"Governo está fazendo muito pouco"
Entrevista de João Pedro Stédile
[*]
- O anúncio do Plano Nacional de Reforma Agrária, em novembro de
2003, paralisou as mobilizações do MST. O que levou o movimento a
retomar as invasões?
- O
MST
não parou as atividades. Apenas mudamos as prioridades. Nos
concentramos em aumentar o trabalho de organização de nossa base.
Terminamos o ano com quase 200 mil famílias acampadas em mais de 700
acampamentos em todo país. Internamente, nos dedicamos à
educação e à formação de mais gente. Em
relação ao governo, nos concentramos em debater um plano de
reforma agrária. Chegamos em novembro a um acordo em que o governo se
comprometeu a assentar 400 mil famílias de sem-terra. E outras 130 mil
famílias seriam atendidas pelo crédito fundiário.
- Mas e agora, todas essas invasões...
- Agora, voltamos a elevar o tom das críticas e aumentamos as
mobilizações porque o governo está fazendo muito pouco.
Perdeu 15 meses e a reforma agrária está parada em
ações concretas. Estamos dizendo que é preciso ter mais
ousadia para ampliar as desapropriações dos latifúndios.
Se ficar só de reunião, o governo não muda nada. Eles
sabem que somente a mobilização social gera mudanças na
sociedade e no governo. Por isso, estamos cumprindo nosso papel, fazendo
ações que ajudem o governo a ter força para mudar. Sem
elas, não só na reforma agrária, mas também em
outras demandas sociais, o governo Lula passará quatro anos refém
dos interesses da classe dominante, daqueles 2,4% de famílias que
dominam 33% da riqueza nacional.
- O ex-ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, disse que o
recente anúncio do governo de investir mais R$ 1,7 mil milhões
[1]
na
reforma agrária foi uma forma de abafar pressões do MST. Segundo
ele, esse dinheiro não existe e depende de um excesso de
arrecadação que ninguém sabe se virá. Isso é
correto?
- Jungmann não tem moral para falar em reforma agrária. Foi um
fiel escudeiro dos interesses do neoliberalismo e aplicou uma política
orientada pelo Banco Mundial. A ele se aplica bem ao ditado que ensina: ''O pior
conservador é um ex-comunista''. Evidentemente o dinheiro existe,
está no Tesouro. E, a bem da verdade, é insignificante diante de
outras despesas que o governo faz. Deve representar uma semana de pagamento de
juros. Mas o principal no anúncio não foi o volume de dinheiro,
mas a declaração pública do governo de que recursos
não serão empecilho para cumprir a meta de assentar 400 mil
famílias.
- O senhor diz que o governo tem que ser mais pedagógico e conclamar o
povo a fazer as mudanças. Quais lições a serem aprendidas?
- A um governo popular cabe adotar medidas que estimulem a
conscientização, a elevação do nível
cultural e a participação popular nas questões
políticas. O governo pode e deve dar sinais simbólicos, em todos
seus atos, de que está do lado do povo e contra os ricos, os
privilegiados. Não apenas no discurso, mas na prática cotidiana.
Isso de ficar indo toda hora em inauguração de multinacional
é sinalizar o contrário. Quando algum barraco caísse pela
chuva, o governo deveria ser o primeiro a chegar, antes do vizinho.
- Qual seria a segunda lição?
- O governo precisa debater com o povo todas as questões relevantes.
Debater com tempo e serenidade. Por que tanta pressa em aprovar o projeto da
Previdência? O povo queria melhorar a Previdência, mas não
foi ouvido. O governo ouviu os governadores e os parlamentares. O povo assistiu
pela televisão. Por isso, saiu uma reforminha, que só os
banqueiros bateram palma. Só do povo, das ruas, poderá sair a
força para mudar. Iludir-se com espertezas de acordos no parlamento,
é sinal de fraqueza, não de força. A força vem das
ruas, de apoio real.
- Como ouvir as ruas?
- O governo não pode ter medo de desenvolver mecanismos de consulta para
saber se o povo quer os transgênicos ou a Alca, por exemplo. O governo
deveria multiplicar o exercício dos plebiscitos populares, estabelecidos
em nossa Constituição que a classe dominante tem medo de usar.
Plebiscitos politizam o povo, elevam o nível de
participação popular. Mas, na cabeça deles, povo foi feito
para trabalhar e votar. A política, as decisões dos rumos do
país, são para as elites. O governo, enfim, precisa ter mais
humildade e ouvir o povo, em vez de contratar o Duda (Mendonça) para
fazer propaganda e enrolar o povo. Política não é produto
de supermercado, é o mais sagrado preceito de participação
do povo nos rumos da sociedade.
- A política econômica do governo azucrina João Pedro
Stédile?
- A política econômica está prejudicando o povo e, em
especial, os mais pobres. É conservadora, é a continuidade da
política de Fernando Henrique. Até os gerentes são tucanos
[2]
. Veja o presidente do Banco Central e o segundo escalão do
Ministério da Fazenda: são todos quadros do PSDB. A
política econômica fez o PIB cair e o desemprego aumentar em todo
país e em todos setores, passando de 20% e atingindo, sobretudo, a
juventude. A renda de quem consegue trabalhar caiu 15% e a
produção industrial está nos mesmos níveis de 1999.
