Dançando à beira do abismo: a crise sistêmica global
emerge novamente!
O sistema capitalista enfrenta o epicentro da mais grave, profunda e
devastadora crise sistêmica de sua história, muito mais grave que
as duas crises sistêmicas anteriores, cujos eventos provocaram
mudanças quantitativas e qualitativas nesse modo de
produção.
[2]
Trata-se de um período difícil, no qual os gestores do
capital estão desarticulados, sem horizonte, sem bússola ou
instrumentos, e viajando rumo ao desconhecido por mares nunca dantes navegados.
Todas as receitas, fórmulas e agendas já foram experimentadas
pelos governos, no período 2008-2020, e nenhuma delas conseguiu
restaurar a estabilidade do sistema nem a retomada sustentada da economia
mundial. A enorme quantidade de dinheiro colocada na economia apenas serviu
para adiar o desenlace do processo. Isso ocorre porque as crises
sistêmicas têm uma diferença quantitativa e qualitativa em
relação às crises cíclicas clássicas do
capitalismo e, especialmente, porque nenhum dos problemas que emergiram em
2007/2008 foi resolvido. Pelo contrário, o sistema realizou uma fuga
para frente, aumentando de maneira extraordinária o volume do capital
fictício em circulação: os bancos centrais colocaram cerca
de US$30 milhões de milhões na economia, recursos que serviram
muito mais para evitar temporariamente o colapso dos grandes bancos e grandes
empresas e para tornar mais ricos os rentistas do que para restabelecer
efetivamente a demanda agregada do sistema econômico.
Essa enorme massa de dinheiro (sem lastro na produção do valor),
conseguiu proporcionar ao sistema capitalista uma sobrevida semelhante a uma
vitória de Pirro, porque na prática os gestores do capital
construíram uma economia frágil, baseada nos setores pouco
produtores da riqueza material, e com um sistema financeiro ganhando rios de
dinheiro nos frenesis da especulação mundial, além de
empresas-zumbis buscando norte em meio à tempestade. Gerou também
para os eternos otimistas e crentes no milagre do capitalismo uma euforia
típica dos enfermos próximos à fase terminal. Ou seja, a
dramaticidade da crise anterior não foi uma boa conselheira para os
capitalistas, como foi a segunda guerra mundial. Enebriados pelas tonterias do
capital fictício e a sede de lucro fácil e rápido,
esgarçaram ainda mais as contradições do sistema, ao
aprofundar a agenda neoliberal, destruir as redes de proteção
social, avançar sobre o fundo público, realizar um brutal ataque
contra os salários, direitos e garantias dos trabalhadores e
pensionistas, privatizar os serviços públicos e mercantilizar a
vida. Quando a pandemia chegou encontrou um campo fértil para
avançar avassaladoramente sobre a população, especialmente
os mais pobres, e desmoralizar toda a narrativa das últimas quatro
décadas neoliberal. Portanto, o vírus não é a causa
da crise: a causa da crise é o sistema capitalista e suas
contradições imanentes.
É importante enfatizar ainda que os sinais obscurecidos da conjuntura
anterior à pandemia levaram muitos analistas a imaginar que o
capitalismo poderia se desenvolver tranquilamente driblando a lei do valor e
evitando o ajuste de contas entre o extraordinário desenvolvimento das
forças produtivas, baseado nas tecnologias da informação,
inteligência artificial, robótica e microeletrônica,
engenharia genética, biotecnologia, nanotecnologia, entre outras, e as
velhas relações de produção construídas no
pós-guerra e mantidas na atualidade.
[3]
Imaginaram que a criação do dinheiro a partir do nada seria
suficiente para regenerar um sistema doente e esqueceram-se de que, se a pura e
simples emissão de moeda resolvesse os problemas das crises, o
capitalismo seria um regime eterno. Nunca é demais lembrar que o sistema
capitalista alimenta o processo de acumulação através da
apropriação do mais-valor gerado pelos trabalhadores. Quando
setores capitalistas hegemônicos optaram majoritariamente pelo mecanismo
de acumulação a partir da órbita da
circulação, na verdade estavam conspirando contra os interesses
de longo prazo do capital, porque nessa esfera, por mais que os capitalistas
desejem, não se cria riqueza real na sociedade, afinal somente o
trabalho social é capaz de criar o valor. Isso explica o desastre da
chamada financeirização da economia. Da mesma forma, o que
estamos observando, desde 2008, é uma rebelião generalizada das
sofisticadas forças produtivos criadas pelo capitalismo atual contra as
velhas relações de produção, cujo desfecho
só será resolvido com uma mudança profunda no sistema,
como ocorreu no passado, ou com a revolução mundial.
Na verdade, as injeções de recursos por parte dos Bancos
Centrais, as políticas de flexibilização quantitativa, a
compra de títulos tóxicos para evitar as quebras generalizadas e
outros truques macroeconômicos realizados pelos governos dos
países centrais apenas contribuíram para reproduzir em bases
ampliadas todas as contradições sistêmicas que emergiram na
crise de 2008 e para transformar a crise atual num fenômeno muito mais
devastador do que a crise anterior. O vírus pode ser uma boa desculpa
para apaziguar a mentes mais desesperadas dos escribas do capital, mas
não resolve a crise e a devastação que está em
curso. O sistema financeiro, diante das taxas de juros praticamente negativas e
do risco de crédito em função das dívidas
empresariais e dos consumidores, preferiu alocar os recursos recebidos
praticamente de graça dos Tesouros dos países centrais na
alavancagem de seus negócios especulativos. A grande massa de recursos
lançada na economia não irrigou o sistema produtivo, exatamente a
base motora do crescimento econômico. Pelo contrário, foi
apropriada pelas grandes corporações financeiras e
monopólios em geral para especular a partir da arbitragem entre a taxa
de juros praticamente negativa definida pelo FED e bancos centrais europeus e
as aplicações nas Bolsas de Valores, em mercados futuros e de
países emergentes e, inclusive, na compra de títulos do
próprio Tesouro norte-americano. Resultado desse processo foi a longa
euforia das bolsas e dos mercados especulativos. Isso de certa forma explica
porque, enquanto a economia mundial enfrentava sérios problemas, os
multimilionários aumentavam a sua riqueza e a concentração da
renda crescia exponencialmente. Mas essas bolhas especulativas refluirão
dramaticamente com o aumento da crise e a maior parte desses recursos
será esterilizada em futuro não muito distante.
