Por J. Carlos de Assis
Nota de resistir.info
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Diagnóstico da situação atual
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Análise da política econômica do Governo Lula
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Sugestão de política econômica alternativa
1. DIAGNÓSTICO DA SITUAÇÃO ATUAL
Atravessamos a mais grave crise social da história republicana
brasileira. Ela é determinada por níveis de desemprego e de
subemprego sem precedentes, levando às mais variadas estratégias
de sobrevivência na cidade e no campo, o que contribui também para
uma crescente sensação de insegurança em face dos elevados
níveis de marginalização social. Esta crise não se
deve nem a razões estruturais, por incorporação de novas
tecnologias ao setor produtivo, nem a uma passageira inflexão do ciclo
econômico. É uma crise que se deve, basicamente, à
política econômica inaugurada no segundo mandato de FHC e
aprofundada ao longo desta primeira quase metade do Governo Lula.
O caráter inédito da crise social que atravessamos decorre da
situação do mercado de trabalho. Ao lado do desemprego aberto,
que segundo o IBGE alcançava em julho 11,2% da população
economicamente ativa nas seis principais regiões metropolitanas, o
subemprego, caracterizado por trabalhadores ocupados com
remuneração inferior a um salário mínimo, se
elevava a 13,3%. Somados, esses dois indicadores atingem 24,5%, ou seja, um
quarto da população economicamente ativa. Tudo indica que este
seja um quadro nacional. Não há nenhuma razão para supor
que, em outras capitais e grandes cidades do interior, a situação
seja diferente. Aliás, no interior ela tende a piorar, exceto numas
poucas micro-regiões dedicadas ao agronegócio de
exportação.
Um quarto da população ativa desempregada ou subempregada
é quase tanto quanto foi a tragédia do desemprego no auge da
Grande Depressão dos anos 30 nos Estados Unidos e na Alemanha. Pode-se
alegar que, neste caso, tratava-se exclusivamente de desemprego aberto.
Entretanto, um trabalhador que ganha no Brasil de hoje menos que um
salário mínimo, às vezes metade disso, não
está em situação muito diferente de um desempregado
absoluto. Do ponto de vista de políticas públicas, ele é
um "caso" tão preocupante quanto o outro. Um lado ainda mais
sombrio é o que aponta uma taxa de desemprego de nada menos que 30,8%
entre os jovens de 15 a 17 anos, que também não estudam, e de
22,7% entre os de 18 a 24 anos. Qual a perspectiva de vida que a sociedade
brasileira está oferecendo a esses jovens, sobretudo os da periferia das
cidades, fáceis presas do tráfico de drogas?
O alto desemprego e subemprego não se devem, como dito acima, a fatores
tecnológicos. Os Estados Unidos experimentaram um progresso
tecnológico fantástico em toda a linha de seu parque produtivo e
nem por isso, nos anos de Clinton, deixou de atingir o virtual pleno emprego.
Também não se deve à falta de escolaridade. O desemprego
entre os sem instrução e com menos de oito anos de escolaridade,
de 10,4% segundo o IBGE, é virtualmente igual ao desemprego entre os com
11 anos ou mais de escolaridade, 10,1%. No escalão médio de
escolaridade, 8 a 10 anos, o desemprego é bem mais que no escalão
inferior: 10,1%. Em suma, os fatores que levam ao alto desemprego são de
outra ordem.
À profunda crise social que vivemos se contrapõe uma
situação econômica razoavelmente tranqüila para as
classes superiores. De fato, o equilíbrio da economia está sendo
mantido à custa do desequilíbrio social. Na frente interna, a
inflação é apresentada como se estivesse inteiramente sob
controle - não obstante o estouro das metas em 2001, 2002, 2003 e 2004.
Na frente externa, estamos realizando elevados superávits comerciais
que, este ano, devem ultrapassar os 30 mil milhões de dólares.
Para controlar a inflação e gerar este saldo comercial, o Governo
adota uma política fiscal-monetária num nível de
restrição sem precedentes, inibindo a demanda e os investimentos
internos via uma elevada taxa de juros reais e um superávit
primário numa escala sem precedentes. O resultado é
recessão e desemprego, que estão longe de apresentar uma
tendência firme de reversão, mesmo com a aparente melhora da
economia no primeiro semestre deste ano.
