Tempos difíceis pela frente
A armadilha do dólar de Bush
A primeira resposta do governo ao afundamento da economia dos Estados Unidos
foi a negação. Ainda há um mês atrás
responsáveis da administração e charlatães da Wall
Street diziam-nos que a economia estava robusta e que não haveria uma
recessão. Agora dizem-nos que a economia está em
perturbação, mas que o governo está a tomar
acções decisivas para escorá-la.
Nós vimos quão efectiva era a primeira proposta
"decisiva". Bush anunciou um plano para dar a todo contribuinte
adulto (não pessoas pobres, obrigado) US$800 em deduções
fiscais no próximo mês de Abril. O mercado de
acções respondeu a esta ideia caindo uns poucos por cento. A
ideia, como escrevi na minha última coluna, era estúpida desde o
início porque, com os EUA a já não produzirem muito seja
do que for, de qualquer modo todos aqueles bónus de dinheiro emprestado
acabariam por ser gastos com bens importados, pouco fazendo para a economia
estado-unidense.
Agora o Federal Reserve avançou com um corte de ¾ por cento na taxa
dos Fundos Federais. Mesmo considerando que bancos comerciais façam o
mesmo, reduzindo a taxa básica
(prime lending rate)
uns ¾ semelhantes, o mercado de acções mostrou quanto faria
tal movimento caindo quase 300 pontos no momento em que tocou o sino de
abertura aproximadamente o mesmo que se esperava acontecer sem um corte
na taxa de juro.
Contudo, houve um lugar onde a acção do Fed teve um impacto: o
valor de troca do dólar nos mercados estrangeiros de divisas. Mal foi
ouvido o anúncio do corte na taxa de juro, o dólar caiu contra as
divisas principais como a Libra britânica, o Euro e o Yen japonês.
Aí é que são elas. O Fed está numa armadilha. Ele
não pode cortar taxas de juros muito mais sem provocar um colapso no
dólar, o qual, devido ao enorme desequilíbrio comercial dos EUA,
e todos aqueles bens de consumo e matérias-primas especialmente
petróleo que são importados conduziria a uma
inflação séria e politicamente perigosa. E há um
outro constrangimento com a actual taxa de juro: os EUA agora têm a
terceira mais baixa taxa de juro do mundo. Se o Fed fizer um outro corte, como
tem sugerido poder fazer em uma ou duas semanas, apenas o Japão teria um
ambiente com taxa de juro mais baixa do que os EUA. Isto torna o dólar
uma divisa muito indesejável para investidores estrangeiros, o que
significa que eles não desejarão possuir dólares e que
não desejarão possuir acções estado-unidenses.
Mas se o Fed não cortar ainda mais nas taxas de juro, o mercado de
acções continuará a mergulhar, o que mais uma vez
desencoraja investidores estrangeiros de despejarem o seu dinheiro para dentro
dos EUA, o que por sua vez coloca uma pressão baixista sobre o
dólar.
Isto era tudo previsível.
Uma economia que está quase totalmente dependente dos gastos do
consumidor, o que é o caso nos EUA, fica em grande
perturbação quando os consumidores começam a preocupar-se
acerca da segurança dos seus empregos, e quando vêm a
inflação a comer o seu rendimento disponível. Eles
naturalmente simplesmente param de gastar. E isto também está a
acontecer.
Assim, prepare-se para uns tempos económicos difíceis. O
próximo passo será inflação ascendente, quando
companhias atadas à China, Índia e alhures começarem a
aumentar os seus preços para bens despachados para os EUA e pagos em
dólares. Então o Fed terá de responder elevando taxas de
juro outra vez, num esforço para escorar a divisa. E com aquilo
desencadeará recessão mais profunda e um mercado de
acções ainda mais baixo.
Os medos de Bush défices infindáveis tanto quanto se pode
ver, e uma derrota militar de US$ 2 milhões de milhões
(trillion)
sem fim à vista e que está a sugar dinheiro para fora do
país como um gigantesco aspirador de pó industrial
começam a concretizar-se. O presidente e o vice-presidente esperavam
claramente que pudessem passar a ruína dos seus oito anos no gabinete e
correr para o retiro e o status de estadista sénior antes de isto tudo
explodir, mas a sua sorte fugiu. A merda económica foi espalhada frente
à ventoinha. As probabilidades são de que a guerra que eles
tentaram esconder no armário com um "aumento
disfarçado"
("surge")
de tropas e uma campanha brutal de bombardeamento aéreo também
explodirão sobre eles antes que o ano acabe.
Isto é de pouco consolo para todos nós que temos de viver com os
desastres a seguir, mas pelo menos se pudermos vê-los
adequadamente impedidos
(impeached)
e indicíados, e se os Democratas no Congresso não estragarem as
coisas de modo a que também possam ser culpabilizados pela
confusão em Janeiro próximo teremos a
satisfação de ver Bush e Cheney expulsos da cidade.
[*]
Autor de
Killing Time: An Investigation into the Death Row Case of Mumia Abu-Jamal
,
Marketplace Medicine: The Rise of the For-Profit Hospital Chains
e "This Can't be Happening!". Seu livro mais recente é
The Case for Impeachment: The Legal Argument for Removing President George W. Bush from Office
, em co-autoria com Barbara Olshansky. Contacto:
dlindorff@yahoo.com
O original encontra-se em
http://www.counterpunch.org/lindorff01222008.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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