Argentina:
Da insurreição popular ao capitalismo normal
por James Petras
INTRODUÇÃO
Entre os dias 19 e 21 de Dezembro de 2001, uma revolta popular massiva afastou
do poder o presidente De la Rúa no meio das confrontações
de rua mais importantes da história argentina recente, que produziram um
enorme número de vítimas entre os manifestantes (38 dos quais
foram assassinados). Enormes manifestações com barricadas nas
ruas, sucederam-se por todo o país, numa aliança sem precedentes
entre desempregados, trabalhadores sub-empregados e um importante sector da
classe média, que se tinha visto despojada das suas poupanças.
Três deputados, que aspiravam a suceder a De la Rúa, foram
rapidamente obrigados a demitir-se.
De Dezembro de 2001 a Julho de 2002, os movimentos populares emergentes
constituíram um poder nas ruas - com uma presença visível
em todas as províncias, que se consubstanciou no corte das auto-estradas
e das mais importantes avenidas de Buenos Aires e das capitais de
província. De um total de população activa de 30
milhões (o total da população argentina é de 38
milhões), calcula-se que mais de 4 milhões de pessoas
participaram nas manifestações. Muitos comentadores dos dois
extremos do espectro político, falaram de uma
situação pré-revolucionária, e da
existência de um poder dual: o dos piqueteros, assembleias de
bairro e fábricas ocupadas, por um lado, e do aparelho de Estado por
outro. Não resta a menor dúvida de que as principais
instituições do Estado (o poder judicial, a polícia e as
forças armadas), os partidos políticos tradicionais e o Congresso
perderam a sua legitimidade perante a maioria dos argentinos durante os
acontecimentos que conduziram à insurreição de Dezembro de
2001 e ao que sucedeu imediatamente depois.
O lema mais popular ¡Que se vayan todos! reflectia a
hostilidade geral do povo em relação aos partidos e às
principais instituições políticas. Dezassete meses depois,
mais de 65 % do eleitorado votava dois candidatos do Partido Justicialista
(peronista), entre os quais se encontrava Carlos Menem, que tinha ocupado a
presidência entre 1989 e 2000, e que era o principal culpado do colapso
da economia e do empobrecimento de milhões de argentinos. Diante da
perspectiva de um rotundo fracasso na segunda volta, Menem retirava-se e
Néstor Kirchner tornava-se Presidente, com pouco mais de 21 % dos votos.
Escassos dois anos e meio depois da insurreição popular, o
Presidente Kirchner gozava de um nível de aceitação de 75
%, de apoio das três principais confederações sindicais,
das organizações de direitos humanos (entre elas, a das
Mães da Praça de Maio), de um amplo sector da classe média
e de muitas das organizações de piqueteros no desemprego, a que
haveria de juntar-se o do FMI (se bem que com reservas). A radical e profunda
transformação política levantou uma série de
importantes questões teóricas e práticas sobre a natureza
dos movimentos populares e das insurreições, tanto no que se
refere aos seus êxitos, como no que toca às suas
limitações.
Em termos mais concretos, a transformação política
argentina colocou muitas outras questões relativas ao processo
para voltar a legitimar as instituições políticas que
tinham ficado desacreditadas por completo; a estratégia política
de um regime neoliberal, num momento em que existia um amplo repúdio das
fracassadas políticas neoliberais; a reforma do Partido
Justicialista - consequência da insurreição de Dezembro de
2001; a estratégia económica internacional multilateral (ALCA,
MERCOSUL, Acordo de Livre Comércio com a União Europeia;
relações bilaterais com a Venezuela, Brasil e China), delineada
para a conquista de mercados para a exportação.
Ainda que se tenham dado
mudanças
políticas significativas, foram-no num contexto de continuísmo
substancial das estruturas e das políticas socio-económicas,
apenas com um leve impacto na estrutura de classes, no desemprego, nos
salários e na pobreza. Por outro lado, os obstáculos mais graves
para qualquer desenvolvimento sustentável, equitativo e vigoroso,
permaneceram intactos: o pagamento da dívida externa, a volatilidade do
capital, as privatizações, os depósitos no estrangeiro e a
falta de investimento interno e externo nas empresas estratégicas. A
questão principal com se que confrontava o regresso à
burguesia da política argentina estava implícita na
heterodoxia do regime - Em que medida e até onde podia a
administração de Kirchner levar a cabo mudanças
políticas e sociais, tendo em conta o seu compromisso com
estratégias e instituições ligadas ao passado? E
especificamente, era viável a visão de Kirchner de um
capitalismo normal, à margem das dominantes estruturas
económicas e políticas neoliberais? Deixando de lado a vacuidade
e ambiguidade do termo (que quer dizer normal?), existia alguma
possibilidade de que Kirchner promovesse uma burguesia nacional
oposta às políticas neoliberais e ao livre comércio, com
um mercado interno limitado e umas infra-estruturas e um sector
energético atrofiadores, resultado das anteriores políticas de
privatização?
Para responder a estas perguntas procederemos à análise das
mudanças e das continuidades produzidas durante o Regime de Kirchner.
É nosso propósito analisar a lógica subjacente e as
dinâmicas do regime, a fim de compreender o seu desenvolvimento futuro,
as suas potencialidades limitações.
AS TRANSFORMAÇÕES POLÍTICAS
O Regime de Kirchner levou a cabo uma importante série de
transformações nas instituições militares,
judiciais e de aplicação das leis. Em especial, substituiu com
êxito a corrupta maioria automática do Supremo
Tribunal -- nomeada pelo Presidente Menem --, por um respeitado grupo de
juristas. Obrigou à reforma compulsiva muitos dos principais generais e
chefes de polícia com antecedentes duvidosos em matéria de
direitos humanos, muitos deles implicados no contrabando, sequestros e
chantagens. Levou a cabo com êxito a ofensiva para revogar a amnistia
outorgada pelos anteriores presidentes (Alfonsín e Menem) aos generais
implicados nos assassinatos massivos de 30.000 argentinos durante os anos da
guerra suja (1976-1982). Mostrou-se muito eficaz ao conseguir do
Congresso a erradicação do alto nível de
aceitação de subornos (de maneira especial aqueles que ocorreram
em 2001 para a aprovação das leis contra o movimento
operário).
Por meio destas actuações, Kirchner conferiu uma nova
legitimidade parcial às instituições públicas, pelo
menos ao dotá-las de uma aparência de honradez, responsabilidade e
sensibilidade para os direitos humanos. Foram igualmente importantes as
mudanças, na forma e no conteúdo, com que re-legitimou a
Presidência enquanto interlocutor válido para certos sectores dos
movimentos populares, dos grupos de direitos humanos, sindicatos e
instituições financeiras internacionais. Como consequência
disto, Kirchner desfrutava em Março de 2004 de um alto índice de
popularidade, no segundo ano do seu regime. Não obstante, essas
importantes mudanças não afectaram de forma relevante a natureza
das instituições públicas nem a honestidade da classe
política.
A reforma militar é um exemplo. Ainda que alguns dos
oficiais de mais alta graduação tenham sido reformados, a maioria
dos que vieram a ocupar os postos assim deixados vagos, pertencem à
mesma escola de políticos autoritários, e são
profundamente contrários a que os generais genocidas sejam de novo
levados perante os tribunais.
Isto tornou-se evidente durante a visita de Kirchner à ESMA, a antiga
Academia Naval, convertida em museu em homenagem às vítimas do
terrorismo dos militares. O mesmo aconteceu com a magistratura e com a
polícia: deram-se mudanças nas cúpulas, mas não nas
normas e no contexto em que actuam os funcionários.
Muitos dos juizes pertencem ainda ao antigo regime e a polícia
está ainda implicada em actuações corruptas e violentas. A
parcial limpeza da casa não foi um processo continuado, e
mantêm-se as condições para que, logo que mudem as
circunstâncias e a pressão das massas ceda, se possa reproduzir o
velho sistema.
A derrogação da amnistia não conduziu de imediato ao
julgamento dos oficiais do exército que levaram a cabo o
genocídio. Observadores dos direitos humanos afirmam que, antes dos
julgamentos, haverá um longo processo, em parte devido a que um
importante sector de peronistas partidários de Menem seja
constituído por destacados governadores de vários Estados, e
deputados que se opõem aos tribunais de direitos humanos. Apesar de
Kirchner ter levado a cabo significativas mudanças na cúpula,
não modificou as alianças estruturais existentes entre as
instituições políticas, o seu próprio partido - o
peronismo - e as elites económicas neoliberais internas e externas que
continuam controlando a economia.
Kirchner efectuou algumas mudanças de política para debilitar as
elites autoritárias tradicionais. O Presidente interveio em Santiago de
Esteso para remover o mafioso governador, cuja família tinha governado
com punho de ferro durante mais de meio século. De acordo com o
propósito de constituir a sua própria base política
independente -- em oposição ao sector peronista de ultra direita
-- Kirchner promoveu o que denomina alianças transversais:
coligações que vão mais além dos partidos e
movimentos sociais existentes.
Dependente ainda em grande medida dos governadores peronistas, o projecto de
Kichner prevê a constituição de um novo partido de
centro-esquerda, fundamentado no regresso à política nacional
populista do peronismo da primeira época, mas com menos
corrupção e repressão. Durante o primeiro ano no poder, o
regime de Kirchner foi, em traços largos, tolerante à actividade
dos piqueteros -- que incluía o corte de estradas -- evitando os
confrontos violentos que poderiam retirar-lhe partidários entre os
grupos defensores dos direitos humanos, e provocar novos protestos de massas. Se
bem que o regime de Kirchner, tenha inicialmente respeitado o direito
democrático de protesto dos piqueteros, negou-se a anular os julgamentos
políticos contra 4 000 activistas detidos pelo regime anterior. E mais,
os seus aliados políticos nas províncias prosseguiram a
repressão selvagem dos protestos massivos, encarcerando e ferindo muita
gente em San Luís, Santiago de Estero, Salta e Jujuy. Pior ainda, o
ministro do Interior de Kirchner prometeu cumprir as sentenças de um
tribunal em Abril de 2004, nas quais se culpavam os piqueteros por cortes de
estradas, uma decisão que uniu a totalidade do movimento piquetero num
protesto massivo, que teve lugar em Maio de 2004.
O primeiro ano de Kirchner no Governo baseou-se numa avaliação
realista da sua precária situação, da presença
ainda recente da insurreição de Dezembro de 2001 e da necessidade
de transformar a sua ampla popularidade numa base organizada e
orgânica, na qual pudesse apoiar-se. Kirchner actuou com
grande astúcia a este respeito, ao equilibrar a sua política
económica liberal com medidas sobre os direitos humanos e a
ampliação, ainda que mínima, de políticas de
bem-estar social. Cumpriu com a maior parte dos compromissos do FMI, mas
recusou aumentar o superávite orçamental e o pagamento aos
detentores privados de bónus do Estado --
mantendo desta maneira a sujeição às
instituições financeiras internacionais, enquanto dava a imagem
de independência face ao FMI. Procedeu à satisfação
simbólica de muitas das reivindicações dos grupos de
direitos humanos relativamente a violações ocorridas no passado,
sem provocar os oficiais do Exército no activo. Não fez
marcha-atrás nas privatizações, mas congelou
temporariamente os preços da energia, electricidade e outros
serviços públicos, uma política que posteriormente viria a
revogar. Kirchner manteve a maioria dos contratos de trabalho de
subsistência, mas não aumentou os salários além dos
US$50 mensais e deu baixa a mais de 20.000 beneficiários aos quais o
regime considerou não reunirem as condições, apesar dos
protestos de algumas organizações de piqueteros.
