A terceira morte de Vlado Herzog
Pense num absurdo, em algo totalmente inverossímil, num completo
desrespeito aos que querem contar a nossa história e à
memória de quem tombou na luta pela redemocratização do
país.
Pois foi isso que sentiu na pele esta semana o jornalista Audálio Dantas
ao procurar o Arquivo Nacional, em Brasília, para poder finalizar o
livro que está escrevendo sobre o seu colega Vladimir Herzog, o Vlado,
torturado e morto nos porões do DOI-CODI durante a ditadura militar
(1964-1985).
Vlado já tinha sofrido duas mortes anteriores: o assassinato
propriamente dito por agentes do Estado quando estava preso e o IPM
(Inquérito Policial Militar) que responsabilizou Vlado pela sua
própria morte, concluindo pelo suicídio.
Esta semana, pode-se dizer que, por sua omissão, o Ministério da
Justiça, agora responsável pelo Arquivo Nacional, matou Vladimir
Herzog pela terceira vez, impedindo o acesso à sua história.
Muitos dos que foram perseguidos naquela época, presos e torturados,
estão hoje no governo central, mas nem todos que chegaram ao poder
têm consciência e sensibilidade para exercer o papel que lhes coube
pelo destino.
É este, com certeza, o caso de Flávio Caetano, um sujeito que
não conheço, chefe de gabinete do ministro da Justiça, meu
velho ex-amigo José Eduardo Cardozo, por quem eu tinha muito respeito.
Digo ex-amigo pelos fatos acontecidos ao longo da última semana, que
relatarei a seguir.
Na segunda-feira, Audalio Dantas me contou as dificuldades que estava
encontrando para pesquisar documentos sobre o antigo Serviço Nacional de
Informações (o famigerado SNI) no Arquivo Nacional, e pediu ajuda
para falar com alguém no Ministério da Justiça.
Explique-se: um dos primeiros decretos baixados pela presidente Dilma Rousseff,
o de nº 7430, de 17 de janeiro de 2011, determina a transferência do
Arquivo Nacional e do Conselho Nacional de Arquivos da Casa Civil da
Presidência da República para o Ministério da
Justiça.
Por se tratar de quem se trata, presidente do Sindicato dos Jornalistas de
São Paulo na época do crime praticado contra Vlado, o primeiro a
denunciar o assassinato, profissional dos mais premiados e respeitados do
país, com 57 anos de carreira provavelmente mais do que os nobres
Cardozo e Caetano têm de idade , encaminhei a Audálio o
telefone do gabinete do ministro da Justiça.
E lhe recomendei que falasse diretamente com José Eduardo Cardozo,
explicando a ele as absurdas dificuldades que estava encontrando no Arquivo
Nacional para fazer o seu trabalho.
Foi muita ingenuidade minha, claro. A secretária de nome Rose,
certamente sem ter a menor idéia de quem é Audálio Dantas
e de quem foi Vladimir Herzog, informou que o chefe de gabinete, Flávio
Caetano, estava "em reunião com o ministro", garantindo que
entraria em contato mais tarde.
Até aí, faz parte do jogo. Chefe de gabinete é para isso
mesmo. Serve para fazer a triagem das demandas que chegam ao ministro, e
não devem ser poucas.
"Deixar sem resposta mais de dez telefonemas, no caso de qualquer
cidadão, não caracteriza apenas desleixo ou arrogância, mas
falta de educação", desabafa Audálio, com toda
razão.
Pelo jeito, Flávio Caetano anda muito ocupado ou também nunca
ouviu falar de Audálio e Herzog. Sem conseguir ser atendido por telefone
pela excelência maior nem pelo seu chefe de gabinete, o
jornalista-escritor resolveu encaminhar este e-mail ao Ministério da
Justiça:
"Prezado Senhor Flávio Caetano
Provavelmente o senhor não me conhece, por isso apresento-me: sou
Audálio Dantas, jornalista, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas
de São Paulo e da Federação Nacional dos Jornalistas,
ex-deputado federal. Tentei vários contatos telefônicos com o
senhor, sem resultado. Por isso envio-lhe esta mensagem.
