Choque e pavor
por Carlos Fazio
Nada de novo debaixo do sol. O Estado enfermeiro continua a cumprir a sua
função ao serviço do grande capital. Seja nos Estados
Unidos, na Europa ou no México, o Estado enfermeiro aplica a disciplina
do mercado e receita mais miséria e fome à ralé e
às classes trabalhadoras, enquanto subvenciona os plutocratas
através de planos neokeynesianos agressivos e
nacionalizações-privatizações. Mudam as formas mas
a essência é a mesma. Para "salvar" o sistema, durante
a chamada crise da bolha hipotecária subprime os bancos centrais
resgataram com fundos públicos os jogadores financeiros da Wall Street e
os banqueiros trapaceiros e as grandes famílias empresariais dos Estados
Unidos, da Europa e do México que apostaram mal, e transferiram as
dívidas dos perdedores aos governos e aos contribuintes.
O mesmo de sempre no paraíso friedmaniano e bushiano, neste capitalismo
de casino onde uns perdem e outros ganham. Privatizam-se os lucros e
socializam-se as perdas. Assim, em poucos dias, mediante
operações electrónicas computorizadas que duram escassos
segundos no âmbito de um capitalismo predador, desinibido,
não regulado ou que faz vista grossa quanto à contabilidade
empresarial, financeira e bancária grandes massas de dinheiro
público passaram para mãos privadas, com a cumplicidade de
classificadoras de risco (como a Moody's e Standar and Poor's) e dos bancos
centrais, que actuaram na emergência como prestamistas de um sistema
bancário e financeiro agiota, usurário e especulador. Os
governadores dos bancos centrais lavaram as agiotagens da engenharia financeira
dos fundamentalistas do "mercado livre". Terminaram avalisando
fraudes corporativas milionárias e investidores irresponsáveis
livres de controles governamentais, que utilizam inteligentes estratagemas
manipuladores com a cumplicidade dos meios de difusão maciça sob
controle monopolista, através de leis do silêncio ou
explicações ajeitadas.
Nesta conjuntura tornou a aplicar-se o que Noam Chomsky descreveu como a
"máxima infame dos donos da humanidade: tudo para nós e
nada para os demais". Mais uma vez, perante a mentirosa alternativa
proposta por George W. Bush, de impor "o maior resgate da história
dos Estados Unidos ou o mundo se desmoronará", triunfaram a
cobiça, a avareza, o lucro e o saqueio de pequenos grupos
cleptocráticos. Ganhou o canibalismo corporativo que se vale da
mão visível do Estado enfermeiro e da informação
privilegiada para acumular riquezas escandalosas.
Foi um crime calculado. Orquestrado antecipadamente. Montado e cenarizado com
base na doutrina do choque. Construído sobre ficções e
mentiras. Sob pressão, geraram uma crise. Fabricaram um caos
económico-financeiro, uma sensação de estar à beira
do abismo. Mediante técnicas de submetimento "globais"
geraram um sentido de urgência. A seguir aplicaram a terapia de
"choque e pavor" para amaciar sem anestesia sociedades inteiras ou
submetê-las a políticas económicas mais draconianas. Como
na invasão do Iraque ou na "guerra" de Felipe Calderón
contra
Los Zetas
, o narcoterror e os lança granadas.
Naomi Klein explicou muito bem: esgrimindo razões de segurança
nacional ou financeira, os fundamentalistas do choque impõem formas mais
brutais de coerção a sociedades inteiras. Trata-se de uma
filosofia do poder. Uma filosofia sobre como alcançar objectivos
políticos e económicos. Parte da base de que a melhor
oportunidade para impor medidas ultraneoliberais é o período que
se segue a um grande choque. Como aos prisioneiros aos quais são
aplicados choques eléctricos para amaciá-los, dobrá-los e
domesticá-los, o sistema aplica o medo, a violência e o terror
físico e económico para amaciar sociedades inteiras.
Deslocam-nas. As pessoas desorientam-se. Entram em pânico. E abre-se
uma janela, como num interrogatório. Por ali pode-se introduzir o que
os economistas chamam a "terapia do choque económico".
Primeiro gera-se a intranquilidade, o caos, o desastre, o medo, e a seguir tudo
isso é utilizado como desculpa para terminar a tarefa, para privatizar
tudo. Para continuar a depredar e concentrar a riqueza em poucas mãos.
O Departamento do Tesouro dos EUA considerará como boas as
obrigações de dívida colaterizadas que o
multimilionário Warren Buffet chamou certa vez "armas de
destruição financeira maciça". Aqui, o governador do
Banco do México, Guillhermo Ortiz, disse sem corar que as reservas
internacionais são para resgatar empresas. Não para pessoas. E
não há culpáveis. Nem empresários nem banqueiros
culpáveis pelo "ataque especulativo" contra o peso
(Agustín Carstens dixit). Na hora de ter de explicar porque era do
"interesse público" salvar os jogadores, Ortiz, o
secretário da Fazenda Carstens e seus amanuenses, recorreram a um
discurso armado à base de eufemismos e alegações
retóricas plausíveis. É a história de sempre.
Quando as apostas saem mal, os resgates são a remuneração
económica calculada daqueles que contribuíram financeiramente
para as campanhas eleitorais. Isso vale para os ladrões da Wall Street
e para os barões mexicanos do Conselho Coordenador Empresarial. E o
povo que aguente.
No sábado, 18, em Camp David, o presidente Bush convocou uma cimeira
económica mundial para "preservar o capitalismo democrático,
a livre empresa e o livre mercado". Bush mente. Mente premeditamente.
Quer continuar a explorar o mito do capitalismo democrático.
Capitalismo e democracia opõem-se. Tão pouco existe um
livre mercado. Simplesmente, ele e as corporações transnacionais
que impulsionam a "cultura do desastre", querem aproveitar a crise em
grande escala para impor regras económicas e financeiras mais
draconianas, numa tentativa de preservar a hegemonia e o actual sistema de
dominação imperial.
20/Outubro/2008
O original encontra-se em
http://www.jornada.unam.mx/2008/10/20/index.php?section=opinion&article=026a1pol
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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