Musk, Trump e o presidente do patronato espanhol explicam como funcionam realmente o capitalismo e a corrupção

Juan Torres López [*]

Orçamento de Trump, cartoon de RJ Matson.

Os intelectuais de esquerda passam a vida a tentar explicar, em milhares de artigos e livros, como funciona o capitalismo. De repente, aqueles que o governam e dele se aproveitam mostram isso com toda a clareza numa frase.

Foi o que fizeram, com poucos dias de diferença, o homem mais rico do mundo, o político mais poderoso do planeta e o representante das grandes empresas espanholas. Mostrando os efeitos da recente lei orçamental de Trump, Elon Musk denunciou o que dezenas de economistas tentam explicar há anos:   não é verdade que, por trás das políticas chamadas de austeridade e agora de motosserra, haja economia. Efetivamente, há cortes nas despesas, mas apenas nas sociais, destinadas a melhorar a vida das pessoas com menos recursos. No entanto, ao mesmo tempo, aumentam-se os gastos militares que beneficiam as grandes corporações e os destinados a dar-lhes ajudas de todo o tipo, e reduzem-se os impostos sobre as grandes fortunas e empresas. Portanto, o gasto total aumenta e a dívida dispara.

Isso é exatamente o que sempre aconteceu com os governos liberais ou libertários que se gabavam de cortar gastos para economizar. Aconteceu na Europa da austeridade e no primeiro mandato de Trump. Neste último, os gastos públicos aumentaram 2,3 milhões de milhões de dólares e a dívida 36%, e no atual mandato isso vai acontecer novamente. O Gabinete de Orçamento do Congresso prevê que a lei recém-aprovada aumente a dívida em 3,8 milhões de milhões de dólares nos próximos dez anos.

O capitalismo e as políticas de motosserra são os principais geradores de gastos supérfluos e dívida, e devemos agradecer a Elon Musk por reconhecer isso.

Por outro lado, Donald Trump denunciou que Elon Musk e as suas empresas conseguiram lucros multimilionários graças a ajudas muito generosas do governo que ele ataca.

É verdade, mas isso não acontece apenas com as empresas de Musk. 60% da receita das empresas de defesa, tecnologia e consultoria vem dos governos. Só nos Estados Unidos, os contratos estatais com empresas totalizaram 759 mil milhões de dólares em 2023 e estima-se que recebam, no total, entre 1 e 1,8 milhão de milhões por ano (segundo diferentes estimativas) em subsídios, contratos públicos, compras governamentais, isenções fiscais específicas e outras formas de receitas diretas ou indiretas provenientes do Estado. O capitalismo dos nossos dias (na verdade, o de sempre, mas agora muito mais) não pode viver sem os gastos do Estado, e as empresas capitalistas precisam da sua injeção constante. Muito obrigado também a Donald Trump por lembrar isso.

Finalmente, o presidente da patronal espanhola, Antonio Garamendi, disse corrompe quem tem o poder».

Ele tem toda a razão. Faltou-lhe dizer que se referia ao poder económico, embora talvez quisesse ir mais longe e reconhecer, também com grande realismo, que quem detém este último detém igualmente o poder político, mediático, cultural, académico:   o poder, numa só palavra.

É muito gratificante que ninguém menos do que o representante das grandes empresas espanholas reconheça que são elas as causadoras da corrupção que nos envergonha e repugna. É óbvio que não haveria corrupção se as empresas decidissem não corromper, mas é de agradecer que o diga o seu máximo representante.

Muito obrigado, portanto, aos três. Se continuarem com esse trabalho pedagógico, a explicarem tão claramente como funciona o capitalismo, vão deixar sem trabalho os intelectuais e economistas críticos.

06/Julho/2025

[*] Catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Sevilha.

O original encontra-se em juantorreslopez.com/musk-trump-y-el-presidente-de-la-patronal-espanola-explican-como-funcionan-de-verdad-el-capitalismo-y-la-corrupcion/

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08/Jul/25

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