A ver passar o cadáver dos BRICS

– Também se pode dobrar sem se partir; chame-lhe "resiliência" e mantenha-se firme.
– A engenharia da inação.

Josué Veloz Serrade [*]

A notícia da minha morte foi prematura.
Mark Twain

(…) não é próprio de revolucionários sentarem-se à porta de casa para ver passar o cadáver do imperialismo.
Segunda Declaração de Havana. Do povo de Cuba aos povos da América e do mundo

Cuidados a um cadaver. Há documentos que se lêem e documentos que se analisam como se fossem autópsias. A declaração final da última cimeira dos BRICS — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, aos quais se juntaram outros seis países, entre eles o Irão — pertence à segunda categoria. Li-a na íntegra, quase interminável, como quem procura a causa da morte num atestado, e encontrei um espaço em branco do tamanho de um hemisfério.

O documento contém tudo: comércio, clima, finanças, governação e, ponto sublime, acordos de trabalho conjunto para a promoção de plantas medicinais. A fitoterapia cooperativa como horizonte da integração. Fui página a página, cada vez mais perto do fim, convencido de que, depois de tanto papel, chegaria à única coisa que importava:   as medidas. Encontrei um catálogo. A declaração não estava vazia; na verdade, estava cheia de tudo o resto.

Um nome ausente

O inventário do que foi mencionado é eloquente. Gaza aparece, envolvida em solidariedade. Cuba aparece, envolvida em solidariedade. "Israel" aparece, com nome e apelido. Fala-se do conflito israelo-palestino; só faltou que, em nome da imparcialidade, a Palestina também tivesse figurado como parte agressora.

O que não aparece na abordagem destas crises são os Estados Unidos como agente da violência que o documento afirma querer conter. O texto faz, de facto, alusão ao bloqueio contra Cuba e condena as sanções unilaterais; mas, quando chega a hora de identificar o responsável pela escalada, o nome esvanece-se.

Pode-se falar, página após página, de conflitos que devem ser evitados, de limites que não devem ser ultrapassados, do multilateralismo e do multipolarismo, sem nunca pronunciar o nome de quem os ultrapassa. Já conhecemos o truque:   o eterno hábito de se recusar a nomear o agressor para acabar por falar na voz passiva. Conflitos que devem ser evitados — por quem? —. Limites que não devem ser ultrapassados — por quem? —. Agente: nenhum, à primeira vista.

A forma do documento é a da retirada. As vítimas são nomeadas com a precisão dos obituários; e o carrasco permanece como uma espécie de significante reprimido que estrutura todo o texto a partir da sua ausência.

Mencionar uma vítima sem nomear o agente da violência não pode ser considerado uma denúncia; a menção transforma-se numa espécie de objeto de caridade. E os povos não têm de implorar pelos direitos que lhes assistem.

Uma declaração fantasma

Confesso que esperei até ao fim. Pensei: depois de tanto papel, o encerramento trará quatro medidas que dêem conteúdo a tanto vocabulário.

Tentei redigi-las, antecipadamente, na minha cabeça:

  1. Um corredor humanitário protegido por forças de vários países do bloco em torno de Gaza, e uma força de proteção no sul do Líbano contra novos bombardeamentos sionistas.
  2. Um processo de julgamento e exigência de indemnização que analise a responsabilidade dos Estados Unidos perante o Irão pelos ataques contra populações civis e outras violações do direito internacional.
  3. A exigência da libertação imediata de Nicolás Maduro e Cilia Flores, capturados por forças norte-americanas a 3 de janeiro e transferidos para os Estados Unidos.
  4. Uma frota petrolífera suficiente, protegida pelas marinhas de várias nações, a caminho de Cuba; e um mecanismo financeiro alternativo que permita à ilha aceder aos fluxos do comércio mundial em condições de igualdade.

Isso, para começar: gestos mínimos para afirmar que estamos, de facto, perante um novo polo de poder. Cheguei ao fim da declaração. Nenhuma das quatro apareceu. Nem elas, nem nada que se lhes assemelhe.

Reparem no que têm em comum.

Primeiro, as quatro obrigariam a pronunciar o nome ausente. Duas delas nomeá-lo-iam diretamente como responsável ou acusado e as outras duas descrevem os efeitos das suas ações, mas, em nenhum caso, podem ser formuladas sem dizer "os Estados Unidos".

Em segundo lugar, as quatro têm um custo — navios, tribunais, proteção militar, um sistema financeiro —, e a solidariedade que custa zero não vale zero, vale muito menos.

Em terceiro lugar, as quatro correspondem, uma a uma, às vítimas que o documento efetivamente nomeia — Gaza, Líbano, Irão, Venezuela, Cuba — e transformam em verbo as suas palavras virtuosas:   proteger, julgar, exigir, garantir.

A declaração nomeia as vítimas; as medidas as teriam defendido. Nomear não é defender. E o que resulta de um bloco que só sabe nomear?

Os factos omitidos

O mais grave é que a cimeira não carecia de tema. Foi convocada para debater a resiliência num contexto marcado pela captura de Nicolás Maduro e Cilia Flores, arrancados da Venezuela e levados para os Estados Unidos, pela disputa em torno do controlo do petróleo venezuelano e por uma guerra contra o Irão que voltou a intensificar-se enquanto as negociações continuavam em curso.

