Às vésperas da destruição? Sim, mas de quem?

– A guerra é altamente provável, mas não é inevitável.

SCF [*]

NATO prepara a destruição.

Estamos a viver um momento extremamente perigoso da história. Estamos também a viver uma época extremamente irracional, pelo menos no que diz respeito à avaliação da mentalidade, da conduta e das palavras dos políticos e dos meios de comunicação ocidentais perante o desastre.

Por um lado, os líderes, comentadores e comandantes militares ocidentais clamam que a guerra com a Rússia é iminente. Por outro lado, porém, verifica-se uma espantosa negligência em evitá-la. A diplomacia e a compreensão são grosseiramente rejeitadas. De facto, existe uma escolha absolutamente irracional de escalada rumo à guerra, especialmente entre os políticos europeus.

Por trás disto, claro, está uma crença ideológica supremacista, um desprezo pela Rússia e por outros inimigos oficialmente designados (China, Irão, etc), em que a classe política ocidental se considera superior, e não igual. Essa mentalidade conduz à guerra e impede o envolvimento diplomático e o diálogo.

Numa leitura objetiva da situação, não há dúvida de que o perigo de uma guerra mundial total está à nossa porta. Incrivelmente, pela terceira vez em pouco mais de um século, o planeta enfrenta o espectro de um conflito internacional de grandes proporções. Mas, nesta ocasião, o resultado seria uma conflagração nuclear com a extinção da vida tal como a conhecemos. Esta destruição repetida constitui uma acusação contundente ao sistema ocidental, aos seus motores capitalistas e imperialistas de violência, dominação e, inevitavelmente, conflito. Certamente, tal sistema deve ser abolido.

O Relógio do Juízo Final, supervisionado pelo independente Bulletin of Atomic Scientists, encontra-se no seu ponto mais próximo da meia-noite de todos os seus 80 anos de existência. O relógio foi inaugurado na sequência dos horríveis ataques atómicos dos EUA contra o Japão em 1945. Destinava-se a servir de aviso para o risco crescente de uma guerra nuclear. É verdadeiramente um espetáculo assustador que o perigo atual de um desastre global ultrapasse os muitos perigos enfrentados durante as décadas da Guerra Fria. As tensões atuais ultrapassam até mesmo as da Crise dos Mísseis de Cuba de 1962, quando os Estados Unidos e a União Soviética estiveram à beira de uma guerra nuclear.

Muitos académicos ocidentais, especialistas jurídicos, analistas e diplomatas experientes têm somado as suas vozes para alertar para o desastre definitivo. Prestamos homenagem às vozes sensatas de pessoas como Alfred de Zayas, Jeffrey Sachs, Larry Johnson e Scott Ritter, vozes no Ocidente que, ao contrário da sua classe política, alertam veementemente para o caminho da perdição em que o mundo se encontra e do qual precisa de sair urgentemente.

As palavras de alerta piscam como uma luz vermelha, mas os líderes ocidentais continuam a tomar decisões e a emitir declarações beligerantes que estão a conduzir o mundo para o precipício.

Esta semana, os políticos europeus voltaram a defender abertamente o ataque à Federação Russa através do bloqueio de Kaliningrado, o enclave russo situado entre a Polónia e a Lituânia. O ministro dos Negócios Estrangeiros polaco, Radoslaw Sikorski, e o chefe da NATO, Mark Rutte (antigo primeiro-ministro holandês), fizeram-se eco dos apelos de outros políticos europeus para atacar efetivamente Kaliningrado, ou seja, para atacar a Federação Russa. A doutrina nuclear da Rússia afirma explicitamente que tal ataque a obriga a utilizar armas nucleares em resposta.

Então, por que razão os líderes da NATO continuam a insistir na provocação? Tais manobras são meramente uma extensão da guerra por procuração da OTAN na Ucrânia. A guerra deles é um fracasso. Mas os políticos ocidentais pró-guerra não conseguem admitir que estão errados. Estão dispostos a incitar uma guerra mais ampla em vez de admitir a derrota e enfrentar as repercussões políticas por parte dos seus próprios cidadãos.

Esta semana, a Rússia emitiu um aviso grave, afirmando que qualquer ataque a Kaliningrado resultaria numa retaliação russa com armas nucleares.

Ao invés de recuperarem o bom senso e de se acalmarem, os políticos europeus descartam arrogantemente os avisos da Rússia como um "blefe" ou acusam Moscovo de fazer alarde com armas nucleares.

Num discurso em sessão plenária no Fórum Valdai, em Moscovo, na quinta-feira, o presidente russo Vladimir Putin sublinhou a precariedade infernal da situação.

