Acerca de uma ordem de Uribe emitida por Chávez e outros desatinos

por Dax Toscano [*]

O presidente Hugo Chávez Frías demonstrou, ao longo da sua permanência no governo, manter uma postura consequente com os interesses dos sectores populares na Venezuela; do mesmo modo, seu discurso e suas acções contra o imperialismo ianque foram frontais. Chávez exprimiu pela palavra e com actos concretos sua solidariedade internacionalista com os povos latino-americanos, ainda que muitas acções lamentavelmente se hajam canalizado através dos governos da região e não através do trabalho directo com organizações revolucionárias e progressistas latino-americanas.

Apesar do exposto, o presidente Chávez, sobretudo a partir da derrota sofrida no referendo realizado a 2 de Dezembro de 2007 a fim de decidir acerca de uma mudança constitucional proposta principalmente por ele, cujo objectivo fundamental era dar maior poder ao povo e possibilitar a aceleração das mudanças revolucionárias na Pátria de Bolívar, assumiu em diversas ocasiões atitudes, através da sua palavra, que contradizem sua constante pregação pela construção do socialismo, a luta anti-imperialista e a defesa dos interesses do povo venezuelano. Diante do exporto, é necessários efectuar algumas precisões.

1. É evidente que o presidente Chávez se encontra sequestrado pelo aparelho burocrático que o cerca. Há uma mudança completa na conduta do líder da revolução bolivariana. Sua prática o demonstra. Já não existe um contacto directo com o povo. As aparições públicas fazem-se nas grandes concentrações, bastante desgastadas, em coliseus ou avenidas onde o povo escuta passivamente os discursos de Chávez. O contacto directo com as pessoas, com a classe trabalhadora, não se dá. Os grupos próximos ao presidente são os burocratas oportunistas disfarçados de bolivarianos e, agora, também de socialistas. São os reformistas, representantes do chamado socialismo do século XXI, corpo de ideias elaboradas pelo senhor Heinz Dieterich, personagem chave no estancamento da revolução venezuelana e latino-americana que a todo custo tem pretendido evitar que a classe operária assuma o controle do processo revolucionário.

2. Essa desvinculação das bases que formam o movimento revolucionário bolivariano é uma das causas que leva Chávez a não encontre o rumo adequado para a revolução e a tão relembrada construção do socialismo. Há que ressaltar neste contexto, como um elemento importante, o projecto de construção de um partido de massas. Contudo, esse partido deve ter um corpo de princípios teóricos coerentes que permitam levar adiante, na prática e através de uma luta permanente, a tomada do poder para construir a sociedade socialistas. Se esse partido está conformado e estruturado da mesma maneir que o Estado ou o governo, se não se desburocratiza em primeiro lugar, não chegará a constituir-se como vanguarda da revolução. Se a organização revolucionária não propõe a destruição da velha ordem capitalista, se fala da conciliação de classes e, portanto, não luta para afectar os interesses da oligarquia e do imperialismo, não avançará em absoluto na sua consolidação como partido revolucionário.

3. O isolamento do povo fez com que Chávez não compreendesse a dimensão das exigências populares, das bases revolucionárias, chegando inclusive a acusar esses sectores de serem os responsáveis pela derrota no referendo de Dezembro de 2007. Talvez pelo seu mal estar, não se deu conta de que os verdadeiros culpados – para além do imperialismo ianque, da CIA, da oposição fascista e da falsimedia que efectuaram uma poderosa campanha de terrorismo económico e mediático contra o seu governo – foram seus ministros, seus assessores e personagens servis que trabalham no governo. Também há que dizer com clareza que Chávez está inflado, o que o levou a manter uma cegueira frente ao evidente. O povo exige o aprofundamento da revolução e Chávez respondeu que é necessário reduzir o andamento do processo de mudanças. Foi Chávez que não compreendeu as exigências do povo e foi ele que não se colocou à altura das circunstâncias.

