O Projecto de Constituição Europeia:
tentando vestir de verde uma UE insustentável
por Luis González Reyes
[1]
O Projecto de Constituição Europeia elaborado pela
Convenção apresenta uma clara linha de continuidade com os
tratados anteriores, que marcaram o processo de integração
europeia. Da perspectiva ecologista, isto pressupõe a
manutenção de um modelo socio-económico produtivista e
biocida que faz sentir os seus efeitos, tanto dentro das fronteiras da
União, como no resto do planeta.
O «DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL» NA UE
É verdade que no âmbito ambiental, a União Europeia foi
desenvolvendo uma legislação em muitas ocasiões mais
proteccionista que a dos próprios Estados. Esta
incorporação das preocupações ambientais não
responde, contudo, a um verdadeiro intento de aproximação
à sustentabilidade; responde simplesmente ao facto de os impactos
ambientais, que a União Europeia vem contribuindo para produzir, serem
já inegáveis, e à existência duma crescente
sensibilidade ambiental na população. Assim, o conceito de
desenvolvimento sustentável assumido pela União consiste em pegar
nos valores consumistas, submete-los à linguagem ecológica e
converte-los ao credo capitalista. Mas a União Europeia não
só domesticou o conceito de desenvolvimento sustentável, como que
perverteu o seu valor, afirmando que o ambiente é agora um motor do
capitalismo
[2]
.
A realidade da União Europeia é que o seu teórico respeito
pelo ambiente choca com a preeminência de objectivos económicos
neoliberais, claramente incompatíveis com o avanço para um modelo
social ecologicamente sustentável.
A intenção, por parte da União Europeia, de conceber o
desenvolvimento sustentável como um elemento de desenvolvimentismo
económico, pode apreciar-se no artigo 3.3 do actual Projecto apresentado
pela Convenção: «A União trabalhará em prol do
desenvolvimento sustentável da Europa baseado num crescimento
económico equilibrado, numa economia social de mercado altamente
competitiva, tendente ao pleno emprego e ao progresso social, e a um
nível elevado de protecção e melhoria da qualidade do
ambiente (...)». Sob o título «objectivos da
União», este preceito persegue um impossível: conjugar
competitividade e crescimento com protecção ambiental. Mas, como
tal não é possível, a aposta numa «alta
competitividade»
[3]
, como adiante se mostrará, acaba por prevalecer claramente nas
políticas europeias, enquanto o objectivo de alcançar «um
alto nível de protecção e melhoria de qualidade do
ambiente» se percebe ser mais retórico que real. Como
retórico aparece também o outro preceito «estrela» do
Projecto em matéria ecológica: o artigo II-37, de acordo com o
qual «As políticas da União integrarão e
garantirão, em conformidade com o princípio de desenvolvimento
sustentável, um alto nível de protecção do ambiente
e a melhoria da sua qualidade» . Chama a atenção, de facto,
que este artigo não preveja o direito subjectivo das pessoas a um
ambiente são, (como reconhece o Convénio de Aarhus, assinado pela
União Europeia e por todos os Estados membros), mas seja apenas um
simples princípio orientador, ou seja, um dever dos poderes
públicos, não susceptível de ser exigido pelos
particulares. Estas referências ambientalistas no Projecto constitucional
encaixam perfeitamente na Estratégia de Desenvolvimento
Sustentável de 2001, elaborada pela União Europeia, que procura
mascarar de verde o capitalismo produtivista.
A União baseia-se na atribuição de direitos de propriedade
sobre os recursos naturais para a protecção do ambiente. As
ferramentas de que se serve para fazer frente aos graves desafios ambientais
são principalmente os denominados impostos e taxas
«ecológicos»
[4]
. Estes instrumentos podem contribuir, sem dúvida, para melhorar a
protecção do ambiente, mas a sua insuficiência é
manifesta, se não forem acompanhados de outras medidas: os que têm
dinheiro suficiente, pagam e podem continuar a poluir (em Portugal chama-se a
isto o princípio do poluidor pagador
) O princípio de
«quem contamina paga», consagrado no artigo III-129.2 do actual
Projecto, ver-se-ia assim satisfeito, sem que por isso a nossa
relação com o ambiente saísse necessariamente beneficiada.
Além disso, é evidente a impossibilidade de quantificar com
valores monetários todas e cada uma das variáveis ambientais:
quanto deve pagar-se a quem contrai um cancro em consequência de
emissões electromagnéticas? Quanto pagariam as
gerações futuras por um clima inalterado?
Mesmo assim, brada aos céus a confiança que a União
Europeia deposita na tecnologia, para abordar com êxito os problemas
ambientais. Não há dúvida que a melhoria da
eficiência é importante, mas por si só e sem ter em conta
os outros elementos do problema ecológico, torna-se totalmente
insuficiente. Um bom exemplo é a introdução dos
catalisadores nos automóveis. O efeito benéfico inicial, a
redução de contaminantes, depressa se viu truncado pelo aumento
do parque automóvel.