Em outras palavras, a crise atual está umbilicalmente associada à
emergência da crise sistêmica global em 2008, com uma
particularidade muito especial: na atual crise um elemento exógeno (a
pandemia do Coronavirus) veio aprofundar, potencializar, acelerar e
universalizar um processo que já estava maduro na economia mundial
capitalista, especialmente nos Estados Unidos e na Europa, e transformar a
crise já inscrita num horizonte próximo numa hecatombe social,
econômica e política, cujas consequências e resultados ainda
não temos uma dimensão plena. A pandemia apenas acelerou e
dramatizou um processo que já era objetivamente inevitável nas
principais economias do mundo. Foi uma espécie de detonador, uma
centelha flamejante num ambiente que já estava extraordinariamente
inflamável, tanto do ponto de vista econômico quanto social. Seria
até irônico imaginar que um nano-vírus, menor que uma
bactéria, tivesse condições de por de joelho um sistema
mundial com a pujança de mais de três séculos de hegemonia
no planeta. Se está produzindo essas consequências
dramáticas é porque o sistema já estava muito enfermo.
Caso contrário, a crise não seria tão devastadora, afinal
países como a China e Vietnã, que também enfrentaram a
pandemia, não registraram os resultados dramáticos que
estão sendo observados no centro do capitalismo.
Os elementos da nova crise
Grande parte dos analistas das organizações multilaterais, como o
Fundo Monetário Internacional e Banco Mundial, bem como institutos
especializados e muitos economistas, já identificavam ainda em 2019 uma
desaceleração da economia global e outros previam que uma nova
crise seria inevitável em função dos indicadores de um
conjunto de variáveis da economia mundial, especialmente nos Estados
Unidos e na Europa, os centros do capitalismo mundial. As Bolsas de Valores
já vinham apresentando grande volatilidade desde 2018, após um
boom alimentado pelo dinheiro dos Bancos Centrais injetados na economia e das
posteriores flexibilidades quantitativas. Além disso, a queda do
crescimento econômico chinês, que ao longo desse período
contribuiu de maneira acentuada para manter índices positivos da
economia mundial, já indicava que sérios problemas estavam por
vir na economia mundial. Afinal, a China é responsável por cerca
de um quarto da produção mundial, por 20% da
produção de peças e componentes e 12% do comércio
mundial.
[4]
Um indicador fundamental para expressar o fato de que a economia
já vinha se desacelerando pode ser observado nas taxas de crescimento
globais. Dados levantados por
Michael Roberts
já anunciavam uma queda no nível de crescimento da economia
global, desde 2010, conforme se pode observar na tabela 1.
[5]
Essa performance ocorreu em função da
estagnação das taxas de investimentos, que no mesmo
período se mantiveram menores que 2007. Mas o dado que melhor expressa
as dificuldades da economia mundial pode ser medido pela queda da lucratividade
desde 2010. Ainda de acordo com Roberts, a taxa interna de retorno do capital
do G7, que pode ser considerada uma proxy da taxa de lucro, vem caindo desde
1998, quando o período neoliberal atingiu seu ápice
(Gráfico1).
[6]
Se observarmos também o setor produtivo das principais economias dos
países centrais, poderemos constatar que já vinha ocorrendo
problemas em vários ramos da produção, especialmente na
indústria automobilística da Alemanha, Índia, Inglaterra.
Ainda na Alemanha ocorreu também queda no setor de máquinas e
equipamentos.
"No segundo semestre de 2019 começou uma recessão no setor
da produção industrial da Alemanha, Itália, Japão,
África do Sul, Argentina e vários setores industriais dos Estados
Unidos".
[7]
A redução no ritmo de crescimento da China impactou
também de maneira bastante negativa os produtores dos chamados
países emergentes que exportavam matérias-primas para os
chineses. Outros indicadores demonstram ainda enorme fragilidade da economia
mundial e da economia dos Estados Unidos em particular. Segundo Plender, que se
baseou em cálculos do Instituto Internacional das Finanças (IIF),
o quantum de endividamento mundial alcançou U$$253 milhões de
milhões no terceiro trimestre de 2019, quantia correspondente a 322% do
PIB mundial.
[8]
Outras fontes indicam um endividamento ainda maior na economia mundial:
de acordo com Hedgs, o endividamento mundial já alcançara U$$325
milhões de milhões, ressaltando-se que a dívida das
famílias nos EUA atinge U$13,2 milhões de milhões e as
dívidas dos estudantes também nos EUA atinge U$1,5 milhão
de milhões.
[9]
Vale lembrar ainda que a dívida externa norte-americana
alcança aproximadamente 100% do PIB (gráfico 2), que sua
infraestrutura está bastante deteriorada e o setor de petróleo,
no qual o País imaginava adquirir auto-suficiência a partir do
xisto betuminoso, está em bancarrota, assim como todo o setor petroleiro
mundial, em razão da queda dos preços e da demanda.
Como na crise anterior não ocorreu a queima de capitais suficientes para
regenerar o sistema econômico, o truque de injeções
maciças de recursos por parte dos bancos centrais criou um sistema
econômico baseado em fundamentos frágeis, um boom artificial e um
sistema financeiro que ampliou de maneira impressionante o processo
especulativo. Isso ocorreu porque os bancos, diante da montanha de recursos em
seus encaixes monetários, decidiram obter lucros muito mais
rápido e fácil na especulação do que colocar esse
dinheiro no setor produtivo. Direcionaram esses recursos para a compra de
ações, para a compra de títulos da dívida dos
países periféricos, para o mercado futuro de derivativos e todo
tipo de negócio especulativo. Esses negócios criaram uma
atmosfera otimista, na qual os agentes do capital, especialmente nos meios de
comunicação, difundiam a narrativa de que a economia tinha se
recuperado e estava crescendo a todo vapor. A crise teria sido apenas um
acidente de percurso e o sistema recuperara a normalidade como no passado. Ledo
engano: esqueceram-se de que o capitalismo é um sistema que não
pode se desenvolver se não extrair o mais-valor dos trabalhadores; que a
dinâmica capitalista implica investimento no processo de
produção, realização das mercadorias e
apropriação do valor para acumular o do capital. Querer fugir
dessa lógica imanente do capitalismo é uma miragem semelhante
à dos alquimistas buscando descobrir o elixir da juventude. Como de
costume, as crises emergem para relembrar a todos os caprichos
implacáveis da lei do valor.
Na principal economia do mundo, a crise até agora está sendo
devastadora. Não se pode afirmar com exatidão quais as
consequências no ritmo de crescimento dos Estados Unidos, mas as
perspectivas indicam que esta crise será tão ou mais grave que a
grande depressão porque combinou, num mesmo coquetel tóxico, a
emergência de um nova erupção da crise sistêmica
global com uma pandemia mundial que potencializou e acelerou todas as
contradições de um sistema enfermo. Concentrando-se a
investigação nos Estados Unidos, o coração do
sistema imperialista, como uma
proxy
do que acontecerá nas outras regiões do mundo, podemos
dizer que estão em cursos fenômenos dramáticos nunca dantes
observados na economia norte-americana e, por extensão, na economia
mundial. Os organismos internacionais preveem uma queda no PIB entre 5 e 10
pontos percentuais negativos, enquanto o ex-secretário do Tesouro
norte-americano e experiente representante do
establishment,
Larry Sammers,
avalia que esta será a maior crise desde a segunda guerra, cujo
desemprego deverá atingir 20% dos trabalhadores.