O mais ambicioso programa social de Kirchner realizado com êxito foi
posto em marcha no sector farmacêutico:
O Governo garantiu a provisão pública de medicamentos, com 90 %
de desconto, nos centros primários de saúde para as
famílias de rendimentos mais baixos que reúnem 15
milhões de pessoas. Além disto, o governo propõe-se
facilitar medicamentação anti-viral para os doentes com SIDA. O
ministro da Saúde, Ginés González García, afirma
que a nova Lei de Prescrição de Genéricos abrange 82% dos
medicamentos prescritos na Argentina -- o que permite a 4 milhões de
argentinos o acesso a medicamentos que não estavam ao alcance do seu
poder aquisitivo.
Dado o elevado índice da terrível corrupção no
aparelho de Estado, Kirchner viu-se obrigado a realizar mudanças entre
os funcionários, com o objectivo de dispor de um instrumento
político para prosseguir com a normalização do
desenvolvimento capitalista.
Por exemplo, a conivência existente entre os altos comandos policiais com
a delinquência, e o facto de que a polícia criminal estivera
implicada na extorsão generalizada, na chantagem e nos sequestros de
homens de negócios, impossibilitava oferecer segurança aos
investidores e a novos investimentos. Enquanto o Supremo Tribunal foi
controlado por juizes corruptos, dispostos a comprazer o ex-presidente Menem,
perfilava-se sempre a ameaça de que qualquer mudança pudesse ser
considerada inconstitucional. A chave da reforma política,
judicial e militar de Kirchner baseava-se no seu desejo de estabelecer um
Estado à imagem do capitalismo normal sem desmontar o seu
carácter capitalista e incluso neoliberal. Sem
dúvida, algumas mudanças foram positivas, mas é
também certo que, se o capitalismo argentino entra de novo em crise,
mesmo essas instituições reformadas do Estado podem
servir para reprimir e bloquear as mudanças necessárias.
O RENDIMENTO ECONÓMICO E AS CONDIÇÕES SOCIAIS
A recuperação em marcha da economia na Argentina reflecte o
profundo carácter de classe do regime de Kirchner. O comércio
externo, baseado nas exportações agrícolas e de
minérios, registou um grande aumento, mas com escassa ou nula
repercussão na redistribuição da riqueza. Foram realizadas
negociações comerciais sobre o ALCA, e vieram a público
algumas discrepâncias que afectam principalmente as
exportações agrícolas argentinas, mas não as que
alteram os interesses sociais do trabalho ou o meio ambiente.
Entre Março de 2002 e Janeiro de 2004, a produção
industrial cresceu 33%. O crescimento económico em 2003 foi de 8,7%. De
acordo com as estatísticas oficiais, o desemprego diminuiu 5.9%, caindo
de 21,5% para 16,3%. Previsões iniciais, baseadas no período
Janeiro a Março de 2004, indicam que o PNB pode continuar crescendo com
uma taxa similar durante a maior parte do ano, salvo se a escassez de energia
reduzir o crescimento. Em grande medida, este crescimento apoiou-se nas
circunstâncias internas e externas favoráveis, mais que em
qualquer mudança estrutural. A maioria dos produtos agrícolas e
minerais argentinos para exportação alcançaram
preços quase recorde durante o ano de 2003 e até meados de
Março de 2004 -- o petróleo, a carne, os cereais, a soja
obtiveram uns preços máximos que proporcionaram um excedente de
mais de 5% do PNB. Este crescimento facilitou ao regime de Kirchner satisfazer
as exigências do FMI com os 3%, e financiar a recuperação
económica e os planos de emprego (ao contrário do que ocorreu no
Brasil, onde o regime de Lula destinou os 4,5 % de superávite a pagar
aos credores, à custa da economia local e dos desempregados).
A imagem de progressismo económico de Kirchner é, em grande
medida, produto mais do
contexto
em que se desenvolveu que do conteúdo das suas políticas.
Tendo em conta a política ultra-liberal seguida na actualidade no
Brasil, México, Uruguai, Peru, Equador, Chile e noutros países, e
dadas as políticas devastadoramente destrutivas levadas a cabo pelos
seus predecessores, é compreensível que muitos jornalistas,
intelectuais de esquerda, activistas de direitos humanos e outros, entendam
como progressista a visão de Kirchner sobre o capitalismo
normal. Se a isto se acrescentar os ataques da ultradireita na Argentina
(certos sectores do Exército, o periódico
La Nación
, os especuladores financeiros e os governadores de província vinculados
a Menem) e de sectores das Instituições Financeiras
Internacionais, do exterior, é plausível argumentar que, face a
eles, Kirchner é progressista, mas
só
num sentido muito limitado, no espaço e no tempo.
O crescimento geral do sector da exportação deve-se em grande
parte à desvalorização, à grande procura de
matérias-primas argentinas e ao baixo nível de partida para a
medida da recente recuperação.
Entre 2001 (o ano do colapso económico) e 2003, as
exportações argentinas cresceram entre 11 e 124 %, conforme o
sector -- o maior crescimento foi o das matérias-primas agrícolas
e do petróleo que não requeriam novos investimentos. A
desvalorização estimulou, ainda assim, o crescimento das
indústrias locais, porque a importação de produtos
manufacturados se tornou demasiado cara. O resultado líquido foi um
significativo excedente da balança comercial. O mesmo aconteceu em
2004: nos dois primeiros meses, a Argentina obteve 1700 milhões de
dólares de excedente. O
boom
das exportações argentinas, em grande medida, repercutiu-se na
recuperação económica porque o mercado interno está
ainda muito deprimido.
Por motivos diversos, o crescimento das exportações não
teve impacto na vida da maioria dos argentinos. O aumento das
exportações exige uma capitalização intensiva, mas
apenas dá emprego a um pequeno número de trabalhadores (devido
à mecanização da agricultura e da extracção
de petróleo). Os rendimentos e lucros do sector vão para um
reduzido número de capitalistas estrangeiros e oligarcas
agrícolas locais, que transferem uma percentagem substancial dos lucros
para o exterior, o que diminui o chamado efeito multiplicador sobre
o resto da economia. A taxa de inflação de aproximadamente 4% era
enganosa na medida em que reflectia os preços dos bens de equipamento
duradouros; o preço da carne e de outros alimentos básicos subiu
quase 20%, o que prejudicava os operários, funcionários e
desempregados com salários congelados.
Para os especuladores argentinos, 2003 foi um ano fantástico, já
que as acções subiram mais de 100%. Com o apoio das IFIs, os
possuidores de títulos estrangeiros recusaram aceitar a
redução de 75% das suas acções não pagas
pelos regimes anteriores.
O sistema financeiro mostrou certa recuperação, uma vez que os
depósitos aumentaram em 50% desde meados de 2002, se bem que mais de
90% o foram em contas a curto prazo de não mais de 30 dias. O capital
dos sectores financeiro e industrial mostrou pouca disposição
para realizar investimentos importantes a longo prazo, que são os que
teriam permitido um crescimento sustentado. Em seu lugar, continuou enviando os
seus lucros para fora do país e em alguns casos retiraram os
investimentos. Durante 2003, a afluência líquida de capital foi
negativa em 3.800 milhões de dólares.
Quase todo o crescimento de 2003 se apoiou na activação de
reservas até aí não utilizadas, que todavia constituem um
grave estrangulamento para a economia. Um obstáculo ao crescimento, que
apresenta em particular um alto risco, é constituído pelos
monopólios estrangeiros no sector da electricidade, da água, do
gás e das telecomunicações, que não cumpriram com
os investimentos previstos nos contratos de privatização. Como
consequência disso, o próprio crescimento de 2003 está em
perigo, já que os monopólios provocaram escassez de gás e
de electricidade para aumentar a sua taxa de lucros com o aumento dos
preços, o que ocasionou a redução do consumo e da
produção.
A manutenção por Kirchner das estruturas básicas do poder
económico está criando sérios obstáculos
económicos, incluso para o crescimento a médio prazo. O pior
é que a crise social se agudizou ou permanece na prática igual ao
que era no passado recente.
A CONTINUIDADE DA CRISE SOCIAL: 2003
Apesar de o produto interno bruto ter crescido em 2003, encontra-se ainda uns
11% abaixo do de 1997. E mesmo que o rendimento
per capita
tenha aumentado uns 6%, continua a ser 17% menor que o de há sete anos
atrás. Se bem que o desemprego tenha baixado uns 5%, mantém-se
todavia nos 16,3%. Acresce ainda que o número de trabalhadores a tempo
parcial passou de 13,8% em 2002 para 16,6% em 2003. Se acrescentarmos aos
desempregados os trabalhadores a tempo parcial, o crescimento líquido
entre 2002 e 2003 (o ano da recuperação
económica) é só de uns quase marginais 2%. A
recuperação, em relação ao emprego,
não teve um impacto importante na classe trabalhadora. Se se
mantém nos 2 milhões o número de beneficiários de
planos de trabalho a 50 dólares por mês, é evidente que o
pior da crise afecta ainda a maioria da classe trabalhadora. Os dados relativos
aos níveis salariais,
pobreza e indigência confirmam a tese de que o continuísmo de
Kirchner em política económica não teve qualquer impacto
positivo nos trabalhadores e classes assalariadas.
Entre 1997 e 2003 os salários médios baixaram 22,4%. Verificou-se
um declínio constante, embora gradual, até 2001, a que se seguiu
uma brusca queda de 17% em 2002. A deterioração dos
salários continuou ao longo de 2003, caindo 0,8% durante a
presidência de Kirchner porque o crescimento económico não
teve repercussão nos trabalhadores do sector público, cujos
salários se mantiveram congelados (até Maio de 2004), enquanto
que no sector privado os sindicatos apoiaram a política de Kirchner de
contenção das reivindicações salariais para
estimular o crescimento. A perda de poder aquisitivo durante o ano 2003, o da
recuperação económica, foi até
superior, se tivermos em conta o crescimento médio dos preços dos
produtos alimentares que constituem a parte mais importante das despesas
familiares das classes trabalhadoras. Claramente, a recuperação
devida às exportações, o cumprimento do programa de
estabilização do FMI e o regresso à Bolsa argentina de
grande número de especuladores, tiveram um elevado preço para a
maioria dos assalariados argentinos. Os mais significativos indicadores da
recuperação de Kirchner, baseada nos interesses das elites,
encontram-se nos dados anuais sobre os níveis de pobreza e
indigência. No final do primeiro ano de Kirchner no poder, mais de metade
da população argentina vivia ainda por abaixo do limite da
pobreza (51,7%). Apesar do elevado crescimento, os níveis de pobreza
apenas tinham descido 2,6% entre 2002 e 2003, frustrando qualquer
interpretação desse primeiro ano como um exemplo de
êxito económico. Pior ainda, o nível de
indigência manteve-se extraordinariamente alto -- 25,2% em 2003, com uns
0,5% de aumento sobre o de 2002.
