Antes que seja tarde demais
O governo Lula é prisioneiro de impasses profundos, dos quais não
se libertará. Suas ações e omissões têm
agravado, em curto período de tempo, todos os nossos dilemas. Caminha
para um fracasso de grandes dimensões.
Há uma tragédia em curso no Brasil, e ela, por enquanto, nos
confunde e nos paralisa. Pois a política o nosso instrumento da
mudança foi despolitizada, reduzida a doses cavalares de
marketing
e a um conjunto de pequenos arranjos, muitos dos quais bastante suspeitos,
tudo a serviço da conquista e da preservação de
posições de poder. Nada mais há de libertário nela.
Nenhum impulso de superação do que existe. Nenhuma
ligação com fins e valores. Passada a eleição,
discute-se agora se Marta ganhará a embaixada em Paris, quem se
cacifou
[1]
para a próxima disputa, qual dos gaúchos vai perder vaga no
ministério, como encontrar cargos suficientes para acomodar tanta gente
e coisas assim tão transcendentais, enquanto Lula diz platitudes,
passeia com sua cadela, vai ao cineminha do palácio e aguarda a chegada
do novo avião. Na economia, tudo vai bem, pois os bancos e o
agronegócio vão bem. O povo tenta sobreviver.
Precisaremos reinventar a política. Os partidos operários
modernizaram a política européia ainda no século XIX.
Ampliaram os limites das hesitantes democracias de então,
forçando os conservadores a se adaptar. No Brasil, em pleno
século XXI, o PT no poder rebaixou os ideais republicanos
já não digo socialistas ao nível de um jogo
circense que instrumentaliza a nossa democracia, igualmente hesitante, para
apequená-la. A política confirma-se como um espaço de
competição entre grupos de profissionais que, ao buscarem seus
interesses, concorrendo entre si, acabam por construir uma
situação de eterno equilíbrio flutuante, por meio da
manipulação periódica dos desejos de
eleitores-consumidores. É, como se vê, uma variante do mercado.
Não há mais projetos de sociedade em disputa. Não
há espaços para que o povo apareça como protagonista e
reivindique para si a construção de seu próprio futuro.
Discute-se, no máximo, quem administra melhor o que aí
está.
Nesse contexto, os políticos os do PT e os outros
esforçam-se por adaptar-se ao que a sociedade é, ou parece ser,
conforme lhes informam as onipresentes e minuciosas pesquisas de
opinião. Não aceitam correr o risco de pensar no que ela
não é, nem parece ser,
mas pode vir a ser.
São incapazes de despertar qualidades novas que estejam latentes. E
ficam iguais. O futuro que resulta do somatório dessas
ações da pequena política, dessas sucessivas
operações de curto prazo, tendo sempre em vista a próxima
eleição, esse futuro o único admitido pelo jogo
institucional atual é apenas o prolongamento do presente.
Não contém o caráter novo de um verdadeiro futuro.
Consolida-se assim, pois agora sem oposição, o
status quo
que tem origem na contra-reforma conservadora da década de 1990. Os
porta-vozes da burguesia exultam diante de tanta maturidade.
Tivemos, ao longo da história, muitos tipos de esquerda. Pela primeira
vez, temos agora uma esquerda de negócios. Pois, tendo destruído
a militância, o que Lula e o PT necessitam cada vez mais
mídia e dinheiro só a classe dominante pode lhes dar. Pela
palavra de suas principais lideranças e pela sua prática, o PT
já não esconde sua condição de partido tradicional,
integrado política e moralmente à ordem em vigor. Entre perdas e
ganhos, firmou posições no espectro da política
institucional, cada vez mais divorciada do país real, mas não
mais poderá ser o eixo de gravitação de uma proposta
transformadora, mesmo reformista, que pretenda ser séria.
Estamos assistindo, pois, ao fim de um ciclo na existência da esquerda
brasileira, com o colapso político e moral de sua força
hegemônica. Este ciclo acabou porque: (a) a interpretação
que o PT tem sobre a crise do nosso país que seria superada com
uma retomada do crescimento econômico está fundamentalmente
errada; (b) o programa liberal e conservador do governo Lula, ao fortalecer as
forças do capital contra as forças do trabalho, agrava a velha
crise, em vez de abrir um período novo; (c) o tipo de prática que
o PT propõe aos seus filiados integrar-se cada vez mais às
instituições do Estado, construindo carreiras políticas
individuais perpetua e aprofunda o impasse da esquerda; (d) a
relação do PT com o povo desmobilizadora e mistificadora
já permite classificá-lo como um partido conservador; (e)
permeado por interesses menores de todo tipo, ele não é mais
capaz de reformar-se e abandonar esse caminho falso.
Engana-se quem ainda espera que da cartola de Lula surja algo novo. O
neoliberalismo do seu governo não é uma política.
