Sistema de crenças

por James Kunstler

Um amigo perguntou-me como é que o público aparentemente apreende a realidade da alteração climática mas o seu cérebro colectivo não parece captar o desenrolar da crise petrolífera.

Não estou convencido de que o público apreenda a alteração climática. Ela é percebida, talvez, como uma história nos bastidores da vida diária, a qual se segue sem ser levada em consideração. Estará você mesmo certo de que Hollywood não a inventou – e de que talvez algum tolo na revista Time esteja a vendê-la como se estivesse realmente a acontecer?

Poucos têm algo a ganhar com a negação de uma alteração climática. É difícil para a maior parte das pessoas dizer se foi afectada por ela. Aquilo não parece suficientemente real. Aqueles que realmente fazem gestos em relação à dita alteração – atarraxando lâmpadas compactas fluorescentes, comprando carros Prius – acabam por parecer ridículos, como uma avó idosa a dizer-lhe para levar sua capa de chuva e galochas porque um furacão com força cinco está a preparar-se no mar, para além do horizonte.

O público parece agressivamente despistado acerca do Pico Petrolífero. Ele não aceita quaisquer ameaças ao regime de motorização. Os novos media certamente não estão a ajudar a organizar as ideias. Vi uma notável exibição de ignorância na CNN, na semana passada, quando o seu novo idiota-maníaco residente, Glenn Beck, recebeu o patrão do Sindicato dos Camionistas (Teamster Union), James Hoffa, e ambos concordaram em que as companhias petrolíferas deviam ser culpabilizadas pelos altos preços dos combustíveis. Para dizer isto o mais claramente possível, Beck não sabe do que está a falar e é uma desgraça que a CNN dê a este retardado mental rédea solta para desinformar o público. É talvez igualmente de admirar que Hoffa não saiba que entrámos numa crise petrolífera global permanente dado o facto de a procura ter ultrapassado a oferta. Estes dois idiotas pensam que se a Exxon-Mobil construísse uma nova refinaria ali na Lousiana tudo estaria bem, o gasóleo voltaria a 99 centavos por galão e tudo seria uma festa.

Este mês foi realmente notável, com todos os problemas de "A longa emergência" a acelerarem-se de forma impressionante. O petróleo agora está a testar a marca dos US$120, a indústria da aviação está a implodir (em grande medida devido aos custos do combustível), o cenário da habitação atingiu um grau de colapso nunca visto desde a década de 1930, a escassez de alimentos movimenta o Terceiro Mundo e começa a afectar o Japão e os EUA, morcegos estão a morrer devido a uma doença misteriosa no Nordeste, e o gelo do Mar Árctico está a contrair-se. [NR]

Estamos numa estranha bolha psíquica. Preferimos esquecer todos estes rumores perturbantes de dificuldades e mau tempo e simplesmente vamos em frente com a tarefa diária de ganhar a vida e pagar coisas e desfrutar dos entretenimentos habituais. As cerimónias confortantes da vida diária parecem continuar. As auto-estradas ainda estão cheias de carros. Nancy Grace vem à TV fielmente às 20 horas e ali está a deplorar a mais recente prisão perversa. A temporada de bola ao cesto foi relançada e as equipes estão a zigzaguear pelo país nos seus aviões fretados. O mercado de acções está realmente a subir – o que há de errado com isso?

Mas há igualmente uma sensação assustadora de que as coisas estão seriamente desordenadas. Estamos à beira de alguma coisa. Estamos à entrada de uma passagem escura em que algumas das cerimónias da vida diária encontram resistência. Você vai ao WalMart e cinco dos seus seis cartões de crédito são recusados. Uh, oh. Você começa a entender que está a gastar um quarto do seu salário a atestar o reservatório de gasolina toda semana. Não há toque de chamada quando você levanta o telefone. Como é que todos os supermercados da cidade podem estar sem arroz? O hospital local acaba de declarar bancarrota. Na semana passada os vizinhos da rua abaixo leiloaram toda a sua mobília na garagem da casa. Por que é que o gato apanha tantos carrapatos nestes dias?

Os acontecimentos não acabaram connosco este ano. Eles continuarão a mover-se para onde quiserem, quer acreditemos neles ou não. Nem mesmo estou convencido de que importe quem vença a corrida presidencial este ano. Ela poderia acabar por ser o maior falso prémio do mundo.

28/Abril/2008

[NR] Esta última afirmação não é correcta. No final do Verão de 2007 o gelo marinho do Árctico atingiu de facto um mínimo correspondente a cerca de 30 anos de observações de satélites (as quais principiaram em 1979). Mas no fim do Inverno de 2007-08 o gelo marinho do Árctico ultrapassou os picos dos últimos três anos e ficou quase ao nível de há 30 anos atrás. Ver http://arctic.atmos.uiuc.edu/cryosphere/IMAGES/current.area.jpg . No Período Quente Medieval (950-1300) o Árctico certamente tinha menos gelo marinho do que tem hoje. Na Pequena Idade do Gelo que se seguiu (1350-1850) recuperou todo o gelo e este até aumentou.

O original encontra-se em jameshowardkunstler.typepad.com/clusterfuck_nation/2008/04/belief-system.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
01/Mai/08