A metástase do sistema financeiro
Incumprimento maciço de dívidas: Banco de investimentos gigante da Wall Street internado nos "cuidados intensivos" pelo chefe do Fed em pânico

por Mike Whitney

Na sexta-feira [14 de Março] o Bear Stearns explodiu [NR] . Foi a pior notícia possível no pior momento possível. Um dia antes, o politicamente conectado Carlyle Capital hedge fund não honrou US$16,6 mil milhões da sua dívida. O grupo Carlyle jactava-se de uma carteira com US$21,7 mil milhões de títulos apoiados por hipotecas residenciais com classificação AAA, mas foi incapaz de cumprir uma opção (margin call) de apenas US$400 milhões. (Para onde foram os US$21,7 mil milhões?) A notícia sobre o Bear foi a última gota. O mercado de acções começou a cambalear imediatamente, caindo 300 pontos em menos de uma hora. Então, milagrosamente, a maré mudou e o mercado começou a retomar. Se houvesse algum momento para a Equipe de Protecção de Mergulho (Plunge Protection Team) de Paulson vir em socorro, era este. Durante semanas os mercados foram assolados com más notícias. As vendas a retalho estão baixas, o desemprego é alto, a confiança do consumidor está na fossa, a inflação está a crescer, o dólar está nas cordas, e o esmagamento do crédito espalhou-se até mesmo aos cantos mais seguros do mercado. A enfrentar ferozes ventos contrários, os mandarins de Washington e os pesos pesados financeiros tiveram de decidir entre cruzar os braços e deixar que um pequeno banco de investimentos derrubasse todas as acções do mercado numa tarde ou então comprar furtivamente uns poucos futuros e viver para combater mais um dia? Escolha difícil, não é?

Nunca saberemos isso com certeza, mas foi o que provavelmente aconteceu.

Nunca saberemos também se a intenção real de Bernanke ao estabelecer o seu novo instrumento de leilão de US$200 mil milhões era proporcionar aos bancos chicoteados por falta de cash um lugar onde pudessem descarregar o lixo apoiado por hipotecas que a Carlyle despejara sobre o mercado quando foi à falência. Aquilo funcionou bem, não é? Agora os bancos podem comerciar estes títulos MBS sem valor com o Fed em troca de Títulos do Tesouro dos EUA quase ao seu pleno valor. Que grande negócio! Este deve ter sido o plano desde o princípio.

A salvação de emergência do Bear Stearns ateou uma tempestade de controvérsias acerca do azar moral e de se o Fed deveria estar a actuar prodigalizando as suas dádivas entre bancos de investimento. Mas o Fed não tinha escolha. Não se trata de um banco a desmoronar devido às suas más apostas. Todo o sistema financeiro está a balouçar e um fracasso no Bear teria trazido uma onda de ruína ao mercado accionário e remetido as acções por todo o mundo para uma violenta espiral da morte.. O New York Times resumiu assim na edição de domingo:

"Se o Fed não houvesse actuado esta manhã e o Bear não cumprisse as suas obrigações, então isto poderia ter disparado um pânico generalizado e potencialmente um colapso do sistema financeiro".

Bingo.

Então, o que torna o Bear tão especial? Como é que um dos mais pequenos bancos de investimento pode colocar uma tal ameaça a todo o sistema?

Esta é a questão que será tratada nas próximas duas semanas e as pessoas não vão gostar da resposta. Durante a última década ou mais os mercados foram reconfigurados de acordo com um novo modelo de "finanças estruturadas" o qual transformou as interacções entre instituições e investidores. O foco tem sido maximizar o lucro através da criação de uma vasta galáxia de instrumentos de dívida exóticos que aumentam o risco global e a volatilidade em condições de mercado em desmoramento. O comércio de derivativos que, segundo o Bank of International Settlements , agora excede os US$500 milhões de milhões (trillions), costurou juntas as várias instituições de empréstimos e investimentos de um modo em que um fracasso pode por os dominós derivativos em movimento e deitar abaixo toda a armação financeira. Eis porque o Fed está envolvido e (acredito) abordou o Congresso numa sessão a portas fechadas (a qual supõe-se ter sido acerca da legislação FISA) para informar os legisladores acerca da crescente possibilidade de um grande colapso económico se as condições nos mercados de crédito não se estabilizassem rapidamente.

As perturbações no Bear e o perigo que elas apresentam para o sistema global foram explicitadas num artigo do editor de Counterpunch , Alexander Cockburn, em Novembro de 2006: "Lame Duck: The Downside of Capitalism":

"Num documento de informação sob o casto título de 'Private Equity: A discussion of Risk and Regulatory Engagement' , o FSA toca o alarme.

"Alavancagem excessiva. A quantidade de crédito que os prestamistas estão desejosos de conceder a transacções privadas de acções aumentou substancialmente. Estes empréstimos podem, em certas circunstâncias, não ser inteiramente prudentes. Dados os níveis actuais de alavancagem e desenvolvimentos recentes no ciclo económico/creditício, o incumprimento de uma grande companhia privada apoiada por acções ou de um conjunto de companhias mais pequenas apoiadas por acções parece inevitável. Isto tem implicações negativas para prestamistas, compradores da dívidas, ordem dos mercados e, concebivelmente, em circunstâncias extremas, estabilidade financeira e elementos da economia do Reino Unido".