A BURGUESIA NACIONAL E AS MULTINACIONAIS DA ENERGIA
A explicação para a relação inversa entre o
crescimento do PIB e a deterioração dos salários, a
pobreza e a indigência, encontra-se no comportamento do Estado e da
burguesia nacional: o Estado, por destinar milhares de milhões para
pagar a dívida das agências internacionais de crédito, em
vez de criar postos de trabalho com investimento público; por continuar
permitindo que lucrativas empresas privatizadas como a
Repsol Petróleo,
transfiram milhares de milhões para as suas sedes centrais; por
não onerar com impostos os 150 mil milhões de dólares que
as elites argentinas têm no estrangeiro; por não haver canalizado
os ingressos de divisas das elites do sector agrícola e mineiro para a
criação de postos de trabalho produtivos. Em poucas palavras, o
compromisso de Kirchner com o modelo neoliberal centralizado e imperial dos
seus predecessores não proporciona os instrumentos políticos e
económicos, os recursos e capacidades para enfrentar em profundidade as
estruturas existentes que geram a pobreza, a indigência e a
degradação do nível de vida. A burguesia
nacional aproveitou as restrições às
importações para lançar o que podemos chamar
recuperação económica. Valendo-se da enorme reserva de
desempregados, o capital argentino aumentou a produção mediante a
exploração de uma mão-de-obra mal paga, com
horários de trabalho extenuantes, e aumentou o rendimento sem novos
investimentos significativos e sem a introdução de novas
tecnologias. Com efeito, a recuperação industrial ficou a
dever-se à activação de recursos existentes e não
utilizados. Há poucos indícios de novos investimentos industriais
em grande escala e a longo prazo. Agora que este desenvolvimento
fácil seguiu o seu curso, a burguesia nacional de
Kirchner não parece interessada num desenvolvimento sustentado.
Entretanto, os sectores estratégicos nas mãos de empresas
estrangeiras moveram-se em rapidez e em força para se apoderarem do
excedente obtido com a recuperação. Os credores estrangeiros e o
FMI exigiram um aumento da valorização das
obrigações deflacionadas.
As companhias de gás e electricidade privatizadas, que obtiveram lucros
exorbitantes no período 1996-2001, não honraram os compromissos
de investimento acordados com o Governo, o que deu lugar a que, com a
recuperação, as indústrias e os consumidores se confrontem
com uma grave crise energética. Em Abril de 2004, a Agência
estatal responsável da regulação do mercado
maioritário da electricidade viu-se obrigada a reduzir a tensão
para evitar grandes apagões induzidos pelas principais companhias
eléctricas (
Financial Times
, 5 de Abril de 2004, p.4). Na última semana de Março, mais de 30
indústrias viram-se afectadas por cortes de electricidade. Segundo o
Financial Times
, a crise energética pode reduzir em 2% o crescimento económico
em 2004
(ibid).
O regime de Kirchner capitulou ao permitir que as companhias de gás
subissem os preços até aos 100% ao longo dos próximos 15
meses. Mesmo que a Presidência assegure que as pequenas empresas e os
consumidores domésticos não serão afectados, é mais
que provável que as grandes indústrias farão pagar os
altos custos da energia aos consumidores com aumentos de preços. Mas
mais importante que a aceitação por parte do Regime do aumento do
preço da energia é a aceitação do
princípio de aumento das tarifas, e de recompensar a
chantagem das corporações. O Regime de Kirchner favoreceu a
posição das companhias estrangeiras proprietárias das
empresas petrolíferas privatizadas, repudiando as
reivindicações populares que exigiam a renegociação
das desfavoráveis condições em que foram levadas a cabo as
privatizações. As indústrias do petróleo e do
gás são uma das principais fontes de divisas da Argentina. Desde
a época em que era governador da província de Santa Cruz,
Kirchner foi um firme partidário e promotor da
privatização da indústria petrolífera e um estreito
aliado da multinacional espanhola Companhia de Petróleo Repsol. Os
laços profundos e estruturais existentes entre o Regime de Kirchner e as
companhias estrangeiras proprietárias do petróleo colocam, a
longo prazo, uma tripla ameaça para a concepção do
capitalismo normal de Kirchner. Em primeiro lugar, as
exigências do sector energético de subida de tarifas para os
consumidores (quer sejam industriais ou domésticos) terão, sem
dúvida, um efeito inflacionista, impopular, que reduzirá o
nível de competitividade dos industriais argentinos nos mercados
internacionais, ao aumentar os custos de produção. Mais ainda, ao
aumentar as tarifas, a imagem de Kirchner como estadista
independente ficou comprometida.
As duras e inconsequentes acusações formuladas por Kirchner sobre
o incumprimento dos compromissos de investimento das companhias de energia de
capital estrangeiro desde 1996, são correctas, mas não deram
lugar a nenhuma actuação positiva, nem sequer a
investigações, que conduzissem a uma renegociação
dos contratos de privatização. Em segundo lugar, a
crise energética vai contra o desejo de Kirchner de
estabelecer um capitalismo normal, baseado na aliança entre
os exportadores de produtos agrícolas e energéticos e a burguesia
industrial do país. A escassez de energia -- no momento em que as
multinacionais estrangeiras fizeram alarde do seu poder --, deu já
origem a uma redução da produção industrial. A
maioria dos peritos que conhecem as tácticas que as
corporações energéticas utilizam para aumentar as tarifas,
põe em dúvida inclusive a própria ideia de
crise, em particular quando as companhias de energia reduzem a
produção por razões de
manutenção. Esta estratégia foi a utilizada pelas
multinacionais na Califórnia, na Nova Zelândia, na
Austrália e noutras regiões, particularmente em épocas de
reactivação e crescimento, quando a procura é alta e o
Estado não está disposto a intervir contra as empresas de
energia. Finalmente, a crise energética ocasionou conflitos com
países vizinhos da Argentina, em especial com o Chile, Uruguai e
Bolívia.
Em resposta à crise provocada pelas multinacionais, Kirchner reduziu as
exportações de gás para o Chile e para o Uruguai, com o
objectivo de dispor de abastecimentos para as indústrias e consumidores
locais. Além disto, firmou também um acordo com o Presidente da
Bolívia, Mesa, para envios adicionais de gás, que provocaram a
cólera do povo boliviano, que exigia uma nova lei de hidrocarbonetos
favorável ao Estado boliviano, antes de se alcançarem novos
acordos. O impacto de nível baixo e médio da crise
energética trouxe para primeiro plano uma
contradição
importante do regime de Kirchner e da maioria dos seus partidários: o
conflito entre as privatizadas multinacionais de propriedade estrangeira, que
Kirchner defende, e as exigências do povo para que se leve a cabo uma
investigação, a renegociação e a
renacionalização das indústrias estratégicas,
vistos os seus grandes lucros, práticas abusivas, e mínimo
impacto na criação de emprego, na redução da
pobreza, no pagamento de impostos e no crescimento da indústria
nacional. A questão da energia, com todas as suas
implicações, tanto nos seus custos directos para o crescimento e
nível de vida, como pelo seu valor simbólico, que recorda a
continuidade com a época precedente de corrupção e saque,
é um assunto capital para o futuro desenvolvimento da Argentina e para a
estabilidade do regime de Kirchner.
Os acordos energéticos firmados por Kirchner com a Venezuela, Brasil e
Bolívia podem solucionar temporariamente o problema de abastecimento de
gás, mas não abordam o problema relacionado com a
produção de electricidade. Com uma procura que cresce 1000
megawatts por ano, com reservas de 3000 MW, e sem previsão de
novas unidades de produção por parte das companhias
eléctricas de propriedade estrangeira, Kirchner enfrenta uma grave crise
política e económica, em especial com a reactivação
económica e o crescimento da produção industrial. Kirchner
é vítima da sua própria ideologia (o
neoliberalismo), das suas relações estruturais (com os
proprietários estrangeiros dos complexos de produção de
energia e de electricidade), e das suas alianças políticas (com o
Partido Peronista -- autores e executores das privatizações e da
subsequente pilhagem do presidente Menem). Quando Kirchner começou a
ceder às pressões para o aumento dos preços dos
serviços públicos privatizados a favor de companhias
estrangeiras, a sua popularidade começou a baixar, de 80% no final de
2003 a 60% em Junho de 2004.
Kirchner conhece muito bem as normas do capitalismo neoliberal: o único
caminho para assegurar que se produzam novos investimentos dos
proprietários de indústrias estratégicas é aumentar
a sua taxa de lucros acima das do capitalismo normal. Sem
sacrificar o nível de vida dos trabalhadores e sem aumentar os custos
para os produtores locais com o fim de aumentar os lucros exigidos pelas
multinacionais estrangeiras, Kirchner não teria obtido a promessa de
novos investimentos dos proprietários das indústrias de
electricidade, gás, água telecomunicações e
infra-estruturas. Os altos custos que terá que pagar pela sua
claudicação a favor dos elevados lucros exigidos pelos sectores
estratégicos, não serão exclusivamente a queda da sua
popularidade, mas a sua legitimação como líder
nacional. Isso reduzirá também o crescimento nos
sectores que precisam de muita mão-de-obra. Daí que não se
consiga reduzir o desemprego e a pobreza. O capital nacional da
Argentina investe mediante empréstimos, não por reinvestimento
dos seus lucros nos sectores produtivos (os lucros são enviados para o
estrangeiro ou investidos em títulos locais de alto rendimento a curto
prazo).
O crescimento actual não assenta em novos investimentos, mas sim na
activação dos recursos inactivos.
Quando a capacidade instalada igualar a procura, o crescimento parará, a
não ser que haja investimentos novos, que a burguesia argentina
só realizará se tiver acesso a créditos. E os sectores
financeiros nacionais e estrangeiros não oferecerão
crédito a não ser que o regime de Kirchner os
"compense" pelas perdas especulativas sofridas após a
desvalorização.
Os bancos privados estrangeiros negaram-se a financiar até que Kirchner
cedeu às suas exigências de aumentar o pagamento oferecido aos
especuladores privados estrangeiros que tinham investido em títulos.
A curto prazo, em 2004, a Argentina continuará uma
recuperação baseada em parte no extraordinário
crescimento das exportações agrárias, no alto preço
do petróleo e na reactivação da indústria
após o terrível colapso de 1998-2002.
Mas os fundamentos estruturais e ideológicos subjacentes, que produziram
a crise e a rebelião popular, continuam de pé. Mais ainda, a
tendência do Regime é para se dirigir ao encontro de uma maior
adaptação às elites estrangeiras beneficiárias do
modelo neoliberal. Antes de tudo, o regime legitimou as
privatizações e pediu maiores investimentos estrangeiros para
"o desenvolvimento" de infra-estruturas básicas e para a
exploração de recursos estratégicos.