É uma ideologia. Como todas as outras, não deixa porta de
saída. Só produz mais do mesmo, e esse mesmo é pura
mesmice. É preciso compreender bem esse ponto, para que não haja
ilusões. No imaginário neoliberal, o mercado é o
espaço de interação de incontáveis agentes, sem que
nenhum deles possa, sozinho ou em grupo, controlar os processos de troca a
ponto de impor os seus próprios fins aos demais. Ao governo, nessa
visão, cabe cuidar apenas de preservar certas condições
macroeconômicas que permitam o mercado operar. Fora do âmbito da
empresa individual, essa escola de pensamento é hostil a qualquer
idéia de metas, pois a busca de metas democraticamente definidas exige
uma intervenção consciente nos processos econômicos e
sociais, em nome de um futuro pensado, desejado, imaginado, concertado, e
não produzido por aquela cega interação mercantil.
Quando se apresentam como representantes do futuro, os neoliberais nos vendem
uma mercadoria que não podem entregar, pois eles mesmos não
têm meios de saber a qual futuro se referem. A alocação
[2]
dos recursos será ótima eles dizem se for
produzida pelo livre mercado, simplesmente porque o livre mercado produz uma
alocação qualquer, desconhecida, considerada ótima por
critérios internos à própria teoria que o glorifica. Se
essa alocação ótima produzirá bem-estar, não
se sabe. Isso, aliás, não tem a menor importância.
Ora, se permanece indefinida a imagem do futuro que se deseja atingir,
inexistem pontos de referência que permitam uma avaliação
rigorosa dos processos reais. Diante de qualquer dificuldade, o pensamento
neoliberal consegue acionar uma saída de emergência com a
incessante repetição de que é preciso esperar mais e
insistir mais, dobrando a aposta quando necessário, pois eis
aí o verdadeiro problema o modelo ainda não foi
completamente implantado. Há anos ouvimos isso, aqui e alhures, e
não sem razões. Pois, sendo o livre mercado apenas um tipo
ideal, incapaz de organizar efetivamente o conjunto da vida social,
então, por definição,
a implantação do modelo neoliberal está sempre incompleta.
Cria-se um discurso que, como os demais discursos ideológicos,
externaliza suas dificuldades. Não depende do confronto com uma
realidade que lhe seja exterior, já que abriga em si
condições suficientes para legitimar-se em qualquer
circunstância. Os fracassos o fortalecem, pois ele sempre conta com uma
poderosa fuga para a frente: Isso e aquilo estão atrapalhando o
mercado. O argumento pode ser repetido
ad infinitum,
pois sempre haverá instituições e práticas,
formais ou informais, que atrapalham o mercado. Como a vida das
pessoas não pode ser reduzida a operações de compra e
venda, qualquer sociedade organizada transcende muito o mercado, qualquer uma
contém, e reproduz, e recria, inúmeras instâncias
não mercantis. Elas sempre serão as culpadas.
As deficiências do projeto neoliberal conduzem seus defensores à
inevitável conclusão de que é preciso aprofundar esse
mesmo projeto. A incapacidade de realizar-se é, simultaneamente, uma
fraqueza do modelo, no plano da realidade, e uma fonte de seu vigor, no plano
de ideologia. Mantém-se em ação um moto-perpétuo
típico dos pensamentos dogmáticos que não reconhecem
nenhuma autoridade fora de si. É isso o que explica a agenda anunciada
pelo governo Lula para o próximo ano, em retilínea continuidade
com o que já foi feito: reforma das leis trabalhistas, autonomia legal
para o Banco Central, negociações para a Alca... Falta tanta
coisa a fazer sempre faltará! , até que o mercado
possa, enfim, nos redimir. Já se foram dois anos, de quatro, do mandato
popular...
É o caminho sem volta que o governo Lula trilha alegremente, com uma
radicalidade típica de cristão-novo, recém-convertido.
Está brincando com fogo. Todos pressentem que a desigualdade social e a
dependência externa vêm se tornando dramáticas, colocando em
risco a nossa existência como sociedade organizada e nação
soberana. Ninguém se iluda: apesar de tanta maturidade na
política institucional, a sociedade brasileira está longe de ter
encontrado um equilíbrio estável. Essas multidões
concentradas em grandes cidades, com acesso à informação e
sem alternativas dentro do sistema atual são em tamanha escala
um fenômeno novo em nossa história. É cedo para
dizer como vão comportar-se quando perceberem que foram traídas
de novo. Considerada em perspectiva histórica, a
Revolução Brasileira amadureceu, embora as
condições políticas para realizá-la não
tenham sido construídas.
Quando o velho já morreu e o novo não nasceu, é tempo de
muita incerteza. Como força transformadora, o PT já deixou de
existir (a brava Luizianne
[3]
é a exceção dessa regra). Nossa tarefa, agora e por muito
tempo, é refundar a esquerda para refundar o Brasil. Antes que seja
tarde demais.
_____
Notas
1- "Cacifar" é recolher, no jogo, o cacife (quantia
correspondente à entrada de cada jogador).
2- "Alocação" significa distribuição,
repartição.
3- Eleita pelo PT, mas à revelia da sua direcção nacional,
prefeita da municipalidade de Fortaleza, capital do Ceará.
[*]
Autor de
A opção brasileira
(Contraponto, 1998, nona edição) e
Bom combate
(Contraponto, 2004). Integra o Movimento Consulta Popular.
O original encontra-se na revista
Reportagem,
3 de novembro de 2004
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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