Há 150 anos, em 21 de abril de 1870, nasceu Vladimir Ilyich Ulyanov,
também conhecido como Lenine. Segundo muitos, ele foi o maior
revolucionário de todos os tempos, um homem que deu origem ao
internacionalismo e ao anti-imperialismo.
É tempo de "revisitar o comunismo". Também é
tempo de fazer algumas perguntas básicas e essenciais:
"Como é possível que um sistema tão lógico,
progressivo e tão superior ao que ainda hoje governa o mundo, não
tenha derrubado permanentemente o niilismo e a brutalidade do capitalismo,
imperialismo e neocolonialismo?"
Sem qualquer dúvida, foram-nos ditas coisas horríveis sobre o
Comunismo, especialmente se se vive no Ocidente ou num dos países
totalmente sob o controlo dos centros do anticomunismo: Washington, Londres ou
Paris.
Fomos forçados a ler, repetidas vezes, acerca do
"estalinismo", do massacre da Praça da Paz Celestial e do
genocídio dos Khmer Vermelhos. Repetidas vezes foi elaborada uma mistura
de meias-verdades, completas invenções e
interpretações distorcidas da História mundial.
As probabilidades são de que muito poucos tenham estado na
Rússia, China ou Camboja e feito aí alguma
investigação séria.
Fomos informados de que o Camboja seria o melhor exemplo de Comunismo selvagem.
Porém, nunca se percebeu que Pol Pot e seus extremistas Khmer Vermelhos
eram totalmente apoiados pelos Estados Unidos, não pela União
Soviética e nunca com entusiasmo pela China. Eles nunca foram realmente
"Comunistas" (fiz uma pesquisa detalhada no país, e até
os guardas pessoais de Pol Pot me disseram que não tinham ideias acerca
do Comunismo e apenas tinham reagido ao monstruoso bombardeio americano nos
campos do Camboja e à colaboração do capital com o
Ocidente).
Nesse período, a maioria das pessoas morreu em resultado exatamente dos
bombardeios cometidos pelos B-52 dos EUA e em resultado da fome. Fome que veio
depois de milhões de camponeses se terem deslocado devido à
selvajaria do bombardeio e pelos materiais que não haviam explodido,
deixados por todo o lado nos campos.
Nunca foi dado conhecimento de que várias sondagens, uma após
outra realizadas na Rússia, ainda mostram que a maioria das pessoas
gostaria de ter a União Soviética Comunista de volta. E mesmo nos
ex-Estados de maioria muçulmana, incluindo o Quirguistão e o
Uzbequistão, uma tremenda maioria das pessoas que lá encontrei,
recordava o tempo da União Soviética como uma idade de ouro.
E a chamada ocupação soviética do Afeganistão?
Trabalhei, filmei e fiz reportagens em três ocasiões,
relativamente recentes. Incontáveis pessoas afegãs, indignadas
com a continuada ocupação ocidental do seu país,
contaram-me histórias, ilustrando o contraste entre sua era socialista,
tolerante, progressista e otimista e o horror atual, durante o qual o seu
país se afundou ao nível mais baixo da Ásia, de acordo com
o PNUD e a OMS. Trabalhei em Cabul, Islamabad, Herat, Bagram; ouvi as mesmas
histórias e a mesma nostalgia dos professores, enfermeiras e engenheiros
soviéticos.
Inundados pela implacável propaganda ocidental, as pessoas nunca
perceberam realmente quão popular é o Partido Comunista da China
no seu próprio país e como a ideologia comunista é apoiada
no Vietname, Laos e Coreia do Norte.
Se alguém for à sua livraria local na América do Norte,
Europa ou mesmo em Hong Kong, para não falar da Austrália, as
hipóteses são de que apenas descubra livros escritos por
"dissidentes" chineses ou russos anticomunistas, pessoas que vivem de
subsídios ocidentais, recebendo inúmeros prémios para que
gastem toda a sua energia manchando o Comunismo e glorificando a
contra-revolução. Escritores como a ucraniana Svetlana
Alexievich, que recebeu o Prémio Nobel de literatura, por cuspir nas
sepulturas dos soldados soviéticos que morreram em defesa do socialismo
afegão.
Os filmes a que poderia assistir, em canais comerciais, não seriam
diferentes dos livros que tinha sido encorajado a ler.
O anticomunismo no Ocidente e nas suas colónias é uma
indústria tremenda. É facilmente a maior e mais continuada
campanha de propaganda na história do mundo. Suas metástases
espalham-se até ao âmago dos próprios países
Comunistas e socialistas.
