"Se Lula não fizer a reforma agrária,
ficará desmoralizado"
Entrevista de João Pedro Stedile
líder do Movimento dos Sem Terra, do Brasil
[*]
Estado Fevereiro está terminando e até agora o governo
não definiu de onde virão os recursos para a
execução do Plano Nacional de Reforma Agrária anunciado no
ano passado. O senhor acha que o governo vai atingir as metas que propôs?
João Pedro Stédile
O governo tem um compromisso histórico, não só com o MST,
mas com a sociedade brasileira, de que precisa fazer a reforma agrária.
Se o governo Lula não tiver capacidade para fazer essa reforma, que
é a mais simples das reformas capitalistas, para distribuir renda,
cairá numa desmoralização total. Acreditamos que ele
mantém esse compromisso e é nosso aliado, ao lado de toda a
sociedade, para derrotar o latifúndio. É impossível
construir uma sociedade democrática e justa enquanto existirem
latifúndios com 10 mil, 50 mil hectares, alguns deles com trabalho
escravo. Dos 350 milhões de hectares cultiváveis existentes no
País, cultivamos apenas 50 milhões. Uns 30 milhões pela
turma do Roberto Rodrigues, do agronegócio, e outros 20 milhões
pela pequena propriedade, que abastece o mercado interno. O resto é um
imenso latifúndio especulativo ou pecuária intensiva, que
precisam ser atacados.
Estado Há poucos dias o senhor participou de um encontro de
representantes de movimentos sociais, que concluiu ser impossível o
governo atingir suas metas na área social com a atual política
econômica.
Stédile
Os movimentos sociais, das pastorais sociais até o movimento sindical,
consideram que a atual política econômica está limitada aos
parâmetros de manutenção dos interesses e das vantagens do
capital financeiro. Não temos inflação, temos estabilidade
macroeconômica, mas não conseguimos dar uma solução
para os problemas sociais. De que adianta estabilidade se os problemas do povo
só aumentam?
Estado O que os movimentos propõem?
Stédile
Defendemos um projeto de desenvolvimento capaz de superar o
feijão-com-arroz do Palocci, que vem fazendo o mesmo que as elites
fizeram em vinte anos, pagando juros e controlando a inflação. Os
banqueiros enriquecem, as indústrias quebram e o povo não tem
trabalho. É preciso uma política de investimentos que priorize a
indústria de consumo de massa, adote medidas de
distribuição de renda, valorizando os salários, para que o
povo tenha trabalho e renda e assim se forme um amplo mercado interno
consumidor.
Estado O presidente Lula pensa diferente. Ele tem dito que é
possível combater o desemprego com ajustes nessa política
econômica.
Stédile
O consenso de todos os movimentos sociais é de que é preciso
mudar. O vice-presidente e vários ministros pensam como nós. Acho
que o presidente também deve pensar.
Um dos problemas que ele enfrenta é que o Estado não está
preparado para executar reformas. É um estado contra reformas.
Vi com otimismo a noticia de que o ministro (da Casa civil) Zé Dirceu
iria tomar conta do Incra e da Funai e fazer uma reforma administrativa. Ela
é urgente.
Estado Se houvesse mudanças, por onde deveriam começar?
Stédile
Poderia ser pelo controle da taxa de juros, para que ficasse no mesmo
nível da americana. Já que copiam tanto os Estados Unidos, podiam
copiar o nível da taxa de juros. Em segundo lugar, o superávit
primário do Orçamento não deveria ser aplicado em
pagamento de juros da dívida interna, que pode ser paga com novos
títulos e ir rolando. Essa dinheirama deveria ir rigorosamente para
investimentos produtivos, em fábricas que gerem trabalho e
salários e que produzam para o mercado interno. Por outro lado, os
recursos públicos deveriam ser concentrados em áreas que melhoram
as condições de vida do povo e ativam a economia, como a reforma
agrária e a agricultura familiar, a educação, a
saúde.
Estado- Como vê o envolvimento do nome de Dirceu no escândalo
Waldomiro Diniz?
