A questão nuclear paira sobre todas as grandes crises mundiais, desde a década de 1950 até à década de 1980, que me ocorrem, incluindo a Coreia (1950), Suez (1956), Laos e Berlim (1961), Vietname (em 1968), as guerras árabe-israelenses (especialmente em 1973), a India-Paquistão a partir da década de 1970 e a guerra em Angola na década de 1980, quando as tropas cubanas se aproximavam da fronteira da Namíbia, enfrentando a possibilidade de a África do Sul poder usar a bomba – tinha seis – para travar o seu avanço. A questão nuclear estava na mente de Lyndon Johnson no dia em que John F. Kennedy foi assassinado – no voo de regresso de Dallas, olhando pela janela, comentou com Bill Moyers: "Será que os mísseis estão a voar?" Referia-se aos mísseis americanos, pois sabia que, no final de 1963, ainda não existia uma força de mísseis balísticos intercontinentais soviética digna de nota.
Com Cuba (1962) como a maior exceção, o papel desempenhado pela questão nuclear permaneceu geralmente nas sombras durante décadas, para ser discutido discretamente quando os documentos são desclassificados e os participantes sobreviventes já estão idosos. Isto deixa a impressão de que o perigo era remoto e o mundo mais estável do que realmente era o caso.
Durante a Guerra Fria, a doutrina da "Destruição Mútua Assegurada" (Mutual Assured Destruction, MAD) acrescentou uma falsa sensação de segurança. A MAD deveria garantir, pelo medo de uma destruição certa, que nenhum dos lados atacasse o outro. Na verdade, os Estados Unidos procuravam constantemente uma vantagem que lhes desse a oportunidade de um primeiro ataque – sendo o Minuteman, os MIRVs e a "Guerra das Estrelas" exemplos disso. A possibilidade de um falso alarme também criava um perigo constante de erro fatal de qualquer um dos lados. A "linha direta" — criada entre Moscovo e Washington após a crise de Cuba — proporcionava alguma tranquilidade, desde que as mensagens recebidas fossem fiáveis. Construir e manter a confiança entre potenciais adversários era, portanto, uma obrigação séria para ambos os lados.
A contenção nuclear baseou-se, em numerosas ocasiões, na ação determinada de uma ou duas pessoas-chave, civis ou militares. No caso dos EUA, independentemente do que se possa pensar delas por outros motivos, duas dessas pessoas na década de 1960 foram Robert S. McNamara e Walt W. Rostow – de ambos os homens conheci pessoalmente a essência das suas narrativas. Em 1962, foi a cautela de McNamara (juntamente com a de Kennedy) que evitou uma invasão dos EUA a Cuba que teria sido recebida com armas nucleares táticas soviéticas, cuja existência os EUA desconheciam. Em 1968, Rostow dirigiu-se a Johnson em duas ocasiões para revogar as ordens do General Westmoreland de enviar armas nucleares táticas para o Vietname para utilização em Khe Sanh. Do lado soviético, conhecemos vários oficiais militares cujo bom senso, por si só, em várias ocasiões, evitou o desastre.
As estruturas do direito internacional do pós-guerra foram construídas, a partir de 1945, à sombra de Hiroshima e Nagasaki e tendo em vista a ameaça nuclear. Essas estruturas, principalmente as Nações Unidas, mas também a AIEA e o Tratado de Não Proliferação, contribuíram para impedir o uso de armas nucleares até hoje. Elas proporcionaram canais para a diplomacia, conhecimento das capacidades de cada país e um caminho supervisionado para os usos pacíficos da energia nuclear para os Estados não detentores de armas nucleares. Tais elementos da segurança nuclear global já não existem. No que diz respeito ao Irão, foram todos demolidos nos últimos dias.
A projeção é característica dos estrategas nucleares, pensadores de segunda categoria (em muitos casos) que assumem objetivos simétricos e atribuem as suas próprias mentalidades e motivos ao outro lado. Isto ignora o facto de que alguns países têm histórias e culturas agressivas, enquanto outros são principalmente defensivos e autossuficientes. Quando um adversário é agressivo e o outro defensivo, existem dois perigos. O lado agressivo pode atribuir os seus próprios motivos ao outro, justificando uma ação antecipativa (preemptive) – este era um perigo que a URSS enfrentava por parte dos Estados Unidos. E o lado defensivo, projetando as suas atitudes por sua vez, pode subestimar o perigo em que se encontra.
A este respeito, note-se que o secretário Hegseth utilizou a expressão "chantagem nuclear" para ajudar a justificar o ataque "antecipativo" ao Irão. Possivelmente, esta expressão foi tirada do nada. Também é possível que seja um caso revelador de projeção. A chantagem nuclear é, por definição, domínio exclusivo de um Estado com armas nucleares. Neste conflito, existem dois Estados com armas nucleares. Será que um chantageou o outro? Isso seria consistente com as palavras do secretário Rubio, que afirmou a 2 de março que os Estados Unidos se juntaram ao ataque porque, de outra forma, Israel o teria feito sozinho. As forças convencionais de Israel, consideradas isoladamente, eram (e são) muito mais fracas do que as forças combinadas de Israel e dos Estados Unidos.
Hoje, a projeção é predominante, as negociações foram desacreditadas pelo engano e não existem restrições multilaterais. Sem saída à vista, sem base fiável para conversações, com o comando e controlo iraniano descentralizado e Trump a exigir uma "rendição incondicional", a guerra parece destinada a progredir até que haja uma resolução militar.
O Irão não pode ser destruído por métodos convencionais, e o objetivo estratégico evidente – que era provocar a derrubada do governo – falhou manifestamente. Mas com mísseis convencionais de precisão e drones, e uma infraestrutura avançada e frágil, para Israel a possibilidade de destruição do Estado existe abaixo do limiar nuclear. A linha entre o conflito convencional e o nuclear é, portanto, um tanto difusa, o que significa que a escalada de um para o outro pode ser psicologicamente mais fácil do que foi o caso entre as grandes potências durante a Guerra Fria.
Três resultados militares parecem agora possíveis. São eles: (a) o esgotamento e a destruição do poder militar do Irão e da República Islâmica, que são os objetivos declarados dos Estados Unidos e de Israel, respetivamente; (b) a demolição da presença dos EUA no Médio Oriente, que é o objetivo declarado do IRGC, levando ao colapso do poder israelense; e (c) a escalada para um ataque nuclear. Classificaria estes resultados por ordem inversa de probabilidade: c>b>a. Mas não são mutuamente excludentes. Na verdade, (c) implicaria tanto (b) como (a).
Resta-nos esperar que, quando chegar o momento, haja pessoas sensatas e determinadas, civis ou militares, no lugar certo na hora certa. Tanto quanto sei, as forças armadas dos Estados Unidos ainda têm uma liderança que não está ansiosa por usar armas nucleares, a menos que haja um ataque nuclear direto contra os Estados Unidos, o que, evidentemente, não poderia vir do Irão. Um observador experiente e colega, cujas opiniões respeito, diz-me que mesmo no Israel atual essas pessoas provavelmente existem. Espero que ele tenha razão. Parece uma esperança muito ténue.