Evasivas, tergiversações e embustes

por José Reinaldo Carvalho [*]

Palocci, o ex-trotzquista convertido às virtudes do neoliberalismo e aos embustes.         Toda vez que o ministro da Fazenda Antônio Palocci se dirige ao público em grande estilo, principalmente em entrevista produzida à base de interesses convergentes com o grupo que comanda as comunicações no país, faz imenso bem ao “mercado”, ao mesmo tempo em que provoca dissabores para o povo, prejuízos à nação produtiva e apreensões entre as forças progressistas que apóiam o governo do presidente Lula.

        É natural que o ministro tenha querido consertar os próprios erros e apagar o incêndio que causou a desastrosa decisão da equipe de neoliberais que comanda a partir da Fazenda e do Banco Central, de manter inalterada a taxa de juros, contrariando uma tendência que se desenhava há seis meses e as expectativas de trabalhadores e empresários. É aceitável ainda que tenha usado sua autoridade como um dos principais ministros do governo para infundir ânimo na população e nos agentes econômicos, manifestando a crença de que em 2004 se iniciará um período de consistente crescimento econômico no país.

        Mas não é natural nem corresponde às expectativas da população que a mais importante autoridade governamental em matéria de política econômica reafirme que não se alterará a ruinosa e suicida política vigente até aqui. A afirmação causa espécie num momento em que se acentua no país, no seio do governo e entre as forças políticas aliadas um sadio e profícuo debate sobre que rumos o país trilhará – se o da implantação de um novo modelo econômico baseado no desenvolvimento nacional e na valorização do trabalho, com justiça e progresso social, se o do continuísmo do modelo de cassino financeiro, de abertura do mercado, de paraíso do capital desregulamentado, numa palavra, o da vigência de uma política econômica e financeira neoliberal de matriz tucana aplicada em nome dos interesses do capital financeiro. O debate entre essas duas alternativas é não só necessário como inexorável, transcorre já objetivamente e não serão duas ou três frases de efeito ensaiadas segundo o figurino da tergiversação midiática que o obstarão. Atualmente, não há voz responsável no país que não se avolume quando se trata de criticar a política econômica aplicada pelo ministro Palocci. Com ela o Brasil chegou a um beco sem saída e os índices macroeconômicos que o ministro comemora são os que correspondem à estabilidade do mesmo modelo, os que garantem a solvência dos compromissos do país com a banca especuladora internacional, contraditória com uma política de crescimento econômico sustentado. É por isso que a promessa de crescimento, nos termos evasivos formulados pelo ministro Palocci, não passa de frase de efeito e tende a cair no vazio.

        Nos marcos desse modelo vigente há tantos anos e que a experiência amarga demonstrou ter fracassado em toda a parte onde foi imposto e de maneira significativa no Brasil, não haverá desenvolvimento nacional. Outra coisa é a complexidade da situação mundial e nacional, as dificuldades na correlação de forças e a compreensão de que o governo precisa de cautela e se afastar da aventura ou da ilusão de vitória fácil contra o neoliberalismo. Se não houver convicção de que é preciso mudar o modelo, e vontade política para tal, as considerações sobre correlação de forças serão um elemento a mais de tergiversação. Diversamente, havendo convicção, no governo e na sociedade, de que é preciso mudar de modelo e, por conseguinte de orientação, povo, governo e forças políticas que lhe dão sustentação serão sábios para encontrar os meios, os ritmos e o tempo político para levar a transição a bom termo.

        Talvez seja essa falta de convicção ou, por outra, a convicção de que se deve persistir na aplicação do atual modelo, que levou o ministro na mesma entrevista a saltar das promessas inconsistentes para o embuste, quando disse que promoveu o ajuste durante o ano passado sem sacrificar o povo. Ou não significam sacrifício para o povo a recessão econômica, o aumento do desemprego, a queda da renda dos assalariados, o superávit fiscal acompanhado de contingenciamento orçamentário que leva à paralisia dos investimentos e à degradação dos serviços públicos, o corte de direitos de servidores na reforma previdenciária e o aumento da dívida relativamente ao PIB? É precisamente por serem tão evidentes e sentidos os efeitos deletérios da política econômica do sr. Palocci, chegados já ao limite do suportável, que cresce o clamor do povo e da nação para que se mude de política e de rumo.

[*] Vice-presidente nacional do Partido Comunista do Brasil.

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05/Fev/04