O infindável pesadelo de Gaza

por Michael Roberts [*]

Concentrações em Lisboa e no Porto. As bombas chovem sobre a cidade de Gaza e o resto da faixa que constitui o pesadelo para o povo que ali vive. Gaza, com área de 375 quilómetros quadrados é o lar para cerca de 2 milhões de palestinos, mais da metade deles constituída por refugiados. Desde 2007, o enclave cercado tem estado sob um lancinante bloqueio israelense e egípcio que destruiu a sua economia e privou seus habitantes de muitos produtos vitais, inclusive alimentos, combustível e remédios.

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O povo de Gaza tem estado confinado no enclave da Faixa e sujeito a um embargo por terra, ar e mar. A entrada de bens foi reduzida a um mínimo, enquanto o comércio externo e as exportações foram travadas. Enquanto isso, a população tem acesso muito limitado à água potável, carece de abastecimento regular de electricidade ou até mesmo de um sistema de esgotos adequado.

A taxa de pobreza na Faixa de Gaza atingiu os 80% durante o bloqueio israelense de mais de uma década, segundo a Federação Geral de Sindicatos Palestinos. Além disso, 77% dos lares em Gaza foram destruídos e danificados pelos ataques israelenses, deixando milhares de famílias sem casa ou deslocadas em meio a processo de reconstrução mutilado, de acordo com Anne Jellema, responsável do Run4, uma fundação de socorro com sede na Holanda.

O desemprego e a pobreza é bastante grave em toda a Cisjordânia, mas é muito pior em Gaza, onde a taxa de pobreza definida pelo Banco Mundial (com um limiar muito baixo) era de 56% em 2018, em comparação com 19% na Cisjordânia e com dois terços dos jovens desempregados. Além disso, o povo em Gaza sofre de uma pobreza muito mais profunda, com um "fosso de pobreza" – o rácio entre o rendimento médio dos pobres e a linha de pobreza – de quase seis vezes o nível na Cisjordânia. Estes números foram compilados pela UNCTAD num relatório abrangente .

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Além do bloqueio prolongado e de restrições pelo Egipto vizinho, Gaza aguentou três operações militares israelenses em 2007, 2012 e 2014 que danificaram gravemente a infraestrutura civil e provocaram baixas pesadas. Pelo menos 3.793 palestinos foram mortes, cerca de 18 mil foram feridos e mais da metade da população de Gaza foi deslocada, de acordo com o relatório da UNCTAD. Mais de 1500 empresas comerciais e industriais foram danificadas, juntamente com cerca de 150 mil unidades habitacionais e infraestrutura pública incluindo energia, água, saneamento básico, saúde, instalações educativas e edifícios governamentais.

O bloqueio da Faixa de Gaza efectuado por Israel custou ao enclave palestino mais de 16 mil milhões de dólares e empurrou mais de um milhão de pessoas para baixo da linha de pobreza em pouco mais de 10 anos, de acordo com o relatório. A análise da UNCTAD sugere que, se as tendências pré-2007 tivessem continuado (Cenário 1 no gráfico abaixo), a taxa de pobreza em Gaza teria sido de 15% em 2017 em vez de 56%, ao passo que o fosso da pobreza teria sido de 4,2% ao invés de 20%.

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Em vez disso, entre 2007 e 2018, a economia de Gaza cresceu menos de 5%, e a sua participação na economia palestiniana diminuiu de 31% para 18% em 2018. Em consequência, o PIB per capita contraiu-se 27 por cento (linha de base no gráfico acima).

A economia de Gaza sofreu uma inversão na industrialização e na agricultura. A percentagem da agricultura e da manufactura na economia regional de Gaza diminuiu de 34% em 1995 para 23% em 2018, enquanto a sua contribuição para o emprego caiu de 26% para 12%. Isto paralisa qualquer desenvolvimento da economia de Gaza e a sua capacidade de expandir o emprego.

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E em 2020, todo este pesadelo foi agravado pela pandemia do coronavírus.

O relatório da UNCTAD estima que a elevação da população de Gaza acima do limiar da pobreza exigiria uma injecção de fundos no montante de 838 milhões de dólares, agora quatro vezes o montante necessário em 2007. Mas ao invés disso, em 2018 a administração Trump retirou o seu financiamento à ACNUR, a agência das Nações Unidas que apoia cinco milhões de refugiados palestinianos em Gaza, na Cisjordânia ocupada, no Líbano, na Síria e na Jordânia.

O economista da UNCTAD Richard Kozul-Wright comentou que "O corte de 200 milhões de dólares foi um enorme golpe para a economia palestiniana. ...A menos que os palestinos na Faixa de Gaza tenham acesso ao mundo exterior, é difícil ver qualquer coisa além de subdesenvolvimento como o destino da sociedade palestina de Gaza", ...É realmente chocante que no século XXI, dois milhões de pessoas possam ser deixadas nessa espécie de condição".

16/Maio/2021
[*] Economista.

O original encontra-se em
thenextrecession.wordpress.com/2021/05/16/the-unending-nightmare-of-gaza/


Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
17/Mai/21