As hienas mitradas

por Rodrigo Granda [*]

Hiena sem mitra. Somos profundamente respeitosos de todos os credos, cultos e religiões que os nossos compatriotas resolvam professar e praticar.

Acreditamos que todas estas expressões, das diversas igrejas, devem estar em pleno plano de igualdade para realizar uma actividade sã entre seus congregados e para isso devem contar com a protecção e as garantias do Estado.

Sendo o nosso povo maioritariamente pertencente à igreja cristã, apostólica e romana queremos compartilhar convosco algumas reflexões sobre o sector mais retardatário, primitivo e cavernícola da referida igreja, no entendimento de que sempre desejámos trabalhar com as comunidades eclesiais de base, e pelo menos coordenar actividades com a alta hierarquia em aspectos fundamentais para o bem estar do nosso povo. Somos daqueles que crêem que revolução e religião podem marchar juntas rumo à sagrada comunhão humana se, parafraseando Whitman, exprimimos que: o que é teu deve ser nosso, pois cada átomo te pertence, tanto como pertence a nós.

Devemos recordar que Jesus de Nazaré enfrentou o império escravocrata romano que naquela época dominava a Judéia apoiado pelas classes ricas.

A pregação da igualdade e do amor entre os homens; a defesa dos pobres; a justiça social, o deslinde do reino eterno de Deus; do temporal e do terreno dos homens, foram razões mais que suficientes para declarar insurgente o filho do homem, levá-lo a julgamento político perante o tribunal de raposas, julgá-lo e condená-lo a açoites, vexames, tortura e crucificação.

Com o assassinato de Jesus, Roma acreditou haver aniquilado um perigoso broto de descontentamento na vasta superfície do seu império. Equivocou-se. Os discípulos seguiram os ensinamentos do Mestre, nas condições difíceis da clandestinidade, abrigados na catacumbas, ganhando novos adeptos.

O Imperador decreta a perseguição dos cristãos. A repressão brutal vai desde a decapitação, a crucificação ou a utilização dos presos no circo romano onde eram lançados para serem devorados por tigres e leões perante o delírio da aristocracia romana e o fanatismo de uma turba embrutecida e enganada. Demonstrações de infinito heroísmo, digno de imitar, legaram-nos estes primeiros mártires do verdadeiro cristianismo.

Vã ilusão resultou ser a repressão. Novos adeptos substituíam os caídos e o fenómeno reproduzia-se em espiral incontível.

As contradições próprias do império, ao estender indefinidamente suas fronteiras, debilitavam sua unidade.

Constantino Primeiro, o Grande, teve a antevisão de perceber no cristianismo a possibilidade de preservar a coesão do império. Perante a impossibilidade de exterminá-los, decide atraí-los, negociar com eles. Ele próprio "converte-se" ao cristianismo no ano 313 d.c. e com o Édito de Milão fica selado o pacto entre o divino e o humano.

Começa assim, para o caso particular da Religião Católica, uma estranha simbiose entre o poder celestial e o poder opressor terreno, antes combatido por Jesus.

A nova condição criada cumulou de privilégios uma cúpula de sotaina complacente e vendida, famélica de dinheiro e poder, que se afastou das suas bases e esqueceu os perseguidos e mártires. Surge um clero rico que fundiu seus interesses indissoluvelmente aos da casta governante. Ambos necessitavam-se e deviam trabalhar em conjunto até o fim dos séculos.

Com o decorrer do tempo o papado acumula um poder impressionante, baseado na conversão de príncipes ao cristianismo, agrupados nos Estados Pontifícios, onde o Papa era soberano absoluto. As possessões feudais dos dignitários eclesiásticos em todos os países, desde as pequenas paróquias rurais passado pelos arcebispados, bispados, abadias e conventos; o controle da educação; o dinheiro; a acumulação de metais e pedras preciosas; e, sobretudo, explorando a ignorância e os sentimentos de temor do homem quanto ao que viria depois da morte: o suplício eterno no inferno ou o gozo perpétuo no céu "à direita de Deus, pai todo poderoso".

Sendo o poder para exercê-lo, os ricos no interior da igreja aproveitam-no para prosseguir sua expansão a todo o ocidente, em aliança ou valendo-se de tronos amigos. Todo método foi válido. As Cruzadas contra a Terra Santa foram pretexto para a conquista de territórios no Médio Oriente; a inquisição foi arma letal para levar à fogueira e queimar vivos adversários acusados de heresia; o ataque às ciências uma das formas de impor o obscurantismo no longo período da idade média evitando o avanço e desenvolvimento da humanidade, uma vez que as luzes do saber desterram o medo e a opressão.

Submetida a Europa, muitos curas viajaram com os expedicionários espanhóis até o novo mundo. Conquistadores e sacerdotes investiram contra as crenças e adorações milenares dos nativos politeístas. Templos ao Deus Sul, à Deusa Lua, à mãe terra, à água, ao jaguar, etc foram demolidos e sobre suas ruínas construíram-se as igrejas da nova ordem imposta através da violência e do saque. Os amos chegados do velho mundo deviam converter ao cristianismo aquelas criaturas não consideradas humanas porque desconheciam a existência do único "Deus verdadeiro" trazido pela Igreja e pela Coroa ao nosso continente. Destes homens descendem as modernas hienas mitradas colombianas.