Estou concluindo (com prazo para entregar à Editora Record) livro sobre
o Caso Herzog, do qual fui parte. Necessitando de informações
sobre o assunto, procurei, no último dia 10, o Arquivo Nacional _
Coordenação Regional de Brasília, que mantém a
guarda dos papéis do Serviço Nacional de
Informações. Depois de me identificar, preenchi fichas de
solicitação, tomando o cuidado de acrescentar
informações adicionais sobre o caso, hoje referência
histórica.
Como dispunha apenas de uma cópia de procuração que foi
dada pela viúva de Herzog, Clarice, datada de agosto de 2010,
disseram-me que era necessário documento original, com data mais
recente. Já estava para buscar outra procuração quando
recebi (dia 14/02) ofício em que se exige, além da
procuração:
- Certidão de óbito de Vladimir Herzog
-Certidão de casamento
Considero que, em se tratando de caso histórico, de amplo conhecimento,
e quando se sabe que a União foi responsabilizada na Justiça pelo
assassinato de Herzog, tais exigências são absurdas e até
desrespeitosas. Que atestado de óbito terá a viúva para
mostrar? O que foi lavrado com base no laudo do médico Harry Shibata,
que servia ao DOI-CODI e confessou tê-lo assinado sem ver o corpo? E que
certidão de casamento terá Clarice Herzog juntado à
ação que impetrou contra a União pela morte do marido?
E se a pesquisa fosse sobre o ex-deputado Rubens Paiva, quem forneceria o
atestado de óbito? Desse jeito, ninguém conseguirá saber
sobre ele no Arquivo Nacional.
Gostaria de discutir mais a questão que envolve, parece, deliberada
dificultação de pesquisa. Ou, no mínimo, desconhecimento
histórico por parte desse órgão público.
Faço questão que essas informações cheguem ao
conhecimento do ministro José Eduardo Cardozo, que deve conhecer minha
história.
No aguardo de uma resposta,
Atenciosamente,
Audálio Dantas".
No momento em que escrevo este texto, no final da tarde de sábado, dia
19/02, Audálio continua esperando uma resposta. Na melhor das
hipóteses, suas informações não chegaram às
mãos do ministro José Eduardo Cardozo. Não tenho como
saber porque também não consegui falar com o ministro.
Na sexta-feira à tarde, depois de ler o e-mail acima que Audálio
enviou ao chefe de gabinete, sem receber retorno, liguei para o gabinete do
ministro. A secretária que atendeu já ia me despachando direto
para a assessoria de imprensa do ministério. Fui bem educado ao lhe
explicar:
"Minha senhora, eu não quero entrevistar o ministro. Eu preciso
falar com ele pessoalmente sobre um caso grave e urgente do qual ele deve tomar
conhecimento".
Só aí ela permitiu que eu soletrasse meu sobrenome, respondeu-me
que sabia quem eu era, pediu os números dos meus telefones e, imaginei,
cuidou de passar a ligação para o ministro. Minutos de
silêncio depois, a secretária voltou para me dizer, sem muita
convicção, que o ministro estava ocupado e me ligaria em seguida.
Também estou esperando até agora.
Na hierarquia da falta de respeito pela própria função que
exerce, o menos responsável nesta história é o
funcionário de nome Raines, que se apresentou como historiador ao
atender (ou melhor, deixou de atender) Audálio Dantas.
A sua superiora, Maria Esperança de Resende, coordenadora-geral da
Coordenação Regional do Arquivo Nacional no Distrito Federal,
é quem assina o absurdo pedido de documentos. Alguém superior a
ela a colocou lá sem perguntar se as suas qualificações
eram adequadas ao seu pomposo cargo no comando do Arquivo Nacional.
Talvez o jeito mais simples e barato de resolver este problema seja baixar
outro decreto presidencial e devolver o Arquivo Nacional à Casa Civil da
Presidência da República, como era antes, já que o
Ministério da Justiça não parece muito interessado no
assunto nem preocupado com o seu funcionamento.
Das duas uma: ou Cardoso está muito mal assessorado ou não
entendeu ainda quais são os seus compromissos e responsabilidades no
Ministério da Justiça do governo de Dilma Rousseff, a presidente
da República que, ao contrário de Vladimir Herzog, conseguiu
sobreviver às torturas na ditadura militar.
