Entrevista do ministro das Finanças da Alemanha
"Estávamos todos a fitar o abismo"
por Peer Steinbrück
[*]
entrevistado pela
Der Spiegel
SPIEGEL: Sr. Steinbrück, a Wall Street está a implodir. O governo
dos Estados Unidos quer estabelecer um programa de salvamento de US$700 mil
milhões (480 mil milhões) para os seus bancos e os seus
maus empréstimos. Quão séria e a situação
para o resto do mundo?
Steinbrück: Estamos a experimentar a mais severa crise das últimas
décadas, embora devamos ser cuidadosos quanto a
comparações históricas com 1929. Uma coisa é
clara: Depois desta crise o mundo já não será o mesmo. A
arquitectura financeira mudará globalmente.
SPIEGEL: Poderia ser mais específico, por favor.
Steinbrück: Haverá mudanças nos termos da importância
e status de Nova York e Londres como os dois principais centros financeiros
mundiais. Bancos e fundos possuídos pelo Estado, bem como bancos
comerciais da Europa, China, Rússia e mundo árabe fecharão
as lacunas, criando novos centros de poder no mundo financeiro.
SPIEGEL: Por outras palavras, estamos a experimentar o princípio de uma
mudança tectónica...
Steinbrück: ... mas não uma mudança que seja abrupta e
dissonante. Será um processo evolucionário que levará
vários anos.
SPIEGEL: A actual tempestade certamente é ensurdecedora.
Acabámos de ver todos os bancos de investimento dos EUA desaparecerem
num só lance.
Steinbrück: Três deles foram ou tomados ou foram à
bancarrota. Os outros dois abandonaram seu modelo de negócio
para salvarem-se. Ninguém teria pensado que isto era possível
até recentemente. Enquanto isso, 25 provedores de serviços
financeiros desapareceram do mercado nos EUA. Tudo isto é a
ilustração de um terramoto. Além disso, muitas
instituições ainda estão fundamentalmente com falta de
liquidez.
SPIEGEL: E devem os Estados Unidos ser totalmente culpados?
Steinbrück: A fonte e o foco dos problemas está claramente nos
Estados Unidos. Há muitas causas. Após o 11/Set, muito dinheiro
barato foi lançado no mercado. Aparentemente uma parte daquele dinheiro
foi para pessoas com fraca capacidade creditícia. Isto levou ao
crescimento da bolha imobiliária. Os bancos embarcaram numa corrida
sobre margens de lucro. Então as especulação dilatou-se
completamente fora de controle...
SPIEGEL:
a qual também benefíciou bancos alemães por
algum tempo.
Steinbrück: Mas eles não inventaram estas
transacções. Os alimentadores de fornalhas nos mercados
financeiros é que foram responsáveis por isso.
SPIEGEL: E como está o paciente EUA a passar agora?
Steinbrück: Está na Unidade de Cuidados Intensivos com pneumonia.
Isto significa que aqui na Europa podemos esperar pelo menos apanhar um
resfriado. Ao paciente EUA faltou legislação, uma estrutura
regulamentar que poderia ter ajudado a evitar este desenvolvimento. Esta
é a questão chave para mim. Os produtos financeiros tornaram-se
cada vez mais complexos, mas as regras e salvaguardas não mudaram.
Não conheço ninguém em Nova York ou Londres que tivesse
pedido por uma estrutura regulamentar mais forte 18 meses atrás. Eles
estavam sempre a dizer: O mercado regula tudo. Que erro histórico!
SPIEGEL: Seu colega estado-unidense, o secretário do Tesouro Henry
Paulson, começou por essencialmente nacionalizar os dois gigantes
hipotecários, Fannie Mae e Freddie Mac. Mas a seguir ele permitiu que o
banco de investimento Lehman Brothers mergulhasse na bancarrota antes de salvar
o gigante dos seguros AIG com um salvamento de US$85 mil milhões
(58 mil milhões). Isto não parece exactamente um rumo de
acção claro.
Steinbrück: No caso do Lehman, o governo dos EUA quiz enviar um sinal ao
mercado de que não estão preparados para oferecer um salvamento
sob quaisquer circunstâncias. No caso da AIG, tivemos
conversações directa ao nível do G7 e implorámos a
eles para estabilizar a situação. Uma bancarrota da AIG
dispararia ondas de choque por todo o mundo. Estávamos a fitar o abismo
naquele momento.
SPIEGEL: Que papel desempenham as eleições nos EUA na
resolução da crise?
