por Nouriel Roubini
[*]
"Os pânicos não destroem capital; eles simplesmente revelam
a extensão em que ele foi destruído anteriormente pelo seu
desencaminhamento para obras irremediavelmente improdutivas".
- John Stuart Mill
Fui um banqueiro central e um regulador de mercado. Agora descubro-me a
questionar se a minha carreira anterior, em grande parte dedicada à
liberalização e à desregulamentação dos
mercados bancários e financeiros, foi um equívoco. Em suma,
pergunto-me se contribuí juntamente com incontáveis outros
na regulamentação, banca, academia e política para
uma grande má aplicação de capitais,
distorção de mercados e deterioração da economia
real. Nós permitimos que os bancos desencaminhassem o capital para
"obras irremediavelmente improdutivas", promovendo seus
esforços com lassitude monetária, tolerância regulamentar e
incentivos fiscais do governo que marginalizaram o investimento em
"trabalhos produtivos". Permitimos que os mercados se tornassem
tão fragmentados com comercialização fora da bolsa e com
derivativos que eles já não desempenham as funções
economicamente críticas de distribuição de
capital/recursos e de revelação de preços de forma
eficiente ou transparente. Os resultados foram bolhas em série
frenesim especulativo financiado pela dívida no imobiliário, nos
investimentos e nas
commodities.
Desde Agosto de 2007 assistimos a uma constante contracção dos
mercados de crédito, principiando pelos títulos subprime apoiados
por hipotecas, propagando-se aos papéis comerciais e a seguir para o
crédito inter-bancário e depois para os mercados de
títulos e ainda para os títulos em geral. Se bem que o problema
habitualmente seja exprimido em termos de confiança, uma
conclusão mais honesta é de que o crédito concedido no
passado foi utilizado improdutivamente e portanto não será
reembolsado de acordo com os termos originais. Por outras palavras, o capital
foi desencaminhado para trabalhos improdutivos.
O esmagamento do crédito hoje não é a
destruição do capital mas o reconhecimento de que o capital fora
destruído pela sua má aplicação nos anos da
exuberância irracional. Se assim é, então estamos a entrar
numa espiral de deflação da dívida que actuará
persistentemente durante os próximos anos. Para entender como isto
funciona, voltemo-nos para o
professor Irving Fisher, de Yale
.
Tal como eu, o professor Fisher viveu para por em causa suas anteriores
convicções e objectivos, aprendendo pela dura experiência
as lições da instabilidade financeira.
O professor Fisher foi um dos primeiros economistas matemáticos,
especializando-se em teoria monetária e financeira. As
contribuições de Fisher para o campo da teoria económica
incluem a equação das trocas, a distinção entre
taxas de juros nominais e reais, e uma análise pioneira da
distribuição inter-temporal. Quando o seu status aumentou,
tornou-se um ícone por popularizar as modas da década de 1920
quanto a investimento, vida saudável e
engineering
social, incluindo a Proibição [Lei Seca] e a eugenia.
Hoje ele é menos famoso por tudo isto do que pela sua
declaração única em Setembro de 1929 de que "os
preços das acções atingiram um planalto permanentemente
alto". A seguir perdeu uma fortuna pessoal de US$6 a US$10 milhões
no crash. Como observou J.K. Galbraith, "Isto era uma soma
apreciável, mesmo para um professor de teoria económica". O
banco de investimento de Fisher fracassou no mercado em depressão
(bear market),
perdendo as fortunas dos seus investidores e a sua reputação
pública.
O professor Fisher fez a sua observação do "planalto
permanentemente alto" num ambiente muito semelhante àquele que
predominava no Verão de 2007. As divisas foram desvalorizadas
competitivamente em todos os países principais quando cada um deles
procurava ganhar ou defender fatias do mercado exportador. A
desvalorização acrescentou combustível às bolhas de
activos quando o crédito fácil levou a cada vez mais
investimentos especulativos, incluindo um boom na globalização
quando investidores compraram títulos do estrangeiros a fim de ganharem
rendimentos mais altos. Então, tal como agora, muitos especuladores na
Wall Street tinham uma fé inquebrantável na capacidade do Federal
Reserve para manter a festa em andamento.
Após o crash e a ruína financeira, o professor Fisher voltou os
seus consideráveis talentos para a determinação dos
mecanismos subjacentes ao crash. A sua
Debt-Deflation Theory of Great Depressions
(1933) era poderosa e ressonante, embora muito desprezada pelas autoridades,
pela Wall Street e igualmente pela academia. A teoria de Fisher levantava
muitas questões inconfortáveis acerca dos papéis
desempenhados pelo Federal Reserve, pela Wall Street e por Washington na
propagação das condições para o excesso de
crédito e da deflação pela dívida que se seguiu.
