"Eles não sabem dizer coisa certa"
1.
O fim de fevereiro e o início de março foram pródigos em
informações sobre a política econômica do governo
Lula e suas conseqüências. O que era dedução
analítica, feita em tempo real e baseada em dados parciais, agora
é informação oficial e consolidada. Com a
divulgação pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE) do resultado das Contas Nacionais de 2003,
acompanhadas da mais recente Pesquisa Mensal de Emprego, não se pode
mais fechar os olhos ao óbvio: o primeiro ano do governo Lula depauperou
o Brasil. Penalizou especialmente os mais pobres. Diminuiu o rendimento e os
direitos do trabalho. Aumentou o desemprego. Concentrou a renda nacional.
Outra fonte oficial, os dados do Siafi (sistema eletrônico de
acompanhamento dos gastos do governo federal), mostra que em 2003 o Estado
brasileiro investiu menos e destinou parcela ainda maior de suas receitas ao
pagamento de juros aos especuladores. Apresentaremos neste mês os
principais números do IBGE e do Siafi. Em seguida, comentaremos as
reações do governo a resultados tão desastrosos.
2.
No dia 27 de fevereiro de 2004 o IBGE divulgou os dados consolidados sobre a
economia brasileira em 2003. Eles podem ser assim resumidos:
(a) O Brasil empobreceu. O produto interno bruto (PIB) caiu 0,2%. Como a
população aumentou 1,3%, o PIB per capita caiu 1,5%. É um
resultado que destoa do que ocorre no mundo, pois 2003 foi um ano especialmente
favorável, com baixos juros no sistema internacional, ampla oferta de
capital aos chamados "países emergentes" e nenhuma nova crise
regional. A China cresceu 9,1%, a Argentina 8,4%, a Rússia 7,3%, a
Malásia e a Tailândia 4,2%, a Austrália 4%, e assim por
diante. Até os Estados Unidos, uma economia gigantesca e madura,
cresceram excepcionalmente para seu padrão: 3,1%. O Brasil foi
exceção.
(b) As atividades tipicamente voltadas para o mercado interno despencaram. O
desempenho da economia brasileira só não foi pior porque as
exportações cresceram 14,2%, sendo puxadas pelo
agronegócio. Por isso, a agropecuária cresceu 5%. Mas a
indústria caiu (-1%) e o setor de serviços oscilou negativamente
(-0,1%). A construção civil, que se destina inteiramente ao
mercado interno, experimentou expressiva queda (-8,6%). (Para confirmar nossa
análise de janeiro de 2004, publicada nesta página, registre-se
que a nota técnica do IBGE, divulgada em 27 de fevereiro, informa que
"o subsetor de comunicações apresentou queda pela segunda
vez na série trimestral, puxada pela redução, em volume,
das telecomunicações, mais precisamente da telefonia fixa".)
(c) O consumo das famílias caiu 3,3%. Como ele já havia
caído 0,4% em 2002, acumulou queda sobre queda.
(d) A formação bruta de capital fixo (FBKF) também caiu de
forma expressiva (-6,6%). Ou seja, não se instalou capacidade produtiva
nova no país. Assim como o item anterior, este importante indicador
acumula queda sobre queda, pois o desempenho em 2002 já havia sido
negativo (-4,2%).
(e) O desemprego permaneceu muito alto. A taxa apurada pelo IBGE em janeiro de
2004 (11,2%) equivale à mesma taxa de janeiro de 2003 (por usarem outra
medotodologia, mais realista, o Dieese e a Fundação Seade
consideram que este número é muito maior, oscilando em torno de
20% da força de trabalho). Ainda segundo o IBGE, isso quer dizer que 2,4
milhões de pessoas estão procurando ativamente trabalho nas seis
regiões metropolitanas pesquisadas, sem contar com nenhuma fonte
alternativa de renda. Pessoas responsáveis pelo sustento de
famílias representam 26% dos desempregados; pessoas com menos de 24 anos
representam 46,5%; pessoas que têm pelo menos o segundo grau completo
representam 42% (sobre desemprego, ver nossa análise do mês de
outubro de 2003, publicada nesta página).
(f) As relações de trabalho tornaram-se mais precárias.
Diminuiu o número de empregados com carteira assinada (-0,5%). Aumentou
o número de empregados sem carteira (+2,8%) e de trabalhadores por conta
própria (+0,1%).
(g) A renda nacional se concentrou. Os empregados com carteira mantiveram sua
renda média em 2003 (+0,4%), mas os trabalhadores por conta
própria perderam renda (-8%), assim como os sem carteira (-2,1%). Por
isso, o rendimento médio das pessoas que trabalham foi menor em janeiro
de 2004 (-6,2%) do que em janeiro de 2003. Essa queda distribuiu-se de forma
desigual. A renda dos 10% mais pobres diminuiu (-8,7%) e a renda dos 10% mais
ricos aumentou (+1,9%).