O facto de que o bem-estar continue a ser avaliado através do
Produto Interno Bruto (PIB) grandeza basicamente idealizada para medir os
fluxos monetários, a actividade dos mercados constitui
também uma boa prova do estreito quadro em que se desenvolve a
tão apregoada sensibilidade ambiental da União Europeia. Muitos
factos que atentam contra a qualidade do ambiente têm reflexo positivo na
contabilidade do PIB. Por exemplo, se a água da torneira deixa de ser
potável e temos de comprar água mineral engarrafada, se se
fabricam mais automóveis, ou se se cortam mais florestas. Para o
capitalismo, é mais rentável destruir e de seguida reconstruir.
A preponderância do capital financeiro neste modelo económico, que
o actual projecto consolida, é outro traço que põe em
relevo a primazia dos interesses económicos sobre os ambientais. O
impulso para a criação de um mercado financeiro único, que
a União Europeia defende, reforça o capital especulativo, o qual
tem funestas repercussões no plano ambiental. Não é por
acaso que as continuas crises que a especulação financeira
provoca, se encontram na origem do desmantelamento do tecido produtivo
(especialmente do de pequena escala local, muito mais integrado no meio), do
incremento da pressão para que os países periféricos
explorem ao máximo os seus recursos naturais com o objectivo de obter
divisas. Não podemos também esquecer que o capital financeiro
é quem permite que uma pequena percentagem da população
mantenha altíssimas e insustentáveis taxas de consumo.
No entanto, uma análise sectorial pode mais claramente mostrar o real
posicionamento da União Europeia, que o actual projecto de
Constituição mantém e reforça, no que respeita aos
problemas ambientais. Em primeiro lugar, abordamos o tema dos transportes e do
urbanismo; a seguir, o campo da energia; em terceiro lugar, a
alimentação e a biotecnologia, depois a biodiversidade e
recursos, e, por último, resíduos e saúde pública.
TRANSPORTE E URBANISMO
A União está concebida para deslocalizar e desagregar a
produção em todo o continente e estabelecer uma
distribuição e um comércio a longa distância, que
incrementa o consumo de energia e a emissão de poluentes, e em que os
custos ambientais não aparecem na parcela das despesas. Esta
deslocalização é maioritariamente interna, mas
também se está a dirigir para o exterior, como o atesta o forte
impulso da União Europeia à abertura de uma nova ronda de
negociações no seio da OMC, à criação de uma
Área de Livre Comércio no Mediterrâneo, ou aos tratados de
livre comércio com o Mercosul. Estes factos indiciam que os transportes
estejam na actualidade a crescer acima do PIB no seio da União
[5]
(chegando ao caso extremo do transporte aéreo que está a
aumentar 7,4% ao ano). Acresce ainda o alargamento da União, que vai
ampliar o mercado interno, o que significa incrementar os transportes
[6]
. Um dado significativo é que a despesa total com os transportes
representa mais de 10% do PIB da União Europeia
[7]
.
Assim, a União, pressionada pela ERT
[8]
, aposta nas grandes infra-estruturas de transporte (auto-estradas
[9]
, comboios de alta velocidade, super-portos e aeroportos, centros
logísticos, etc). Actualmente, o objectivo prioritário das redes
de comunicação que conectam a União é eliminar os
«estrangulamentos» existentes (Alpes, Pirinéus, etc.) e
conectar o Leste da Europa para a ampliação em curso. Todo isto
apostando na estrada e no comboio de alta velocidade, que tem muito maior
impacto ambiental que o comboio convencional (o AVE consome quase tanto como um
avião e tem uma importante incidência no território), como
se pode ver no plano aprovado pela Comissão em Dezembro de 2003.
O projecto de Espaço Aéreo Único Europeu para 2004
é uma harmonização da normativa sobre transporte
aéreo, que permite prosseguir no seu aumento. Aliás, defende-se
que «não se poderão abandonar projectos para a
construção de novas infra-estruturas aeroportuárias»,
e que a margem de manobra para reduzir a poluição
atmosférica e sonora provocada pelo tráfico aéreo é
escassa, já que se procura o aumento de competitividade das companhias
europeias face às norte-americanas.
Tudo isto aumenta as emissões de CO2, com os consequentes efeitos sobre
as alterações climáticas
[10]
. Este modelo implica também a desarticulação do
território (uma vez que foi concebido apenas para favorecer a
comunicação entre os grandes pólos económicos), e a
dispersão urbana. Assim se empurra a população para
espaços altamente urbanizados (a União é a região
mais urbanizada do globo
[11]
), aumentando o seu impacto no meio. Todos os dias se asfaltam mais 10 hectares
para construir auto-estradas, espartilhando-se mais o território, com a
ameaça que isto significa para a biodiversidade. Outra
consequência importante do actual modelo de transporte é a
sinistralidade, que faz com que as mortes por acidente de tráfico sejam
a terceira causa de mortalidade da população.
