Biocombustíveis: o unilateralismo dos media
Nesses tempos de crise alimentar, com preços subindo e comida faltando
em várias partes do Globo, tudo isso em pleno século XXI,
são várias as discussões que têm vindo à
tona. Desde análises mais profundas até puras
especulações, discorre-se sobre o aumento da demanda mundial por
alimentos puxado pelo estrondoso crescimento de economias como a chinesa; o
abandono da regulação sobre esse mercado, com o fim dos estoques
reguladores e a prevalência dos interesses especulativos; e também
a utilização crescente de terras para os cultivos destinados aos
biocombustíveis, comprometendo assim a produção de
alimentos.
Não é o objetivo aqui entrar no mérito específico
dessa problemática, avaliando cada um desses determinantes.
Análises com este enfoque vêm sendo trazidas corriqueiramente por
este mesmo Correio, a exemplo, dentre vários outros, de
entrevista recentemente concedida pelo geógrafo Ariovaldo Umbelino, da Universidade de S. Paulo
.
A preocupação maior é chamar a atenção para
a forma como o assunto vem sendo tratado pelos meios de
comunicação, particularmente no que se refere ao item
supra-referido sobre os biocombustíveis, em função da
abordagem que o tema mereceu nos últimos dias.
Em uma série de reportagens especiais sobre a fome em seu jornal das 22
horas, a Globonews apresentou, nos dias 6 e 7 de junho, relatos de
especialistas e professores da USP, FGV (Fundação Getúlio
Vargas) e da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária),
focados no impacto do etanol na produção de alimentos em nosso
país. A partir da exposição de uma série de dados e
de uma caprichada apresentação de imagens, qual não foi a
surpresa em perceber, nos dois dias, que as matérias haviam chegado aos
seus finais e todos os especialistas tinham expressado a mesma opinião.
Citando as cifras relativas aos hectares que poderão ser ocupados pela
cana comparativamente às terras agricultáveis e às outras
culturas, foram unânimes esses especialistas em suas
apreciações de que, no Brasil, sobram terras para o etanol a
partir da cana. De forma alguma, portanto, essa cultura vai tomar o lugar dos
alimentos. Vários entrevistados foram também peremptórios
em afirmar que seria impossível a cana expandir-se pela Amazônia,
em função dos custos muito mais elevados nessa região
relativamente a outras localidades mais propícias à sua cultura.
Será que a emissora, em sua busca de estudiosos do ramo, deparou-se,
coincidentemente, somente com portadores dessa visão? Difícil de
acreditar em tal hipótese, pelo menos para aqueles que assistem aos seus
programas de debate, usualmente com três entrevistados, onde parece
existir um 'perigoso' consenso. Mas, de qualquer forma, somente a
própria emissora para responder a essa questão.
Outros meios de comunicação de grande porte, por sua vez, a
despeito de trazerem à luz concepções mais variadas,
são também porta-vozes muito mais assíduos das
idéias dos defensores dos biocombustíveis, particularmente o
etanol. Artigo recentemente divulgado pela
Folha de S. Paulo
07/06/08,
pág. A3, de Tendências e Debates , de autoria do renomado
físico e professor emérito da Universidade de Campinas
Rogério César de Cerqueira Leite, é um dos exemplos nesse
sentido, dentre vários outros que poderiam ser aqui citados e que foram
circulados no mesmo espaço utilizado para o artigo de Cerqueira Leite.
Nesse caso específico, o físico desenvolveu uma série de
argumentações para se contrapor aos questionamentos que se
levantam contra o etanol. No que concerne, por exemplo, à crítica
de que ele possa invadir a Amazônia, Cerqueira Leite também
acredita que as condições adversas do clima, do solo e da
infra-estrutura da região, por si só, impediriam essa
invasão.
Mesmo que, conforme salientado, o intuito dessas linhas não seja entrar
no mérito e julgamento específico dos argumentos, vale destacar
que, contrariamente ao que advogam os especialistas aqui citados, pesquisas da
própria Embrapa alertam para um preocupante avanço da
cana-de-açúcar no bioma amazônico. Ademais, em nenhuma das
explicações ouvidas desses estudiosos, foi levantada a
séria questão de que, se não é a cana que vai
invadir e devastar a Amazônia, a pecuária já vem assumindo
esse posto, na medida em que é empurrada pela comprovada expansão
dos cultivos no sudeste.
Estariam alguns desses interlocutores procurados pela imprensa impregnados pelo
espírito de nosso presidente, que, em seu périplo por
vários países, vem fazendo uma veemente, para não dizer
obstinada, defesa dos biocombustíveis? Segundo o presidente, a
inflação de alimentos seria até mesmo um bom sinal,
já que derivada da maior capacidade de consumo dos pobres.
Causalidades à parte, o que interessa é não perder de
vista que um coro tão unânime não surge assim
gratuitamente. Ainda que se possa imaginar, talvez ingenuamente, que os meios
de comunicação ou os mandatários das nações
não estejam atrelados a este coro de forma consciente, seguramente
seguem um forte 'movimento de manada', que se ancora, cada vez mais, no
indubitável poder do agronegócio.
Lamenta-se, nesse cenário, a enorme possibilidade de
massificação da opinião pública, refém dos
interesses dos grandes meios de comunicação e da impossibilidade
de rompimento do cerco pelos veículos mais alternativos. Sem direito a
um mínimo contraditório, poderá vir a respaldar mais uma
das 'questionáveis' teorias de nossa economia agora voltadas aos
alimentos e à fome.
12/Junho/2008
[*]
Economista, editora do Correio da Cidadania.
O original encontra-se em
http://www.correiocidadania.com.br/content/view/1932/9/
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
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