Acabar com os almoços gratuitos dos EUA
Como deveria o Médio Oriente investir o seu excedente comercial?

por Michael Hudson [*]

Não ao US dólar. Toda semana os países do Médio Oriente adquirem mais dólares como pagamento pelo seu petróleo, por outras exportações e também pela ascensão do investimento estado-unidense no seus mercados de acções e em outras propriedades. Isto confronta-os com um problema: O que podem eles fazer com estes dólares?

Tradicionalmente, os exportadores poupavam os rendimentos das suas exportações com a acumulação destes activos. Mas será ainda realista para eles adquirir mais activos dolarizados?

Bancos centrais por todo o mundo actualmente possuem uns US$2,5 mihões de milhões (trillion) de Títulos do Tesouro dos EUA, e mais outro milhão de milhões de dólares em dívidas em dólar do sector privado. Quando a taxa de câmbio do dólar cai, estes bancos sofrem perdas pois os seus haveres são denominados nas suas próprias divisas. Ainda mais grave: o próprio principal está agora em causa. Não há um meio previsível pelo qual os Estados Unidos possam quitar a sua dívida externa. O seu excedente comercial continua a deteriorar-se, ao passo que os seus gastos militares no estrangeiro somam-se ao défice total da balança de pagamentos.

Isto significa que os Estados Unidos estão a despejar cada vez mais dólares no resto do mundo sem quaisquer meios para repagá-los – ou qualquer intenção de fazer isso. Esta é razão porque países estrangeiros começam a tratar tais dólares como "batatas quentes", tentando livrar-se deles o mais depressa possível.

Mas como podem os EUA fazer isto? A China está a utilizar seus influxos de novos dólares para tentar comprar activos em matérias-primas estrangeiras, terras e outros necessários ao seu crescimento a longo prazo. E alguns países do Médio Oriente estão a comprar acordos de abastecimento a longo prazo de alimentos e matérias-primas produzidos no exterior. Mas cada vez menos países estão ansiosos por aceitar estes dólares. E o governo dos EUA está a bloquear investimento estrangeiro nos sectores internos estado-unidenses mais desejáveis e remuneradores pois os seus políticos tornaram-se mais nacionalistas. Isto ameaça limitar o investimento estrangeiro nos Estados Unidos ao mercado das hipotecas-lixo, ao imobiliário que está a cair de preço e a empréstimos para salvar (bail out) bancos e instituições financeiras americanas quando elas cambaleiam na insolvência e os preços das suas acções mergulham. A compra de acções do Citibank pelo Médio Oriente, no ano passado, é o exemplo mais notório.

Isto significa que os exportadores de petróleo do Médio Oriente – e na verdade exportadores industriais europeus – estão com efeito a dar o seu petróleo e outros produtos aos consumidores estado-unidenses em troca de papeis IOU [1] que correm o perigo de se tornarem inresgatáveis e portanto sem valor.

Felizmente há uma melhor alternativa. Para os governos do Médio Oriente esta é investir os rendimentos das suas exportações na construção das suas próprias economias ao invés da daquela dos Estados Unidos e daquelas de outros países da área do dólar. Dois mil anos atrás, mesmo durante a maré alta da Grécia e do Império Romano, por muito tempo o Médio Oriente foi a região mais empresarial e próspera do mundo. O que o impede de recuperar esta posição histórica?

Um grande problema é a aridez, a desertificação. Este problema pode ser em grande medida ultrapassado por uma combinação de gastos em infraestrutura interna e negócios internacionais de permuta (barter) a longo prazo. Tais acordos são o caminho indicado para avançar quando os principais mercados de divisas se tornam instáveis – e as taxas de câmbio vão continuar a comportar-se aos zig-zags ao longo da próximo década ou mais ainda.

Há um paralelo gritante com o que se passou da última vez que o Médio Oriente começou a receber rendimentos muito mais elevados pelas suas exportações, após 1973. Naqueles tempo, o Médio Oriente efectuou acordos petróleo-por-infraestrutura com firmas coreanas, japonesas e outras asiáticas a fim de construir estradas, hospitais e outras obras necessárias para elevar a produtividade e os padrões de vida. Hoje, a China entrou no mix. E ainda há um longo caminho a percorrer para investimento no âmbito de serviços públicos e privados que são necessários para tornar a região uma das mais prósperas do mundo.

A emergência da Índia, da China e do Paquistão como potências económicas e mesmo militares (pelo menos para finalidades defensivas), bem como da Rússia e da Ásia Central, já conduziu à criação da Organização de Cooperação de Shangai, a qual o Irão já aderiu. O mundo está a tornar-se multi-polar, pelo menos como resposta defensiva às tentativas do EUA de dar à NATO um papel pós-Guerra Fria estendendo-a às regiões do Médio Oriente, da Índia e do Pacífico.