[10]
De concreto, agora em maio, 40 milhões de trabalhadores já
perderam o emprego, número que deverá aumentar à medida em
que a crise se agrava. De fato, a economia está numa espiral
descendente: o setor de petróleo está em bancarrota, com dezenas
de empresas indo à falência em função da queda da
demanda e dos preços do óleo. No setor do comércio,
milhares de empresas também estão falindo por falta de
compradores, o que significa que todas as cadeias de fornecedores também
sofrerão o impacto da queda. Da mesma forma, os setores da
aviação, do turismo, bares, restaurantes, shoppings, cinemas e
entretenimento em geral também estão a caminho do colapso. Em
breve a crise também chegará ao núcleo duro da
produção, em função da insuficiência
estrutural da demanda agregada, e as dívidas impagáveis de
empresas e consumidores sufocarão o sistema financeiro, cuja queda
será muito expressiva.
Essa crise ocorre num momento que a economia norte-americana, do ponto de vista
social, também vive uma situação difícil,
levando-se em conta ser esta a principal economia do planeta. Como vimos, o
crescimento econômico do período anterior foi realizado a partir
de fundamentos artificiais, tendo como lógica de crescimento a
órbita da circulação, cujos setores não produzem
valor. Da mesma forma, o chamado boom dos empregos, criados entre 2009 e a
emergência da crise atual, também estava baseado em fundamentos
frágeis, com salários estagnados e um elevado contingente da
força de trabalho não registrado pelas estatísticas
oficiais, o que permitiu uma sofisticada manipulação
estatística. "A taxa de participação da força
de trabalho a proporção da população total
de 18 a 64 anos que trabalha ou procura emprego caiu acentuadamente no
momento em que a crise ocorreu, e ainda está longe de retornar ao seu
nível de 2007
Os salários, como muitos já sabem,
não são muito maiores do que eram no final dos anos 1970. Tivemos
uma geração inteira experimentando estagnação
salarial e desde a Grande Recessão (de 2008, E.C.), tem sido
ainda pior".
[11]
Em outras palavras, o nível de emprego propagado pelo governo, em
relação à população em idade de trabalhar,
não refletia a real situação dos trabalhadores
norte-americanos, ressaltando-se o fato de que se tratava de empregos
precários e mal remunerados, bastando dizer que cerca de 50% dos
trabalhadores dos Estados Unidos ganham menos que U$33 mil por ano, um
nível muito baixo para os padrões daquele País.
[12]
Vale lembrar ainda que existem hoje mais de 40 milhões com
rendimento abaixo da linha de pobreza, e 550 mil sem teto, dos quais 358 mil
vivendo em abrigos precários e 195 mil morando na rua.
[13]
Para um País das oportunidades e das liberdades, esse não
é um dos mais belos cartões postais.
Do ponto de vista sanitário, a crise veio demonstrar a falência do
sistema de saúde privado no País. Atualmente, mais de 2,5
milhões estão contaminados pelo coronavirus, com mais de 120 mil
mortos, número mais de duas vezes maior que na guerra do Vietnã.
A pandemia revelou de maneira brutal as mazelas da sociedade norte-americana,
como a desigualdade, a pobreza, a miséria, a iniquidade de um sistema de
saúde onde quem não tem dinheiro morre na porta dos hospitais, a
concentração de renda, o racismo estrutural, os milhares de sem
teto e moradores de rua, mas também revelou a disposição
de vários setores da população para a luta pelas
mudanças, especialmente os jovens, negros e latinos. Se o presidente
Trump não tivesse subestimado a pandemia, a partir de um negacionismo
típico dos fundamentalistas neopentecostais, o número de mortos
poderia ter sido bem menor. Se o País tivesse um sistema de saúde
público, onde todos pudessem ter acesso gratuito à saúde,
milhares de vidas teriam sido poupadas. Dito de outra forma, a crise veio
demonstrar com rudeza que o sistema capitalista, especialmente na sua fase
neoliberal, é hoje o principal inimigo da humanidade porque só
tem a oferecer aos povos a miséria e a desigualdade. As
manifestações que estão ocorrendo em todo o País,
mesmo diante da pandemia, demonstra a insatisfação profunda da
maioria da população e que pode aumentar à medida em que a
crise for se agravando.
A desmoralização do discurso neoliberal
A crise demonstrou também de maneira pedagógica a natureza
desumana do sistema capitalista e os crimes de sua fase mais agressiva, o
neoliberalismo. As políticas neoliberais, ao longo dos últimos 40
anos, sob o pretexto da ineficiência do Estado e do equilíbrio
fiscal, transformaram o mercado numa entidade mítica, com interesses
superiores aos da espécie humana, numa ofensiva mundial articulada desde
as organizações multilateriais, aos diversos governos
capitalistas e, especialmente, aos meios de comunicação.
Diariamente as TVs, os jornais, o rádio e os meios digitais promoveram
as virtudes do livre mercado e da livre concorrência, da iniciativa
privada, das reformas econômicas, trabalhistas e previdenciárias e
do individualismo como a única alternativa para a vida em sociedade.
Desregulamentaram a legislação econômica, as atividades
financeiras, o mercado de trabalho, os direitos sociais, e colocaram toda a
estrutura do Estado a serviço da nova ordem, mesmo que para tanto se
utilizassem de regimes autoritários ou alianças com bandos
fascistas. Em outras palavras, transformaram o neoliberalismo num pensamento
único, a partir do qual qualquer discordância era desqualificada e
inviabilizada. O polo financeiro do grande capital passou a hegemonizar o
sistema econômico, a controlar parcela expressiva das empresas
produtivas, a hegemonizar politicamente o orçamento do Estado e
alavancar de maneira exponencial o processo de especulação. Por
trás desse discurso e dessas ações, evidentemente, estavam
os interesses da oligarquia financeira e do grande capital buscando
superar a crise capitalista e colocar todo o ônus do ajuste na conta dos
trabalhadores.
Dessa maneira, a política neoliberal avançou contra os direitos e
garantias dos trabalhadores e pensionistas, direitos conquistados por nossos
avós, e reduziu os salários, tanto dos trabalhadores do setor
privado quanto dos funcionários públicos. Em nome da austeridade
e equilíbrio das finanças públicas cortou gastos sociais,
reduziu a participação do Estado na economia, avançou
sobre as empresas estatais mediante o processo de privatização e
amealhou parcelas expressivas do fundo público em função
da dívida dos Estados. Devastou os serviços públicos, como
a saúde, a educação e o saneamento. Na ânsia de
acumular a qualquer custo, a selvageria neoliberal desmantelou as redes de
proteção social, destruiu parcela importante da biodiversidade,
das florestas, contaminou o solo e os rios e até mesmo o ar que
respiramos.
