Abandonar o campo de batalha!

por Michel Chossudovsky

"Ao longo da história da espécie humana tem havido assassinos e tiranos; e apesar de poder parecer que eles momentaneamente têm a supremacia, acabam sempre por cair". (Mahatma Gandhi)

"Os Estados Unidos abandonaram pretensões quanto à legalidade internacional e à decência, embarcaram numa rota de imperialismo primário enlouquecido" (William Rockler, promotor no Tribunal de Nuremberg)

Retornam do Iraque. Esta é uma guerra criminosa. Ela viola a Carta de Nuremberg , a Constituição dos EUA e a Carta das Nações Unidas.

Lawrence Mosqueda, num artigo publicado em Março de 2003, pouco antes do assalto ao Iraque dirigido pelos EUA apresentou o seguinte parecer:

As tropas americanas tem "Um dever de desobedecer a todas as ordens ilegais ("A Duty To Disobey all Unlawful orders"). (Ver http://www.globalresearch.ca/articles/MOS303A.html )

O juramento militar prestado no momento da conscrição repousa no apoio e na lealdade à Constituição dos EUA, se bem que exija que as tropas americanas obedeçam às ordens do seu Presidente e Comandante em Chefe:

"Eu, ______________, juro (ou afirmo) solenemente que apoiarei e defenderei a Constituição dos Estados Unidos contra todos os inimigos, estrangeiros e internos, que prestarei verdadeira fé e lealdade à mesma, e que obedecerei às ordens do Presidente dos Estados Unidos e às ordens dos oficiais nomeados como meus superiores, de acordo com os regulamentos do Código Uniforme de Justiça Militar. Ajude-me Deus nisso".

O Presidente e Comandante em Chefe violaram grosseiramente todos os princípios do direito interno e internacional. Assim, fazer um juramento para "obedecer às ordens do Presidente" é equivalente a violar ao invés de defender a Constituição dos EUA.

Segundo Lawrence Mosqueda:

"O Código Uniforme de Justiça Militar (UCMJ) 809.Art.90 (20) torna claro que o pessoal militar precisa obedecer o "comando legal do seu oficial superior", 891.Art.91 (2), a "ordem legal de um primeiro sargento", 892.Art.92 (1), a "ordem geral legal", 892.Art.92 (2), a "ordem legal". Em cada caso o pessoal militar tem uma obrigação e um dever de obedecer apenas ordens Legais e na verdade tem uma obrigação de desobedecer ordens Ilegais, incluindo ordens do presidente que não cumpram o UCMJ. A obrigação moral e legal é para com a Constituição dos EUA e não para com aqueles que emitam ordens ilegais, especialmente se tais ordens estiverem em violação directa da Constituição e do UCMJ". (Mosqueda, op cit, http://www.globalresearch.ca/articles/MOS303A.html )

O Comandante em Chefe é um criminoso de guerra. Segundo o Princípio 6 da Carta de Nuremberg:

"O facto de que uma pessoa [ex. tropas da Coligação] actuar de acordo com ordens dos seu Governo ou de um superior não o livra de responsabilidade sob o direito internacional, desde que uma escolha moral seja de facto possível para ele.

O MOVIMENTO GI

Vamos tornar possível esta "escolha moral" para os alistados americanos, britânicos, canadianos e homens e mulheres em serviço da Coligação.

Desobedeçam ordens ilegais! Abandonem o campo de batalha! ...

Recusem-se a combater numa guerra que viola grosseiramente o direito internacional e a Constituição dos EUA!

Mas esta não é uma escolha que os homens e mulheres alistados possam fazer individualmente.

Trata-se de uma escolha colectiva e da sociedade, a qual exige uma estrutura organizacional.

Por toda a terra, nos EUA, Grã-Bretanha, Canadá e em todos os países da coligação, o movimento anti-guerra deve ajudar os homens e mulheres alistados a tornarem aquela escolha moral possível, a abandonarem o campo de batalha no Iraque e no Afeganistão.