Steinbrück: Espero que meu colega dos EUA será capaz de tomar
acções por um período tão longo quanto
possível. Não podemos ter um vácuo de seis meses
até que o próximo presidente tome posse e a sua
administração esteja pronta para trabalhar.
SPIEGEL: Paulson chefiou o banco de investimento Goldman Sachs por longo tempo.
Será que isto faz dele uma parte do problema?
Steinbrück: Ele sem dúvida está a fazer um bom trabalho. E
pelo menos a Goldman Sachs ainda tem a opção de tomar a sua
própria decisão de transformar-se num banco companhia holding.
SPIEGEL: Este mesmo Paulson humilhou-o um ano e meio atrás. O sr.
chegou atrasado a uma reunião com ele em Washington e ele concedeu-lhe
apenas 11 minutos do seu tempo permanecendo em pé.
Steinbrück: O sr. não acredita seriamente que tais trivialidades
desempenhem qualquer papel que seja na minha avaliação de um
colega e da situação!
SPIEGEL: Estamos a aludir à arrogância e a um modo de pensar que
Paulson pode ter partilhado com muitos grandes actores na Wall Street.
Steinbrück: O modo de pensar na Wall Street era bastante claro: "O
dinheiro faz o mundo girar" A lógica foi esta: O governo deveria
permanecer fora do nosso negócio! E quando nós alemães
começámos e talvez fosse mesmo demasiado tarde por essa
altura a pedir por controles, por mais transparência e linhas de
orientação justas, a princípio eles riam-se de nós.
SPIEGEL: Quando começaram estas iniciativas?
Steinbrück: Remonta aos dias do governo Gerhard Schröder. Foi
reforçado quando a Alemanha assumiu a presidência do G-7 no
princípio de 2007. O primeiro debate real sobre o assunto aconteceu em
Fevereiro de 2007, durante uma reunião dos ministros das finanças
do G-7 na Villa Hügel, em Essen. O então ministro das
Finanças britânico, Gordon Brown, não ficou muito
sorridente com o nosso apelo a mais transparência quanto aos hedge funds.
As conversações foram significativamente mais construtivas desde
o Outuno último.
SPIEGEL: O que, especificamente, o sr. pedirá?
Steinbrück: Uns poucos acordos já foram alcançados com os
britânicos e americanos dentro do G-7, em Abril. Eles incluem
imposição de novas regras acerca da conduta das agências de
classificação, endurecimento das regulamentações de
equity e ganhar um melhor controle sobre a supervisão
transfronteiriça de bancos. Mas tanto quanto estou preocupado,
não é suficiente para a indústria desenvolver seu
próprio código de conduta. Também quero ver os bancos a
não serem mais permitidos vender tudo a seu próprio risco quando
julgam conveniente. Penso disto como um perigoso viés sistémico,
uma falha de concepção, bancos que não para a
concessão de empréstimos como também cujo risco de
crédito em 100 por cento comercializável. Isto pode levar a
incêndios incontroláveis, como estamos a ver.
"TEORIA MARXISTA NÃO É INCORRECTA"
SPIEGEL: Quanto governo o capitalismo precisa? Quanto pode ele tolerar?
Steinbrück: Na generalidade, temos de concluir que certos elementos da
teoria marxista não são de todo incorrectos.
SPIEGEL: E é o senhor, entre todas as pessoas, a dizer isto?
Steinbrück: Todo exagero cria, num sentido dialéctico, sua
contrapartida uma antítese. No fim, o capitalismo desenfreado
com toda a sua cobiça, como temos visto acontecer aqui, consome-se a si
próprio...
SPIEGEL:
porque cria um estado desenfreado?
Steinbrück: Este seria o desenvolvimento errado. E não acredito
nisto, tão pouco. Felizmente nós na Alemanha fizemos bastante
por nós próprios com um meio-termo feliz, a economia social de
mercado.
SPIEGEL: O governo alemão não quer participar no pacote de
salvamento da América de US$700 mil milhões. Esta é a sua
palavra final?
Steinbrück: Não vejo nem a necessidade nem a possibilidade de
tomar a responsabilidade de bancos americanos. Além disso, nossa
situação é mais robusta.
SPIEGEL: Mas os Estados Unidos certamente salvarão primeiro bancos
americanos uma distorção da competição que
poderia colocar instituições europeias sob mais pressão do
que nunca.
