Tempos difíceis pela frente

A armadilha do dólar de Bush

por Dave Lindorff [*]

. A primeira resposta do governo ao afundamento da economia dos Estados Unidos foi a negação. Ainda há um mês atrás responsáveis da administração e charlatães da Wall Street diziam-nos que a economia estava robusta e que não haveria uma recessão. Agora dizem-nos que a economia está em perturbação, mas que o governo está a tomar acções decisivas para escorá-la.

Nós vimos quão efectiva era a primeira proposta "decisiva". Bush anunciou um plano para dar a todo contribuinte adulto (não pessoas pobres, obrigado) US$800 em deduções fiscais no próximo mês de Abril. O mercado de acções respondeu a esta ideia caindo uns poucos por cento. A ideia, como escrevi na minha última coluna, era estúpida desde o início porque, com os EUA a já não produzirem muito seja do que for, de qualquer modo todos aqueles bónus de dinheiro emprestado acabariam por ser gastos com bens importados, pouco fazendo para a economia estado-unidense.

Agora o Federal Reserve avançou com um corte de ¾ por cento na taxa dos Fundos Federais. Mesmo considerando que bancos comerciais façam o mesmo, reduzindo a taxa básica (prime lending rate) uns ¾ semelhantes, o mercado de acções mostrou quanto faria tal movimento caindo quase 300 pontos no momento em que tocou o sino de abertura – aproximadamente o mesmo que se esperava acontecer sem um corte na taxa de juro.

Contudo, houve um lugar onde a acção do Fed teve um impacto: o valor de troca do dólar nos mercados estrangeiros de divisas. Mal foi ouvido o anúncio do corte na taxa de juro, o dólar caiu contra as divisas principais como a Libra britânica, o Euro e o Yen japonês.

Aí é que são elas. O Fed está numa armadilha. Ele não pode cortar taxas de juros muito mais sem provocar um colapso no dólar, o qual, devido ao enorme desequilíbrio comercial dos EUA, e todos aqueles bens de consumo e matérias-primas – especialmente petróleo – que são importados – conduziria a uma inflação séria e politicamente perigosa. E há um outro constrangimento com a actual taxa de juro: os EUA agora têm a terceira mais baixa taxa de juro do mundo. Se o Fed fizer um outro corte, como tem sugerido poder fazer em uma ou duas semanas, apenas o Japão teria um ambiente com taxa de juro mais baixa do que os EUA. Isto torna o dólar uma divisa muito indesejável para investidores estrangeiros, o que significa que eles não desejarão possuir dólares e que não desejarão possuir acções estado-unidenses.

Mas se o Fed não cortar ainda mais nas taxas de juro, o mercado de acções continuará a mergulhar, o que mais uma vez desencoraja investidores estrangeiros de despejarem o seu dinheiro para dentro dos EUA, o que por sua vez coloca uma pressão baixista sobre o dólar.

Isto era tudo previsível.

Uma economia que está quase totalmente dependente dos gastos do consumidor, o que é o caso nos EUA, fica em grande perturbação quando os consumidores começam a preocupar-se acerca da segurança dos seus empregos, e quando vêm a inflação a comer o seu rendimento disponível. Eles naturalmente simplesmente param de gastar. E isto também está a acontecer.

Assim, prepare-se para uns tempos económicos difíceis. O próximo passo será inflação ascendente, quando companhias atadas à China, Índia e alhures começarem a aumentar os seus preços para bens despachados para os EUA e pagos em dólares. Então o Fed terá de responder elevando taxas de juro outra vez, num esforço para escorar a divisa. E com aquilo desencadeará recessão mais profunda e um mercado de acções ainda mais baixo.

Os medos de Bush – défices infindáveis tanto quanto se pode ver, e uma derrota militar de US$ 2 milhões de milhões (trillion) sem fim à vista e que está a sugar dinheiro para fora do país como um gigantesco aspirador de pó industrial – começam a concretizar-se. O presidente e o vice-presidente esperavam claramente que pudessem passar a ruína dos seus oito anos no gabinete e correr para o retiro e o status de estadista sénior antes de isto tudo explodir, mas a sua sorte fugiu. A merda económica foi espalhada frente à ventoinha. As probabilidades são de que a guerra que eles tentaram esconder no armário com um "aumento disfarçado" ("surge") de tropas e uma campanha brutal de bombardeamento aéreo também explodirão sobre eles antes que o ano acabe.

Isto é de pouco consolo para todos nós que temos de viver com os desastres a seguir, mas pelo menos – se pudermos vê-los adequadamente impedidos (impeached) e indicíados, e se os Democratas no Congresso não estragarem as coisas de modo a que também possam ser culpabilizados pela confusão – em Janeiro próximo teremos a satisfação de ver Bush e Cheney expulsos da cidade.

[*] Autor de Killing Time: An Investigation into the Death Row Case of Mumia Abu-Jamal , Marketplace Medicine: The Rise of the For-Profit Hospital Chains e "This Can't be Happening!". Seu livro mais recente é The Case for Impeachment: The Legal Argument for Removing President George W. Bush from Office , em co-autoria com Barbara Olshansky.   Contacto: dlindorff@yahoo.com

O original encontra-se em http://www.counterpunch.org/lindorff01222008.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
24/Jan/08