Esta não será uma tarefa fácil. Comités a nível local devem ser montados por todo os Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, Itália, Japão e outros países que têm tropas no Iraque e no Afeganistão.

Estes comités deveriam proporcionar protecção, apoio e aconselhamento legal aos soldados que se recusam a combater e que enfrentam a possibilidade de sentenças de prisão por desertar, como no caso do sargento Camilo Mejia, que foi sentenciado por um tribunal militar em Maio último:

"Sento-me aqui como um homem livre... Sentarei atrás das grades como um homem livre porque fiz a coisa certa", afirmou Mejia.

Quando os homens e mulheres em serviço voltarem a casa, devemos assegurar que não serão obrigados a retornar ao teatro da guerra. Devemos empenhar-nos num processo que os proteja da corte marcial.

Convocamos as associações de veteranos e as comunidades locais a apoiarem este processo.

Este movimento precisa desmantelar a campanha de desinformação. Ele deve reverter de modo efectivo a doutrinação das tropas da coligação, as quais são levadas a acreditar que estão a combater "uma guerra justa": "uma guerra contra terroristas".

A legitimidade da autoridade militar americana deve ser rompida.

A administração Bush deve aprender as lições da história. Os povos iraquiano e afegão estão a travar uma luta para expulsar os invasores americanos. E esta resistência está a vencer. Finalmente, a única solução que existe para os ocupantes americanos, britânicos e da coligação é a retirada.

Os países da coligação deveriam seguir o exemplo do governo espanhol de José Luís Rodriguez Zapatero, que retirou as suas tropas do Iraque.

O movimento anti-guerra deve questionar a legitimidade não só da administração Bush, e do seu indefectível aliado britânico, como também daqueles governos que apoiam directamente ou prestam apoio verbal à ocupação militar conduzida pelos EUA.

O NOVO "EMBAIXADOR" DE WASHINGTON NO IRAQUE

As Honduras também decidiram retirar as suas tropas, em resposta à nomeação de John Negroponte como "embaixador" dos EUA no Iraque.

Negroponto serviu como embaixador americano nas Honduras durante a administração Reagan e desempenhou um papel chave no apoio e supervisão dos mercenários Contra nicaraguenses com base em território hondurenho. Os ataques Contra dentro da Nicarágua, cruzando a fronteira, ceifaram umas 50 mil vidas de civis. Durante o mesmo período, Negroponto também foi instrumental na montagem dos esquadrões da morte dos militares hondurenhos, "operando com o apoio de Washington, [eles] assassinaram centenas de opositores ao regime apoiado pelos EUA".

Numa ironia cruel, a administração Bush nomeou um autêntico "terrorista" para travar a sua "guerra ao terrorismo" no Iraque.

Nas palavras do Human Rights Watch:

"Há sérias questões não respondidas acerca da sua cumplicidade com as atrocidades nas Honduras e na guerra à Nicarágua".

Mas "atrocidades" — incluindo a tortura e o assassínio de prisioneiros de guerra — fazem parte da agenda da administração Bush no Iraque.

ADMINISTRAÇÃO COLONIAL

O "embaixador" que superintende "uma equipe de embaixada" de 1700 pessoas reportará ao Pentágono e não ao Departamento de Estado.

O plano secreto (hidden agenda) é replicar no Iraque os esquadrões da morte da América Central. Foi dado a Negroponto o mandato para recrutar colaboradores leais dentro das fileiras do antigo regime baathista da Saddam Hussein. Sob este cenário, parte do aparelho repressivo incluindo as câmaras de tortura (naturalmente sob a supervisão americana para assegurar "boa governação") poderia ser devolvida a responsáveis da antiga polícia e aparelho de inteligência baathista. Com toda a probabilidade, uma nova onda de assassínios encobertos de civis escolhidos está a ser preparada, a fim de eliminar o apoio civil à insurgência.

25/Jun/2004

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