Voto crítico em São Paulo
por Correio da Cidadania
[*]
A política abrange tanto a negociação como a
intransigência: em uma conjuntura determinada, o correto é
negociar, abrindo mão de algumas coisas para conseguir outras; numa
conjuntura diferente, convém marcar posição, sacrificando
algo imediato a fim de afirmar um princípio ético ou
político importante no futuro. O desdobramento dos acontecimentos
evidencia retroativamente o acerto ou o erro de qualquer dessas decisões.
O voto "crítico" anunciado por um grupo de pessoas em
São Paulo visa unicamente marcar posição. Uma vez que
não se concorda com nenhum dos candidatos a prefeito, esse é o
voto que contribui mais para o avanço da luta pela
transformação da sociedade brasileira.
Descarta-se o voto no "mal menor" porque não se trata de
comparar os candidatos em termos de eficiência administrativa. O motivo
da anulação é mais profundo: visa mostrar, em um momento
de confusão, que, embora com diferenças, os candidatos à
Prefeitura de São Paulo situam-se politicamente no mesmo campo -o campo
da política de manutenção de uma ordem econômica e
social iníqua.
Basta ver que, tanto no programa como no discurso, nenhum deles enfrentou a
questão das transformações estruturais que precisam ser
feitas na política econômica do país e na dinâmica de
crescimento caótico da cidade.
Ora, qualquer pessoa de bom senso sabe que nenhum dos problemas que afligem os
paulistanos poderá ser efetivamente resolvido sem tais
transformações. Afora os ataques recíprocos, ambas as
candidaturas limitam-se a exaltar as mirabolantes obras e serviços que
farão nos quatro anos de mandato.
O ponto é precisamente este: realizar obras e serviços sem
alterar a dinâmica de crescimento da cidade não resolverá
os problemas da população.
Entre 1958 e 1962, o governador Carvalho Pinto, com seu Plano de
Ação, cobriu a periferia de São Paulo com redes de
água e esgoto, prédios escolares, postos de saúde,
edifícios de delegacias e fóruns distritais num volume
provavelmente não alcançado por nenhum outro governante nestes
últimos 50 anos. Acaso isso transformou o "acampamento" que
era São Paulo nos anos 60 em uma cidade civilizada, capaz de
proporcionar um mínimo de qualidade de vida à sua
população periférica? De modo nenhum. Os bairros que
então formavam a periferia da cidade tornaram-se bairros de classe
média, e novos bairros periféricos, tão destituídos
de melhoramentos urbanos como os anteriores, formaram-se alguns
quilômetros mais adiante.
Qual das candidaturas tem coragem de propor o estancamento desse processo
perverso? Qual delas aproveitou a campanha para criar uma
correlação de forças capaz de enfrentar os grupos
econômicos e sociais que comandam as políticas urbanas em
São Paulo? Quem mencionou que, para mudar as prioridades da cidade,
é necessário enfrentar os credores do Estado brasileiro, que,
amparados na Lei de Responsabilidade Fiscal, condenam o município
à penúria? Rios de dinheiro foram gastos na propaganda eleitoral,
mas nada se disse sobre o capital especulativo que determina o vetor de
crescimento da cidade, sobre as empresas prestadoras de serviço que
aprisionam o orçamento municipal, sobre a prioridade absoluta dada ao
transporte individual -- causa última dos insolúveis problemas de
transporte.
O voto crítico foi acusado de favorecer a candidatura Serra, dando um
novo alento aos tucanos e ameaçando a reeleição do Lula em
2006.
Não é essa a intenção nem há o menor risco
dessa conseqüência, porque as razões do voto crítico
por certo não chegarão imediatamente até a grande massa
dos eleitores, dada a cumplicidade de grande parte da mídia com a tese
da inexistência de alternativas ao neoliberalismo. Mas, de qualquer modo,
cabe perguntar: que resultado eleitoral poderá fazer Lula rever a
desastrosa política econômica que adotou nestes dois anos, a
vitória ou a derrota em São Paulo?
Nas circunstâncias atuais, só o voto crítico poderá
levar o eleitor a perceber que, apesar de toda a retórica
"democrática", esta campanha eleitoral foi muito
antidemocrática, pois impediu um debate real das alternativas existentes
para melhorar, de fato, a vida dos paulistanos.
Ao votar nulo, a fim de marcar posição, afirma-se que a luta
política é feita de muitas refregas, muitos eventos, muitas
conjunturas diferenciadas. A memória de um gesto político
incompreendido no momento de sua efetivação pode ser decisiva em
momento futuro, quando o desenrolar dos fatos, mais do que as palavras,
demonstrar a sua correção.
[*]
Editorial do
Correio da Cidadania,
jornal brasileiro de inspiração católica dirigido pelo
Dr. Plínio Arruda Sampaio, edição 421, 30/Out-06/Nov/2004
O original encontra-se em
http://www.correiocidadania.com.br/ed421/editorial.htm
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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