Tudo isto porque os países imperialistas ocidentais sabem perfeitamente
que seu império só pode sobreviver se o Comunismo entrar em
colapso. Porque a própria essência do
Comunismo é a luta perpétua contra o imperialismo.
Slogans falsos, mas muito eficazes, como vírus informáticos
(bugs),
estão sendo implantados nos cérebros. São repetidos
constantemente, às vezes centenas de vezes por dia, sem que
ninguém se aperceba: "O Comunismo está morto!".
"Está desatualizado, é
aborrecido
". "A China já não é Comunista." "O
Comunismo é cinzento. A vida sob o Comunismo é controlada e
monótona". "As pessoas sob o Comunismo não têm
liberdade nem democracia".
O oposto é a verdade. Construir confiante e entusiasticamente uma
sociedade nova e melhor para o povo, é definitivamente mais
satisfatório (e "mais divertido") do que apodrecer na agonia
constante do medo, preocupando-se com hipotecas, empréstimos estudantis
e emergências médicas. Competindo com os outros, pisando os outros
e até arruinando outros seres humanos. Vivendo vidas vazias, tristes e
egoístas.
De maneira absurda e paradoxal, a propaganda ocidental acusa constantemente o
Comunismo de violência. Mas o Comunismo é o maior
adversário do sistema mais violento da Terra: o colonialismo e o
imperialismo ocidental. Centenas de milhões de seres humanos
desapareceram em seu resultado, ao longo dos séculos. Centenas de
culturas avançadas foram arruinadas. Continentes inteiros foram
saqueados.
Antes do Comunismo soviético, antes da própria URSS, não
havia oposição verdadeira e poderosa ao imperialismo ocidental. O
colonialismo e o imperialismo eram um dado adquirido; eles eram "a ordem
mundial".
A União Soviética e a China ajudaram a descolonizar o mundo. Cuba
e a Coreia do Norte, dois países Comunistas, lutaram heroicamente e com
sucesso e trouxeram a independência para África (algo que o
Ocidente nunca esqueceu nem perdoou).
Mas lutar pela liberdade e pelo fim do colonialismo não é
violência; é defesa, resistência e luta pela
independência.
Como regra, o Comunismo não ataca. Ele defende-se e defende os
países que estão sendo brutalizados. Num trabalho futuro
abordarei duas "exceções"; e explicarei dois casos que
são constantemente mal interpretados pela propaganda da direita: Hungria
e Checoslováquia.
Mas voltando à chamada "violência Comunista". O meu
amigo e camarada, o lendário intelectual e professor russo
Alexander Buzgalin
escreveu no seu recente trabalho, "Lenine: Teoria como Prática,
Prática como Criatividade" (para assinalar o 150º
aniversário do nascimento de Lenin):
"Há um princípio em ação aqui:
não é a revolução socialista que provoca
violência em massa, mas a contra-revolução burguesa, que
começa quando o capital percebe que está perdendo as suas
propriedades e o poder.
Em resposta à vitória geralmente pacífica e, em muitos
casos, legítima da esquerda, o capital desencadeia violência
selvagem e bárbara. A esquerda é confrontada com a questão
de responder ou não a essa violência. Se acontecer a guerra, a
partir daí as leis da guerra aplicam-se, e centenas de milhares
são enviados para a morte, para que milhões possam ser
vitoriosos. Esta é a lógica da guerra."
"A revolução foi realizada. Foi vitoriosa. Na perspetiva
mais ampla, os vencedores não eram tanto os bolcheviques quanto os
sovietes, nos quais a maioria apoiava a posição dos bolcheviques.
A revolução foi substancialmente pacífica, prevalecendo
quase sem derramamento de sangue. Os combates mais violentos ocorreram em
Moscovo, onde os mortos de ambos os lados foram de alguns milhares. Além
disso, a imagem era de uma "procissão triunfal do poder
soviético" (este destaque nos livros didáticos
soviéticos não foi acidental)."
"No inverno de 1917-1918, a relação de forças viu
meio milhão de membros da milícia operária, a Guarda
Vermelha, colocados frente a algumas dezenas de milhares de membros da Guarda
Branca no sul da Rússia. Tudo ficou calmo até a
contra-revolução receber grandes somas de dinheiro da
Tríplice Aliança (principalmente da Alemanha) e da Entente, e
todos esses países imperialistas lançaram agressões contra
o jovem poder soviético".