Na defesa de sua política regressiva num ano eleitoral, a equipe
econômica difundiu inicialmente, ainda em fins de 2003, uma
baixíssima expectativa de crescimento do PIB para este ano, como se um
ponto de partida baixo de recuperação fosse essencial para
indicar uma firme retomada posterior; em seguida, festejou os dados do primeiro
e segundo trimestres deste ano, enviesados pela modesta base de
comparação no ano passado e que assim mesmo apenas confirmam as
expectativas pouco ambiciosas anteriormente anunciadas, muito abaixo da
média da América Latina. Por outro lado, quando se abrem os dados
da indústria, verifica-se que o crescimento está concentrado no
setor exportador ou no setor de alto consumo. As indústrias de
alimentos, remédios, vestuário e calçados estão
virtualmente estagnados, ou operando abaixo do nível médio de
2002. Essas são as indústrias que produzem para as massas.
Do ponto de vista teórico, não deve surpreender o suspiro de
crescimento este ano, depois de um ano em que houve decrescimento do produto.
Temos uma política fiscal-monetária que transfere continuamente
renda dos segmentos pobres da sociedade, através do superávit
primário, para os ricos, receptores de juros. O poder de demanda destes
está protegido pela moeda remunerada no over, e aumenta com a taxa de
juros, em lugar de cair. Por outro lado, a receita de superávit de
exportação, da ordem de R$ 75 mil milhões no ano passado,
tem sido expansionista numa escala mais do que suficiente para neutralizar o
efeito contracionista do superávit primário, de cerca de R$ 65
mil milhões. Do ponto de vista econômico, o equilíbrio
é perfeito. Do ponto de vista social, o resultado é alto
desemprego e queda de renda do trabalho, que chegou a 16% neste ano e só
em julho teve uma ligeira recuperação de 2%.
O desemprego está também diretamente relacionado com a piora da
condição de vida das famílias brasileiras. De acordo com
uma pesquisa do IBGE, 85,45% do total de famílias do País tinham,
em 2002/2003, dificuldade, alguma dificuldade ou muita dificuldade para chegar
ao fim do mês com o rendimento monetário familiar. Para 47% delas,
a alimentação era insuficiente (13,83%) ou às vezes
insuficiente (32,80%). Em contrapartida, apenas 5,68% das famílias
tinham facilidade, alguma facilidade ou muita facilidade para chegar ao fim do
mês com o rendimento monetário. Por aí se vê que
não é apenas na base da pirâmide de renda que a
situação é percebida como altamente crítica.
É também no nível das classes médias, que
estão sendo estranguladas pela política econômica, enquanto
a concentração de renda se intensifica na ponta da pirâmide
social.
O diagnóstico da situação sócio-econômica
brasileira indica que não há crise econômica, mas crise
social. Mais do que isso. A melhora do quadro econômico, inclusive a
flutuação de crescimento um pouco acima do fundo do poço,
se deve ao aumento das exportações e à estrutura
fiscal-monetária contracionista que garante um colchão crescente
de demanda interna dos ricos. Esse sistema é socialmente
insuportável a longo prazo, e politicamente explosivo. Nada indica que,
mantida a atual política fiscal-monetária, entraremos num ritmo
de crescimento sustentável que venha a contribuir para criar os empregos
necessários a absorver os jovens que estão entrando no mercado de
trabalho e o estoque de desempregados que vem se acumulando e renovando desde a
década passada.
2. ANÁLISE DA POLÍTICA ECONÔMICA DO GOVERNO LULA
O Governo Lula sintonizou sua política econômica de acordo com a
orientação herdada do Governo FHC, segundo a qual o Estado
brasileiro está falido e incapaz de liderar o processo de
desenvolvimento, que deve ser entregue ao capital estrangeiro em face da
notória incapacidade do nacional. A partir deste pressuposto -- que
está inscrito, por exemplo, na insistência com a
aprovação da chamada PPP --, toda a política
econômica foi orientada no sentido de criar uma atmosfera
"amigável" ao capital externo, ajustando-se a política
monetária, a política fiscal e, por fim, a política
cambial e de capital estrangeiro ao objetivo de agradar as expectativas do
"mercado" internacional - uma entidade elevada a um status quase
sagrado na iconografia do discurso político-econômico brasileiro.