De acordo com esta prioridade, o regime de Kirchner está gradualmente a
mover-se (e com uma "populista" demagogia ocasional) para a
realização de políticas económicas que aumentam a
rentabilidade para as empresas, inclusive à custa do nível de
vida. A reforma bancária e o acordo sobre a dívida com os
especuladores além mar debilitarão a capacidade do regime para
dar satisfação às exigências sociais da maioria dos
argentinos que se encontra abaixo do limite de pobreza. Inquestionável
realidade é uma série de concessões graduais aos
proprietários estrangeiros de sectores económicos
estratégicos e aos especuladores além mar, delineadas para
facilitar o financiamento de investimentos locais. A concepção de
Kirchner da cara decente "do capitalismo normal" é uma simples
máscara de argila que, quando desaparece, deixa a descoberto a cara do
velho capitalismo de agarra o dinheiro e corre, de passado muito
recente, que sorri com satisfação.
MOVIMENTOS SOCIAIS:
PIQUETEROS, ASSEMBLEIAS DE VIZINHOS E
PUNTEROS
Muitos autores consideram a insurreição dos dias 19 a 21 de
Dezembro de 2001, que derrubou o então Presidente De la Rúa, como
um ponto de inflexão na história de Argentina. Não
há dúvida que a massiva e, em grande parte, espontânea
mobilização conduziu a espectaculares desafios à ordem
política existente, pelo menos a curto prazo. Por todo o país,
assembleias de moradores de bairros, anteriormente tranquilos, da classe
média baixa, e inclusive da classe média, exigiam a
devolução das suas poupanças. Realizaram-se pela primeira
vez, manifestações unitárias de desempregados e de grupos
de associações de moradores da classe média. O
clientelismo, sistema de domínio por meio do qual os chefes peronistas
controlavam os bairros pobres, foi destruído, ao mesmo tempo que surgiam
novos movimentos independentes de desempregados que tomaram as ruas, cortaram o
trânsito e negociaram concessões directamente com o Estado.
Debates públicos sobre assuntos de interesse comum, nos quais se
envolveu a quinta parte da população adulta, substituíram
as elites que, no Congresso, traficavam naquilo que denominavam
políticas democráticas. A classe política na
sua totalidade, os seus partidos e as instituições
públicas caíram temporariamente no maior descrédito.
O povo de Buenos Aires chegou mesmo a assaltar o Congresso. Da mesma maneira,
nas províncias tomaram as assembleias legislativas, atiraram
móveis pelas janelas, expressando a sua cólera contra a
venalidade e insensibilidade dos legisladores e dos responsáveis dos
partidos que controlavam os processos eleitorais e elegiam os seus
representantes. Durante as primeiras semanas e meses que se seguiram aos dias
20-21 de Dezembro de 2001, parecia que estava emergindo uma ordem
política nova, um novo discurso, uma forma diferente de fazer
política. O movimento de desempregados, com os seus activistas
piqueteros, estava organizando uma ampla rede entre os mais pobres dos pobres.
Os operários do antigo sindicato da metalurgia no desemprego aplicavam
as suas velhas formas de organização, aprendidas nas
fábricas, para mobilizar os desempregados nas suas novas
actuações nos bairros. O corte das estradas teve o mesmo efeito
que as greves organizadas nas fábricas ao paralisar a
circulação de mercadorias. Ao invés dos burocratizados
sindicatos, os movimentos de desempregados tomavam as decisões em
massivas assembleias populares. A organização directa e
autónoma, livre do controle dos partidos parecia estar na ordem do dia.
Houve uma sensação de que se estava construindo uma
nova ordem, mais responsável, sensível e totalmente
democrática. Mas não foi assim. Em apenas dois anos, o processo
democracia a partir de baixo começou a decair e chegou
à retirada completa durante o primeiro ano de Regime do Presidente
Kirchner (Maio de 2003 - Abril de 2004). Que aconteceu à promessa de uma
nova ordem política a partir da base? Que falhou? Dois anos
e meio depois, que resta da insurreição de 20 e 21 de Dezembro de
2001? A amplitude inicial da revolta popular o seu carácter
espontâneo, massivo e autónomo converteu-se na sua
debilidade estratégica, devido à ausência de uma
liderança nacional capaz de unificar as diversas forças em apoio
de um programa coerente orientado para a tomada do poder de Estado. Em seu
lugar, a força do movimento de trabalhadores desempregados
fragmentou-se numa série de movimentos mais pequenos, cada um dirigido e
controlado por líderes locais ou por pequenos partidos de esquerda. No
princípio, as assembleias da classe média atraíram
centenas de moradores às prolongadas discussões de
carácter global que, na prática, deixaram exaustos os que nelas
participavam, sem que se chegasse a algum tipo direcção formal,
programa concreto ou, ao menos, a uma ampla coordenação nas
cidades. Em vez disso, os pequenos partidos de esquerda dirimiam os seus
conflitos internos nas assembleias, espantando muita gente com a sua
fraseologia, os seus programas maximalistas e a sua incapacidade para resolver
os problemas candentes do momento, como a recuperação das
poupanças dos depositantes da classe média em bancos estrangeiros
que se encontravam congelados e desvalorizados. Entre 20 e 21 de Dezembro de
2001 e Julho de 2002, os movimentos de massas, apesar das suas divisões,
mantiveram-se na ofensiva, num desafio ao presidente interino Duhalde. Eram os
donos da rua e recusavam a legitimidade do sistema político. Nesse
período de meio ano, enquanto a crise económica se agudizava, o
desemprego crescia até ultrapassar a quarta parte da mão-de-obra
e as classes médias perdiam mais de 60% do seu poder aquisitivo, as
três confederações sindicais (da direita à esquerda)
foram incapazes de responder à crise política. Os líderes
dos desempregados não desenvolveram esforço algum para criar um
novo sindicato de base. A magnífica ideia original de autonomia em
relação aos partidos políticos tradicionais, converteu-se
num slogan para justificar o surgimento de líderes locais personalistas
em cada bairro, que socavaram qualquer intento de unificar as forças num
movimento social à escala nacional, ou ao menos municipal. A
Autonomia entre um par de bairros com influência estudantil
transformou-se numa desculpa para se desligarem da política, voltando-se
para projectos de auto-ajuda. A crise continuou, o regime de Duhalde
começou a avaliar a sua força e recursos para sufocar os
movimentos civis por meio da repressão. Em Junho de 2002, um inspector
de polícia assassinou dois piqueteros desarmados num confronto que ficou
gravado em vídeo. O regime decidiu conceder centenas de milhares de
planos de trabalho de 6 meses às organizações de
piqueteros e aos dirigentes locais peronistas. Os líderes dos
piqueteros, a princípio, viam os planos de trabalho como uma
solução a curto prazo para fazer frente à
desnutrição e ao aumento da indigência.
Originalmente, os planos de trabalho mobilizaram centenas de milhares de
pessoas porque pressupunham um benefício concreto em
circunstâncias urgentes. Ainda que estivessem em causa outras
reivindicações muito mais estruturais -- por exemplo, a recusa de
pagamento da dívida externa e a renacionalização dos
bancos e das indústrias energéticas privatizadas -- naquele
momento, os planos de trabalho converteram-se no objectivo central
dos movimentos de massas. O êxito media-se pelos grupos cujo
líder tinha maior capacidade na negociação para conseguir
um maior número de planos de trabalho no prazo mais curto e com o menor
número de trâmites burocráticos. Os planos de
trabalho que pagavam apenas US$50 ao mês (150 pesos desvalorizados)
encontravam-se muito abaixo do limite de pobreza, e muito perto do que se
considera pura indigência. O regime de Duhalde continuava desacreditado,
assediado, mas através dos planos de trabalho começou a
reconstruir um aparelho local com o fim de debilitar as
organizações de base. Entretanto, o Governo iniciou o processo de
descongelamento e de pagamento, ao menos a uma parte dos poupadores da classe
média, declarando-se em quebra relativamente à dívida
privada e estabilizando a precária economia. Ao capitalizar
os desentendimentos e divisões no seio do movimento piquetero e ao
converter os líderes locais em distribuidores dos planos de trabalho, o
regime de Duhalde consolidava o seu poder a nível nacional, abria uma
brecha entre os poupadores da classe média e os desempregados, e
limitava a influência dos movimentos populares às suas localidades
de origem. Durante o seu ano no poder (2002), Duhalde perdeu toda a sua
credibilidade política, enquanto a crise socio-económica, com
mais de 53% da população a viver abaixo do limite da pobreza,
continuava. Numa manobra em busca de uma nova legitimação do
sistema político, convocou em Maio de 2003 novas eleições
presidenciais e para o Congresso. As profundas divisões no Partido
Justicialista conduziram à apresentação de vários
candidatos peronistas. A ultradireita apresentou o anterior
presidente Menem, responsável pelo colapso da economia, mestre da
corrupção massiva e odiado pela maioria dos argentinos. O seu
principal rival foi Kirchner, antigo governador da província de Santa
Cruz, que se apresentou a si mesmo como candidato reformista, comprometido com
os direitos humanos, decidido a depurar da corrupção o Supremo
Tribunal, a polícia e outras instituições públicas,
e a revitalizar a economia nacional o regresso ao capitalismo normal
mesmo que isso supusesse afrontar o FMI.
A ELEIÇÃO DE KIRCHNER: A DERROTA DA ESQUERDA
A primeira e principal derrota política da esquerda ocorreu nas
eleições presidenciais de Maio de 2003. A esquerda, como de
costume, dividiu-se em pequenos grupos marxistas, que apresentaram os seus
eternos candidatos, enquanto que a maioria de esquerdas pedia o voto
militante da abstenção. Ambas as
facções sofreram uma grave derrota. Os que se apresentaram
obtiveram escassos 1% de votos, enquanto os abstencionistas fracassaram,
já que a participação foi de mais de 70% -- a mais elevada
das últimas décadas. Menem, que alcançou a maioria simples
na primeira volta, abandonou na segunda, quando as sondagens previam uma
derrota massiva e humilhante, perto das três quartas partes do
eleitorado. Kirchner converteu-se em Presidente. A esquerda, os líderes
piqueteros e os grupos militantes de direitos humanos equivocaram-se por
completo ao interpretar a mudança de circunstâncias.
Comportaram-se disse-me um líder dos mineiros do
carvão como se tivessem a cabeça metida num balde. Ao
escutar o eco das suas palavras de ordem, acreditaram que era a voz do
povo. Após cinco anos de recessão, que conduziram a uma
depressão económica e ao colapso financeiro, depois de 18 meses
de manifestações e mobilizações, nos quais a
esquerda, dividida e em conflito, não foi capaz de mudar o regime
político mediante acções extra-parlamentares nem
tão pouco de apresentar um candidato e um programa eleitoral unificado
, a massa de votantes, incluindo a maioria dos habitantes de os bairros
pobres e da empobrecida classe média, depositaram os seus votos e as
suas esperanças em Kirchner, com a sua imagem de
oposição à ordem estabelecida.
