China: Basta de crescer

por Antoaneta Bezlova

Preocupado com o acelerar da economia e com o custo social do rápido crescimento económico, o governo da China deixou em suspenso uma série de grandes projectos lançados pelas autoridades anteriores.

Com escasso alarde mas com suficiente publicidade para deixar clara a sua mensagem, o presidente Hu Jintao e o primeiro ministro Wen Jiabao anunciaram que, ao contrário dos seus antecessores, não vêm a China como um terreno de experimentação para as últimas tecnologias.

Também expressaram o seu desejo de ajustar as despesas governamentais, para perseguir um desenvolvimento económico mais sustentável e dar novo ênfase à política de "o povo primeiro".

Pelo menos três grandes projectos foram alvo desta mudança de política. Entre eles conta-se a linha ferroviária de alta velocidade entre Shangai e Pequim, de 1.307 quilómetros de extensão, que deverá estar pronta para os Jogos Olímpicos de 2008, que decorrerão na capital chinesa.

As autoridades não só adiaram o início do projecto, com um custo estimado de 14.000 milhões de dólares, como discutem ainda qual a melhor tecnologia a aplicar.

A levitação magnética de origem alemã deixou de ser a tecnologia favorita para o projecto, devido ao seu elevado custo. Entretanto, a tecnologia do comboio bala japonês também parece ter caído em desgraça, embora em resposta a reacções nacionalistas contra a indústria do antigo invasor.

A prioridade governamental parece ser agora os baixos rendimentos rurais e a crescente desigualdade social.

Outro alvo da luta contra o sobre-investimento é a nova sede da Televisão Central Chinesa (CCTV), um edifício de 600 milhões de dólares e 530 mil metros quadrados no centro de Pequim, desenhado por Rem Koolhaas e Ole Scheeren, da firma holandesa OMA.

O projecto, atribuído à OMA por um júri de arquitectos e executivos da CCTV em Dezembro de 2002, está agora envolto em polémica, depois de o governo central ter exigido um novo desenho para diminuir os custos e questionado a localização da nova sede no distrito comercial da capital.

"Compreendemos a estratégia dos novos líderes de reapreciar todos os mega-projectos e o dinheiro a investir no esforço olímpico", mas não podem descartar-se de tudo", declarou Ole Scheeren, director do projecto da CCTV.

"Confiamos que nosso projecto prossiga como está programado e conserve o seu desenho original", acrescentou.

Outro plano que Pequim suspendeu é a construção de 13 barragens hidroeléctricas no rio Nu, na província meridional de Yunán, numa área declarada Património da Humanidade pela sua biodiversidade.

No seu decreto de suspensão, Wen argumentou que o governo deve proceder com cuidado e estudar o plano profundamente, tendo em vista as preocupações expressas por cientistas e ambientalistas.

O reconhecimento governamental da necessidade de refrear certos sectores económicos e reduzir o crescimento do produto interno bruto (PIB) a um nível sustentável, ficou claro no relatório do primeiro ministro à reunião anual da Assembleia Popular, em Março passado. Nessa ocasião, Wen anunciou que o objectivo de crescimento para 2004 é de apenas sete por cento.

O objectivo é evidentemente modesto, dado que a economia cresceu 9,1 por cento em 2003 e 9,7 por cento no primeiro trimestre deste ano, relativamente a igual período do ano anterior. Peritos ocidentais acreditam que o crescimento do PIB chinês foi superior ao declarado oficialmente.

Pequim advertiu que, se as actuais políticas de ajuste não derem resultado, tomará outras medidas para refrear a economia.

Desde meados de 2003, o Banco do Povo da China (banco central) aumentou duas vezes o encaixe bancário, obrigando os bancos a manter maiores reservas e a restringir os créditos.

Além disto, Pequim proibiu novos projectos de fundições de alumínio e declarou as indústrias do aço, do cimento, dos sector imobiliário e automobilístico como áreas que necessitam de regulação.

"O governo chinês inverterá gradualmente a sua política fiscal expansionista e reduzirá os investimentos em projectos públicos", anunciou o Banco Asiático de Desenvolvimento na sua última previsão económica anual, publicada em fins de Abril.

Quiçá mais interessante que este compromisso de abandonar o que o próprio governo chamou "a busca cega do crescimento do PIB" seja a nova ênfase de Pequim nos direitos dos cidadãos e suas potenciais consequências sobre a política económica.

Esta atitude reflecte em parte os esforços de Hu e Wen para se apresentarem como "homens do povo" e consolidar a sua base de poder.

As recentes promessas de corrigir a desigual distribuição da riqueza também fazem parte da estratégia governamental contra o custo social do rápido crescimento económico. A falta de correcção dos efeitos desestabilizadores do crescimento poderia provocar distúrbios sociais e ameaçar o controle do poder pelo Partido Comunista.

O original encontra-se em http://ww.rebelion.org/economia/040518china.htm.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

25/Mai/04