O resultado desse processo foi a precarização no mundo do
trabalho, a redução da massa salarial, o empobrecimento de largas
parcelas da população, a dificuldade para acessar os
serviços públicos, especialmente a educação e a
saúde, e uma concentração de rendimento obscena, na qual
1% da população mundial detém a mesma riqueza que os 99%
restantes.
[14]
Em outros termos, por trás das ações e do discurso
neoliberal, evidentemente, estava a ação da oligarquia financeira
e do grande capital para se apropriar dos recursos públicos e do
rendimento expropriados dos trabalhadores pelas contrareformas.
Mas as falácias neoliberais se transformaram em conto de fadas com a
crise sistêmica que emergiu em 2008, cujos resultados colocaram em cheque
toda a agenda neoliberal e sua narrativa teórica. Os gestores do
capital, sem a menor cerimônia, recorreram alegremente ao Estado para
salvar do colapso os bancos e as grandes empresas. Todo o velho discurso do
livre mercado, da eficiência da iniciativa privada, da
maldição do Estado foi abandonado, enquanto os Bancos Centrais
colocavam montanhas de dinheiro para salvar o sistema. Mas quem imaginava que
as classes dominantes iriam tirar lições do fracasso do
neoliberalismo e da gravidade da crise, deve ter ficado bastante decepcionado
porque o que se verificou posteriormente foi o aprofundamento das
políticas neoliberais, agora mais agressivas e depredadoras que no
período anterior.
Os gestores do capital retomaram, também sem a menor cerimônia, o
discurso da austeridade, dos ajustes fiscais, do corte dos gastos
públicos, dos salários, da necessidade das
privatizações, além do controle da política
econômica dos governos, para efetivar mais reformas trabalhistas e
previdenciárias e maior saque ao fundo público. Como se tratava
de medidas ainda mais impopulares que as do período anterior, pelos
impactos dramáticos sobre os trabalhadores, a juventude e a
população mais pobre, e que tenderiam a gerar
reação dos trabalhadores, as classes dominantes mundiais
resolveram radicalizar as restrições às liberdades
democráticas, a partir da eleição de dirigentes
fundamentalistas de direita ou mesmo se aliando a bandos fascistas para manter
a ordem. Na prática, as liberdades democráticas se tornaram um
obstáculo às políticas neoliberais em todo o mundo. Como
se pode observar desde 2009, aumentou a brutalidade contra as
manifestações populares, a criminalização dos
movimentos sociais e a perseguições a líderes sindicais,
populares e dirigentes políticos de esquerda.
Na crise atual o processo se repete em bases ampliadas. Sob o argumento de que
o Coronavirus, e não as contradições do capitalismo,
é a origem da atual crise, os bancos centrais do mundo inteiro e dos
países centrais em particular, especialmente o dos Estados Unidos,
liberaram novamente uma quantidade de recursos para bancos e grandes empresas
semelhante à crise passada, agora com paz na consciência, pois
aparentemente a crise teria origem a partir de um elemento exógeno ao
sistema. O FED já avisou que a ajuda ao sistema econômico
não terá limites. Pelos cálculos de diversas fontes,
até gora já foram emitidos mais de US$20 milhões de
milhões pelos bancos centrais em todo o mundo. Na maior parte dos
países e, especialmente nos Estados Unidos, o dinheiro recebido a taxas
de juro praticamente zero tem se destinado muito mais à
especulação do que ao sistema produtivo como no passado.
Os bancos, grandes fundos e grandes empresas com acesso a esses recursos
estão preferindo comprar ações nas bolsas e investir em
negócios especulativos. As grandes corporações
estão recomprando suas próprias ações. O
próprio FED tem resgatado dívida de empresas em dificuldades
financeiras e adquirido títulos tóxicos. Essa farra com dinheiro
criado do nada explica o paradoxo do aumento das cotações das
Bolsas de Valores no momento em que a crise mais se agrava. Enquanto isso, a
população pobre e desamparada, que agora ficou visível
para todos, recebe apenas uma ínfima parte do botim destinado ao grande
capital. Cada vez mais fica claro também o papel do Estado não
só como instrumento, mas especialmente como organizador coletivo dos
interesses das classes dominantes.
O significado político da crise
Mas essa crise veio também colocar na ordem do dia algumas velhas
questões da economia política há muito esquecidas pelas
classes dominantes e por certa esquerda reformista, que se acomodou no marxismo
bastardo, na gestão pretensamente humana do capitalismo e nos encantos
do poder político burguês. Nada como uma grande crise para colocar
a realidade da luta de classes no posto de comando. O primeiro grande
significado político desta crise é muito especial: só os
trabalhadores criam o valor. A riqueza criada no sistema capitalista não
é resultado da habilidade gerencial dos gestores do capital, nem das
máquinas e equipamentos e muito menos do espírito empreendedor
dos capitalistas: a única forma de criação de riqueza no
capitalismo é o trabalho humano. Como já definia Engels em seu
trabalho "A humanização do macaco pelo trabalho" onde
define com clareza a importância do trabalho para o ser humano:
"O trabalho é a fonte de toda a riqueza, afirmam os economistas, e
o é de fato, ao lado da natureza, que lhe fornece a matéria prima
por ele transformada em riqueza. Mas é infinitamente mais que isso.
É a condição fundamental de toda a vida humana. E o
é num grau tão elevado que, num certo sentido, pode-se dizer que
o trabalho, por si mesmo, criou o homem".
[15]
Poderíamos dizer que o trabalho é tão importante
que, se a humanidade deixasse de trabalhar, a espécie humana se
extinguiria, pois deixariam de existir bens e serviços para a
satisfação das necessidades humanas.
E o velho Marx já dizia que as mercadorias têm valores porque
são a cristalização do trabalho social.
[16]
E ainda no primeiro capítulo de
O Capital,
citando um panfleto anônimo escrito possivelmente entre 1739 ou
1740, muito antes de Adam Smith, já enfatizava claramente que o valor de
todas as mercadorias é resultado do trabalho socialmente
necessário do ser humano. "
É apenas a quantidade de trabalho socialmente necessário ou o
tempo de trabalho socialmente necessário para a produção
de um valor de uso que determina a grandeza de seu valor
Uma quantidade
maior de trabalho constitui, por si mesma, uma maior riqueza material".