Toda essa trajetória, em pleno governo Lula, contraria a retórica
tradicional do Partido dos Trabalhadores. Só os cínicos fingem
não se preocupar com o que está ocorrendo.
3.
No dia 1 de março a Folha de S. Paulo publicou números
levantados pelo Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc) junto ao
Siafi, outra fonte oficial, que nos oferecem uma visão sobre os gastos
do Estado. Ei-los, sinteticamente.
Em 2002 (último ano de Fernando Henrique Cardoso) a União
investiu R$ 11,6 mil milhões, ou 1,5% do Orçamento. Em 2003
(primeiro ano de Lula) a União, até meados de dezembro, investiu
R$ 1,8 bilhão, ou 0,24% do Orçamento. Em 2002 (FHC) a
União desembolsou 41,6% do Orçamento com
amortização de dívidas e pagamento de juros. Em 2003
(Lula) essa proporção atingiu 54,61%.
Entre 1.411 projetos (obras e programas) previstos para serem executados em
2003, 78% receberam menos da metade dos recursos e 38% não receberam
nenhum centavo. Entre estes últimos estão, por exemplo, obras
para contenção de enchentes, programas de expansão e
melhora do ensino médio, combate ao tráfico de entorpecentes e
pesquisas sobre prevenção de doenças sexualmente
transmissíveis, inclusive a AIDS. O programa federal de
geração de emprego e renda - a "obsessão" do
candidato Lula - recebeu 4,54% dos recursos previstos; saneamento recebeu 2,3%;
habitação recebeu 1,82%.
Nem todos ficaram infelizes com isso. No mesmo dia em que esses números
foram divulgados, Lula ofereceu mais um churrasco, dessa vez para Horst
Köhler, diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI). No
meio dos comes e bebes, Köhler, que nos dias seguintes pediu
demissão de seu cargo, disse aos jornais que viera ao Brasil "dar
os parabéns ao presidente Lula pela implementação de sua
política". E, lado a lado com o ministro Antônio Palocci,
acrescentou: "O tempo em que o FMI tinha de dizer ao Brasil o que fazer
já passou. Agora o Brasil sabe o que tem de fazer." (Sobre as
relações do Brasil com o FMI, ver nossa análise do
mês setembro de 2003, publicada nesta página.)
4.
No dia 7 de março a manchete principal de O Globo foi: "Governo
desmonta área de segurança do trabalho: verbas são
cortadas e fiscalização das empresas fica comprometida". No
corpo da matéria, lemos que o número de casos de acidentes de
trabalho vinha caindo desde 1997, mas voltou a subir no primeiro ano do governo
Lula (387 mil acidentes, com 2,9 mil mortes): "O Ministério do
Trabalho extinguiu a carreira de auditor especializado em saúde e
segurança, o que compromete a fiscalização nas empresas.
Além disso, pela primeira vez em dez anos, não foi feita a
campanha de prevenção [de acidentes], que teve sua verba cortada
de R$ 6 milhões para R$ 1 milhão."
5.
Os números apresentados acima - todos oficiais - poderiam
multiplicar-se, compondo o quadro dramático do esfacelamento, em curso,
do Estado e da sociedade brasileira. São o verdadeiro escândalo do
governo Lula. Perto deles, Waldomiro Diniz é só brincadeira. O
que aparece como superávit para os burocratas do Ministério da
Fazenda e do FMI representa desemprego, pobreza, desestruturação
familiar, mutilação e morte para os trabalhadores brasileiros.
Mas o governo reagiu, garantindo que o país agora iniciará um
ciclo de crescimento sustentado, e o fez de várias maneiras.
A primeira: Lula telefonou para o presidente George Bush para solicitar que
este último permita --- mediante sua influência junto ao FMI ---
que o
governo brasileiro use recursos brasileiros em obras de saneamento e infra-
estrutura a serem realizadas em território brasileiro. Estes recursos
resultam de impostos pagos pela sociedade brasileira ao Estado brasileiro,
tendo em vista financiar a execução dessas mesmas obras,
incluídas no Orçamento público brasileiro. O presidente
Bush, dos Estados Unidos, ficou de pensar se permitirá que o Estado
brasileiro use os recursos da sociedade brasileira para fazer as obras
previstas no Orçamento público brasileiro, em território
brasileiro. Mas, segundo Lula, demonstrou boa vontade.