O conjunto do documento merece uma leitura cuidadosa, mas apresento aqui
algumas citações escolhidas que dão um sabor do todo. No
prefácio da sua teoria, Fisher primeiro discute a instabilidade em torno
do equilíbrio e a influência de ciclos 'forçosos' (como
estações) e de ciclos 'livres' (como ondas auto-geradoras). Ao
contrário da Escola de Chicago, Fisher diz directamente que "o
equilíbrio exacto assim procurado raramente é alcançado e
nunca é mantido por muito tempo. Novas perturbações,
humanamente falando, vão certamente ocorrer, de modo que, nos factos
reais, qualquer variável está quase sempre acima ou abaixo do
equilíbrio ideal". Ele assevera directamente:
"Teoricamente pode haver de facto, a maior parte do tempo deve
haver sobre- ou sub-produção, sobre- ou sub-consumo,
sobre- ou sub-despesa, sobre- ou sub-poupança, sobre- ou
sub-investimento, e sobre ou sub tudo o mais. É absurdo assumir que,
durante qualquer longo período de tempo, as variáveis na
organização económica, ou em qualquer parte dela,
"permanecerão colocadas" em equilíbrio perfeito, assim
como assumir que o Oceano Atlântico pode alguma vez estar sem uma
única onda".
Embora perturbações provoquem oscilações que
conduzirão a recessões, ele sugere:
"Nos grandes booms e depressões, cada um dos factores supra
mencionados desempenhou um papel subordinado em comparação com
dois factores dominantes, nomeadamente o sobre-endividamento no arranque e a
deflação que se segue logo após; mesmo quando qualquer
dos outros factores se torna ostensivo, eles muitas vezes são
simplesmente efeitos ou sintomas destes dois".
Este é o argumento crítico do documento. Encarado nesta
perspectiva, podemos ver nos EUA e Reino Unido décadas de
sub-produção, sobre-consumo, sobre-despesas e sub-investimento
enquanto tudo tendia para um maior desequilíbrio o qual pode, se
combinado com oscilações induzidas por
perturbações, levar as economias dos EUA e do Reino Unidos para
além do ponto em que poderiam rectificar-se dentro de uma espiral
deflacionária.
Fisher descreve como apenas nove factores a interagirem uns com os outros sob
condições de dívida e deflação criam a
mecânica do boom que leva à queda numa Grande Depressão:
Assumindo, consequentemente, que em algum ponto do tempo exista um estado de
sobre-endividamento, isto tenderá a levar à
liquidação, por meio do alarme tanto de devedores como de
credores ou de ambos. Então podemos deduzir a seguinte cadeia de
consequências em nove ligações: (1) A
liquidação de dívida
conduz a
vendas por aflição
e à (2)
Contracção de depósitos de divisas,
quando os empréstimos bancários são liquidados, e a uma
desaceleração da velocidade de circulação. Esta
contracção de depósitos e da sua velocidade, precipitada
pelas vendas aflitivas, causa (3)
Uma queda no nível de preços,
por outras palavras, a um inchaço do dólar. Assumindo, como
acima declarado, que esta queda de preços não é
interferida pela reflação ou outros factores, aqui deve haver (4)
Uma queda ainda maior nos valores líquidos dos negócios,
precipitando bancarrotas e (5)
Uma provável queda nos lucros,
os quais numa sociedade "capitalística", isto é, de
lucros privados, leva a preocupações as quais correm confusas
para provocar (6)
Uma redução na produção, no comércio e no
emprego
do trabalho. Estas perdas, bancarrotas e desemprego levam a (7)
Entesouramento e redução ainda maior da velocidade de
circulação.
As oito mudanças acima causam (9)
Perturbações complicadas nas taxas de juros,
em particular uma queda nas taxas nominais, ou da moeda, e uma ascensão
na taxas de juros reais, ou das commodities.
Evidentemente, dívida e deflação contribuem muito para
explicar uma grande massa de fenómenos de um modo lógico muito
simples.
Hyman Minsky e James Tobin atribuíram à Teoria da
Dívida-Deflação de Fisher o mérito de ser um
precursor crucial das suas teorias da instabilidade financeira
macroeconómica.