Quem ganhou com isso? Os banqueiros e as multinacionais. Apenas os bancos
lucraram R$ 13 mil milhões
, e as sete maiores empresas, outros R$ 7 mil milhões. Essa
política econômica está sendo um desastre e será uma
tragédia para o governo Lula. É importantíssimo valorizar
o salário mínimo, que é um instrumento de
distribuição de renda, e controlar a remessa de dinheiro para o
exterior. Não é possível que apenas 7 mil brasileiros
tenham depositado no exterior, segundo a Receita Federal, nada menos do que US$
72 mil milhões gerados nesse país. Não é
possível que o Banco Central ainda permita a CC-5 e outros mecanismos de
remessa de nossa riqueza para o exterior.
- O senhor tem dito que o atual governo tem uma composição
heterogênea. É correto deduzir, pela política
econômica, que as forças neoliberais são preponderantes no
governo Lula?
- Tenho ouvido setores sociais e de esquerda classificarem já o governo
Lula como um governo neoliberal. Na coordenação dos movimentos
sociais, prevalece a tese de que temos um governo que vive um contexto de
disputa de projetos. Vivemos um momento histórico. Não há
crise política no governo Lula. Há uma crise de projetos na
sociedade. Há uma crise de destino do Brasil. E só vamos sair
dela com um grande mutirão de reflexão. Temos de sair dessa
pasmaceira, desse quadrante histórico de descenso do movimento de massa.
Precisamos de uma outra Semana de Arte Moderna, dessa vez na política.
- O senhor criticou duramente o governo FH por ser condescendente com os
transgênicos. Mas o atual governo não editou MPs ainda mais
liberais na questão?
- A vitória de Lula alterou a correlação de forças
e nos ajudou a barrar multinacionais como a Monsanto. E a prova está na
nomeação da ministra Marina Silva. Se o Serra tivesse ganhado as
eleições, a Monsanto teria nomeado as diretorias da Embrapa, do
ministério de Meio Ambiente e da CTNBio. Mas é uma guerra e
perdemos uma batalha quando o governo Lula se deixou influenciar pelo ministro
Rodrigues (Agricultura) e pelo governador Rigotto (RS), que chantagearam o
governo ameaçando com caos social no Rio Grande do Sul, e na verdade
defendiam os interesses da Monsanto, e conseguiram a edição das
duas medidas provisórias (liberando a colheita de transgênicos
até 2005). Mas ganhamos quando conseguimos que a Casa Civil elaborasse
um projeto de lei de biossegurança que nos pareceu adequado à
segurança da sociedade. Perdemos quando o atual ministro Rebelo
(Coordenação Política), influenciado sei lá por
quem, se utilizando de um falso nacionalismo, adotou mudanças no projeto
que só interessava às multinacionais e aos ruralistas. Ele
é o herói deles agora. O PCdoB não sabe o preço que
vai pagar por isso na nossa história. Mas a verdadeira batalha
será com os consumidores. Devemos exigir em todos os supermercados que
os gerentes cumpram a lei e coloquem a etiqueta de transgênico nos
produtos derivados da soja transgênica. Com isso, o consumidor vai
recusar, a indústria vai ter prejuízo e a Monsanto vai se ferrar.
No final das muitas batalhas tenho certeza de que a sociedade brasileira,
majoritariamente contra os transgênicos, imporá sua vontade, de
precaução.
- Quais os piores ministros do governo Lula?
- Vou procurar reproduzir a opinião que ouço por aí.
Não é, necessariamente, a minha. Disparado entre os piores,
estão os ministérios da área econômica: a turma
Palocci-Meireles (o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central).
Ganham de longe o prêmio Tucano de Ouro. O Furlan e sua idiotice em
só fazer propaganda de exportação também se
destaca. Está certo que a Sadia precisa exportar, mas nenhum povo se
desenvolve com exportações. Se desenvolve produzindo bens que
atendam às necessidades de toda a sua população. Em
terceiro, vem o Roberto Rodrigues, da Agricultura. É um sujeito
competente, mas se comporta como presidente do sindicato dos 500 mil
fazendeiros do agro-negócio. Esqueceu que Ministério da
Agricultura é para todos os 5 milhões de pequenos agricultores e
para todo povo. Sugiro que no próximo mandato se mude o nome da pasta
para Ministério da Alimentação do Povo para que o novo
ministro se dê conta de seu verdadeiro papel.
- E os melhores?
- Apontar os três melhores é uma tarefa mais difícil. Entre
formadores de opinião e a intelectualidade, há uma perplexidade
negativa sobre o desempenho da maioria dos ministérios. Mas não
quero ser injusto, nem ofensivo, porque obviamente não depende da
vontade pessoal dos ministros. O Celso Amorim (Relações
Exteriores) é o melhor ministro até aqui. Tem coragem para
enfrentar os gringos. Vai ganhar o prêmio brasileiro do ano. Depois dele,
vem a Marina Silva (Meio Ambiente), que teve coragem de defender nosso meio
ambiente e os interesses do povo contra a Monsanto e meia dúzia de
madeireiras que querem tomar conta da Amazônia. Em terceiro, vem o
ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Tem coragem e é
eficiente. Espero que indique um ministro progressista para o Supremo.
_______
1- 1 = 3,47 reais
2- "Tucanos": membros do PSDB, o partido de Fernando Henrique
Cardoso.
[*]
Dirigente do
MST
brasileiro. Entrevista concedida a Macedo Rodrigues.
O original encontra-se no "Jornal do Brasil" de 05/Abr/2004.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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