Respostas deles
Atualizado às 15:49 de 21.2.2011
Aos leitores,
Só agora, no meio da tarde desta segunda-feira, recebi
comunicação oficial do Arquivo Nacional, orgão subordinado
ao Ministério da Justiça, sobre o post "A terceira morte de
Vlado Herzog", que trata das dificuldades encontradas pelo jornalista
Audálio Dantas na pesquisa sobre o Caso Herzog, tema do livro que
está escrevendo.
No domingo, recebi um telefonema do chefe de gabinete, Flávio Caetano;
hoje de manhã, do ministro da Justiça, José Eduardo
Cardozo. Ambos pediram desculpas pelo ocorrido e prometeram tomar
providências para solucionar o problema de acesso a documentos do Arquivo
Nacional.
Para conhecimento de todos, transcrevo a seguir a mensagem enviada pela
assessoria de imprensa do Arquivo Nacional com a nota explicativa do
diretor-geral, Jaime Antunes da Silva.
"Prezado jornalista Ricardo Kotscho,
Envio nota, esclarecendo a posição do Arquivo Nacional, sobre a
matéria publicada sábado pelo blog Balaio do Kotscho, hospedado
no Portal IG , sob o título A terceira Morte de Vlado Herzog.
Agradeço a possibilidade do esclarecimento, já que se trata de
matéria relevante sobre os procedimentos adotados pelo Arquivo Nacional.
Cordialmente,
Gilda Boruchovitch
Assessoria de Comunicação
Arquivo Nacional
Pç da República, 173 Centro RJ
Cep: 20.211-350
Tel.: 2179-1350
www.arquivonacional.gov.br
Consulta sobre o caso Vladimir Herzog
O acesso à informação produzida pelo Poder Público
no Brasil, ostensiva ou sigilosa, obedece à legislação.
É objetivo do Arquivo Nacional viabilizar a consulta e a pesquisa ao
público para que se exerça o Direito à Memória e
à Verdade. A Constituição Federal consagra o direito do
cidadão de "receber dos órgãos públicos
informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo
ou geral [...]" (Art. 5º, inciso XXXIII). Este princípio,
contudo, deve ser harmonizado com o que preconiza o inciso X do mesmo artigo:
"são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a
imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização
pelo dano material ou moral decorrente de sua violação".
O Arquivo Nacional vem buscando atuar de forma a promover o direito à
verdade sem infringir o disposto na legislação vigente, para que
seja possível o acesso, por terceiros, a documentos que contenham dados
pessoais. Atualmente, observa o disposto no § 3º do art. 37 do
Decreto 4.553/2002, que determina: "Serão liberados à
consulta pública os documentos que contenham informações
pessoais, desde que previamente autorizada pelo titular ou por seus
herdeiros".
Cabe ressaltar que, desde o início deste ano, o Ministério da
Justiça, por solicitação do Arquivo Nacional, está
estudando a implantação de uma nova política de acesso que
deverá resultar na revisão do Decreto mencionado.
Arquivo Nacional, 21 de fevereiro de 2011
Jaime Antunes da Silva
Diretor-Geral"
Atualizado às 17:58 de 21.2.2011
Transcrevo abaixo mensagem que acabo de receber do chefe de gabinete do
Ministério da Justiça, Flávio Crocce Caetano:
"Prezado Ricardo Kotscho
O resgate da história recente do País por meio da
documentação disponível no Arquivo Nacional é de
fundamental importância para a cidadania brasileira. O ministério
da Justiça está empenhado não só em assegurar o
acesso às informações como em incentivar a pesquisa.
Por se tratar ainda do início de uma nova gestão, há uma
grande demanda ao gabinete do Ministro e, por vezes, dificuldades reais no
fluxo de informações. Isso pode gerar mal-entendidos como
o do caso em questão, envolvendo o Sr. Audálio Dantas e já
esclarecido a ele mas jamais ensejar qualquer ilação de
desmerecimento ao tema do Direito à Verdade.
Assim, reafirmamos o compromisso do Ministério da Justiça em
buscar aprimorar o acesso à informação em
consonância com os relevantes serviços prestados pelo Arquivo
Nacional.
Flávio Crocce Caetano
Chefe de Gabinete do Ministério do Estado da Justiça
[*]
Jornalista.
O original encontra-se em
colunistas.ig.com.br/ricardokotscho/...
Estes documentos encontram-se em
http://resistir.info/
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