4. Cegueira, vaidade, irreflexão, má assessoria podem ser os elementos que fizeram com que Chávez lançasse declarações absurdas contra os que, segundo ele, são extremistas por quererem acabar com a grande propriedade privada. Chávez, ao invés de avançar politicamente, retrocedeu à sua antiga posição de defesa da terceira via que é o que representa realmente o famoso socialismo do século XXI. Pretender levar adiante a conciliação de classes foi um dos mais graves erros do líder bolivariano, o que deu mais força à direita. Chávez deveria ter claro que onde existe a grande propriedade privada, principalmente sobre a banca, sobre a terra e as indústrias básicas e de serviços, há exploração social. Enquanto Chávez fazia essas declarações, a oligarquia venezuelana, em obediência aos planos do imperialismo ianque, continuava, e ainda continua, com a especulação de produtos e o desabastecimento dos alimentos nos mercados. Esses são os empresários e capitalistas honestos do quais fala Chávez. Tão equivocada foi a sua posição que num cenário onde estavam reunidos os sectores comprometidos com a revolução, o povo indignado perante o primeiro revés eleitoral do chavismo começou a lançar acusações e insultos contra a burocracia de T-shirt e boina vermelha, diante do que Chávez desgostoso começou a repreende-los, ao invés de escutar a voz do povo.

5. O cúmulo do absurdo deu-se quando o presidente Hugo Chávez, ingenuamente, concedia a amnistia a um grupo de golpistas que foram os responsáveis directos das mortes e assassinatos de vários pessoas em Abril de 2002. Fê-lo como um sinal de boa vontade? Ou como sinal de fraqueza? Seja qual for a razão, Chávez, mais uma vez, com essa medida beneficiava os sectores da oposição fascistas e deixava de lado as famílias de Puente Llaguno, da avenida Baralt, o que, inclusive, significou um agravo à memória de Danilo Anderson. Chávez deve recordar que aquele que não aprende com a história está condenado a repeti-la. A luta é pelo poder, não só pelo governo; e nessa luta a oligarquia e o imperialismo utilizará todos os meios ao seu alcance para manter a ordem estabelecidas. Chávez na sua ingenuidade pode crer que a sua moderação fará que eles se moderem, mas eles, em troca, interpretarão como sinal de fraqueza e começarão a golpear com mais força.

6. A nível internacional Chávez também se mostrou incoerente. Primeiro lança ataques contundentes contra o narco-paramilitar Uribe, para a seguir acabar dando-lhe a mão e a rir com o genocida do povo colombiano na Cimeira do Rio celebrada na República Dominicana. O presidente Chávez deve ser consistente tanto com o que diz como com o que faz. Não deve actuar de acordo para que, como a falsimedia quer que o faça, digam que é um moderado, um personagem politicamente correcto.

7. O show não culminou. A seguir a outros rounds entre Chávez e seus diplomatas contra o fascista colombiano, nos quais os insultos e as acusações iam e vinham, principalmente após o circo montado pelos computadores supostamente de propriedade do comandante Raúl Reyes e do relatório da Interpol, o presidente venezuelano, consciente ou inconscientemente, mais uma vez deu mostras de querer congraçar-se com o seu homólogo colombiano, desta vez emitindo disposições para as FARC-EP com um discurso que nem o próprio Uribe teria feito tão bem: "libertem os prisioneiros em troca de nada", "deixem a luta armada, isso já passou à história", "vocês são a desculpa para os ataques dos EUA na região". Parece que Chávez não leu a carta de Simón Trinidad, prisioneiro político do império, na qual cita Nelson Mandela o qual diz que "a forma de luta não a determinam os oprimidos e sim os opressores". O presidente Chávez deve dar-se conta de que não são as FARC-EP as que querem continuar alçada em armas por estarem obcecadas com esse tipo de luta. É o estado colombiano que, através da prática da violência institucionalizada, obriga os revolucionários a defenderem-se e a combater legitimamente pela armas o poder opressor.