Esse modelo não foi imposto de uma vez por todas. Foi sendo
construído por ajuste a circunstâncias e pressões externas,
sobretudo da banca internacional, através do FMI, e
"naturalmente" empurrado goela abaixo do Congresso Nacional e da
sociedade brasileira. Com o Plano Real, o primeiro movimento foi de abertura
comercial com câmbio valorizado, justificado pela idéia
estapafúrdia de que o déficit em conta corrente resultante era
positivo, na medida em que correspondia a absorção de
poupança externa. Isso seria parcialmente compensado pela
elevação da taxa de juros e aumento do superávit fiscal
depois da crise do México em 95, assim como pela
aceleração das privatizações. Finalmente, com a
eclosão da crise externa em fins de 98, chegou a vez de uma
política cambial flexível, ancorada no modelo de metas de
inflação operado pelo Banco Central.
Costuma-se argumentar que o Governo Lula, assim como o anterior, não tem
um projeto nacional. É um equívoco. Ele tem um projeto nacional.
A idéia nacional que ele persegue é do desenvolvimento liderado
pelo capital estrangeiro. Isso requer total liberdade dos capitais, pelo menos
no nível da CC-5. Requer também câmbio flutuante, pois do
contrário estaríamos sujeitos a permanentes ataques especulativos
externos. Para se ter câmbio flutuante, e ao mesmo tempo não ter
uma forte instabilidade pelo lado externo, é necessário manter as
taxas de juros num patamar extremamente elevado. Se isso implica uma
pressão permanente sobre o déficit público,
paciência; faz-se um imenso superávit primário, dessa forma
tranquilizando o "mercado" sobre a solvência do Estado. Essa
política fiscal-monetária, desenhada para agradar o
"mercado", tem dois efeitos colaterais importantes: derruba a demanda
interna de massa, pelo desemprego e pela queda da renda do trabalho,
"controlando" a inflação; e, pelo mesmo mecanismo,
libera excedente exportável.
O outro efeito colateral dessa política, não econômico mas
social, é o alto desemprego -- desemprego de gente, não
necessariamente de máquinas. É que o capitalismo brasileiro, ou
pelo menos a parte financeira dele, parece satisfeita com a atual
situação de baixo crescimento. É que está sendo
construída uma espécie de apartheid econômico-social, pelo
qual o Governo, através do
over
, compensa os grandes grupos produtivos pela parte do lucro que deixam de ter
em razão da contração do mercado necessária, nos
termos da política em curso, para conter a inflação. No
setor elétrico, isso se deu explicitamente, depois do racionamento de
2001. Nos demais setores, ocorre de forma mais sutil, via altas taxas de juros
que incidem sobre o fluxo de caixa das empresas em giro no over e no open
market. Isso fica patente quando se observa o balanço das maiores
empresas brasileiras, não só as financeiras, relativas ao ano
passado e a primeira metade deste ano: os lucros são fantásticos,
não obstante um ano de decrescimento do produto global seguido por outro
de baixo crescimento.
Como se concilia isso, teoricamente, com uma situação de demanda
reprimida? É muito simples. No
over
, não estamos diante apenas de uma transferência física de
renda de uma parte da sociedade que paga tributos para a outra que detém
títulos da dívida pública, mas também de
transferência para estes últimos de novos direitos patrimoniais
contra o Estado, que no interesse de seus detentores deve convertê-los em
renda corrente. Como a maioria das empresas não tem o que fazer com essa
renda, pois não há estímulo de mercado ao investimento, o
resultado é um aumento contínuo dos ativos financeiros em
títulos públicos. O povo fica cada vez mais pobre por causa do
desemprego e da queda da renda do trabalho, mas as empresas ficam cada vez mais
ricas, com lucros crescentes alimentados pelo Estado, que também banca
sua contínua valorização patrimonial.
3. SUGESTÃO DE POLÍTICA ECONÔMICA ALTERNATIVA
Se estamos diante de uma crise de alto desemprego, a forma historicamente apta
a enfrentá-la é uma política de pleno emprego de corte
keynesiano. Foi o que aconteceu nos anos 30 nos países industrializados
avançados para reverter a Grande Depressão. Não se trata
aqui de salvar o capitalismo, trata-se de salvar as pessoas. Contudo, no
processo de salvar as pessoas, estaremos possivelmente construindo nos
trópicos um capitalismo de cara humana, a exemplo do Hemisfério
Norte -- ou o capitalismo regulado socialmente, ou ainda o Estado do bem-estar
social. Uma política de pleno emprego, antes de mais nada, é a
mobilização pelo Estado dos recursos humanos e materiais ociosos
de uma sociedade rumo à prosperidade, como ocorreu nos países
industrializados no quarto de século posterior à Segunda Guerra,
conhecido como Idade do Ouro do capitalismo.