[17]
Nessa crise a vida se encarregou mais uma de provar essa verdade da
economia política: quando os trabalhadores ficaram em casa, em
função da pandemia, ou quando as empresas demitiram por causa da
crise, a economia entrou em colapso. Os capitalistas, em desespero, se
articularam de todas as formas com o Estado para pressionar os trabalhadores a
voltar ao trabalho. Nada mais claro, objetivo e pedagógico do que o que
estamos presenciando nesses tempos de pandemia para provar que só os
trabalhadores são os responsáveis pela criação da
riqueza em nosso planeta. Os capitalistas só podem se apropriar do
mais-valor e acumular riquezas se passar pelo processo de
produção. Sem isso, trata-se apenas de riqueza fictícia
que será esterilizada nas crises. Por mais que os capitalistas queiram
abstrair essa realidade, para eles dolorosa, por mais que a propaganda burguesa
busque desviar a atenção para esta verdade cristalina, os
capitalistas não podem escapar à lei do valor. Bom, também
agora se torna mais fácil argumentar com mais precisão: se os
trabalhadores são os responsáveis pela criação da
riqueza, por que essa riqueza é apropriada, em sua maior parte, pelos
capitalistas e não pelos trabalhadores? A essa pergunta e sua
necessária resposta as forças de esquerda têm a
obrigação de explicar para os trabalhadores tanto agora quanto no
pós-pandemia.
A crise também demonstrou a enorme superioridade dos serviços
públicos de saúde em relação aos serviços
privados. Nos países com sistemas públicos e com dirigentes que
obedeceram as recomendações da Organização Mundial
da Saúde, da ciência, dos infectologistas as perdas humanas foram
bem menores do que naqueles em que os dirigentes ignoraram o perigo da
pandemia. Nos países em que os serviços de saúde
são privados, como nos Estados Unidos, e epidemia avançou
avassaladoramente e, neste momento, os Estados Unidos se tornaram
campeões mundiais de mortalidade e de infectados pelo coronavirus. Ao
contrário da principal economia do mundo, a China, Vietnã e Cuba
demonstraram muito mais eficiência no combate e controle da
doença. A China, primeiro país onde o vírus apareceu,
tomou todas as medidas de precauções, com o isolamento social de
regiões inteiras, a mobilização nacional de pessoal,
recursos e medicamentos para combater a pandemia. O pequeno Vietnã
também foi exemplar na mobilização e
organização da sociedade no combate ao vírus, da mesma
forma que Cuba. Mesmo boicotada selvagemente, também mobilizou recursos,
pessoal e medicamentos para proteger a população e vencer a
doença. E ainda enviou médicos para dezenas de países para
contribuir na luta contra a pandemia, mesmo em países, como a
Itália, que participa do boicote a Cuba. Esses fatos revelam, de um
lado, que as economias com planejamento e sistemas públicos de
saúde, têm mais condições de
intervenção em larga escala no combate a pandemias do que as
economias privadas, onde o lucro se sobrepõe às necessidades
humanas. Por isso, muitos morrem em frente aos hospitais porque não
têm dinheiro para pagar um leito. Além disso, os governos
capitalistas são mais maleáveis a pressões do capital para
retomar os negócios do que os governos de economias planificadas. Como
se pode constatar, muitas vezes esses governos autorizaram a abertura das
atividades econômicas e logo depois foram obrigados a voltar às
medidas de distanciamento social em função da retomada da
doença, mas nesse vai e vem muitas pessoas morreram.
A crise também desmoralizou mais uma vez o discurso neoliberal sobre
austeridade, ajustes fiscais, cortes nos gastos, privatizações e
escancarou de maneira didática as mentiras que diariamente os meios de
comunicação veiculavam para impor aos trabalhadores, à
juventude e ao povo pobre das periferias a agenda neoliberal radicalizada das
classes dominantes globais. Eles diziam que os Estados estavam quebrados e
endividados e que era necessário reduzir o déficit
público; que não tinham recursos suficientes para pagar as
aposentadorias e os funcionários públicos, uma vez que a
máquina pública estava inchada; que o Estado estava gastando
muito com saúde educação e saneamento; que as empresas
públicas eram mal geridas e ineficientes e que era necessário
deixar o mercado funcionar em todas as áreas da vida social porque o
mercado alocaria os recursos escassos de maneira mais eficiente; que era
necessário a austeridade nas contas públicas, porque do
contrário haveria um desequilíbrio fiscal e uma escalada
inflacionária. A partir dessa narrativa, destruíram as redes de
proteção social, reduziram os gastos sociais, sucatearam os
serviços públicos e avançaram sobre os direitos dos
trabalhadores. Quando veio a crise, esse discurso desmoronou: rapidamente
apareceram aos os recursos para salvar os bancos e grandes empresas, os bancos
centrais emitiram montanhas de dinheiro para comprar dívidas e
títulos tóxicos de corporações endividadas e
até sobrou uma pequena parte para a população mais pobre.
De uma hora para outra, todos se transformaram em radicais keynesianos,
defensores da intervenção do Estado para salvar a economia do
colapso e até do rendimento básico para a população
pobre. Acabou o discurso de que a inflação explodiria se o Estado
gastasse mais do que arrecadava. Mas todos devem ficar atentos:
tão logo acabe a pandemia, eles voltarão cinicamente com os
mesmos discursos como se nada tivesse acontecido.
Para onde vai a crise?
Qualquer previsão sobre as consequências da crise pode ser apenas
um exercício de imaginação, mas traçar
tendências e cenários possíveis pode contribuir para
compreendermos melhor o significado desta crise para o sistema capitalista e as
prováveis consequências econômicas e sociais para os
trabalhadores e a juventude. Mas é importante também realizarmos
um exercício prospectivo sobre as consequências políticas
da crise, seus possíveis desdobramentos em termos de movimentos sociais,
bem como os impactos na geopolítica tanto nos países centrais
quanto nos países periféricos. Podemos dizer que o mundo
pós-pandemia, apesar dos desejos e manipulações das
classes dominantes e seus meios de comunicação, não
será o mesmo para o sistema capitalista. A história nos tem
ensinado que todas as grandes crises desencadeiam fenômenos
econômicos, sociais e políticos novos e inesperados e essa
não será diferente. Antes de analisarmos os possíveis
desdobramentos da crise, é importante atentarmos para dois elementos
macroestruturais que permeiam o desenvolvimento da conjuntura no
pós-pandemia e um político-social que poderá emergir desse
processo: a) a questão geopolítica, envolvendo a disputa entre
China e Estados Unidos, o papel da Rússia e as mudanças
geopolíticas que poderão ocorrer no próximo
período; b) a recessão profunda nos países centrais e,
especialmente, nos Estados Unidos, além, da possível
desarticulação do sistema monetário internacional e do
poder do dólar como moeda mundial; c) a possibilidade de revoltas
sociais em várias regiões do planeta em função das
condições sociais e da desigualdade nos países
capitalistas. Essas três variáveis influenciarão de maneira
decisiva a ordem internacional construída em Breton Woods e poderemos
ter uma transição de hegemonia, que pode ocorrer de maneira
ordenada ou a partir da guerra, bem como a possibilidade de rupturas da velha
ordem em vários países.