A intervenção norte-americana sobre o petróleo venezuelano não condiciona apenas a soberania da Venezuela, mas projeta os seus efeitos sobre a soberania de toda a região. E se esse controlo do petróleo for analisado em conjunto com a guerra contra o Irão, surge uma arquitetura de poder que a declaração precisava, no mínimo, de questionar. A relação entre ambos os factos não se demonstra pela sua mera simultaneidade. Por isso, é ainda mais grave que o documento nem sequer a coloque em causa.

Essas coisas, exatamente essas, eram as que o documento precisava de mencionar. Nenhuma delas aparece com a precisão política que exigem. Em vez disso, surge o termo "resiliência":   a palavra de quem se adapta ao facto consumado. "Resistência" é a palavra de quem se recusa a aceitá-lo. Escolheu-se "resiliência" porque já não se podia pronunciar "resistência". Também se pode dobrar sem se partir; chame-lhe "resiliência" e mantenha-se firme.

As duas desculpas da paciência sem raiva

Duas desculpas sustentam esta engenharia da inação. A primeira chama-se retirada estratégica. É o eufemismo inventado para uma rendição por fases. O seu mecanismo é simples:   cada linha vermelha que o predador atravessa é traçada de novo, mais atrás, com solene dignidade. Chama-se retirada porque recuar sem dizer que se está a recuar soa melhor.

Os BRICS nunca foram uma aliança militar. Não têm uma cláusula de defesa comum. A sua cautela é estrutural. Reconheço esse facto na íntegra. Não reprovo ao bloco o facto de não ser um exército. Reprovo-lhe falar com o vocabulário de um polo — limites, multipolaridade, ordem — e recusar-se a conjugá-lo no imperativo quando chegou a hora. As quatro medidas da minha lista não constituíam uma agenda externa; eram a tradução, com deliberada exigência, das palavras do próprio documento. Um polo que não estabelece limites é um mercado. O que fica enterrado nesta cimeira não é o fórum comercial, é a pretensão de ser um polo. Comecemos a contrariar o que parece ser a nova doença desta época: a polomania.

O segundo álibi chama-se declínio. Não passará um mês, nem uma semana, sem que apareça uma análise substancial a reafirmar que os Estados Unidos são uma potência em declínio. A teoria é o álibi perfeito para a retirada:   se o predador está a morrer sozinho, não é preciso nomeá-lo, nem confrontá-lo, nem arriscar nada; basta esperar, com a paciência dos herdeiros, pela herança do falecido.

A multipolaridade deixou há muito de ser uma política para se tornar uma espera messiânica pelo colapso alheio.

É por isso que o documento pode evitar o nome; nessa teologia, esse nome já pertence aos falecidos.

O género tem meio século de obituários falhados — Paul Kennedy anunciava o declínio dos Estados Unidos em 1987. O declínio existe. Mede-se pela participação no produto mundial: uma queda de cerca de quarenta por cento para menos de um quarto em seis décadas. Mas

a hegemonia sobre um hemisfério exerce-se com muito menos; basta uma marinha, um dólar e uma máquina de sanções. A potência em declínio acaba de capturar o presidente da Venezuela e de intervir nos seus recursos. O seu declínio é assunto para os historiadores do século XXII; o seu poder, assunto desta tarde.

A exceção que colocou um respirador num doente em coma autoinduzido

Se os BRICS ainda não foram enterrados, não é por mérito da declaração. É porque o Irão não assumiu como doutrina própria, no dia em que foi invadido, a astúcia da retirada estratégica que domina o documento. Dos membros do bloco, é aquele que, nesta conjuntura, levou mais longe a ideia de que a soberania requer uma resposta capaz de travar a voracidade imperialista; aquele que levou a sério, com a sua própria prática, a retórica de uma ordem multipolar.

Se a presidência rotativa medisse quem realmente sustenta o bloco, a cadeira deveria ser transferida para Teerão. O bloco vive quase à custa de outros. Vive da tensão entre o que proclama e o que está disposto a fazer. Quanto tempo pode um bloco sustentar-se com base na fé de quem não a professa?

Enquanto metade do planeta redige o obituário de uma potência que não morre, na cimeira ninguém quis assinar a certidão de óbito de uma promessa que já está morta. Esse foi o cadáver que passou diante de nós, e não aquele para o qual todos olham; não o de Washington, que os analistas velam há meio século, mas o da multipolaridade enquanto promessa. Morta de nominalismo. Morta de passividade. Morta, por mais triste que seja dizê-lo e confirmá-lo, por plantas medicinais.

Não se desesperem, leitores e leitoras, se este mês e o próximo vierem repletos de análises substanciais sobre o declínio. Eu já fiz o meu luto. Às vezes, dou por mim a pensar que, no dia em que os Estados Unidos terminarem de declinar, já estaremos todos mortos. E o nosso cadáver será o da promessa que ninguém se atreveu a defender.

Setembro/2026

[*] Psicólogo, diretor de La Tizza, cubano.

O original encontra-se em latizzadecuba.org/viendo-pasar-el-cadaver-de-los-brics/ .

Este artigo encontra-se em resistir.info

02/Out/26