Para evitar que tamanha ousadia de Lula perturbasse o mercado financeiro,
Henrique Meirelles, presidente do Banco Central, foi no dia seguinte aos
jornais para dizer que "está descartada qualquer mudança de
rumo". O fundamental, segundo ele, é "prosseguir com a
disciplina fiscal e monetária, como fazem todos os países
civilizados, sem exceção" (o déficit fiscal nos
Estados Unidos, em 2003, ficou em torno de US$ 500 mil milhões, mais ou
menos o tamanho do PIB brasileiro). Ele "descartou um corte
drástico na taxa básica de juros, de 16,5% ao ano, que considerou
adequada" (a taxa básica do sistema internacional está em
torno de 1% ao ano).
6.
Com a divulgação dos dramáticos dados do IBGE,
Antônio Palocci também se apresentou ao debate, anunciando um
outro caminho para a retomada iminente. Foi aos jornais defender a
adoção dos "superávits primários
anticíclicos", ou seja, superávits fiscais que variem em
sentido inverso à variação da atividade econômica:
"Se o Brasil crescer muito", explicou o ministro, "o governo
guardará mais recursos. Assim, se em outro ano o país tiver
dificuldade econômica, não será preciso cobrar mais
impostos da sociedade, piorando a dificuldade. [O Estado] poderá
então gastar aquilo que guardou."
Palocci perdeu mais uma excelente oportunidade de ficar calado. Segundo ele,
se, por alguma razão desconhecida, o Brasil crescer acima do esperado, o
governo gastará menos, para fazer mais superávit (trata-se, neste
caso, de uma política anticíclica com viés recessivo; ou
seja, se o país tenta crescer mais, o governo trata de esfriar a
economia).
Porém, ao contrário do que ele pensa, os recursos excedentes
não serão poupados, mas sim esterilizados, pois o Estado
não é um ente privado: ao gastar, ele automaticamente cria moeda;
ao recolher e entesourar, ele automaticamente destrói moeda. A
idéia de que o Estado possa "poupar" moeda não tem
sentido em economia. Ao dizer uma barbaridade dessas, o ministro seria
reprovado em qualquer curso sério de graduação.
Palocci anunciou que, se o país crescer acima do esperado, o governo
destruirá riqueza. E o que ocorrerá com o "superávit
anticíclico" se o país crescer abaixo do esperado? Neste
caso, simplesmente não haverá recursos a mais para investir, pelo
simples fato de que a receita tributária também tenderá a
cair. Não se fará, pois, nenhuma política
anticíclica com viés expansionista, a não ser que o
governo resolva se endividar, o que contraria toda a lógica do
próprio superávit primário! Por isso, José Carlos
de Assis escreveu (
www.desempregozero.org.br
): "Este princípio
fiscal anticíclico é uma bobagem, uma empulhação
(...), um escárnio, um acinte. Na teoria econômica,
anticíclica é a política que recorre a déficits
públicos na recessão, para combater o desemprego, e prevê
equilíbrio ou um pequeno superávit antiinflacionário
quando se atinge o crescimento sustentado e o pleno emprego. É uma
desonestidade intelectual apropriar-se desse conceito para justificar a
política oposta."
7.
Lula disse que cresceremos se Bush deixar. Meirelles disse que cresceremos na
medida em que tentemos não crescer. Palocci não sabe o que disse.
Foi a hora, então, de entrar em cena o ministro Guido Mantega, do
Planejamento, para dizer que cresceremos graças às parcerias
público-privadas (PPP) que o governo está preparando. Trata-se de
instituir um conjunto especial de regras capazes de atrair investimento privado
-- especialmente estrangeiro -- para obras de infra-estrutura.
Muitos já criticaram essa proposta, seja porque ela abre portas a
aberrações jurídicas, seja porque representa mais uma
modalidade de capitalismo sem risco, pois o Estado dá todas as garantias
aos parceiros privados: se o empreendimento não atingir a rentabilidade
esperada, o Estado comparece para garantir o lucro.
Mantega viajou aos Estados Unidos, pretendendo atrair nada menos que US$ 10 mil
milhões nesses esquemas. Felizmente, não o conseguirá.
Pois seria a ruína do Brasil. Serviços de infra-estrutura --
estradas, ferrovias, hidrelétricas e afins -- não geram receitas
em dólar, pois são cobrados dentro do Brasil, em reais. Se forem
controlados pelo capital estrangeiro, geram despesas em dólares, pela
remessa de lucros dos investidores às suas matrizes. Assim, se o plano
do governo Lula vingar, a vulnerabilidade externa brasileira se tornará
inadministrável. Teremos de pedir a Bush, ou a seu sucessor, não
permissão para crescer, mas para respirar e existir. Felizmente estamos
protegidos desse perigo, pois o governo brasileiro nunca apresentou nenhum
cálculo de custo de oportunidade para tais investimentos. Eles
são, obviamente, inviáveis, nas condições
mínimas que serão exigidas pelo capital privado. Pois, se o
presidente do Banco Central garante que a taxa de juros permanecerá em
torno de 16,5% ao ano e se todos conhecem a instabilidade cambial da economia
brasileira, então que rentabilidade será exigida pelo capital
privado para investir em obras que duram muitos anos e cujo tempo de
amortização se conta em décadas? Acredita o ministro
Mantega que os capitalistas dos Estados Unidos estão preocupados com a
infra-estrutura do Brasil? Ou, simplesmente, não se deu ao trabalho de
fazer contas?
