctores independentes estão em vias de desaparecer.
Em Março foi o Bear Stearns. Esta noite foi o Lehman e a Merril Lynch.
O Morgan Stanley e o Goldman Sachs teriam de encontrar um comprador
amanhã. O modelo de negócio dos correctores está
fundamentalmente defeituoso. Eles não podem sobreviver".
Roubini pode estar certo. A coisa divertida do capitalismo é que
você precisa de capital para jogar. Quando as arcas do banco
estão cheias de nada excepto mortgage-backed securities (MBS) sem valor
e títulos lixo super-valorizados, tudo vai para a falência
rapidamente. Este parece ser o caso do Lehman Bros., o centenário
cavalo de batalha da Wall Street que se juntou à longa procissão
de estabelecimentos bancários submersos agora empurrados para o abismo.
O Lehman teve um grande êxito durante os tempos de boom quando tudo o que
era preciso para fazer montanhas de dinheiro era uma inundação
previsível de crédito com juros baixos do Fed e uma agência
de classificações acomodatícia que carimbasse toda a
imunda piscina de hipotecas titularizadas com um grande Triplo A antes de
apregoá-la a algum investidor crédulo em Shangai ou Heidelberg.
Os trabalhos do Lehman não são muito diferentes dos de quaisquer
outros na fraternidade bancária. O problema é que todo o sistema
está sub-capitalizado e super-alavancado. Quando o Bear Stearns foi
abaixo no ano passado, ele estava alavancado num rácio de 26 para 2.
Quando o Hedgie Carlyle Capital explodiu, estava alavancado a 32 para 1. E
quando a Fannie e o Freddie foram finalmente tomados pelo Tesouro dos EUA, os
dos mamutes estavam alavancados a 80 para 1, o que significa dizer que eles
tinham um dólar de capital para cada US$80 que haviam tomado emprestado.
Eles teriam continuado pelo mesmo caminho errático comprar
hipotecas tóxicas e MBSs de pessoas que não tinham possibilidade
de alguma vez reembolsar os seus empréstimos se não
tivessem sido tomados no "conservatorship" federal, o que é um
meio imaginativo de dizer que estavam insolventes. O secretário do
Tesouro Henry Paulson insensatamente conectou uma mangueira de dinheiro com
diâmetro de 15 cm das entranhas do Tesouro às agências da
Fannie de modo a que os dois gigantes pudessem continuar a cambalear a expensas
do contribuinte sem se importar com o facto de que o modelo de negócio
da titularização fracassou completamente e os investidores
estrangeiros incluindo a China já começaram a
diminuir as suas compras de dívida GSE. Isto não é
assunto para risos. Os US$700 mil milhões do défice de
transacções correntes dos EUA são financiados
através de investidores estrangeiros que estão a ficar cada vez
mais aterrorizados acerca do afundamento da moeda num sistema que, o tempo
todo, parece mais um pôquer de casino. Aqui está um recorte do
China Daily de sexta-feira:
"A China, que possui um quinto das suas reservas de divisas em
dívida da Fannie Mae e do Freddie Mac, podem cortar a
porção mantida em dólares dos EUA, segundo o China
International Capital Corp (CICC), um dos maiores bancos de investimento do
país.
"A crise fez os responsáveis chineses perceberem que é uma
má ideia colocarem todos os seus ovos num cabaz, escreveu o economista
chefe do CICC, Ha Jiming. 'Isto provavelmente conduzirá a maior
diversificação nos investimentos em reservas de divisas
estrangeiras'. A China possuía US$447,5 mil milhões de
títulos de agências dos EUA em Junho de 2008, segundo
cálculos do CICC utilizando dados divulgados pelo Tesouro dos EUA. Ela
provavelmente reduzirá a porção das reservas em activos
dolarizados dos actuais 60 por cento comprando mais activos não
dolarizados, disse ele" (China Daily)
Naturalmente, os investidores e bancos centrais estrangeiros
restringirão suas compras de títulos e bilhetes do Tesouro dos
EUA até que haja alguma indicação de que os mercados
estado-unidenses estabilizaram e serão capazes de aguentar os ferozes
ventos adversos do maior crash habitacional da história, um mercado de
títulos corporativos congelado, um sistema bancário paralisado, e
uma procura do consumidor em declínio constante. Mas os americanos
ainda parecem despreocupadamente inconscientes do que tudo isto significa para
o futuro do país. Ao invés disso eles saboreiam cada nova
bisbilhotice acerca da Bíblia pulsante, a governadora caçadora de
ursos do Alasca que quer trazer o país de volta ao far west ao
invés de aprender acerca da tempestade de fogo que assola os mercados
financeiros.