Steinbrück: Trata-se de uma questão, naturalmente. Mas não
posso dar-lhe uma solução impulsivamente, ainda não
meditada. Primeiro temos de ver exactamente o que os americanos pretendem
fazer.
SPIEGEL: E se as coisas se tornarem sérias na Europa, o sr.
também teria de entrar em choque com Bruxelas sobre opções
de intervenção.
Steinbrück: O sr. não poderia estar mais certo! E já
destaquei isto. Os americanos são nitidamente mais rápidos
quando chega o momento da administração da crise, porque eles
não são embaraçados por estes procedimentos de ajuda.
SPIEGEL: No entanto, o sr. tem de prever cenários de pior caso como
alternativa secundária.
Steinbrück: Não faz sentido especular publicamente sobre algo como
isto. Uma crise pode facilmente tornar-se uma profecia auto-cumprida segundo
esse caminho.
SPIEGEL: O sr. encontrou-se recentemente com executivos de topo das
indústrias bancária e dos seguros alemãs. Como era o
clima?
Steinbrück: Muito sério e aberto. Mas é preciso
discreção para alcançar qualquer progresso nesta frente.
SPIEGEL: Os bancos de propriedade do estado alemão, de qualquer forma,
são um exemplo primário de um caso em que a influência do
governo não garante automaticamente mais segurança. Ao
contrário. O montante de apostas que se verificou em
instituições como o SachsenLB era inacreditável. E os
contribuintes são aqueles a quem acabam por chutar a conta.
Steinbrück: A responsabilidade repousa nos respectivos accionistas.
Alguns deles, entretanto, estão a mostrar sinais de quererem passar esta
responsabilidade para o governo. É aqui que um paro de desempenhar o
papel de Sr. Simpático. Eles deveriam gentilmente resolver seus
próprios problemas.
SPIEGEL: Alguns, pareceria, não aplicaram as regras já
existentes no sistema alemão.
Steinbrück: Não posso confirmar isso. Os auditores só
podem examinar o que está nas declarações financeiras e o
que lhes é apresentado. O IKB e o SachsenLB simplesmente passaram para
fora riscos tremendos. Também acautelo contra efectuar uma abordagem
prendam-o-ladrão. Num caso, por exemplo, um antigo chefe de
departamento do Ministério das Finanças que estava na
supervisão do conselho de um destes bancos foi severamente criticado.
Num esforço para passar alguma culpa para mim, foi convenientemente
esquecido que metade do quem é quem na economia alemã estava
neste mesmo conselho.
SPIEGEL: Talvez o sr. devesse ter simplesmente permitido que algo como o IKB
fosse à bancarrota, a invés de salvá-lo com milhares de
milhões do banco KfW de propriedade do estado e então no
essencial dando-o a um investidor financeiro americano.
Steinbrück: E o que aconteceria então? Nós tínhamos
menos de cinco semanas para efectuar uma auditoria completa. Tínhamos
36 horas para decidir o que seria mais custoso
estabilização ou insolvência. Esta era a
situação em 28 e 29 de Julho do ano passado. O que acontecia aos
25 mil milhões (US$36 mil milhões) de valor de
depósitos no IKB? Será que se desvaneciam no ar? Quais teria
sido as consequências para o conjunto da economia financeira
alemã? O dano teria desproporcionalmente mais elevado. É
fácil ser crítico agora.
SPIEGEL: E quanto ao facto de acontecer que o KfW tenha transferido 319
milhões (US$463 milhões) para o Lehman Brothers, o banco de
investimento estado-unidense que declarou bancarrota naquele mesmo dia? Esta
espécie de coisas não cria exactamente confiança nos
bancos de propriedade estatal.
Steinbrück: Aquilo foi um erro terrível, naturalmente. Um erro
grotesco. Mas foi um erro cometido por executivos do banco, não pelo
conselho de administração, o qual inclui políticos entre
os seus membros.
SPIEGEL: Prova que os procedimentos normais de administração do
risco fracassaram completamente directamente debaixo do nariz do
ministro das Finanças.
Steinbrück: Não, prova que uma deicsão indesculpavelmente
errada foi cometido. Pensa o senhor que não fiquei lívido com
isto? Toda a crise de que estamos a conversar aqui é
incompreensível para o cidadão normal. Mas uma
transferência tão idiota mesmo minha avó de 89 anos
ficou ultrajada com isso. Todos os 80 miilhões de cidadãos
alemães entendem isto...
SPIEGEL:
e subitamente o sr. tem o tabloide Bild a chamar o KfW "O
mais estúpido banco da Alemanha".
