O tsunami de dívidas que ameaça o sistema
Crise do coronavírus poupou os grandes bancos e
corporações. Para socorrê-las, Estados criaram, do nada,
avalanche de dinheiro. Mas deixaram de fora populações e pequenas
empresas. Ambas podem ser o novo espantalho do capitalismo.
A crise gerada globalmente pela pandemia global é diferente das crises
anteriores do capitalismo. A mudança da expansão para a
recessão no ciclo capitalista e os impactos recessivos na
produção e no investimento são frequentemente
desencadeados por um
crash
financeiro, seja no sistema bancário (como na Grande Recessão de
2008-9) seja na esfera do capital fictício, isto é, no mundo das
ações e dos títulos (como em 1929 ou 2001).
Claro, a causa subjacente de tais quedas regulares e recorrentes reside nos
movimentos na lucratividade do capital, tal como foi discutido
ad nauseam
neste blog
. Esta é a causa "última". Mas as causas
"próximas" podem ser diferentes. E nem sempre são de
origem "financeira". A primeira queda global simultânea no
pós-guerra, ocorrida em 1974-5, foi desencadeada por um forte aumento
nos preços do petróleo, após a guerra
árabe-israelense; a recessão de duplo mergulho de 1980-2 teve
origens semelhantes. A recessão de 1991-2, igualmente, seguiu-se
à Guerra do Golfo de 1990.
A crise produzida pela pandemia do coronavírus também tem uma
causa "próxima" distinta. Em certo sentido, essa queda global
sem precedentes, afetando 97% das nações do mundo, começou
por causa de um "evento exógeno", ou seja, a
propagação de um vírus mortal. Mas, como tem sido
argumentado por ecologistas, mas também neste blog, a busca voraz por
lucros por parte de empresas capitalistas na exploração de
combustíveis fósseis, extração de madeira,
mineração e expansão urbana, sem
consideração pela natureza, criou as condições para
o surgimento de uma sucessão de doenças mortais; ligadas a
patógenos para os quais o corpo humano não tinha
resistência e imunidade. Nesse sentido, a crise não foi
"exógena".
Mas, as quedas na produção, no comércio, no investimento e
no emprego mundiais que se seguiram à difusão do vírus
não começaram com um colapso financeiro ou com uma queda abrupta
no mercado de ações. Não foram eles, portanto, que levaram
ao colapso do investimento, da produção e do emprego. Aconteceu o
contrário. Houve um colapso na produção e no
comércio, forçado ou imposto por bloqueios provocados pela
pandemia, que então levaram a uma enorme queda nas receitas, gastos e
comércio. Assim, a queda começou com um "choque
exógeno" aparente; ela ocorreu, depois, porque os bloqueios geraram
um "choque de oferta" seguindo de um "choque de demanda".
Até agora, porém, não ocorreu um "choque
financeiro". Pelo contrário, os mercados de ações e
títulos dos principais países estão em níveis
recordes. O motivo é claro. A resposta das principais
instituições monetárias nacionais e governos foi injetar
milhões de milhões de massa monetária, ou seja, crédito, em suas
economias para fortalecer os bancos, as grandes e as pequenas empresas; bem
como pagar cheques para milhões de trabalhadores desempregados e/ou
despedidos. O tamanho dessa "generosidade", financiada pela
"criação" de dinheiro pelos bancos centrais, não
tem precedentes na história do capitalismo moderno.
Isso significa que, ao contrário da situação no
início da Grande Recessão, os bancos e as principais
instituições financeiras estão longe de entrar em colapso.
Os balanços dos bancos estão mais fortes do que antes da
pandemia. Os lucros financeiros aumentaram. Os depósitos
bancários dispararam à medida que os bancos centrais aumentam as
reservas dos bancos comerciais e as empresas e famílias acumulam
dinheiro na forma da poupança; dado que o investimento se reduziu e as
famílias passaram a gastar menos.
De acordo com a Organização para Cooperação e
Desenvolvimento Econômico (OCDE), as taxas de poupança das
famílias aumentaram entre 10 e 20 pontos percentuais durante a pandemia.
Os depósitos das famílias nos bancos dispararam. Da mesma forma,
as reservas de caixa das empresas não financeiras aumentaram à
medida que as empresas tomam empréstimos baratos ou sem juros
garantidos pelo governo, ou que as empresas maiores emitiram ainda mais
títulos, todos incentivados e financiados por programas patrocinados
pelo Estado. Os impostos também foram diferidos conforme as empresas
foram sendo bloqueadas e se adotou uma espécie de
purdah
[NT]
, novamente acumulando ainda mais caixa. Os diferimentos de impostos equivalem
a 13% do PIB na Itália e 5% do PIB no Japão, de acordo com a OCDE.