8. Clausewitz disse que a guerra não é senão a continuação da política por outros meios. A FARC-EP são uma organização político-militar, não apenas militar. Parece que Chávez não quer recordar que quando as guerrilhas aceitaram negociar a paz e inclusive participar nos processos eleitorais da democracia burguesa colombiana, foram assassinados 5000 membros da União Patriótica. O que se passaria agora se os guerrilheiros chegassem a desmobilizar-se? Acaso não é uma lição o que sucedeu com o M-19? Não é um ensinamento o que aconteceu com os guerrilheiros na Guatemal e em El Salvador? Os paramilitares ficariam muito satisfeitos por matar seus inimigos desarmados. Chávez pede que as FARC-EP acabem com a luta armada sem perceber que os que têm o poder poderão continuar a fazer uso da violência sem que os outros tenham capacidade resposta. É um absurdo pedir que se acabe com uma estrutura organizativa popular criada com base no suor, sacrifício, dor e morte. Do mesmo modo é uma ingenuidade pensar que as FARC-EP devem desmobilizar-se para a seguir conseguir espaços políticos dentro da ordem burguesa. Isso fizeram-no os guerrilheiros do M-19 como Carlos Pizarro ou Navarro Wolf. As FARC têm um projecto mais amplo cujo objectivo é mudar a estrutura de um Estado fascistóide, corrupto, pro-ianque que mergulhou a maioria da população na pobreza.

9. Chávez advogou também pelos prisioneiros em poder das FARC-EP, fundamentalmente por Ingrid Betancourt. O comandante Pastor Alape fez uma reflexão sobre isto: A saúde de Ingrid e do resto dos prisioneiros em poder das FARC-EP também deveria levar o mundo a pensar na saúde dos milhões de colombianos e colombianas que vivem na pobreza. Por outro lado, o presidente Chávez também deveria propor com a mesma ênfase que se libertassem os prisioneiros em mãos do Estado colombiano e que estão a ser torturados nos cárceres.

10. O açodamento de Chávez nas suas declarações levou-o a dizer que as FARC-EP são o pretexto dos EUA para criar conflito na região. Como conhecedor da história, Chávez deve saber que os Estados Unidos desde o século XIX tem criado conflitos entre os povos da América. Os EUA historicamente pretenderam tornar inimigos nossos países. Para isso valeram-se de governos títeres e de ingénuos que, temerosos frente ao seu poderio militar, querem conciliar com esses governos títeres. As FARC-EP, ao contrário do que assinala Chávez, constituem garantia para que o imperialismo não tenha lançado ataques mais contundentes contra a região.

11. O presidente Chávez está no seu direito de exprimir suas posições em relação a quaisquer temas. Mas não pode pretender converter-se no guia espiritual da luta de outros povos. Deve manter respeito e consequência com as organizações revolucionárias que demonstraram ser firmas na luta contra o imperialismo e as oligarquias crioulas na América Latina. Só os povos são os que decidem. Eles são os verdadeiros actores e sujeitos da mudança. Não os mecenas de qualquer tipo. O que diria Chávez se as FARC-EP ou outra organização revolucionária lhe pedisse que lhe possibilitasse a saída ao ar da RCTV? Ou o que faria se lhe exigissem que se isolasse de Cuba porque essa é a desculpa do imperialismo para perturbar a região?

12. Chávez deve definir com quem mantém relações estreitas: se com os governos ou com os povos e suas organizações revolucionárias.

Nesta luta o caminho que resta está entre fazer uma verdadeira revolução socialista ou uma caricatura de revolução. E, finalmente, Chávez deve aprender que quando as palavras estão a mais o melhor é manter silêncio.

Quito, 11 de Junho de 2008

Ver também:
  • PCV: El Imperialismo no necesita excusa para agredir a los Pueblos
  • Qué dijo y qué no dijo Chávez
  • As guerrilhas não são uma moda, são uma resposta à repressão e ao fechamento político

    [*] Jornalista e professor universitário, equatoriano, autor do livro "El modelo de propaganda contra Cuba".


    O original encontra-se em www.abpnoticias.com/index.php?option=com_content&task=view&id=297&Itemid=92

    Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
  • 18/Jun/08