Stedile-
Em primeiro lugar, defendo que toda contravenção, praticada nesse
governo ou nos anteriores, deve ser apurada e punida. Em segundo, acho que
houve uma super exploração jornalística. A chamada grande
imprensa buscou atingir o ministro e manter o governo Lula acuado. Isso revela
o grau de manipulação que a concentração do poder
da mídia pode chegar. Em terceiro lugar, o governo agiu bem ao fechar os
bingos. Deveria ter feito isso bem antes, como fez o governador Requião,
do Paraná.
Estado O senhor não acha que ficou mais difícil defender a
bandeira da reforma agrária diante dos sucessos que o agronegócio
vem acumulando?
Stédile
Entre as alternativas que temos na busca de uma política de pleno
emprego, que é necessária e urgente, a reforma agrária
é a mais barata, a mais rápida e a que atinge a
população mais pobre e desprovida. O chamado setor do
agronegócio, que se dedica à exportação,
está aumentando a produção de soja, laranja e cana. Mas
isso é uma renda concentrada. Aumenta apenas a riqueza dos que já
são ricos. Não aumenta o emprego. Nem o consumo de
máquinas. Na década de 70, quando o crédito rural era mais
barato e democrático, os camponeses compravam tratores, e o Brasil
vendia ao redor de 75 mil unidades de tratores por ano. Passados trinta anos,
com toda essa propaganda do agronegócio, no passado a indústria
vendeu 40 mil unidades. É esse o modelo que vocês querem?
Estado Não acha que o estreitamento de relações do
governo com o PMDB, onde se concentra um número significante de
representantes dos ruralistas, enfraquece a bandeira da reforma agrária?
Stédile
A reação dos latifundiários contra a reforma é uma
posição de classe, não de partido. Temos políticos
de diferentes partidos que defendem a reforma porque sabem de sua
importância. Temos até dirigentes de multinacionais, que acreditam
nisso. Achei brilhante uma recente entrevista do gerente geral da Pirelli, na
revista
Carta Capital
, quando ele fez uma defesa contundente da reforma agrária.
Estado O senhor tem elogiado com certa freqüência o
presidente do BNDES. Por que?
Stédile
Tenho lido as declarações do Carlos Lessa e sinto que ele
também está ansioso por mudanças na política
econômica. Vi ele advogar, na frente do presidente do Banco Central, que
o Brasil não cresce e não se desenvolve enquanto mantiver taxas
de juros reais acima de 5% ao ano.
Estado O presidente do BNDES não é o único. Em
diferentes do governo há vozes discordantes sobre temas cruciais. Nem
todos os ministros estão de acordo, por exemplo, com a reforma
agrária nos moldes defendidos pelo MST.
Stédile
Na eleição passada a população votou por
mudanças, contra o neoliberalismo. O governo, no entanto, não tem
uma composição unitária. Temos ministros neoliberais,
ministros meio a meio, que apenas pensam em reformas parciais, e ministros
comprometidos com um projeto popular. Mas essa não é a
questão mais importante. No fundo, a disputa interna reflete uma disputa
que existe na sociedade. O problema real é a definição de
um projeto para o País. O governo sozinho não tem forças
para provocar uma inflexão e implantar um novo projeto.
Estado Parece que os movimentos sociais também não
têm forças, neste momento, para impor mudanças na
política econômica.
Stédile
Você tem razão. Temos todas as condições objetivas
para mobilizar o povo, porque os problemas aumentaram. A cada anúncio de
emprego aparecem milhares de pessoas, em filas intermináveis. A cada
chuvarada morre gente, por falta de condições dignas de moradia e
porque o serviço público foi sucateado. No entanto, os movimentos
de massa vivem um período de descenso, que se prolonga desde 1989. Nossa
tarefa é fazer uma trabalho permanente de pedagogia de massas, estimular
o povo para que se conscientize, se mobilize, debate um novo projeto para a
sociedade e lute. Sem mobilização popular não
haverá mudanças.
Estado Isso significa que estão tentando acumular forças?
Stédile
O momento não é de plantar alface. É de plantar
árvores. Um dia desses elas começam a dar frutos.
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Entrevista concedida a Roldão Arruda, do jornal
O Estado de São Paulo
, publicada em 29/Fev/2004.
Esta entrevista encontra-se em
http://resistir.info
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