De fato, os últimos dados das corporações (terceiro quarto
de 2020) nos EUA mostraram um aumento acentuado dos lucros, quase inteiramente
devido a empréstimos e subsídios do governo. Estes impulsionaram
o fluxo de caixa junto com uma queda nos impostos sobre vendas e
produção conforme as empresas pararam os seus negócios. Os
lucros corporativos aumentaram US$495 mil milhões no terceiro trimestre,
em
contraste com uma redução de US$209 mil milhões no segundo
trimestre.
O órgão que publica as estatísticas do governo
norte-americano explica:
"os lucros corporativos e a renda dos proprietários foram em parte
reforçados por provisões de programas criados pelo governo
federal em resposta à pandemia, tal como o programa de
proteção aos salários, o diferimento dos pagamentos de
impostos, os créditos fiscais para retenção de
funcionários, as licenças médicas pagas etc., que
forneceram apoio financeiro às empresas e pessoas afetadas pela pandemia
no segundo e terceiro trimestres."
Assim, cerca de US$1,5 milhão de milhões de subsídios e
empréstimos do governo dos Estados Unidos foram usados para subsidiar
empresas americanas durante a pandemia. Portanto, os lucros corporativos
têm sido sustentados pela intervenção do governo ao
custo de níveis sem precedentes de déficits
orçamentários do governo e de enormes aumentos na dívida
do setor público.
A esperança agora é que, à medida que as vacinas fiquem
prontas e sejam distribuídas durante 2021, e que o isolamento social
termine, a economia mundial se recupere, de tal modo que o aumento da
poupança familiar e dos lucros corporativos sejam disponibilizados para
atender a uma demanda "reprimida". Assim, a locomotiva da economia
capitalista voltaria a andar celeremente. Os gastos do consumidor voltariam, as
pessoas retomariam as viagens, o turismo internacional se expandiria, inclusive
com a volta dos eventos de massa. Diante desse quadro, as empresas se
lançariam numa espiral de investimentos.
A OCDE é menos otimista em relação a esse cenário.
Ela está preocupada com o fato de que grande parte do aumento na
poupança pessoal veio dos ricos, ao quais tendem a gastar menos como
porcentagem de sua renda (porque eles simplesmente têm muito!). O
conjunto das famílias médias não acumulou poupanças
seja nas principais economias seja nas economias capitalistas menos
desenvolvidas. Pelo contrário, aumentaram os seus níveis de
endividamento durante a pandemia. Além disso, com o provável fim,
em 2021 dos cheques de pagamento do Estado e de outros apoios, a
situação da família média pode muito bem se
deteriorar. Essas desigualdades também se aplicam ao setor corporativo.
A OCDE avalia que a maior parte do apoio governamental na forma de
empréstimos e de doações foi canalizado para as empresas
maiores, especialmente no setor de tecnologia um setor, aliás,
menos atingido pela crise.
Portanto, encontra-se aqui o elo mais fraco da matriz de
inter-relações capitalistas. Eis o lugar provável em que
emergirá o terceiro elemento da crise pandêmica uma crise
de crédito seguida de colapso financeiro à medida em que as
empresas, especialmente as pequenas e médias empresas começarem a
quebrar. Estas colapsam na mesma medida em que o apoio do governo evapora: as
suas receitas de vendas permanecem fracas, mas os custos da dívida e dos
salários aumentam.
O Instituto de Finanças Internacionais (IIF) relatou recentemente que a
proporção da dívida global em relação ao
produto interno bruto aumentará de 320%, em 2019, para um recorde de
365%, em 2020. O IIF conclui o seu relatório com um forte alerta:
"mais dívidas, mais problemas".
Como disse Martin Wolf no
Financial Times:
"Os mercados financeiros estão ignorando esses avisos. As
ações globais alcançaram novos máximos e os
spreads
de crédito têm diminuído, quase como se a dívida
extrema fosse algo virtuoso e não um péssimo rumo do processo
econômico."
Como já foi relatado, mesmo antes dessa pandemia, a dívida
corporativa atingira níveis recordes, medida em relação ao
PIB anual. Medida em relação ao patrimônio líquido
dos ativos da empresa, essa situação apareceria de forma ainda
mais dramática já ficaria mais claro o potencial de uma avalanche
de falências associadas a ela.
A OCDE estima que, se os lucros corporativos caírem drasticamente em
2021, à medida que os governos retirem o apoio financeiro, muitas
empresas podem ficar "em dificuldades".
O número das "empresas zumbis" tem aumentado
significativamente. São aquelas que não estão obtendo
lucros suficientes para cobrir os juros de suas dívidas pendentes. A
OCDE observa que um quinto das empresas na Bélgica, por exemplo,
não poderia honrar seus passivos financeiros por mais de três
meses sem contrair mais dívidas ou obter uma injeção de
capital. Essa proporção é muito maior em alguns setores
como hospedagem, eventos e lazer.