a)
Antes da pandemia a China já vinha exercendo um papel central na
economia mundial, tornando-se a segunda maior economia do planeta, muito embora
já seja a primeira em termos de paridade do poder de compra
[18]
. A China hoje é a maior parceira comercial da Ásia, tem
intensificado fortemente suas relações econômicas com a
África e avança no relacionamento com a Europa e América
Latina. Após a construção do projeto da
nova rota da seda,
um instrumento que interligará as relações comerciais
dos chineses com dezenas de países de vários continentes, a China
tem se destacado também nas áreas das tecnologias de ponta, como
a
internet 5G,
satélites e a computação quântica. Esse
desenvolvimento tem despertado certo desespero dos Estados Unidos, tanto que a
principal empresa de tecnologia da informação chinesa, a Huawei,
que está desenvolvendo a tecnologia
5G
alguns anos à frente dos Estados Unidos, vem sendo objeto de
perseguição e boicote em vários países por
pressões dos Estados Unidos. Com o fim da pandemia, a disputa pela
hegemonia da economia mundial será intensificada, especialmente porque a
China já superou a doença há alguns meses e está
retomando as atividades econômicas, enquanto os Estados Unidos
estão mergulhados na crise sanitária e também numa crise
econômica e social profundas. A conjuntura pós-pandemia com
certeza tende a reduzir a hegemonia norte-americana e fortalecer o papel da
China como séria candidata a se tornar, num futuro não muito
distante, a primeira economia do mundo, fato que terá
consequências geopolíticas bastante fortes na ordem
econômica e política internacional. Não se pode prever qual
será a reação dos Estados Unidos diante dessa nova
conjuntura porque, ao longo da história, as mudanças de hegemonia
sempre foram realizadas a partir de tensões políticas,
econômicas e guerras. Mas a guerra não é um dado
definitivo, porque a China possui armas nucleares capazes de atingir os Estados
Unidos e, ultimamente, tem realizado uma aliança estreita com a
Rússia, que tem paridade estratégica em armas nucleares com os
norte-americanos. Uma guerra nessas condições seria uma
catástrofe que poria em risco a própria existência da
espécie humana. De qualquer forma, está no horizonte
próximo uma transição tensa de hegemonia na economia
mundial.
b)
A crise econômica nos Estados será muito mais grave que
primeira erupção em 2008 e possivelmente semelhante ou maior que
a grande depressão dos anos 30. Os cálculos realistas indicam que
o Produto Interno Bruto do País deverá cair para cerca de -10%, o
desemprego poderá atingir 50 milhões de trabalhadores, dezenas
milhares de empresas irão à falência em praticamente todos
os setores da economia, especialmente nas áreas de comércio e de
serviços e, num ritmo um pouco menor, na área produtiva. Com as
empresas indo à falência os bancos também serão
impactados fortemente em função da cadeia de dívidas que
atinge empresas e consumidores. Além disso, a crise não
será intensa apenas em 2020: a principal economia mundial
continuará em crise por muitos anos, pois as taxas de juros já
estão praticamente negativas e não têm mais para onde
baixar; os recursos que os bancos centrais estão destinando ao sistema
econômico estão encontrando um ambiente encharcado de dinheiro. Os
bancos não vão emprestar para as empresas produtivas porque estas
não têm demanda suficiente para absorver a produção,
em função da queda na renda da população. Só
numa conjuntura dessa ordem se pode explicar a inflação dos
ativos financeiros enquanto a economia desaba: os grandes conglomerados e os
próprios bancos estão recomprando suas próprias
ações. No caso dos Estados Unidos, mesmo que o Tesouro continue
resgatando as dívidas empresariais e comprando títulos
tóxicos das grandes companhias e bancos, essa prática tem um
limite. Em outros termos: essa farra em algum momento vai acabar tanto em
função da chamada armadilha da liquidez
[19]
, quanto no momento em que um elo forte na cadeia de crédito e das
dívidas for quebrado. O que resultará dessa conjuntura
será a quebra de grandes empresas, calote de dívidas, queda nos
preços dos ativos financeiros e os próprios grandes bancos
também irão à bancarrota porque nenhum setor pode
permanecer imune a uma crise dessa ordem.
b1)
Uma economia em frangalhos, com fundamentos destroçados,
não pode ter uma moeda com o privilégio exorbitante de poder
imprimir dinheiro sem um lastro em sua base material. Ou como diz Eichengreen:
"O Bureau of Engravind and Printing (a casa da moeda dos Estados Unidos)
gasta apenas alguns
cents
para produzir uma nota de US$100, mas os outros países precisam fornecer
US$100 em bens e serviços para obter a mesma nota de US$100.
[20]
Realmente, essa é uma artimanha muito mais vantajosa que os antigos e
melhores negócios da China. Mas esse privilégio pode
também acabar com a crise. Se observarmos os fundamentos da economia
norte-americana veremos uma situação aterradora: o déficit
em conta corrente
[21]
está acima de 4,5% do PIB, a dívida pública por volta dos
100% do produto, há ainda enorme dívida dos Estados e
Municípios, dos consumidores, dos estudantes e das empresas
[22]
. A infraestrutura do País está aos frangalhos, a economia em
queda livre, bem como o mercado de trabalho. Esse conjunto de adversidades vai
se refletir na confiança internacional do dólar, afinal uma
economia com esse conjunto de problemas, embora seja a maior economia do mundo,
com o maior poder militar, e a emissora do dinheiro mundial, em algum momento
os investidores podem decidir abandonar o barco e deixar de financiar o
déficit dos Estados Unidos. Necessário lembrar que a força
e a hegemonia de uma moeda são os fundamentos da nação
emissora. Em outros termos: caso ocorra o enfraquecimento do dólar as
nações irão procurar outra moeda para realizar suas
transações comerciais e nenhum País vai querer comprar
títulos de um País em bancarrota. Os bancos centrais vão
querer desfazer-se de suas reservas em dólar, afinal nenhuma
nação quer ter suas reservas baseadas numa moeda desvalorizada.
Não se pode esquecer que cerca de 65% do comércio mundial
é feito em dólar, mas isso pode também mudar rapidamente
numa grande crise, especialmente se levarmos em conta a ascensão da
China e se a sua nova criptomoeda o
yuan digital
for aceita pelos parceiros comerciais da China para suas
transações comerciais. Numa situação dessa ordem
teríamos uma desarticulação do velho sistema financeiro
internacional e a construção de um novo sistema possivelmente
baseado numa cesta de moedas.
c)
A terceira das grandes questões que esta crise está impondo ao
sistema capitalista é uma espécie de imponderável em
construção, onde todas as possibilidades estão abertas.