Fisher liga explicitamente a moeda frouxa
(loose money)
ao sobre-endividamento, alimentando a especulação e as bolhas de
activos:
O dinheiro fácil é a grande causa da super
contracção de empréstimos. Quando um investidor pensa que
pode ganhar mais de 100 por cento ao ano ao tomar emprestado a 6 por cento, ele
será tentado a contrair empréstimos, e a investir ou especular
com o dinheiro emprestado. Isto foi uma causa primária que levou ao
sobre-endividamento de 1929. Invenções e melhorias
tecnológicas criaram maravilhosas oportunidades de investimento, e assim
provocaram grandes dívidas.
A psicologia pública de entrar em dívida para o ganho passa
através de várias fases mais ou menos distintas: (a) o isco das
grandes perspectivas de dividendos ou ganhos em rendimento no futuro remoto;
(b) a esperança de vender com um lucro, e realizar um ganho de capital
no futuro imediato; (c) os modismos das promoções arrojadas,
aproveitando a habituação do público a grandes
expectativas; (d) o desenvolvimento da fraude pura e simples, impondo-se sobre
um público que se tornou crédulo e ingénuo.
Fisher a seguir resume a sua teoria da dívida, deflação e
instabilidade em um parágrafo:
Em suma, descobrimos que: (1) mudanças económicas incluem
tendências firmes e perturbações ocasionais
instáveis as quais actuam como desencadeadores de
oscilações cíclicas de inúmeras espécies;
(2) dentre as muitas perturbações ocasionais estão as
novas oportunidades para investir, especialmente por causa de novas
invenções; (3) isto, com outras causas, por vezes conspira para
levar a um grande volume de sobre-endividamento; (4) isto por sua vez leva a
tentativas de liquidar; (5) isto, por sua vez, leva (a menos que contrariado
pela reflação) a quedas de preços ou a um inchaço
do dólar; (6) o dólar pode inchar mais depressa do que o
número de dólares possuídos se contrai; (7) neste caso, a
liquidação não liquida realmente mas sim na verdade agrava
as dívidas, e a depressão torna-se pior ao invés de
melhorar, como indicado por todos os nove factores; (8) os caminhos de
saída são tanto o
laissez faire
(bancarrota) ou a medicação científica
(reflação), e a reflação pode muito bem ser
aplicada em primeiro lugar.
A função de prestamista de último recurso dos bancos
centrais e o apoio do governo ao sistema financeiro através de empresas
patrocinadas pelo governo (GSEs) e de medidas fiscais são o mecanismo
moderno da reflação. Tal como Keynes, suspeito que Fisher via a
reflação como uma intervenção limitada e
temporária ao invés de uma política sustentada a longo
prazo de expansão do crédito a la Greenspan/Bernanke.
Preocupa-me seriamente que a prática reflacionária de Washington
e do Fed em resposta a toda flutuação de mercado nas
últimas décadas tenha sido acumular um problema maior de
deflação pela dívida para o futuro. Este gráfico
muito amedrontador
dá uma medida da ameaça ao comparar a dívida total em
relação ao PIB da era da Depressão com o rácio
muito mais elevado de hoje.
Certamente Washington e o Fed foram muito entusiásticos e inovativos em
"reflacionar" os sectores sensíveis à dívida das
finanças, imobiliário, automobilístico e consumidores
durante os últimos muitos anos. Estou tentado a cunhar um novo
substantivo para o entusiasmo da reflação: reflácio?
Houvesse Fisher observado o Fed de Greenspan/Bernanke em acção,
ele poderia ter actualizado a sua teoria com uma revisão. Em algum
ponto, capital desviado para trabalhos improdutivos tem ou de ser reembolsado
ou cancelado
(written off).
Se uma ou outra solução for inibida pela reflação
ou por frouxidão regulamentar, então será imposto um custo
sobre trabalhos produtivos, quer através da inflação, de
juros mais altos, do desvio do consumo, ou da tributação para
socializar perdas. Ao longo do tempo isto em última análise tem
o custo de escavar a economia produtiva real deixando apenas bolhas de activos.
Sem um fundamento produtivo, quando a reflação e a
tolerância atingirem os seus limites, aquela bolha de activos deve
desinchar.
A teoria da deflação pela dívida de Fisher foi pouco
reconhecida durante a sua vida, provavelmente porque ele estava certo ao chamar
atenção para as falhas sistémicas que precipitaram o
crash. Também hoje, dizer a verdade ao poder não é um
bilhete de entrada para a popularidade.
31/Julho/2008
[*]
Professor da New York University
O original encontra-se em
http://londonbanker.blogspot.com/
. Tradução de JF.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.