A PRESIDÊNCIA DE KIRCHNER:
OS MOVIMENTOS SOCIAIS E O NOVO PROJECTO POLÍTICO
O presidente Kirchner, que tomou posse em Maio de 2003, prosseguiu com os
planos de trabalho iniciados pelo seu predecessor Eduardo Duhalde: Dois
milhões de chefes de família com filhos recebiam US$50 ao
mês, através do que continua sendo o principal programa social do
governo. Esta quantia cobre apenas um terço do custo dos produtos
alimentares básicos, estimado em US$140 ao mês e só abrange
40% dos desempregados ou sub-empregados. O objectivo primordial dos planos de
trabalho, desde o seu início até à data, nunca foi o de
solucionar o problema da desnutrição ou o do desemprego, mas sim
o de conter o descontentamento. No início, o programa de
planos de trabalho estimulou a organização dos desempregados e a
exigência de mais planos de trabalho com uma duração
superior aos seis meses de contrato previstos inicialmente. Os planos de
trabalho fracassaram no objectivo de conseguir a criação de
novos postos de trabalho a tempo completo e serviram para consolidar uma classe
permanente de indigentes sem futuro. Na grande maioria dos casos, os
planos de trabalho caíram sob o controlo dos
autoritários governadores de província, alcaides e dirigentes de
bairro que, com frequência, entregaram o dinheiro a clientelas locais,
que nem estavam desempregadas nem tinham verdadeira necessidade, em detrimento
das famílias indigentes.
Os Movimentos de Trabalhadores Desempregados (MTDs) estão divididos em
três sectores: os que apoiam Kirchner, os que lhe dão apoio
crítico e os que se lhe opõem. Os sectores dos MTDs
favoráveis a Kirchner (nas suas duas variantes) estão
acompanhados pelas três principais confederações de
sindicatos (a CTA, a CGT e a dos Trabalhadores dos Transportes), por grupos de
operários de fábricas recuperadas e pelos principais grupos de
direitos humanos (incluídos o das Mães da Praça de Maio, e
o movimento das avós). O MTD que se opõe a Kirchner, por seu
lado, está dividido em várias coligações que, com
frequência, actuam independentemente umas das outras. Sectores dos
operários das fábricas ocupadas, encabeçados pelos da
fábrica de cerâmica
Zanón
, estão na
oposição, mas encontram-se muito isolados, já que muitos
dos seus antigos aliados se converteram em políticos colaboracionistas.
A profunda divisão entre os movimentos tornou-se visível na
mobilização para comemorar o aniversário da
insurreição de 20-21 de Dezembro. Em 2003, três diferentes
coligações reuniram-se, a horas distintas, frente ao
Palácio Presidencial: a primeira, do meio-dia às 14 horas, juntou
10 mil pessoas; a segunda, das 15 às 17 horas, teve 15 mil; a terceira,
das 18 às 20 horas, reuniu 25 mil. Cinquenta mil manifestantes no
desemprego teriam constituído uma formidável
demonstração de força se não se tivessem
diluído em três demonstrações de protesto separadas
que punham em evidência a debilidade de um movimento profundamente
dividido e incapaz, nem sequer, de comemorar um momento de
inflexão histórico.
A desunião de Dezembro de 2003 poderia considerar-se outro momento
decisivo, ao evidenciar o declínio de um movimento dividido e
parcialmente absorvido. O regime do capitalismo normal parecia ter
consolidado temporariamente a sua autorizada, uma vez mais promovendo o apoio
da classe média contra os militantes dos MTDs. As
mobilizações haviam-se centrado nos planos de
trabalho e nos postos de trabalho decentes, algo que
suscitava pouca ressonância na numa altura rebelde, mas agora
conformista classe média, uma vez recuperadas parte das suas
poupanças.
Os desfiles pelo centro de Buenos Aires não atraíam nem
participantes nem aplausos. As antigas
caceroladas
estavam silenciosas; os protestos de rua pareciam provocar, mais que a
compaixão, a ira dos cidadãos da classe média que vivem
fora da cidade e dos trabalhadores dos transportes. Uns poucos líderes
dos MTDs organizaram as manifestações, enquanto se preparavam
para se apresentar a eleições para cargos nos partidos
tradicionais. Alguns dos dirigentes dos MTDs não eram desempregados, mas
dirigentes de partidos políticos que encabeçavam e dividiam o
movimento.
Outros eram activistas sindicais que aspiravam a dirigir os seus sindicatos. O
exíguo grupo de impostores autonomistas, seguidores
intelectuais de Tony Negri, tinham praticamente desaparecido da cena social, e
os seus seguidores haviam-se unido a um ou a outro dos influentes grupos que
distribuíam os planos de trabalho.
O movimento de autogestão nas fábricas tinha abrandado e na
prática não se deram novas ocupações, enquanto que
as já existentes se encontram sob a tutela do regime e, em alguns casos,
os seus antigos advogados trabalhistas de tendência trotskista já
não têm influência alguma. Mas o passo atrás mais
evidente é o prático desaparecimento das assembleias de moradores
da classe média.
Em certos bairros, ainda se reúnem os comités para discutir os
problemas dos moradores, mas as grandes assembleias ao ar livre são
já uma recordação distante. Mas o mais lamentável
é que significativos sectores da classe média se converteram
à ideologia autoritária e repressiva da ultradireita para
combater o aumento dos índices de delinquência.
A maior manifestação que teve lugar em Buenos Aires nos
últimos dois anos foi a de 150 mil pessoas quase exclusivamente
da classe média que protestavam frente ao Congresso contra a
delinquência, pondo o acento numa maior repressão e sem aludir
à imensa pobreza e ao desemprego como causa directa da
delinquência.
Durante o primeiro ano do regime de Kirchner, os MTDs pareciam isolados, e
alguns controlados por partidos esquerdistas e dirigentes dos partidos
tradicionais. Ao mesmo tempo que se diluíam as lutas contra o regime,
intensificavam-se as que tinham lugar no seio dos movimentos. Enquanto que as
divisões, previamente, se baseavam na competição
entre
bairros,
as novas dissensões ocorriam
no interior
dos bairros. Por exemplo, uma coligação de MTDs
inclui o Polo Operário, a Coordenadora Unidade de Bairros (CUBA), sector
do MTR e o Movimento Territorial de Libertação (MTL). Outro grupo
de organizações de desempregados, relacionado com o Partido
Comunista Revolucionário, é a CCC, (Corrente Classista Combativa)
e outra facção é a do Movimento Teresa Rodríguez.
Inclusive os grupos de direitos humanos estabeleceram linhas divisórias.
A Universidade Popular das Mães da Praça de Maio já
não permite que os piqueteros anti-Kirchner se reunam na sua
praça, ao mesmo tempo que apoiam outros que estão com o regime,
como os dos Bairros de Pie, Pátria Libre e certos sectores do MTD,
Aníbal Verón.
O efeito final destas divisões foi o de debilitar o poder de
atracção e as possibilidades das organizações de
piqueteros. A concentração do 1º de Maio de 2004 (Dia do
Trabalho) foi um exemplo, e a baixa participação o resultado da
desunião, já que cada organização piquetera o
celebrou por sua conta e a assistência foi apenas uma
fracção da registada nos dois anos anteriores. Além das
rivalidades pessoais e os longos conflitos de anos, as diferenças
fundamentais que se verificam nos movimentos de desempregados são de
carácter político,
e em especial na atitude e resposta que têm ante o regime de Kirchner. Os
encontros realizados em Abril de 2004 com um vasto número de militantes
e líderes piqueteros na Grande Buenos Aires revelam uma profunda crise
no movimento, uma aguda divisão na opinião sobre o regime, no
nível de militância entre os trabalhadores desempregados e nas
perspectivas políticas futuras.
Dois exemplos podem ser suficientes para ilustrar estas divisões
políticas: O Movimento de Trabalhadores Desempregados - Aníbal
Verón (MTD-AV) e o Movimento Teresa Rodríguez (MTD-Martino).
Deveria mencionar-se que inclusive nestes movimentos existem diferenças
internas e possíveis desacordos futuros. O MTD-AV, como muitas das
organizações piqueteras, leva a cabo a sua análise
começando pela descrição da nova
situação. Alegam que regime de Kirchner é um regime
híbrido no qual se unem a burguesia nacional e as
corporações multinacionais, algo substancialmente distinto dos
regimes neoliberais anteriores. Citam as políticas
progressistas do regime em matéria de direitos humanos, as
mudanças no exército (com a reforma de 40 generais), a
resistência perante o FMI, o apoio a Castro e a Chávez, a
revisão de uma legislação laboral retrógrada e a
sua política menos repressiva face aos protestos públicos. A
estes aspectos positivos de Kirchner, o MTD-AV junta uma
apreciação negativa da situação actual
dos movimentos de massas. Afirmam que as dissensões internas nos seus
próprios movimentos, a decrescente participação nas
manifestações de protesto, a desorientação
geral das massas para se confrontarem com as novas políticas do
regime e a desarticulação dos movimentos como
consequência dos planos de trabalho postos em marcha pelo governo,
ocasionaram a perda do consenso entre os movimentos de desempregados, o que
dificulta a luta. O resultado de todas estas circunstâncias foi que o
MTD-AV adoptou uma postura de apoio crítico ao regime, e passou de uma
atitude de conflito e confrontação a outra de
negociação e discussão, principalmente sobre o
financiamento do número de planos de trabalho e de projectos locais.
Esta mudança de política levou à
desintegração na prática das pequenas
tendências autonómicas descentralizadoras do movimento
organizado pelos discípulos universitários do professor John
Holloway da Universidade de Edimburgo. A questão do poder
político, e mais especificamente, do poder estatal, e das
potenciais vantagens económicas e políticas, são factores
chave na formação de atitudes políticas entre os
desempregados.
Os líderes do MTD-AV acrescentam que existem três possíveis
abordagens ao regime de Kirchner: a posição dos
trabalhadores de Pole (controlados pelo Partido dos Trabalhadores - Partido
Operário (PO) que proclamam que nada mudou e continuam com a
política de confrontação; a dos que se inclinam para a
conciliação e a subordinação, impulsionada por
D'Elia de Matanzas e Barios de Pie, e a sua de independência
política mas renunciando à confrontação e confiando
na negociação, que é de facto um apoio
crítico. O MTD-AV argumenta que dado que Kirchner goza do apoio de 60%
do eleitorado não existem condições para a
confrontação, e baseia a sua estratégia na
pressão do regime para que aumente de 150 (US$50) para 300 pesos a
quantia estabelecida para os planos de trabalho, e na oposição
à redução do número de beneficiários.
Aspiram a ampliar a sua organização para incorporar trabalhadores
temporários e a unir forças com os operários
sindicalizados para conseguir trabalhos de verdade, ou seja, a
jornada de trabalho completa, enquadrados em sindicatos, em suma, bem pagos.
Assim como a avaliação do MTD-AV sobre o grau de apoio de que
desfrutou Kirchner durante a maior parte dos anos 2003-2004, se ajustava
à realidade, falhou ao não perceber a queda de popularidade e o
crescente descontentamento no final do seu primeiro ano. A sua
percepção do progressismo de Kirchner estava distorcida e
baseava-se nas boas relações que mantinham com o seu regime.