Quando as compras líquidas estrangeiros de activos financeiros dos EUA
começam a arrefecer, o jogo está acabado. O Fed será
forçado a elevar taxas de juro para atrair capital estrangeiro, as quais
colocarão uma pressão declinante sobre a economia e acelerarão o crash
habitacional. A decisão de Paulson de proporcionar capital ilimitado
à Fannie e ao Freddie amontoará cada vez mais dívida em
cima do dólar gaguejante e dos US Treasuries. É o equivalente a
amarrar a moeda verde a uma bigorna e lançá-la borda fora. As
tentativas de Paulson de protelar uma crise bancária sistémica
assegura que o governo federal passará por uma crise de financiamento
sem precedentes em algum momento no futuro próximo. Haverá
impostos mais elevados para a espancada classe média e taxas de juros
mais altas para os negócios e os consumidores. Isto disparará
uma desaceleração económica prolongada e um crescimento
mais fraco. O crédito ficará mais restrito, bancos
incumprirão, o desemprego aumentará e o PIB murchará. Um
loop de retroalimentação negativa desenvolver-se-á a
partir do vacilante sistema financeiro para a economia real; um
círculo viciosa acabando em despedimentos maciços,
enfraquecimento da procura, queda dos preços das acções, e
confiança do consumidor em retrocesso. Bem vindo à Sopa da
cozinha EUA.
Actualmente, Paulson e o chefe do Fed de Nova York, Timothy Geithner,
estão a pressionar as elites banqueiras da Wall Street para se
organizarem a fim de pagar dinheiro suficiente para a compra dos activos
imobiliários desvalorizados do Lehman. A proposta do Fed é
semelhante ao resgate de Greenspan do Long-Term Management LP (LTCM) que
enervou os mercados financeiros no fim da década de 1990. Paulson
assinalou que NÃO haverá salvamento semelhante ao Bear Stearns
quando o Fed comprou US$29 mil milhões em activos relacionados com
hipotecas. O Fed está espremido, tendo já comprometido a metade
do seu balanço aproximadamente US$500 mil milhões
em retomadas de posse através dos seus "leilões", os
quais recentemente dispararam para as alturas recordes de US$19 mil
milhões por semana durante as últimas três semanas. A
crise está a aprofundar-se dia a dia. Analogamente, o Tesouro atrelou
seu vagão à Fannie e ao Freddie o que expande a Dívida
Nacional em mais US$5,2 milhões de milhões
(trillion)
e solapa gravemente a "plena confiança e o crédito"
dos EUA neste processo. Ter em mente que a maior fonte do poder americano
é o seu acesso a capital barato através do contribuinte. Paulson
agora colocou esta fonte de receita em risco ao nacionalizar a indústria
habitacional e sobrecarregar o contribuinte com (potencialmente)
astronómicas obrigações futuras, embora ele saiba
perfeitamente que o mercado poderia afundar mais 15 ou 20 por cento antes do
fim de 2010. A imprudência de Paulson condenou o país a anos de
grandes esforços.
Na tarde de domingo, nenhum acordo chegou a ser efectuado para comprar o Lehman
Bros. e parecia que o banco estava destinado à bancarrota. A Wall
Street preparou-se para o pior. Nouriel Roubini emitiu uma
avaliação particularmente implacável no seu post mais
recente no blog Global EconoMonitor:
"Agora é claro que estamos outra vez como estávamos
em meados de Março no momento do colapso do Bear Stearns a uma
curtíssima distância de uma corrida generalizada à maior
parte do sistema bancário sombra, especialmente os outros grandes
correctores independentes (Lehman, Merrill Lynch, Morgan Stanley, Goldman
Sachs). Se o Lehman não encontrar um comprador no fim de semana e as
outras contrapartes do Lehman retirarem as suas linhas de crédito na
segunda-feira, você terá não só um colapso do Lehman
como também o princípio de uma corrida aos outros correctores
independentes... Esta corrida então conduziria a um colapso
sistémico maciço do sistema financeiro. Esta é a
razão porque na sexta-feira, e outra vez hoje, o Fed convocou os
cabeças de todas as principais firmas da Wall Street (Lehman, Merrill
Lynch, Morgan Stanley, Goldman Sachs) a fim de convencê-los a não
puxar a tomada do Lehman e manter a exposição ao risco junto a
este corrector na agonia".
Os bancos gigantes de investimento estão inescapavelmente armadilhados
numa rede de contratos derivativos complexos e não regulados os quais
sob certas condições poderiam ameaçar todo
arranha-céu financeiro em Manhattan.
Uma porção apreciável da dívida do Lehman a longo
prazo, de US$128 mil milhões, provavelmente será despejada num
"banco mau" o qual ficará com os seus tóxicos activos
apoiados por hipotecas e será financiado pelo Tesouro ou os demais
bancos da Wall Street. Os bons activos podem então ser separados e
vendidos tanto para o Bank of America como para o Barclays, os dois compradores
em perspectiva. Desta forma, segundo a Forbes, "o banco mau seria mantido
a flutuar enquanto os seus activos podiam ser despachados ao longo de um
período de tempo de um modo que não abalasse o sistema financeiro
mais do que já está".