Na medida em que a Ásia e a Índia prometem emergir como grandes centros industriais do mundo – talvez em conjunto com os principais países da América do Sul – este realinhamento económico tem um carácter inerentemente político. Para falar em termos brutos, os Estados Unidos opõem-se a isto [por considerarem] que é uma ameaça ao seu desejo de hegemonia unilateral. E em termos brutos foi exactamente como o general de brigada britânico James Ellery CBE falou a 22 de Abril na School of Oriental & African Studies (SOAS) em Londres. Ele descreveu a guerra americana-britânica no Iraque como tendo sido combatida para travar "a maré de orientalização" – uma mudança no poder político e económico global em direcção à China e à Índia, as quais em conjunto importam uns "dois terços do petróleo do Médio Oriente".

O general Ellery está em posição de saber. Ele foi o conselheiro sénior do Foreign Office na Autoridade Provisória da Coligação, em Bagdad, após 2003. Na sua palestra explicou que os estrategas globais dos EUA preocupavam-se com a possibilidade de que em resposta às sanções económicas estado-unidenses contra o Iraque este – tal como o Irão – pudesse virar o seu foco económico para o leste.

Este é o pesadelo dos EUA, porque têm utilizado o Médio Oriente como um mealheiro para safarem-se do enfraquecimento financeiro da economia americana. Após o primeiro choque do cereal e do petróleo em 1972-73 – quando os Estados Unidos quadruplicaram os preços das exportações de cereais, e a OPEP respondeu quadruplicando os preços do petróleo – responsáveis do Tesouro dos EUA disseram a dirigentes do Médio Oriente que podiam cobrar quanto quisessem pelo petróleo (proporcionando portanto às oil majors dos EUA um abrigo de preços que enchia os seus cofres), mas que se eles não reciclassem os rendimentos das suas exportações nos Estados Unidos isto seria encarado como um acto de guerra.

Isto significa que para o Médio Oriente utilizar os rendimentos das suas exportações a fim de desenvolver as suas próprias economias pode exigir a ruptura com a esfera da diplomacia estado-unidense. Esta medida pelo menos dará à região interesse em conseguir que os Estados Unidos finalizem a sua ocupação do Iraque – incluindo as bases militares que estão agora em processo de construção.

UMA MODESTA PROPOSTA

Assim, tenho uma modesta proposta sobre como negociar esta grande mudança na geopolítica Médio Oriente-EUA: Oferecerem-se para comprar as bases americanas em construção, incluindo talvez os edifícios da Zona Verde, a um valor de mercado razoável (não certamente aos preços exorbitantes que os doadores da campanha republicana pagaram, com contratos que tanto as Nações Unidas como o Gabinete do Orçamento do Congresso consideraram que foram corruptos e manipulados com supervisão inadequada). Isto pode ser mais bem efectuado tornando claro para os Estados Unidos que o almoço gratuito que obtinham desde o abandono do ouro em 1971 está acabado.

Isto pode soar como ceder aos Estados Unidos de uma forma que parece um pagamento de protecção perante a chantagem. Mas a protecção pode ser que valha a pena sob as condições de hoje.

Dois séculos atrás os Estados Unidos anunciaram a Doutrina Monroe: a Europa deveria deixar o Hemisfério Ocidental aos EUA como esfera de influência. Não será tempo de o mundo actuar simetricamente e pedir que os Estados Unidos por sua vez deixem o Hemisfério Oriental para os países dessa região, para se desenvolverem em paz como pretendem?

Quanto mais publicamente os países do Médio Oriente puderem fazer esta espécie de compromisso (trade-off), mais possibilidades há de ele vir a ser adoptado como plataforma política na campanha presidencial dos EUA deste ano.

16/Junho/2008

[1]  IOU: Abreviatura de "I owe you" (título de dívida).

Textos de Michael Hudson em resistir.info:
  • Super-capitalismo, super-imperialismo e imperialismo monetário
  • Greenspan, o grande inflacionador de activos
  • A pirâmide dos US$ 4,7 milhões de milhões: a Segurança Social dos EUA & a Wall Street
  • Irá a Europa sofrer da síndroma suíça?
  • Um grande especialista revela segredos dos centros bancários offshore
  • Salvar a economia, desmantelar o império
  • US$ 1012 de resgate para os jogadores da Wall Street
  • O jogo acabou. Não haverá retomada.

    [*] Antigo economista da Wall Street especializado em balança de pagamentos e imobiliário no Chase Manhattan Bank (agora JPMorgan Chase & Co.), Arthur Anderson, e posteriormente no Hudson Institute (nenhum parentesco). Em 1990 ajudou a estabelecer o primeiro fundo de dívida soberana do mundo para a Scudder Stevens & Clark. Foi Conselheiro Económico Chefe de Dennis Kucinich na recente campanha primária presidencial dos democratas, e aconselhou os governos dos americano, canadiano, mexicano e lituano, bem como o United Nations Institute for Training and Research (UNITAR). Como Professor Investigador Emérito da Universidade do Missouri – Kansas City (UMKC), é autor de muitos livros, incluindo Super Imperialism: The Origin and Fundamentals of U.S. World Dominance . Email: mh@michael-hudson.com

    O original encontra-se em The Gulf, semanário do Bahrain.
    Republicado em www.michael-hudson.com/articles/financial/080616MiddleEastTradeSurplus.html .


    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 26/Jun/08