Esta é uma visão brilhante de Aleksandr Buzgalin. Abordei este
tópico em muitas ocasiões, mas nunca de forma tão
coerente. E isso aplica-se a inúmeros exemplos, por todo o mundo em que
o Ocidente provocou e brutalmente antagonizou países socialistas ou
comunistas, depois acusou-os de crueldade e finalmente "libertou-os"
em nome da liberdade e da democracia, literalmente violando a vontade de o seu
povo. Tudo isso para o imperialismo europeu e norte-americano sobreviver e
prosperar.
Vamos relembrar apenas alguns exemplos: URSS, Indonésia 1965, Chile
1973, Bolívia 2019. E a maior tentativa até hoje: desestabilizar
e derrubar o sistema chinês de enorme sucesso. Mas existem, é
claro, inúmeros outros exemplos em todos os cantos do globo.
Ron Unz, editor da
The Unz Review
, escreveu num seu relato em "
American Pravda Series
": "A catástrofe de coronavírus será uma
reviravolta na guerra biológica?", recordando quando a China
protestou em 1999, contra o bombardeio da NATO à sua embaixada em
Belgrado:
"Quando considerei que o governo chinês ainda estava teimosamente a
negar o massacre dos estudantes em protesto na Praça Tiananmen uma
década antes, concluí que era de esperar tal comportamento
irracional por funcionários da RPC" (
.)
"Tais eram os meus pensamentos sobre o assunto há mais de duas
décadas. Mas nos anos que se seguiram, a minha compreensão do
mundo e de muitos eventos cruciais da História moderna sofreu
transformações abrangentes que descrevi na minha série
"American Pravda". Algumas das minhas suposições dos
anos 90 estavam entre elas".
"Considere-se, por exemplo, o Massacre da Praça da Paz Celestial
que no dia 4 de junho ainda é evocado numa onda anual de duras
condenações, nas páginas de notícias e
opiniões de nossos principais jornais. Eu nunca duvidei desses factos,
mas há um ano ou dois encontrei um pequeno artigo do jornalista Jay
Matthews intitulado "O Mito de Tiananmen" que inverteu completamente
essa aparente realidade".
"Segundo Matthews, o infame massacre aparentemente nunca aconteceu, foi
apenas um artifício dos media, produzido por repórteres
ocidentais embaraçados e propaganda desonesta, uma crença
equivocada que rapidamente foi incorporada nas histórias dos media,
repetida sem cessar por tantos jornalistas ignorantes que acabaram por
acreditar que fosse verdade. Em vez disso, o mais próximo
possível de ser determinado, foi que todos os estudantes que protestavam
deixaram a Praça da Paz Celestial pacificamente, exatamente como o
governo chinês sempre manteve. De facto, importantes jornais como o
New York Times
e o
Washington Post
ocasionalmente reconheceram esses factos ao longo dos anos, mas geralmente
enterraram essas escassas admissões tão profundamente que poucos
notaram. Enquanto isso, a maior parte dos media convencionais caíram
numa evidente fraude".
"O próprio Matthews tinha sido chefe da delegação em
Pequim do
Washington Post,
cobrindo pessoalmente os protestos na época. O seu artigo apareceu na
Columbia Journalism Review,
a publicação de maior prestígio quanto a críticas
aos media".
Além disto, o que os grandes media ocidentais descreviam como um grupo
de "combatentes da liberdade" e "movimento
pró-democracia" tinha um número substancial de radicais nas
suas fileiras, até mesmo racistas, que protestavam contra a
presença de negros nas universidades chinesas. Exigiram a
proibição dos seus relacionamentos com mulheres chinesas. Foram
totalmente apoiados e, pelo menos, parcialmente financiados pelo Ocidente,
simplesmente devido ao seu anticomunismo selvagem, agressivo e fundamentalista.
O governo chinês não quer mais tocar neste assunto. Acha que,
perante a propaganda maciça do Ocidente, não é
possível entender a História. Em resumo, no Ocidente perdeu-se o
conteúdo das narrativas.
(continua)
[*]
Filósofo, romancista, cineasta e jornalista de
investigação, tendo coberto guerras e conflitos em dezenas de
países. É o criador de
Vltchek's World in Word and Images
. Alguns dos seus livros:
China's Belt and Road Initiative: Connecting Countries Saving Millions of Lives
. Escreve regularmente para
"New Eastern Outlook".
O original encontra-se em
journal-neo.org/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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