Alguma variação da "solução Forbes"
provavelmente será executada, mas, sejamos claros, isto realmente
não é solução. É apenas um meio de comprar
tempo rolando a dívida para esvaziar as feias consequências de
contabilizar perdas maciças. Por outras palavras, é mais barato
manter capital a queimar para suportar activos moribundos do que assumir a
perda e efectuar um esforço genuíno para reestruturar o sistema
disfuncional. Eis aqui como Paul Volcker, o antigo chefe do Fed, resumiu isto
há duas semanas:
"Este brilhante novo sistema, esta prática nos Estados Unidos, esta
prática no Reino Unidos e alhures, arruinou-se. O crescimento da
economia nesta década será o mais lento de qualquer década
desde a Grande Depressão, exactamente em meio a todas esta
inovação financeira. O actual sistema financeiro é
disfuncional. Isto é uma forma polida de dizer que ele fracassou".
A titularização fracassou. Os cortes nas taxas dos fundos do Fed
fracassaram. Os dispositivos de leilão TAF, PDCF e TSLF
fracassaram todos. As operações fora do balanço, a
inflação de activos encarecendo a dívida, a contabilidade
estilo Enron, os SIVs, os CP, MBS, CDOs, também fracassaram. As
subprimes, as piggybacks, a opção-ARMs, as Alt-As fracassaram
todas. As finanças estruturadas fracassaram. O sistema não
funcionou, não pode funcionar. Está construído sobre a
suposição equivocada de que o capitalismo pode prosperar sem
capital; de que um dólar pode ser infinitamente ampliado por complexos
instrumentos de dívida e mega-alavancamentos para gerar riqueza real e
manter as rodas das finanças e da indústria a andar. Isto
não pode ser feito. O sistema está submerso. O economista e
escritor Henry Liu coloca isto assim:
"Mas esta abordagem é preferida por aqueles que têm
autoridade, aprisionados na armadilha do auto-engano acerca de o capitalismo
com mercado não regulamentado ser ainda fundamentalmente sadio. Eles
tentam acalmar os mercados asseverando que a confusão actual é
meramente um gargalo menor de liquidez que pode ser manuseado pelo banco
central com a libertação de mais liquidez contra o pleno valor
facial do colateral com valor em declínio. Não há sinais
de qualquer grande estratégia ou plano coerente para salvar o sistema
canceroso da auto-destruição estrutural".
Ao invés disso, a pilhagem de um punhado de "inovadores" da
Wall Street bêbados de arrogância e o seu próprio
sentido bizarro de direito empurrou os mercados financeiros para a beira
da catástrofe e levou a economia "real" mais vasta rumo a uma
penosa retracção. Agora todos pagarão pela cobiça
de uns poucos.
Então, o que se segue?
Um artigo no
Financial Times
fala francamente, mas responsáveis do governo sem dúvida
negarão isto até que a eleição presidencial de
Novembro esteja ultrapassada.
Do
Financial Times:
"O debate sobre se é necessário um veículo estilo RTC
(Resolution Trust Corporation) talvez apenas para circunscrever activos
hipotecários em perturbação também ganhou
movimento entre banqueiros centrais no simpósio Jackson Hole patrocinado
em Agosto pelo Federal Reserve Bank de Kansas City...
"O problema de que um veículo RTC poderia ajudar a resolver
é que há muito poucos compradores para activos
hipotecários em perturbação, e poucos investidores agora
querem injectar capital fresco nos balanços estilhaçados dos
bancos que os possuem. Em resultado disso, bancos tais como o Lehman e o
Washington Mutual têm lutado para vender as suas ácidas carteiras
de acções, e para arranjar negócios a fim de obter capital
fresco. As tomadas da Fannie e do Freddie, as quais virtualmente liquidaram os
possuidores de acções preferenciais, também tornaram o
acesso dos bancos ao mercado de capital preferencial cada vez mais
difícil. Através de uma nova RTC, o governo poderia proporcionar
apoio financeiro se necessário em troca de uma
participação em lucros potencial quando os activos fossem
liquidados".
O que os Feds se recusam a admitir é que já há um plano
para tornar o governo um parceiro "accionista" activo de bancos
comerciais em vias de fracasso. (Não há maneira de o FDIC poder
pagar por todas as perdas projectadas de qualquer forma) Isto dará ao
Tesouro dos EUA a autoridade para proporcionar a bancos insolventes bastante
capital para saírem dessa trapalhada de alguma forma enquanto os seus
activos debilitados são liquidados através do RTC, uma morgue
para o agónico lixo apoiado por hipotecas.
Como isto afectará o dólar já anémico é algo
que ninguém adivinha. Mas não será bonito.
15/Setembro/2008
[*]
fergie@msn.com
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/whitney09152008.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.