Enfatizavam a resistência de Kirchner ao FMI, mas perante as
perguntas admitiram que Kirchner havia transigido com as
condições impostas pelo FMI, continuava pagando a dívida
externa às Instituições Financeiras Internacionais e
propunha pagar, ao menos parcialmente, aos possuidores privados de
títulos de dívida. Mais ainda, o MTD-AV admitia que os
níveis de pobreza e as desigualdades não tinham mudado, e que as
indústrias estratégicas e os bancos privatizados continuavam nas
mãos das multinacionais estrangeiras. O MTD-AV estava disposto a aceitar
as concessões imediatas do regime a troco da renúncia à
exigência de mudanças estruturais, pelo menos no contexto do que
entendiam como um movimento que se desvanecia e um regime popular.
A oposição assinala o cada vez maior repúdio da
classe média ao corte de estradas, e o crescente abandono das
assembleias de bairro, com a esperança de que Kirchner resolva os seus
problemas. Em resumo, a oposição piquetera descreve
Kirchner como triunfador a curto prazo, por haver reforçado a
política institucional, e por ter canalizado parcialmente a
política que se desenvolvia nas ruas para o Congresso e para a
Administração, debilitando assim o inovador estilo
democrático das assembleias, que havia emergido antes e imediatamente
depois da insurreição de 20 e 21 de Dezembro.
Entre os piqueteros da oposição existem duas linhas de pensamento
e de acção: a dos que crêem que Kirchner é uma mera
continuação dos políticos do passado (Polo Operário
-Trotskista) e leva a cabo a mesma política na rua, e a dos que
crêem que os novos tempos requerem novas tácticas e
estratégias. Esta última é a defendida por Martino, que
critica os piqueteros que pensam que ainda estamos nos dias 20-21 de
Dezembro de 2001 e não deixam de cortar estradas. Postula que
há que procurar novas formas de luta, para conseguir
legitimação e mantém que a maioria dos protestos
actuais são para testemunho, tendo em conta de que o regime
sabe que estão isoladas e que, mais cedo ou mais tarde, os manifestantes
voltarão às suas casas. Afirma que o movimento não
se pode limitar a lutar apenas pelos planos de trabalho, e pede que, para
contrariar a influente propaganda do regime que assegura que os
desempregados que pedem planos de trabalho não querem
trabalhar , se mude de estratégia para exigir um
salário universal em todos os sectores da classe trabalhadora
(empregados e desempregados), assente em verdadeiros empregos (empregos
estáveis de jornada completa). Esta corrente crítica dos
piqueteros não tem aliados entre a confederação de
sindicatos, e confronta-se com outros piqueteros críticos que reclamam
uma mobilização geral que conduza à
greve geral.
Enfrentando a debilidade geral em desafiar o poder do Estado nas actuais
circunstâncias, o MTR apela ao comprometimento com as
políticas territoriais para animar as massas a envolver-se na
política local. Martino advoga um processo em duas fases, a
primeira, que levaria à constituição de um poder
municipal, para de seguida aceder ao poder nacional, assim como planos de
produção para recuperar a cultura do trabalho. Apela
a uma administração local autónoma e à
educação para preparar os trabalhadores para a
autogestão. O que Martino pede é um novo Estado no
interior do novo Estado. Para seguir esta nova direcção, o
MTR propõe que o movimento piquetero se amplie e inclua trabalhadores
empregados, professores, trabalhadores sanitários e outros sectores de
trabalhadores temporários mal pagos.
Os planos de trabalho que se iniciaram como exigências
legítimas sobre a que organizar grupos de base, com experiência em
assembleias locais e em autogestão , converteram-se, em alguns
casos, em instrumentos de promoção pessoal para os líderes
locais bem relacionados com o regime. Ironicamente, o sistema de clientelismo
local justificou-se como tratando-se de estruturas horizontais, uma
ideologia popularizada pelos ideólogos do anti-poder. O
fracasso dos horizontalistas para conseguir o controlo
democrático deve-se em grande parte à falta de consciência
de classe que é necessária para exercer esse controlo. A
democracia no movimento piquetero sem consciência de classe não
conduz a um processo político sustentável através de
assembleias. Em seu lugar, as rebeliões populares e a militância
inicial desembocaram numa concentração exclusiva nos assuntos
imediatos, na dependência social dos líderes piqueteros locais e,
em alguns casos, dos dirigentes políticos.
A ênfase que os ideólogos anti-poder puseram na
autonomia e na espontaneidade dos piqueteros no momento
da revolta converteu-se, depois, na outra face da moeda que conduziu à
subordinação dos piqueteros aos dirigentes dos novos regimes
locais. Ambas as fases põem em relevo a ausência de uma
formação organizada com consciência política de
classe. A falta de qualquer plano estratégico de acção,
conduziu à dispersão dos movimentos numa variedade de
políticas reformistas, colaboracionistas e sectárias.
O movimento piquetero foi constituído numa base de operários que
nunca tinha trabalhado em fábricas e que, por isso, tinham pouca ou
nenhuma consciência de classe, e de antigos trabalhadores afastados da
produção em fábricas desde havia pelo menos uma
década. Em muitos casos, isso conduziu às
soluções individuais em vez de levar a um consenso
colectivo a partir da rebelião inicial. O grande sucesso do movimento
piquetero foi a organização das massas de desempregados para a
acção colectiva. A sua limitação, o fracasso em
avançar na consciência de classe, o que conduziu ao actual beco
sem saída e aplanou o terreno para a reaparição da
política das clientelas sob os auspícios do benigno
reinado do regime de Kirchner. Ao colocar a tónica no municipal, em vez
de o fazer nas questões nacionais, o movimento fragmentou-se em centenas
de grupos que competiam entre si. Se bem que a luta pelos planos de trabalho
tenha sido inicialmente um passo importante para remediar a fome e a
desnutrição das crianças, a concentração
exclusiva nesta questão teve diversos efeitos negativos. Em primeiro,
deu lugar a uma perspectiva assistencial (trabalho social) entre os
piqueteros, e a uma dependência das subvenções
mínimas do Estado, em vez de servir para provocar uma mais profunda
reflexão sobre a natureza do Poder. Os movimentos centraram-se na luta e
na confrontação (com cortes de ruas, tomada de fábricas)
mas com estreiteza de vistas. Com o lançamento dos planos de trabalho
financiados pelo Estado, os movimentos piqueteros converteram-se, usando as
palavras de Martino, numa organização estatal;
transformamo-nos num apêndice social do Estado para distribuir os
subsídios.
A rápida transformação das formas e objectivos do
movimento piquetero necessita de uma reflexão importante e não
limitar-se à convocatória para a volta às
ruas. No actual beco sem saída entre piqueteros ocupados em
acções isoladas ou colaboracionistas que apoiam o
moderado regime neoliberal, colocaram-se uma série de
alternativas. O MTR-AV propõe lutar, pressionando as grandes empresas
para que financiem projectos produtivos dos piqueteros, unindo assim
trabalhadores empregados e desempregados para promover postos de trabalho,
despertar a consciência de classe e a solidariedade, incluída a
auto-exploração que, segundo Martino, é trabalho
voluntário para alcançar a libertação.
Cita-se como modelo a experiência em Mosconi, uma cidade
petrolífera onde os piqueteros conseguiram obter recursos das companhias
do petróleo privatizadas estrangeiras, a bloquear o transporte. Mosconi
conquistou a legitimidade ao apoiar a segurança e os salários dos
trabalhadores empregados e as necessidades sociais da comunidade para conseguir
a hegemonia ideológica, como passo prévio para o desafio ao poder
do Estado.
O problema que se coloca ao dar como exemplo Moscón, é que as
condições são ali muito diferentes das de Buenos Aires e
de outras áreas metropolitanas. A maioria dos desempregados eram antigos
trabalhadores do sector petrolífero, com vínculos sociais,
familiares e sindicais com os trabalhadores no activo, numa cidade com uma
única indústria, o que não é o caso da maioria das
indústrias em Buenos Aires. Além disso, os operários
empregados em grandes fábricas de Buenos Aires mostraram pouco interesse
em se associarem às lutas dos piqueteros, e ainda menos em apoiar as
suas reivindicações para que as companhias financiassem projectos
dos piqueteros à custa do aumento dos seus salários. A
estratégia mais prometedora é unirem-se com os mal pagos
trabalhadores do sector público, em greves conjuntas e combinar as
reivindicações de criação de emprego com a as de
melhoria dos salários.
O MOVIMENTO DE OCUPAÇÃO DE FÁBRICAS
A ocupação de fábricas por operários desempregados
alcançou o seu nível máximo entre 2001 e 2002, com mais de
10 mil trabalhadores gerindo mais de 100 empresas. Um movimento ainda vivo, se
bem que com impulso político muito diminuído. Os planos de
trabalho absorveram muitos operários despedidos e o regime de Duhalde,
por meio do seu aparelho judicial, desalojou violentamente os operários
das fábricas. Com Kirchner, o regime interveio, convenceu os
trabalhadores a transformar as empresas em cooperativas a troco do
reconhecimento legal. A maioria adaptou-se. Muitas empresas
ocupadas funcionam agora, sob a tutela do Estado, como
sub-contratadoras de companhias privadas, em condições de
trabalho abusivas. Têm que fazer face ao pagamento das dívidas
contraídas pelos anteriores proprietários e/ou pagar os
empréstimos aos bancos privados ou estatais. A maioria abandonou a sua
vertente política: já não se comportam como parte de um
movimento, nem se vêm a si próprios como fazendo parte da luta de
classes. Os operários com mais alguma consciência de classe que
se aliaram à ocupação, agiam apenas proteger os seus
postos de trabalho.