Do ponto de vista econômico, uma política de pleno emprego se
traduz por uma política fiscal-monetária expansiva, ancorada numa
política de rendas para neutralizar eventuais pressões
inflacionárias. A globalização financeira por certo
é um impeditivo à sua adoção sem salvaguardas, pelo
que uma precondição essencial é o controle da conta de
capitais e a administração da taxa de câmbio num
nível favorável às exportações - a fim de
fortalecer a posição externa do País. O ponto central,
contudo, é um programa de investimentos em infra-estrutura
econômica e em serviços públicos, financiados pelos
tributos "economizados" no orçamento fiscal pela queda
drástica da taxa de juros. Isso significa redução do
superávit primário, pelo menos enquanto durar o alto desemprego,
sendo que, a médio prazo, a situação fiscal certamente se
fortalecerá com a retomada do crescimento do produto e da receita
tributária - eventualmente justificando a redução da carga
tributária.
Esses pontos foram assinalados no Manifesto dos Economistas de junho de 2003, e
considero que, no âmbito deste encontro de economistas com o MST, devem
ser reforçados. O importante é conceber a política de
pleno emprego não apenas como um expediente para reduzir o desemprego,
mas como um processo de mudança da sociedade e do Estado. Na verdade,
só no contexto de uma política de pleno emprego se
conseguirá fazer, por exemplo, a recuperação efetiva do
setor público e a própria reforma agrária, entendida esta
como um amplo programa social e não uma simples questão
fundiária ou econômica. É também no contexto de uma
política de pleno emprego que se financiarão adequadamente as
políticas públicas de saúde, educação,
habitação, saneamento, etc.
Por fim, convém assinalar que, depois do fim do socialismo real no Leste
Europeu, e da conversão de quase todos os estados soviéticos, sob
pressão norte-americana e européia, em liberais ou neoliberais, a
política de pleno emprego é o foco progressista da
polarização política e ideológica
contemporânea, que tem no pólo regressivo os neoliberais. Na
verdade, enquanto o socialismo real pareceu uma ameaça
geopolítica a ser levada a sério, o velho liberalismo, que havia
sido derrotado pela política de pleno emprego nos anos 30 e no
pós-guerra, relutou em colocar sua cabeça para fora do debate
político. Sem a ameaça vermelha, voltou com uma pressão
ideológica avassaladora, a ponto de ter abraçado até o
Governo Lula. Em consequência, a Europa enfrenta uma longa onda de
desemprego, e a América Latina a sua pior crise social em sua
história. Só os asiáticos, que repeliram o neoliberalismo,
escapam da degradação social. Temos porém uma chance.
Vamos ajudar a sociedade brasileira a se convencer de que, em lugar desse
capitalismo neoliberal predatório, podemos adotar uma política de
pleno emprego -- na linha sugerida inclusive pelo pacto CUT/Fiesp, recentemente
repelido por Palocci, como ato de defesa de uma política
macroeconômica que nos está estrangulando aos poucos.
Rio, 12/Set/2004
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Nota: resistir.info não tem de concordar com tudo o que diz um artigo
para publicá-lo. No caso em apreço, publicamo-lo pelo interesse
que apresenta quanto à análise da política de
traição nacional do governo dirigido pelos srs. Meirelles &
Palocci (em que o sr. Lula faz apenas de figura de proa). No entanto,
resistir.info considera que a "Sugestão de política
económica alternativa" preconizada pelo autor deste artigo
que não põe em causa a continuação do pagamento da
dívida externa, nem a manutenção do superávite
primário em benefício dos credores do Brasil e nem a necessidade
de uma ruptura com o imperialismo é manifestamente
utópica. Trata-se de uma tentativa de defender um capitalismo com
rosto humano. Nesta fase histórica, tais tentativas estão
fadadas ao malogro.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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