O Vaticano reuniu os teólogos para decidir, ao seu talante, se o índio tinha alma ou não. Definido positivamente o problema criaram-se os resguardos, com o fim aparente da conversão do índio à fé cristã, que ocultava maliciosamente a exploração do mesmo, a mãos dos curas e senhores feudais.

A espada e a cruz tornaram-se no saque do índio. Frente a estes atropelos Frei Bartolomeu de las Casas levantou a sua voz para defender o fraco e Pedro Claver entregou-se de corpo e alma à mitigação das penúrias dos escravos negros, enquanto o bispo de Cuzco protegeu Atahualpa. Foram raras excepções nesse ruinoso e mesquinho mundo da conquista e da colónia, onde a perfídia e a traição levam o oprobrioso nome do Arcebispo Caballero y Góngora manchado com o sangue de Galán e seus comuneiros.

As intrigas eclesiásticas não escaparam a Bolívar e aos patriotas. O terremoto da semana santa de 1812, que destruiu Caracas e outras cidades da Venezuela, foi imputado pelo clero à fúria divina desencadeada para castigar quem se atrevia a desafiar a autoridade do Rei. Também os curas propalaram a noção de que Bolívar e a sua tropa eram a encarnação do anticristo que, tal como o cavaleiro do Apocalipse, trazia a destruição e a morte. Os bispos de Popayán e Bogotá excomungaram o pai da liberdade pelo delito de brandir a sua espada contra a tirania e a opressão.

Chegada a república, como na época de Constantino, o clero colombiano espalha incenso sobre o mais apodrecido dos novos governantes e, qual camaleão no cio, insere-se no processo unindo-se à parte mais retardatária dos potentados da terra, os comerciantes, prestamistas usurários e banqueiros encabeçados pelo santanderismo para truncar as mudanças que deviam verificar-se na nação recém libertada. Aliaram-se à oligarquia liberal-conservadora contra o povo que sempre detestaram.

Na escura e aziaga noite da primeira violência (1946-1957), Monsenhor Builes , o mais destacado representante do alto clero, declarou que "matar liberais e comunistas não é pecado mortal", inaugurando a aliança indissolúvel da igreja rica com o terrorismo de Estado que se prolonga até os nossos dias. A partir dos púlpitos das igrejas incitava-se à violência contra os opositores ao governo; muitos curas marcharam à frente de operações punitivas para matar liberais e comunistas ao grito de Viva Cristo Rei!, Viva a Virgem Maria!

As trezentas mil almas e corpos despedaçados a facão naqueles anos eram filhos de Jesus; eram filhos do povo, não os de Satanás da oligarquia.

Com alvoroço a igreja recebeu a mudança de opinião de Rojas Pinilla, ao fim e ao cabo era um bom cristão que não faltava à missa e comungava todas as sextas-feiras, além disso lhes abriu as portas dos quartéis para os capelães que abençoavam as armas da ditadura.

Sem traumas, passaram à Frente Nacional . Sentiam profundo orgulho por defender o mundo ocidental e cristão contra o comunismo e os ateus.

Não os comoveu o Concílio Vaticano II, com seu apelo à opção pelos pobres e foram alheios à teologia da libertação. Helder Câmara e Casaldáliga no Brasil, Monsenhor Romero em El Salvador, o Padre Luna no Equador nada representavam para eles. Entretido a acariciar os seus dólares, não se deram conta que outra igreja surgia em seu redor. Os Sacerdotes Camilo Torres Restrepo, Manuel Pérez e muitos outros, na Colômbia, mostraram com o seu exemplo a consequência com a causa de Cristo.

Hoje esse sector de hienas mitradas, sedentas de sangue e alimentadas com dólares, trabalha abertamente pelo projecto fascista no nosso país.

Recordemos que há poucos meses um dos chefes paramilitares detido em Itagui manifestou que Monsenhor Cansino protegia o seu amigo, o assassino de moto-serra Carlos Castaño , e que este havia sentido grande pesar quando soube que o purpurado fora alvejado, certamente por outra fracção dos mesmos bandidos, acrescentando que Castaño comentou que, com Monsenhor Cansino, desaparecia uma das grandes cabeças do exclusivo e ultra secreto grupo das oito pessoas que fundaram o paramilitarismo na Colômbia.

Os descendentes da igreja espanhola do Santo Ofício, de Builes e companheiros de Cansino, Monsenhores Pedro Rubiano, Fabián Marulanda e Julio César Vidal Perdomo, assemelham-se a Torquemadas modernos recém saídos do potro da inquisição em busca de novas vítimas para refundar, com seus métodos, a república pela mão dos seus amiguinhos do Ralito e capitaneada por Uribe e sua corte perversa.

Isto explica porque todos estes senhores, que nunca condenaram nos púlpitos os massacres paramilitares, opõem-se à Troca Humanitária, pregam a guerra, estimulam o resgate de prisioneiros a sangue e fogo, participam nas marchas contra as FARC-EP e sabotam os diálogos de paz.

Felizmente dentro do clero colombiano e entre os cristãos de base existem arcebispos, bispos, sacerdotes e freiras, homens e mulheres de todas as idades que amam seus semelhantes, tal como Jesus, e que certamente entendem que estas hienas de anel dourado e crucifixo no peito são os novos Judas Iscariotes que, rompendo as tábuas sagradas da Lei de Deus, converteram-se no açoite da Colômbia.

24/Fevereiro/2008

[*] Dirigente das FARC-EP

O original encontra-se em Agencia Bolivariana de Prensa


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26/Fev/08