"Se se chegar a um ataque direto à Federação Russa — neste caso, a Kaliningrado, embora possa potencialmente envolver também outros territórios —, a questão de a Rússia utilizar todas as armas à sua disposição surgiria inevitável e imediatamente. Isso é inevitável", afirmou Putin.

Numa avaliação sinistra deste rumo imprudente, observou:

"Temos de perceber que o momento em que já nada poderá ser alterado pode chegar muito rapidamente e de forma inesperada para todos. A lógica da escalada de medidas de retaliação cada vez mais severas conduz a um ponto fatal de não retorno."

O líder russo afirma que a escalada implacável do Ocidente, tanto em palavras como em ações, está a conduzir a um abismo. Incrivelmente, os políticos ocidentais recusam-se a moderar-se. "No cerne desta escalada estão a arrogância e o excesso de confiança… A espiral está a apertar-se e as consequências devastadoras estão a aumentar."

Esta dinâmica aterradora faz lembrar o prelúdio da Primeira e da Segunda Guerras Mundiais, quando as classes políticas ocidentais se mostravam indiferentes perante a catástrofe iminente.

Mas uma Terceira Guerra Mundial é, de facto, um ponto de não retorno.

"Ainda mais hoje, quando os arsenais das principais potências mundiais contêm armas capazes de destruir toda a vida ou, no mínimo, de reduzir a Terra a um estado catastrófico", afirmou Putin.

O que é deplorável é o tom de propaganda total do debate público no Ocidente. Qualquer pessoa que se atreva a falar sobre as causas históricas objetivas que deram origem às tensões atuais é censurada ou ridicularizada como um fantoche da Rússia.

Existem vozes eminentes de sensatez no Ocidente, como mencionado acima. Mas são sistematicamente excluídas do discurso público pelos media dominantes e pelo meio académico. O público tem de recorrer a fontes de comunicação social alternativas para se informar. Isso, felizmente, tem estimulado opiniões críticas entre um número cada vez maior de cidadãos, que questionam toda a política belicista de gastos militares desmedidos e o fornecimento de armas à Ucrânia para travar uma guerra fútil contra a Rússia. Notavelmente, esta semana, o chanceler alemão Friedrich Merz e Mark Rutte, da NATO, foram interrompidos e vaiados quando apareceram em público em Münster, na Alemanha.

Um número crescente de pessoas compreende que fomos empurrados para uma crise existencial pelos governos (regimes) ocidentais, que tomaram decisões antidemocráticas e secretas para travar uma guerra contra a Rússia há anos.

Como o antigo diplomata britânico Ian Proud salientou num excelente podcast esta semana, enquanto participava no fórum de Sochi, os governantes em Londres tomaram a decisão consciente de entrar em guerra com a Rússia já em 2014, quando o Ocidente patrocinou o golpe fascista em Kiev.

Outras figuras ocidentais, como a ex-responsável pela política externa dos EUA Victoria Nuland e o ex-secretário-geral da OTAN Jens Stoltenberg, também admitiram, nas suas próprias palavras, que a NATO armou deliberadamente a Ucrânia após 2014 com o objetivo de confrontar a Rússia. Isto aconteceu antes de as hostilidades terem eclodido na Ucrânia, em fevereiro de 2022.

Assim, o mundo foi empurrado para um "evento de extinção" nuclear, tudo devido à política ocidental de procurar o confronto com a Rússia, utilizando a Ucrânia como proxy.

A guerra é altamente provável, mas não é inevitável. Os políticos e os media ocidentais, através da sua arrogância e russofobia, estão certamente a fazer o possível para a tornar inevitável. Mas estes elementos criminosos podem não prevalecer.

Existem estruturas e leis internacionais; ainda existe a diplomacia, embora abusada e desrespeitada; talvez mais importante ainda, existe uma opinião pública massiva contra os odiosos belicistas; e há uma revolta social e política em expansão contra o sistema político ocidental, evidentemente falido.

A elite política ocidental que promove a guerra pode parecer dominante, devido às narrativas aparentemente dominantes dos media. Mas o seu poder é amplamente sobrestimado face à enorme oposição pública à sua agenda criminosa.

A história pode repetir-se, tal como aconteceu com os prelúdios das guerras infames anteriores. Contudo, uma diferença crucial desta vez é que pode haver suficiente consciência pública para não cair na armadilha dos belicistas para salvar o sistema podre.

Estamos à beira da destruição, mas há uma legítima esperança de que, ao invés da guerra, a destruição de amanhã possa ser a do sistema imperialista ocidental, dando assim lugar a um mundo verdadeiramente melhor, mais justo e pacífico.

02/Outubro/2026

[*] Strategic Culture Foundation.

O original encontra-se em strategic-culture.su/news/2026/10/02/on-the-eve-of-destruction-yes-but-whose-destruction/.

Este editorial encontra-se em resistir.info

05/Out/26