Os advogados de esquerda e os activistas dos movimentos de solidariedade pouco
fizeram para promover a consciência de classe. A maioria daqueles
progressistas ficou isolada nas cooperativas. A principal e significativa
excepção é a Zanón, a enorme fábrica de
cerâmica em autogestão na província de Neuquén. Se
bem que muitas outras cooperativas operárias continuem funcionando e
criando postos de trabalho, nenhuma delas manteve o grau de gestão e
controle dos trabalhadores que se converteu na característica da
Zanón. Enquanto outras fábricas contratam horas extra de
trabalho a baixo preço para satisfazer as exigências das suas
contratadoras, a Zanón contratou 140 novos operários para a sua
unidade de produção, aumentou-a, melhorou a qualidade e manteve
um leque salarial igualitário entre operários qualificados e
não qualificados. Ao contrário de outras fábricas
assumidas pelos trabalhadores e convertidas em cooperativas, os
operários da Zanón possuem um alto nível de
consciência de classe e de educação política,
adquiridas nas lutas de classe sustentadas antes, durante e depois da
ocupação. Os operários da Zanón constituem o motor
principal na promoção de uma revista bissemanal,
Nuestra Lucha
,
e estabeleceram relações sólidas e de mútuo apoio
com o vizinho MTD. A partir de Maio de 2004, o regime de Kirchner, nega-se a
reconhecer legalmente a Zanón como uma fábrica de propriedade
operária, apesar de a direcção da Zanón ter
cumprido com todos os requisitos legais exigidos pelo regime para que fosse
classificada como cooperativa. Apesar de o Ministério do
Trabalho haver prometido apoiar a questão há mais de um
ano mais uma vez o sistema judicial se pôs ao lado do antigo e
corrupto empresário, responsável pela falência, e
ameaça emitir uma ordem judicial de despejo forçado dos
trabalhadores. Antigos dirigentes sindicais desalojados dos seus postos,
representantes do Banco Mundial e membros da magistratura apoiaram os
empresários. A experiência da Zanón coloca uma
questão básica: Por que é que a Zanón é a
única cooperativa operária do país que o regime de
Kirchner se negou a reconhecer até agora? Cremos que a resposta se pode
encontrar no facto de que na Zanón a tutela estatal e o controle
paternalista, que é exercido sobre outras fábricas, seriam
difíceis de impor, tendo em conta a consciência de classe dos seus
líderes e operários. Os funcionários de Kirchner actuam ao
velho estilo populista do peronismo, que permite
formalmente
a existência de representantes dos operários nas fábricas,
mas que, na prática, os controla segundo a lógica do mercado
capitalista. O perigo para a Zanón é real porque a rede nacional
de solidariedade, em que se apoia, foi quase inteiramente desmantelada. As
Mães aceitaram Kirchner como um dos seus e já não permitem
a utilização dos seus espaços da Universidade para as
reuniões da Zanón e dos seus partidários de Buenos Aires;
o relançamento da sua revista encontrou um apoio pouco
entusiástico dos divididos e decadentes movimentos piqueteros; e os
intelectuais regressaram às suas obrigações
académicas ou envolvem-se em controvérsias mais
actuais. Ainda que a Zanón continue a ser um símbolo das
possibilidades de alternativa à gestão capitalista, já
não é vista como um modelo a seguir pelos trabalhadores
empregados ou não, que solicitaram planos trabalho ou exigem obter um
simples salário.
CONCLUSÃO:
CONSOLIDAÇÃO A CURTO PRAZO, CRISE A MÉDIO PRAZO
Não restam dúvidas que o Presidente Kirchner obteve êxito
na consolidação do apoio ao seu regime, ao levar a cabo as
mudanças estritamente necessárias no Exército, na
Magistratura e na Polícia, para conferir nova legitimidade às
desprestigiadas instituições do Estado. Actuou com grande
astúcia, ao fazer face às condições do FMI em
matéria fiscal e orçamental, mantendo, ao mesmo tempo, uma
posição nacionalista de resistência frente às
exorbitantes exigências de aumento do superávite fiscal
além dos 3%, e de proceder ao pagamento dos títulos em poder de
particulares. Mas o mais significativo foi que Kirchner dividiu os movimentos
sociais, absorveu os principais líderes sindicais e das
organizações de pensionistas e de direitos humanos por meio de
uns planos de trabalho mínimos, algumas concessões de aumento
salarial, aumento das pensões e retirada da impunidade aos oficiais do
Exército acusados de crimes contra os direitos humanos. Em Maio de 2004,
anunciou um aumento de 185 milhões de dólares para as
pensões mais baixas de um milhão e setecentos mil reformados, e
de 35 milhões de dólares para os empregados do sector
público, a quem a sua política de controle salarial tinha feito
perder poder aquisitivo.
Esta última medida surgiu como resposta à greve da ATE
(Associação de Trabalhadores do Estado), reforçada pela
ameaça de convocatória duma mobilização geral da
Confederação de Trabalhadores Argentinos (CTA).
A economia argentina capitalizou os excepcionais preços das suas
principais exportações e aumentou o valor dos impostos pagos (em
2004 mais de 30 % sobre o obtido em 2003) para alcançar o recorde de 3,9
mil milhões de dólares. Aproveitando o elevado crescimento
industrial e das receitas comerciais e fiscais, o regime de Kirchner aplacou os
consumidores da classe média com importações baratas,
ampliou as expectativas de milhões de trabalhadores desempregados com
milhares de novos postos de trabalho e assegurou o apoio de importantes
líderes piqueteros.
A época da rebelião popular contra a classe política
dominante passou, de momento. Mas em meados de 2004, estão a aparecer
novas contradições nas políticas macroeconómicas de
Kirchner:
os operários e empregados exigem aumentos substanciais de
salários para compensar a perda de poder aquisitivo provocada pelo
congelamento salarial; os chefes de família protestam contra as
concessões de Kirchner às companhias privatizadas
eléctricas e de energia de propriedade estrangeira para que aumentassem
as tarifas; o continuado apoio de Kirchner às companhias estrangeiras
(principalmente espanholas) de petróleo e energia originou um importante
défice de energia básica,
encerramentos temporários de fábricas e um considerável
aumento das tarifas para os consumidores. Encurralado entre os seus
compromissos neoliberais a favor do capital estrangeiro e os crescentes
protestos populares contra os preços que essas mesmas empresas
estabelecem sem escrúpulos, Kirchner enfrenta o momento da verdade. Em
Abril de 2004, a actividade industrial baixou cerca de 4%, em
relação ao ano anterior, devido aos cortes de energia, e milhares
de trabalhadores foram despedidos.
Como reconhecem alguns dos líderes piqueteros mais lúcidos, a
conjuntura política mudou e os movimentos não estão ainda
preparados para isso, nem no plano político nem no organizativo. O que
se deduz da massiva e vasta rebelião popular é que a
insurreição espontânea não pode substituir o poder
político. Muitos especialistas e comentadores políticos
mostraram-se incapazes de analisar em profundidade as forças internas e
as debilidades da impressionante, embora momentânea, solidariedade
social. Houve escassa solidariedade de classe mais além dos limites de
bairro e os partidos de esquerda e os líderes locais pouco fizeram para
promover acções massivas de classe que fossem além dos
estreitos limites do seu horizonte geográfico e das suas próprias
organizações. Mesmo no seio das organizações, os
líderes ideológicos chegaram aos seus postos, não
através de eleições de bases com consciência de
classe, mas antes devido à sua capacidade de negociação
para conseguir planos de trabalho ou pela sua habilidade organizativa. A
repentina mudança de lealdades de muitos dos desempregados -- para
não falar da empobrecida classe média baixa -- reproduziu os
vícios da classe política. Os líderes
piqueteros subiram na onda do descontentamento massivo, viveram na
ilusão de reviver a São Petersburgo de Outubro de 1917, sem se
darem conta de que não eram operários soviéticos com
consciência de classe proletária. A gente chegou em tropel, mas
muitos abandonaram o barco no momento em que conseguiram mínimas
concessões em planos de trabalho, pequenos aumentos salariais e
promessas de mais e melhor pagos postos de trabalho.
O processo de domesticação do movimento produziu-se
através das estratégias que o regime foi executando directa e
oportunamente. Kirchner envolveu-se em numerosos debates cara a cara com os
líderes populares, assegurou-se de que os melhores planos de trabalho
fossem para aqueles que estavam dispostos a colaborar, enquanto fazia ofertas
mínimas aos que se mantiveram intransigentes. Manteve uma postura
independente em relação às exigências mais
humilhantes do FMI, ao mesmo tempo que aceitava consolidar as
reaccionárias mudanças estruturais impostas pelos seus
predecessores a privatização das antigas e lucrativas
empresas públicas. Por seu lado, o grosso do movimento, carente de uma
estratégia geral e da perspectiva de uma sociedade socialista
alternativa, foi facilmente manipulado para aceitar mudanças na
microeconomia, que minoravam os piores efeitos da pobreza e do desemprego, mas
sem modificar as estruturas da propriedade, dos lucros e do poder dos
banqueiros, dos exportadores agrícolas e dos monopólios
energéticos.
A questão do poder de Estado nunca foi seriamente colocada. Converteu-se
numa mera declaração de intenções, com a qual
grupos sectários de esquerda pretenderam minar o contexto organizativo
através do qual o desafio ao Estado pudesse ter sido significativo.
Foram incitados e ajudados por um pequeno mas ruidoso, grupo de
ideólogos que converteram em virtude as limitações de
alguns desempregados para os doutrinarem na teoria do anti-poder,
uma confusa mescla de erros sobre política, economia e poder social.
Em contrapartida, os líderes emergentes dos piqueteros,
esforçaram-se corajosamente para consciencializar as massas sobre as
virtudes da acção extra-parlamentar e sobre os vícios da
classe política, mas foram incapazes de por de pé uma alternativa
de poder institucional que unificasse os movimentos locais numa força
centralizada para desafiar o Estado. Faltou claramente uma
organização política
unificada (fosse ela um partido, ou uma combinação de partido e
movimento), enraizada nos bairros populares, capaz de estabelecer
órgãos representativos para promover a consciência de
classe e mostrar o caminho para a tomada do Poder. Apesar do carácter
massivo e continuado do período inicial de insurreição
(Dezembro de 2001- Julho de 2002), não surgiu um partido ou um movimento
que o representasse, mas antes uma multiplicidade de grupos locais com
programas diferentes que depressa se enredaram em lutas intestinas por
uma hegemonia efémera, que conduziu milhões de potenciais
militantes para grupos locais em confronto e carentes de qualquer perspectiva
política.
O slogan Que se vayan todos, que circulou amplamente entre os que
se tinham comprometido com a luta, tornou-se claramente contraproducente, na
medida em que atrasou ou entravou a necessária educação
política que uns líderes emergentes precisavam para conseguir um
compromisso mais profundo, e a longo prazo, nas acções
revolucionárias das massas. A rebelião dos dias 20 e 21 de
Dezembro de 2001 converteu-se sem dúvida num ponto de referência
histórico para lutas futuras e em advertência dirigida ao
imperialismo norte-americano, ao Fundo Monetário Internacional e
à classe dirigente local de que existem limites para a
exploração e para a pilhagem. Além disso, os
métodos de acção extra-parlamentares resultaram, sem
dúvida, mais efectivos para expulsar os dirigentes corruptos e
iníquos que os processos eleitorais parlamentares ou os judiciais.
No final do primeiro ano da presidência de Kirchner (Maio de 2004) o
movimento piquetero reaparece como a principal força de
oposição e regressam os movimentos de massas, aos quais se juntam
operários sindicalizados, com novas exigências
programáticas. Estas mobilizações provocaram o corte de
148 estradas, auto-estradas e pontes em todo o país, com mais de 80 mil
manifestantes. As principais reivindicações centraram-se na
exigência de mais planos de trabalho, um aumento dos subsídios de
150 (US$50) para 350 pesos (US$117) e a recusa do controle estatal na
distribuição dos planos laborais para os desempregados.