Tradução: Isto está prestes a explodir!

"A duração e o impacto potencial de qualquer evento de crédito pode ser exacerbado por questões operacionais que tornam difícil identificar que finalmente possui o risco económico associado a uma compra alavancada (leveraged buy out) e como estes proprietários reagirão numa crise. Estas questões operacionais decorrem do uso extensivo de práticas de transferência de risco opacas, complexas e consumidoras de tempo tais como transferência de direitos (assignment) e sub-participação, juntamente com a utilização acrescida de derivativos de crédito. Estes derivativos de crédito não podem ser confirmado de um modo atempado e a quantia comerciada pode exceder substancialmente a quantia dos activos subjacentes" (citação)

Tradução: "O sistema de crédito do mundo é um vasto caixote de lixo de transacções não rastreáveis de valor brutalmente inflacionado".

O problema é que a supervisão e estabilidade do sistema de crédito mundial já não está mais ao alcance de instituições internacionais familiares como o Fundo Monetário Internacional ou o Bank of International Settlements. Negociantes privados estão agora instalados em todos os nós estratégicos, a jogar com somas estratosféricas em pirâmides especulativas como o mercado de derivativos de crédito o qual era quase não existente em 2001, mas que atingiu os US$17,2 milhões de milhões no fim de 2005. Warren Buffett, o mais famoso investidor da América, denominou os derivativos de crédito "armas financeiras de destruição em massa". (Alexander Cockburn, "Lame Duck: The Downside of Capitalism" counterpunch.org)

O artigo de Cockburn antecipa os problemas actuais do Bear e mostra porque o Fed não pode deixá-lo apodrecer e infeccionar todo o sistema. Todos os bancos de investimento e correctores fazem negócios uns com os outros, tomando partido em transacções como contrapartes. Se um jogador afunda isto aumenta a probabilidade de mais falências. Assim, o problema tem de ser contido.

O volume de contrato de derivativos, cujas maiores transacções não são comerciadas publicamente, explodiu nos últimos poucos anos. Estas transacções não regulamentadas, que Bill Gross da Pimco denomina sistema bancário sombra, assumiram o centro do cenário no momento em que as condições do mercado continuam a deteriorar-se e o ciclo baixista de desalavancamento começa a acelerar-se. O massacre em curso no imobiliário deixou o mercado de investimento estruturado em estado de congelamento, o que significa que os blocos das fundações (isto é, títulos apoiados por hipotecas) sobre os quais repousa toda esta alavancagem excessiva, está a começar a desmoronar. É a confusão geral.

O comércio de derivativos, particularmente em Credit Default Swaps (CDSs), frequentemente excede o valor dos activos subjacentes muitas vezes mais. Os CDSs são instrumentos financeiros baseados sobre empréstimos e títulos que especulam sobre a capacidade de uma companhia de reeembolsar dívida (um tipo de seguro não regulamentado). O mercado de CDSs é de aproximadamente US$45 milhões de milhões, apesar de o valor agregado do mercado hipotecário americano ser apenas de US$11 milhões de milhões, quatro vezes menor. Isso é um bocado de alavancagem e pode ter um efeito bola de neve quando as transacções de CDSs começarem a desatar-se.

Na verdade, o maior risco para o sistema financeiro é o risco de contraparte, a possibilidade de que algum grande banco de investimento, como o Bear, vá abaixo e succione o resto do mercado consigo devido à magnitude das suas perdas. No ano passado o Bear era a 12ª maior contraparte para transacções de CDSs segundo as classificações Fitch. Se elas desaparecesem subitamente, os efeitos para o resto do sistema seriam catastróficos.

Bernanke, o presidente de Fed, tinha assento na direcção do Federal Open Market Committee (FOMC) quando os gurus do investimento e os vivaços da corretagem configuravam os mercados de um modo que beneficiava as suas próprias fortunas pessoais enquanto aumentava os riscos de fracasso sistémico. Os SIV , os conduits , os derivativos opacos, as operações fora do balanço, as lagoas negras, a alavancagem maciça e a precipitada expansão do crédito; tudo isso emergiu durante o seu mandato (e de Greenspan). O Federal Reserve é amplamente responsável pelo incêndio florestal que actualmente tenta extinguir.

Agora, mais uma vez, Bernanke está a actuar para além do seu mandato e a recorrer a uma lei que não tem sido utilizada desde a década de 1960 a fim de que o Fed possa tornar-se o credor de uma instituição que tentou enriquecer-se através de apostas especulativas selvagens com investimentos tóxicos dúbios e que agora são absolutamente sem valor. Se isto não é uma razão boa e suficiente para abolir o Federal Reserve, então o que será?

Os mercados mais transparentes e lucrativos do mundo foram transformados num reles carnaval administrado por vendedores ambulantes, trapaceiros e artistas da fraude. O salvamento do Bear é mais um exemplo gritante de um sistema a que falta toda a credibilidade e está a auto-destruir-se rapidamente.

15/Março/2008

[NR]  Na 2ª feira, 17, por imposição do Fed, o Bear foi vendido a preço de saldo a outro banco. O Fed teve de financiar o J.P.Morgan a fim de convencê-lo a aceitar tal compra. Ver Jornal de Negócios .

O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=8346


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
17/Mar/08