Vale lembrar que as grandes crises são o momento da verdade para todos:
governos, partidos políticos, movimentos sociais e populares. Nesses
períodos todos são obrigados a expor com clareza suas
ações, projetos, comportamentos, opiniões e a
própria conjuntura se encarrega de definir o rumo dos acontecimentos e
aferir quais as propostas que tinham aderência à realidade e quais
estavam incorretas. Crises dessa dimensão cobram um alto preço
pelos erros dos agentes econômicos, sociais e políticos. Nesses
momentos, os acontecimentos são velozes, a conjuntura muda bruscamente.
Aquilo que parecia impossível em dias anteriores se torna realidade
cotidiana no dia seguinte. Para o senso comum, é como se o mundo
estivesse virando de cabeça para baixo. Mas é assim mesmo.
São essas conjunturas que abrem as janelas de oportunidades para as
grandes mudanças no caso dessa crise tanto para os nossos
inimigos de classe quanto para os trabalhadores. Geralmente, as pessoas temem
as crises pela imponderabilidade e pela desagregação que ocorre
com a velha ordem, afinal é mais cômodo se conviver com a
normalidade. Mas à medida em que a velha ordem vai sendo derrotada e a
nova ordem estabelecida, a maioria toma conhecimento das vantagens objetivas
dos novos tempos e então se coloca em movimento para conseguir seus
objetivos. Caso seja orientada por uma direção política
consequente e com objetivos estratégicos, podem construir a nova ordem
num patamar bastante superior.
c1)
As grandes manifestações nos Estados Unidos são
resultado das contradições profundas que vinham se acumulando
nessa sociedade desde o final dos anos 70. A morte de George Floyd foi apenas o
estopim que acendeu a revolta que estava madura na sociedade. Estas
manifestações podem ser a senha para levantes em várias
regiões do planeta, inclusive na Europa e na América latina, pois
os problemas revelados pela crise são semelhantes em todas as partes do
mundo capitalista. Além disso, as manifestações nos
Estados Unidos possuem um valor simbólico: estão sendo realizadas
no coração do sistema capitalista. O choque psicológico
que a sociedade norte-americana está sentindo com os problemas revelados
dramaticamente pela crise terá um impacto profundo na consciência
das massas (tanto no curto quanto no médio prazo), especialmente na
população mais pobre e na juventude, para a qual ficou claro que
o discurso vendido pelas classes dominantes era uma mentira longamente
cultivada pelos meios de comunicação. O rei se encontra
completamente despido: o País das liberdades, das oportunidades, que se
comportava como palmatória do mundo para impor os seus valores, agora
não consegue proteger a saúde da população diante
de uma pandemia, enquanto países muito mais pobres controlaram a
doença. Em outras palavras, quando a ira popular emergir das
ruínas dessa crise o coração da maior cidadela
imperialista vai bater num compasso descontrolado. Mesmo antes da pandemia
já se podia sentir um grande descontentamento entre os trabalhadores dos
Estados Unidos, tanto que ano passado ocorreram várias greves na
categoria dos professores, nos trabalhadores de cadeias de fast food e
anteriormente as manifestações dos jovens do Occupy Wall Street.
Portanto, as manifestações que estamos assistindo agora podem ser
apenas a ponta de um iceberg em direção ao Titanic. Mas
não basta a revolta pura e simples contra o racismo, a brutalidade
policial e as desigualdades. O sistema é muito forte e pode absorver,
cooptar, dividir e derrotar o movimento. Vale lembrar que o
Occupy
chegou a se organizar em cerca de 60 cidades e se dissolveu por falta de
objetivos políticos estratégicos. Portanto, se as
manifestações não evoluírem para propostas
políticas para mudar o sistema, mediante a construção de
uma organização politica, baseada em forte movimento de massas
organizado, pode-se novamente perder uma grande oportunidade histórica.
O acirramento das lutas de classe em caráter mundial
Portanto, estamos diante de uma conjuntura em que haverá, no
pós-pandemia, um acirramento da luta de classes em caráter
mundial. Como avaliarmos em trabalhos anteriores, a luta de classes só
ganhará um caráter internacional quando atingir o
coração do imperialismo os Estados Unidos, a Europa e o
Japão. Nos elos débeis dos países periféricos
também ocorrerão jornadas extraordinárias de lutas porque
o imperialismo, ferido em seu próprio território, não
terá a mesma força para impor sua hegemonia ao resto do mundo,
até mesmo porque está emergindo da crise um competidor à
altura desse momento histórico. O mundo viverá uma nova
conjuntura com grande lutas de massas nos Estados Unidos, na Europa e,
especialmente, na América Latina, onde os levantes sociais já
vinham ocorrendo antes mesmo da pandemia, como no Chile, Equador e
Colômbia. Mas aqui no lado de baixo do equador, onde a luta de classes
terá um papel decisivo será no Brasil, tanto pela dimensão
geográfica e populacional do País, quanto pelo tamanho da
economia, do proletariado e, fundamentalmente, pelo acúmulo de
contradições sociais do País.
A burguesia e seu principal aliado estratégico, o Estado, irão
articular estratégias de todas as formas para conter as revoltas
sociais, tanto pela repressão aberta e generalizada,
criminalização dos movimentos sociais e populares, quanto por
métodos mais sofisticados de desinformação,
cooptação e manipulação dos meios de
comunicação. A retórica deverá ser a mesma: o
Estado gastou muito com a pandemia, está quebrado, e todos precisam
fazer sacrifícios para que se encontre o equilíbrio fiscal, como
forma de garantir a estabilidade econômica, a retomada do crescimento e
dos empregos. Mas a tendência é que esse discurso tenha poucas
chances de convencer a maioria da população porque a realidade da
crise terá sido tão violenta que pode neutralizar essa velha
catilinária, ao mesmo tempo em que a própria experiência
prática das massas nesse período pode gerar um efeito
pedagógico muito mais relevante para desmoralizar e deslegitimar um
discurso que vem se repetindo a cerca de 40 anos e que só serviu para
concentrar renda, reduzir os salários e aumentar a pobreza em todo o
mundo.