8.
É tudo patacoada. É tudo asneirada. Então, poderá
o Brasil crescer neste ano? Sim, por dois motivos. O primeiro é apenas
um efeito estatístico que em nada reflete o mundo real. O nível
de produção atingido em dezembro de 2003 foi 1,5% superior
à média do mesmo ano.
Logo, se o Brasil mantiver em 2004 esse mesmo nível -- ou seja, se o
Brasil não crescer nada em relação a dezembro de 2003 -
terá crescido 1,5% no ano. Estatística tem dessas coisas. O piso
do crescimento brasileiro em 2004 -- se ele não for negativo -- é
1,5%. Quando o governo promete um crescimento do PIB de 3,5%, ele está
falando em 2% em relação ao melancólico fim de 2003. Se
fizermos a conta em termos de PIB per capita, tudo piora: se atingir sua meta,
o governo Lula terá obtido 0,7% de crescimento acumulado nos seus dois
primeiros anos.
O segundo motivo: tudo indica que a demanda externa continuará aquecida,
de modo que pelo menos uma fonte de demanda autônoma continuará a
agir.
Parece, pois, que repetiremos o desempenho de 2003. O mercado interno
continuará rastejante (o consumo das famílias e o do governo -
que permanecem estagnados -- representam cerca de 80% do PIB), e o
comércio exterior será o pólo dinâmico. Este modelo
de desenvolvimento -- que na verdade é um modelo de
não-desenvolvimento -- não nos interessa. Pois representa, no
setor primário, o reforço do agronegócio, do
latifúndio monocultor, altamente concentrador da terra e da renda, em
detrimento da agricultura familiar e cooperativada, produtora de alimentos e
geradora de empregos. E, na indústria, apenas 153 empresas respondem por
mais de 50% das exportações brasileiras. O modelo exportador, no
Brasil, é insuficiente para transmitir dinamismo ao conjunto da economia
e fortemente concentrador de riqueza. Mesmo se ele tiver algum êxito,
nossos problemas sociais continuarão intocados.
Quando o ministro Palocci e o presidente Meirelles nos tentam convencer de que
o Brasil está entrando em um ciclo de crescimento longo e sustentado,
eles têm de fingir que desconhecem informações essenciais:
por exemplo, a baixa formação bruta de capital fixo (FBKF) na
economia brasileira -- ou seja, a estagnação ou regressão
da capacidade produtiva instalada -- mostra que é o contrário
disso que estamos vivendo. Não fomos capazes de crescer, com esse
modelo, em um ano especialmente propício no cenário
internacional. Quando houver uma seca em Burundi, uma enchente na
Tailândia, uma oscilação na Bolsa da Turquia ou -- mais
provavelmente -- uma alta de juros nos Estados Unidos, eles dirão que
esse acontecimento exógeno e imprevisto atrapalhou tudo. Nos
íamos começar a crescer...
9.
Em 1653 Antônio Vieira deslocou-se a Belém do Pará para
entrevistar os poucos remanescentes da bandeira de Raposo Tavares -- a chamada
"bandeira dos limites" -- que haviam saído de São Paulo
cinco anos antes.
Os bandeirantes perderam-se nas terras interiores do continente e foram dados
como mortos. Parece que passaram pelos atuais Paraguai, Bolívia e Acre,
desceram o Mamoré, o Madeira e, finalmente, o Amazonas. Chegaram seis
pessoas a Belém em 1651, tão animalizadas e desfiguradas que nada
mais reconheciam. Depois de encontrá-las, Vieira escreveu:
"Verdadeiramente foi uma das mais notáveis viagens que se tem feito
no mundo, muito digna fora de saberem (que) alturas e por que rumos a fizeram.
Mas desses instrumentos [astrolábio e bússola] iam faltos, e
assim não sabem dizer coisa certa."
Quando vemos o que se passa no Brasil atual e ouvimos o que dizem nossas mais
importantes autoridades -- Lula, Meirelles, Palocci e Mantega -- pensamos em
Vieira: de astrolábio e bússola vão faltos, e não
sabem dizer coisa certa.
[*]
César Benjamin (com Rômulo Tavares Ribeiro), do
Laboratório de Políticas Públicas da UERJ. Sítio web:
www.outrobrasil.net
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