Estes, unidos aos empregados do sector público, exigiram um aumento de
salários para todos os trabalhadores do Estado e das empresas privadas,
bem como o aumento das pensões de reforma. Igualmente importante foi que
todos os grupos
piqueteros tivessem protestado contra as ordens judiciais que proíbem o
corte de estradas. Além do bloqueio de vias de
comunicação, realizou-se uma marcha pela cidade e protestos
diante da sede da Repsol-YPF (a companhia espanhola multinacional de
petróleo, proprietária da antiga companhia petrolífera
estatal) que expressavam o repúdio popular pela subida dos preços
dos combustíveis e exigiam um preço social para a
garrafa de gás de uso doméstico.
Os participantes na marcha manifestaram-se também diante dos tribunais
federais para protestar contra as leis que proibiam o bloqueio de estradas.
Além de Buenos Aires, registaram-se cortes de ruas e estradas nas
capitais provinciais de Jujuy, Salta, Tucumán, Santa Fé, San
Juan, Mendoza, Chaco, Entre Ríos, Corrientes, Misiones, Chabut e Rio
Negro. O dia de luta, em princípios de Maio, foi o primeiro desde que os
tribunais ilegalizaram os cortes de tráfico. A ordem do ministro de
Segurança de Buenos Aires para limpar as estradas não
foi cumprida, tendo em conta as dimensões da manifestação,
na qual participaram muitos movimentos piqueteros, entre outros o
Bloque Nacional de Piqueteros
, de orientação trotskista, dirigido pelos Operários de
Pole, o
Movimiento Independiente de Jubilados e Desocupados
, dirigido por Raul Castello e a
Corriente Clasista e Combativa,
formada por antigos partidários do regime de Kirchner. Os sindicatos da
Função Pública juntaram-se à
manifestação e aos cortes de estradas, apesar das tentativas
obstrucionistas do Sindicato da Administração, que apoia Kircher.
Durante a terceira semana de Maio de 2004, os sindicatos do Metro convocaram
uma assembleia nacional para lançar um movimento que exige uma jornada
laboral de seis horas diárias, a fim de criar postos de trabalho para os
desempregados.
Estas manifestações renovadas, promovidas conjuntamente por
trabalhadores desempregados e empregados, contrastam com a perda de autonomia e
crescente vulnerabilidade das fábricas ocupadas". Duas
importantes e simbólicas manufacturas,
Bruckman
(uma fábrica de tecidos) e
Grissinopoli
(de panificação) passaram do controlo dos operários
à gestão estatal, enquanto a fábrica de cerâmica
Zanón, gerida pelos trabalhadores, enfrenta a ameaça de um
despejo policial iminente. O movimento piquetero, apesar das suas
contínuas divisões, conserva ainda uma grande capacidade, assente
em alianças tácticas, para convocar e mobilizar dezenas de
milhares de militantes. A renovada actividade está ligada às
organizações de piqueteros que conservam uma
percepção de classe independente do regime de Kirchner. Os grupos
que tinham adoptado uma atitude de colaboração, crítica ou
não, viram-se enredados pelo Estado e chegaram à
situação de serem incapazes de responder ao descontentamento
crescente entre os desempregados e os operários mal pagos.
Os primeiros 10 meses do reinado de Kirchner suscitaram grandes expectativas
entre as pessoas, mas a esperança de tempos melhores esfumou-se. O
aumento de 50 dólares nos salários mensais dos
funcionários e dos pensionistas pior pagos encontra-se ainda muito
abaixo do aumento dos preços dos combustíveis, da energia e da
electricidade, que Kirchner concedeu generosamente às multinacionais
privatizadas.
O intento de Kirchner para desenvolver um capitalismo "normal"
nacionalista evidenciou a sua debilidade estrutural perante as crises
energéticas, do gás e do sector eléctrico, provocadas
pelas multinacionais de propriedade estrangeira. Depois de anos de lucros
exorbitantes, as multinacionais limitaram-se a fazer pequenos ou mesmo
insignificantes investimentos em novos oleodutos, infra-estruturas ou
prospecções, para fazer face à crescente procura. Na
actualidade, baixou a produção nas fábricas devido a
encerramentos por razões de manutenção. As
multinacionais provocaram uma escassez artificial e grave, dela
responsabilizando as leis governamentais. Como se ainda não bastasse, os
contratos originais de privatização concediam às
multinacionais o poder de reter 54% do petróleo e de gás para
dispor dele a seu bel-prazer em lucrativas exportações para o
Chile, Uruguai e Brasil, à custa da redução do
abastecimento indústria argentina e aos consumidores domésticos.
Confrontado com a chantagem das corporações, e depois de se ter
comprometido com uma retórica populista e demagógica, ao criticar
as multinacionais, Kirchner cedeu e tolerou a subida de preços. Numa
aparente manobra para pacificar os nacionalistas, Kirchner prometeu a
criação de uma companhia estatal de petróleo que
construiria as infraestruturas para facilitar a exploração e a
comercialização privadas do petróleo e da energia.
O populismo teatral de Kirchner produz cada vez menos efeito: os
consumidores sofrem directamente a queda real dos rendimentos e o rápido
e constante aumento de preços. O resultado liquido da crise
energética, provocada pelas multinacionais, são os
despedimentos e fecho de fábricas (que aumentam o desemprego e baixam os
salários) e que aumentam o número de lares empobrecidos que,
literalmente, passam frio. Se bem que as organizações
pragmáticas de piqueteros colaboracionistas tenham obtido a curto prazo
pequenos benefícios (mais planos de trabalho, cargos locais,
financiamento a pequena escala), o apoio de Kirchner aos monopólios
privatizados, a continuação do pagamento da dívida e as
restritivas políticas orçamentais a médio prazo,
prejudicaram os pobres. Como consequência, os eixos da
política piquetera deslocaram-se dos líderes
colaboracionistas e pragmáticos incapazes de dar
resposta à crise energética e salarial , para dirigentes e
organizações de piqueteros mais combativas e com maior
consciência de classe. O capital estrangeiro, localizado nos sectores
estratégicos da economia, impõe as custosas
condições em que tem de se desenvolver o capital nacional.
A entrada de divisas fortes para financiar o capital nacional depende da
volatilidade dos preços das matérias-primas. Estes dois factores
estruturais impedem qualquer possibilidade de crescimento sustentado do
capitalismo nacional. Se a isto se acrescentar o grande empenho do
capital nacional em transferir os seus lucros para o exterior e em
investir em actividades especulativas na Argentina, será fácil
entender o reacender da crise argentina.
A primeira onda de mobilizações massivas, que se
desenvolveu de Janeiro a Julho de 2002, pôs em marcha os movimentos
piqueteros de massas e a capacidade dos trabalhadores desempregados para se
envolverem em acções directas massivas, o que deu lugar ao
surgimento de um certo grau de consciência de classe entre centenas de
milhares de activistas nos bairros mais pobres. O refluxo dos movimentos (entre
Agosto de 2002 e Maio de 2003) coincidiu com a concessão dos planos de
trabalho de 50 dólares, subvencionados pelo regime, com os conflitos
internos entre os grupos piqueteros e com a esperança de uma
solução com a eleição Kirchner. A profunda marcha
atrás que teve lugar durante o primeiro ano da presidência de
Kirchner (Junho de 2003 Abril de 2004) ficou a dever-se ao édito
obtido na absorção de um substancial número de
líderes piqueteros, mediante a sua incorporação no
aparelho de Estado, ao financiamento de pequenos projectos e à
adopção de gestos simbólicos.
Não obstante, o entusiasmo inicial relativamente a Kirchner está
cedendo o passo a aos protestos e greves. Os trabalhadores empobrecidos
deram-se conta de que os planos de trabalho não criaram verdadeiros
empregos com salários que permitam uma vida digna; sabem também
que os projectos locais não são a solução dos
problemas dos baixos salários, da subida dos preços e da
desnutrição das crianças. O descontentamento
começou a emergir em princípios de Março de 2004 quando
pequenos contingentes de trabalhadores voltaram a cortar estradas, e tiveram
lugar importantes confrontos nas províncias entre os corruptos e
autoritários governadores pró-Kirchner e funcionários,
desempregados e defensores dos direitos humanos. Em Maio de 2004, o
descontentamento contra o aumento dos preços da energia autorizado por
Kirchner, o congelamento de salários, o ocultamento de uns 20% dos
planos de trabalho, e o desemprego aberto, irromperam em acções
de rua organizadas.
O factor chave é a convergência temporária e
quebradiça das exigências dos empregados públicos e
privados com baixos salários, dos consumidores de energia e dos
desempregados. A viragem da classe média para a direita (uma
vez recuperadas as suas poupanças) que conduziu ao isolamento
temporário dos piqueteros, poderia ser compensada se se conseguisse
estabelecer de forma sólida uma nova coligação de
trabalhadores sindicalizados e de desempregados. Não há
dúvida que Kirchner fará algumas concessões para dividir a
coligação que está em formação,
especialmente através dos dirigentes sindicais bem dispostos a
colaborar. A sua margem para dividir e vencer é, no entanto,
limitada devido ao fim dos preços favoráveis das
exportações argentinas. Não pode contar por mais tempo com
o apoio dos trabalhadores com expectativas futuras de um posto de trabalho e de
aumento do nível de vida, porque o futuro já chegou.
As realidades actuais já não convencem os 50% da
população que continua a viver abaixo do limite da pobreza. Com a
queda dos preços das exportações de minerais e produtos
agrícolas argentinos (com excepção do petróleo),
Kirchner não dispõe de margem de manobra para pagar a
dívida, aumentar os salários e criar emprego.
Em terceiro lugar, demonstrou a sua disposição para sacrificar o
nível de vida local e o crescimento, enquanto satisfaz as
exigências de lucros das multinacionais energéticas. Finalmente,
a cínica representação de Kirchner, ao opor-se
ao FMI, para depois lhe transferir milhares de milhões como pagamento da
dívida, é muito improvável que continue enganando a
maioria dos argentinos.
Resta ver se os movimentos militantes de piqueteros podem estabelecer
alianças duradouras com trabalhadores no activo, se são capazes
de aprofundar a consciência de classe dos seus activistas e de criar um
movimento político com amplas bases que articule o ainda profundamente
dividido movimento.
Com o final do mini
boom
em Abril-Maio de 2004, e a baixa dos preços dos produtos
agrícolas para exportação, Kirchner não
dispõe nem dos recursos económicos, nem das ideias para manter os
seus actuais malabarismos. Além disso, a sua recusa de libertar 4 000
activistas sujeitos a processos judiciais alguns dos quais se arriscam a
5 a 10 anos de prisão por delitos políticos coloca-o em
má situação para encontrar alianças duradouras. O
reaparecimento da luta massiva de classes na Argentina apoia-se nos
êxitos conseguidos por meio das acções directas;
encontra-se em situação de enfrentar os problemas estruturais
(pobreza, desemprego, baixos salários) e deverá ter em conta as
suas limitações a ausência de um partido
político nacional de massas que aspire ao poder de Estado e à
re-socialização dos sectores estratégicos da economia. Uma
vez mais os movimentos de massas deverão assimilar que nenhum dos
problemas essenciais se vai resolver mediante alianças com a
burguesia nacional, nem tão pouco com a versão moderada de
Kirchner.
Abril de 2004
Tradução de Carlos Coutinho.
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