Steinbrück: Certo, certo. Mas também é preciso notar que o
KfW passou todos os testes e verificações respeitantes aos seus
procedimentos de administração de risco que foram efectuados pelo
Tribunal de Contas federal e por auditores no ano passado. Naturalmente, eu
sei que no final das contas o que aconteceu esta absolutamente ridículo.
Mas mesmo isso tem de ser cuidadosamente examinado. Não podemos
simplesmente começar a dar tiros aleatoriamente, só para afastar
uns poucos executivos e manter o público feliz.
SPIEGEL: De qualquer modo, os fracassos e colapso entre muitos bancos de
propriedade do estado alemão mostra que o governo não é
exactamente um banqueiro eficaz.
Steinbrück: Nunca afirmei que era. O governo não é nem
melhor nem pior como banqueiro. Transacções financeiras
não são seu campo nuclear de operações. O facto de
que muitos banqueiros a trabalharem para bancos de propriedade estatal
claramente calcularam mal resulta parcialmente de terem perdido de vista o
relacionamento entre riscos e lucratividade. Mas deixe-me dizer isto mais uma
vez: o Lehman não era um banco de propriedade estatal, nem tão
pouco o Bear Stearns, o Northern Rock ou o IKB.
SPIEGEL: Quão dramáticos serão os efeitos da crise
financeira sobre a economia alemã?
Steinbrück: Até o momento, o único resultado óbvio
é que os números estão a piorar. Neste ponto,
ninguém pode fornecer uma estimativa crível de quão maus
se tornarão. Naturalmente, esta crise também afectará o
crescimento. Contudo, alguns desenvolvimentos estão actualmente a
mover-se na direcção oposta. O mercado de emprego ainda é
forte. E estamos satisfeitos com os nossos rendimentos fiscais.
SPIEGEL: O sr. era optimista há apenas duas semanas atrás.
Disse que não havia razão para esperar cenários
cataclísmicos, e que o crescimento para o ano permaneceria em 1,7 por
cento.
Steinbrück: Não concordo com a sua crítica. Sempre estive
do lado cauteloso, e no princípio do ano declarei que 2009 será
pior do que 2008. Não tenho razão para rever minhas
previsões para 2008. Mas 2009 será significativamente pior do
que a estimativa anterior de crescimento de 1,2 por cento.
SPIEGEL: Os depositantes alemães deveriam preocupar-se quanto às
suas poupanças?
Steinbrück: Não. Ninguém deveria estar preocupado acerca
de contas de poupança. Veremos uma mudança tectónica no
sistema financeiro global. Tipos inteiros de bancos e seus modelos de
negócio desaparecerão, mas isso não significa que
alguém na Alemanha deveria estar preocupado acerca das suas
poupanças.
SOBRE A LEGITIMIDADE DO CAPITALISMO
SPIEGEL: Estará o capitalismo actualmente a passar por uma crise geral?
Steinbrück: Não penso assim. Mas o comportamento de algumas
elites é digno de crítica. Temos de ser cuidadosos para
não permitir que o capitalismo esclarecido seja manchado com
questões de legitimidade, aceitação ou credibilidade.
Isto não é simplesmente uma questão de desenvolvimentos
salariais excessivos em alguma áreas. Estou a falar acerca de
evasão fiscal e corrupção. Estou a falar acerca de
escândalos e casos da espécie que experimentámos
recentemente, embora não se deva generalizar estas ocorrências.
Mas elas são a espécie de coisa que o público geral
entende demasiado bem. E quando permitem-lhes continuar por demasiado tempo, o
público fica com a impressão de que "aquelas pessoas no
topo" já não têm de jogar de acordo com as regras.
Houve tempos na Alemanha em que estas elites estavam mais próximas da
população geral. Algumas coisas ficaram fora de controle neste
aspecto.
SPIEGEL: Ninguém pode regular a moralidade.
Steinbrück: Não, mas isso também é
dialéctico. As elites devem entender que é uma questão de
auto-protecção, de desenvolver um sentido do equilíbrio
correcto ou permitir que o juízo prevaleça.
SPIEGEL: Sr. Steinbrück, obrigado por gastar o seu tempo a falar connosco.
[*]
Ministro das Finanças da Alemanha.
Entrevista conduzida por Wolfgang Reuter e Thomas Tuma. Traduzido do
alemão por Christopher Sultan.
A versão em inglês encontra-se em
http://www.spiegel.de/international/business/0,1518,581201,00.html
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info/
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