A OCDE conclui que
"as preocupações com a estabilidade financeira provavelmente
ressurgirão"
, já que o rápido aumento da dívida do setor
público e do setor corporativo pode em breve levar a
"preocupações com a solvência em um grande
número de empresas".
A inadimplência corporativa no que se refere aos títulos de
empresas mais fracas pode dobrar em 2021, diz a OCDE, especialmente em
"setores duramente atingidos como companhias aéreas, hotéis
e indústria automobilística".
As falências em pequenas e médias empresas nos setores de varejo,
lazer e imóveis comerciais são particularmente prováveis.
Esse cenário é ainda mais evidente nas chamadas economias
emergentes. Mesmo na China, onde a economia em geral está se recuperando
de modo mais rápido, uma série de empresas com pesadas
dívidas estão começando a deixar de pagar os seus
empréstimos, colocando, assim, o governo em um dilema. Tem que decidir
se salva essas empresas (algumas das quais são estatais locais) ou as
deixa quebrar, a fim de reduzir o peso da dívida geral sobre a economia.
Isso não levará a um grande colapso financeiro ou a uma forte
ruptura na recuperação chinesa, porque o governo tem reservas
enormes e pode tirar proveito das enormes poupanças familiares do povo
chinês, principalmente depositadas em bancos estatais ao
contrário do que ocorre em outras grandes economias. Mas os problemas de
uma série de empresas chinesas superendividadas são um
prenúncio do que poderia haver um "tsunami de dívida"
em muitos setores corporativos e não só na economia
chinesa, mas também na economia de outros países durante o
próximo ano.
Muito depende de saber se o setor corporativo conseguirá ou não
se sustentar em 2021, à medida que os subsídios dos Estados forem
sendo cortados. Mesmo que os custos de juros sobre a dívida existente
permaneçam baixos, se os lucros corporativos não aumentarem, mas,
em vez disso, caírem em 2021, a OCDE estima que mais de 30% das empresas
em todo o mundo podem ficar "em dificuldades", podendo enfrentar a
falência. No mínimo, em consequências, as empresas
não vão aumentar os seus investimentos, mas, ao contrário,
ficarão "quietas". A OCDE avalia que existe o risco de uma
"dívida pendente". E isto reduziria o crescimento do
investimento empresarial em 2 pontos percentuais em comparação
com a média de longo prazo, antes da pandemia.
Portanto, mesmo que não haja o tal "tsunami de dívidas"
e um
crash
financeiro causado por uma onda de falências de empresas, a
recuperação na maioria das economias capitalistas provavelmente
será muito fraca. A OCDE em sua última previsão para a
economia mundial fala sobre um
"futuro mais brilhante
", em 2021, quando as vacinas contra a Covid passarem a serem
distribuídas. Mas essa previsão ainda espera que a maioria das
economias do mundo não recupere as perdas de produção
sofridas em 2020. No final de 2021, apenas algumas economias terão
experimentado algum crescimento real do PIB em comparação como o
nível do final de 2019.
A economia líder na recuperação será a China
quase 10% a mais de PIB; seguem-se as economias da Coreia do Sul e da
Indonésia. Os aumentos do PIB nesses países resultará em
um aumento
médio do
PIB mundial nesses dois anos, isto é 2020 2021. Mas a China
contribuirá com um terço desse crescimento real do PIB até
o final desse período. As economias capitalistas avançadas do G7
não terão nenhum crescimento real do PIB (é o caso dos
EUA), ou terão recuado algo entre 3 e 5% até o final de 2021 (os
casos da Europa e do Japão); nesse quadro, o Reino Unido terá o
pior desempenho com uma contração de 6,4%. As outras grandes
economias do G20, como Índia e Brasil, terão declínios
significativos.
A OCDE espera uma "recuperação gradual, mas desigual".
E isso pressupõe que ocorram as melhores expectativas possíveis
sobre o impacto das vacinas contra a Covid. Mesmo assim, embora se espere que
o PIB da economia mundial retorne ao seu nível anterior à
pandemia no final de 2021, ele ainda não alcançará o PIB
mundial que teria atingido sem a queda produzida pela difusão do
coronavírus. A perda representará cerca de 6% do PIB, conforme
mostra o gráfico acima. A trajetória da "raiz quadrada
reversa" da Longa Depressão parece que vai continuar.
07/Dezembro/2020
[NT]
Consiste na prática entre os persas de impedir as mulheres de serem
vistas pelos homens que não sejam seus parentes diretos.
[*]
Economista. As suas obras estão
aqui
.
O original encontra-se em
thenextrecession.wordpress.com/2020/12/02/a-credit-crash-ahead/
e a tradução de Eleutério Prado em
outraspalavras.net/desigualdades-mundo/tsunami-de-dividas-que-ameaca-o-sistema/
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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