Não se pode afirmar com certeza qual deverá ser o desfecho de
curto e médio prazo no próximo período, mas algumas
hipóteses podem ser exploradas: a) caso as manifestações
no coração do sistema capitalista (Estados Unidos) se mantenham,
o ritmo da luta de classes nas outras regiões será muito mais
intenso, tanto pelo exemplo, quanto pelo próprio enfraquecimento do
imperialismo mundial; b) independentemente do que ocorra em termos de lutas
sociais nos países centrais, a luta de classes na América Latina
se intensificará de maneira extraordinária porque a
paciência das massas com a política neoliberal está
esgotada, o que já vinha sendo demonstrado no período anterior
à pandemia. Agora, com a devastação social provocado pelas
políticas neoliberais, escancaradas e intensificadas para a
população com a pandemia, a luta de classes na região
será muito mais intensa e violenta que nos outros continentes, tanto
pela feroz resistência das classes dominantes, viciadas na
barbárie social e na exclusão dos trabalhadores das
decisões econômicas e políticas, quanto pela
disposição dos trabalhadores, da juventude e do povo pobre das
periferias em mudar o estado de coisas na América Latina. Vale lembrar
que nas grandes crises as massas realizam um aprendizado rápido (e a
pandemia está contribuindo muito para isso), o estado de ânimo das
massas muda rapidamente. Fenômenos que pareciam impossíveis se
tornam realidade. Como quase todos os governos da região se alinharam
com a política neoliberal e se comportaram de maneira criminosa em
relação à pandemia, poderão sair da crise
desmoralizados junto à população, perderão
força política e terão poucas opções
além de reprimir barbaramente a população esfomeada e
raivosa nas ruas ou serem derrubados pelos movimentos sociais. Tudo depende do
papel que as direções políticas revolucionárias
terão nessa conjuntura. Como sou um otimista histórico,
torço para que a segunda opção se transforme em realidade.
Notas
2 O sistema capitalista mundial registrou apenas duas grandes crises
sistêmicas anteriores a esta: a de 1873-1896, cujo resultado foi a
passagem do capitalismo concorrencial para o capitalismo monopolista; e a crise
de 1929-1945, que levou à segunda guerra mundial, à
divisão do mundo em dois sistemas (socialista e capitalista) e, no
interior do sistema capitalista, os trabalhadores conquistaram o Estado do Bem
Estar Social. Para melhor compreensão do significado das crises
sistêmicas (em relação às crises cíclicas do
capital), consultar: COSTA, E. A crise econômica mundial, a
globalização e o Brasil. Rio de Janeiro: Edições
ICP, 2013.
3 Para melhor compreensão sobre as contradições
entre o desenvolvimento das modernas forças produtivas do capitalismo
atual e as velhas relações de produção, consultar
Costa. E. em:
A natureza da crise sistêmica global: às vésperas do choque das placas tectônicas do capital
. Resistir. info
4 GRUPO DE ESTUDOS E ACOMPANHAMENTO DA CONJUNTURA ECONÔMICA.
Coronavirus e a crise mundial: um olhar para os antecedentes da tormenta.
Tricontinental, Brasil, 24 mar. 2020. Disponível em:
www.thetricontinental.org/...
. Acesso em 30 mar. 2020.
5 ROBERTS, Michael. Lucratividade: o investimento e a pandemia. Economia
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. Acessado em: 30 maio.2020.
6 ROBERTS, op. cit.
7 TOUSSAINT, Eric. A pandemia do capitalismo, o coronavirus e a crise
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www.cadtm.org/A-Pandemia-do-Capitalismo-o-Coronavirus-e-a-Crise-Economica
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. Acesso em: 01 jun. 2020.
9 HEDGES, Cris. Assim arma-se a próxima crise financeira. Outras
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. Acesso em 26 jun. 2020.
10 BORGES, Robinson. Líderes que negam a gravidade da pandemia
não salvam a atividade econômica nem vidas, diz Larry Sumers.
Valor Econômico, São Paulo, 22 maio. 2020. Disponível em:
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11 WEISSMAN, Suzi; BRENNER, Robert. Por trás da turbulência
econômica. Portal da Esquerda em Movimento,29 ago. 2019.
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portaldelaizquierda.com/pt_br/2019/08/por-tras-da-turbulencia-economica/
. Acesso em 26 jun. 2020.
12 SNYDER, Michael. Prepare-se para a colisão! A economia dos EUA
está caindo e caindo com força. Blog Pos. 20 nov. 2019.
Disponível em:
www.clubpos.club/...
. Acesso em 26 jun. 2020.
13 THE COUNCIL OF ECONOMICS ADVISERS. The State of Homelessness in
America. [s.l]: [s.e.], 2019. Disponível em:
www.whitehouse.gov/...
. Acesso em 26 jun. 2020.
14 ROUBEN, Anthony. 1% da população global detém a
mesma riqueza que os 99% restantes, diz estudo. BBC News, 18 jan. 2016.
Disponível em:
www.bbc.com/portuguese/noticias/2016/01/160118_riqueza_estudo_oxfam_fn
. Acesso em 20 maio. 2020.
15 ENGELS, Friedrich. A humanização do macaco pelo
trabalho. In: ENGELS, Friedrich. A dialética da natureza. Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1979.
16 MARX, Karl. Salário, preço e lucro. São Paulo:
Edipro, 2004.
17 Cf. MARX, Karl. O Capital: livro I. São Paulo: Boitempo, 2013.
p. 117-123. Nessa passagem Marx cita um panfleto anônimo que
possivelmente tenha sido escrito em 1739 ou 1740 que naquela época
já afirmava o seguinte; "O valor deles (os meios de
subsistência) quando são trocados uns pelos outros, é
regulado pela quantidade de trabalho necessariamente requerida para a sua
produção e geralmente nela empregada".
18 Método alternativo à avaliação pela taxa
de câmbio, formulado pelo economista sueco Gustav Cassel, que busca
aferir o poder de compra real na moeda de cada país.
19 Conceito keynesiano no qual, quando a economia encontra-se numa
situação em que as taxas de juros se encontram em zero ou
próximas de zero, e a política monetária se torna
inócua, ou seja, não adianta injetar dinheiro na economia porque
não se alcançará nenhum resultado expressivo.
20 EICHENGREENN, B. Privilégio exorbitante: ascensão e
queda do dólar e o futuro do sistema monetário internacional. Rio
de Janeiro: Campus, 2010.
21 A conta-corrente envolve a balança comercial de um
país, a balança de serviços, além das
transferências unilaterais.
22 Os números oficiais indicam uma dívida pública
de US$21 milhões de milhões. Mas cálculos do economista
Laurence Kotlikoff, da Universidade de Boston e ex-economista senior do
Conselho de Economistas do presidente Reagan, indicam que a dívida de
longo prazo dos Estados Unidos, incluindo os passivos dos seguros sociais, do
Medicare, Medicaid, estudantes consumidores, (inclusive levando em conta a
arrecadação de impostos no período), atinge 222
milhões de milhões. Confira o blog The end of the American Dream,
de Michael Snyder.
14/Setembro/2020
[*]
Secretário-geral do PCB, é doutor em economia pela Unicamp, com
pós-doutorado no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
mesma Instituição. É autor, entre outros, de
Reflexões sobre a crise brasileira
(ed. Instituto Caio Prado Jr.),
A crise econômica
mundial, a globalização e o Brasil
(edições ICP,
2013) e
A globalização e o capitalismo contemporâneo
(Expressão Popular, 2008), além de vários ensaios
publicados em revistas e sites do Brasil e do exterior.
O original encontra-se em
ujc.org.br/...
Este artigo encontra-se em
https://resistir.info/
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