O problema com que se debate actualmente a União é que os
transportes estão alcançando o ponto de saturação
[12]
. Num relatório encomendado pela Comissão Europeia em 1990,
alertava-se para o facto de «desde há alguns anos, a Europa parecer
ter ultrapassado o ponto mais além do qual qualquer incremento do
tráfico será contraproducente. A soma de efeitos negativos parece
cancelar os aumentos de riqueza, eficiência, conforto e facilidade de
transporte que deveriam resultar do crescimento do volume de
tráfico». Assim, a União defende um menor aumento do
transporte por estrada (o que «menos» possibilidades de incremento
apresenta) que o previsto inicialmente; pretende-se que seja de
«apenas» uns 38% (face aos 50% planeados) para mercadorias, e 24%
(face aos 43%) para transporte de passageiros, para 2010. O caminho de ferro
começa a ser baralhado, não como uma alternativa ao transporte
por estrada, mas sim como uma forma de continuar o aumento da mobilidade
[13]
. Isso sim, em linhas de alta velocidade e para transporte a longas
distâncias, tanto de pessoas como de mercadorias.
ENERGIA
O Protocolo de Quioto controla as emissões nos países do Centro
dos gases que provocam o aumento do efeito de estufa, entre os quais se destaca
o CO2 (representa 80% das emissões de gases com efeito de estufa na
União Europeia). A União é responsável por 24% das
emissões mundiais destes gases. A produção
energética é a maior emissora de CO2 para a atmosfera.
A União Europeia é um dos organismos-líder mundiais da
luta contra as alterações climáticas. Mas o facto resulta
de omissões alheias e não de méritos próprios. Se
analisarmos a posição da União do ponto de vista do
necessário, desaparece esta imagem de líder contra as
alterações climáticas. O Painel Inter-governamental sobre
Alterações Climáticas assinalou a conveniência de
limitar as emissões mundiais de gases com efeito de estufa, para 2005,
em 20%, relativamente aos valores de 1990. Partindo do critério de que
as emissões
per capita
devem tender a igualar-se entre os diversos países e, tendo em conta
que as emissões da União superavam amplamente os valores
médios, seria razoável esperar reduções, em 2005,
superiores a esses 20%. Mas, antes da Cimeira de Quioto, a União
propôs reduzir as suas emissões em 15% para 2010. Além
disso, não adoptou um compromisso unilateral de cumprir os seus
objectivos. Pelo contrário, aproveitou a obstrução dos
Estados Unidos e do Japão para, na assinatura do Protocolo de Quioto,
diminuir a redução de emissões para os 8%. Também
transigiu com os «mecanismos de flexibilidade» (comércio de
emissões, contabilização de sumidouros, mecanismos de
desenvolvimento limpo, etc). Nos compromissos finais, após a Cimeira de
Quioto, a União voltou a ceder às pressões do
Japão, Canadá e Rússia, esvaziando ainda mais o acordo
(assim, a redução real de emissão de gases de efeito de
estufa, se o acordo vier a ser a cumprido, fica à volta de 1,8% entre
1990 e 2010)
[14]
.
Como se isto não bastasse, enquanto a União Europeia ratifica o
Protocolo de Quioto em 2002, a Agência Europeia do Ambiente afirma que
esta não o irá cumprir, sobretudo tendo em conta que as
emissões de CO2 aumentaram entre 1999 e 2001. A redução
assumida pela União abrange o conjunto dos seus Estados membros, o que
deixa supor que alguns deverão reduzir as suas emissões acima dos
8%, enquanto outros, como a Espanha, podem vir a aumentá-las. Isto
demonstra uma tremenda hipocrisia, já que o Estado espanhol é um
dos principais produtores de CO2 do planeta e em nenhum caso deveria aumentar
as suas emissões. Apesar disso, incrementou já a
produção de CO2 em 38% entre 1990 e 2002, face aos 15% permitidos
pela União Europeia até 2010.
Mas a questão assume ainda maior gravidade, uma vez que a União
está a por em marcha um mercado de comércio de emissões
para 2005. A filosofia economicista subjacente consiste em dar viabilidade aos
processos mais contaminantes à custa dos menos emissores, favorecendo
apenas a diminuição de gases com efeito de estufa que saiam mais
baratas. Acresce ainda que serão os Estados a atribuir o grosso das
quotas de emissões que as diferentes indústrias poderão
realizar, o que beneficiará os sectores mais poluidores. Desta forma, o
comércio de quotas de emissões vai atrasar a abordagem de
reduções mais ambiciosas
[15]
.
Tudo isto supondo que as pressões, que cada vez são maiores no
seio da Comissão Europeia (com Loyola de Palacio à
cabeça), não terminem por fazer que a União renuncie
definitivamente ao cumprimento do Protocolo de Quioto.
No que respeita à política energética, a
«segurança do abastecimento» e a disponibilidade de energia a
baixo preço (que se pretende conseguir, a nível interno,
fomentando a competitividade) são os objectivos essenciais
[16]
. Para aumentar a competitividade, uma das medidas em marcha é a
criação de um mercado único da energia
[17]
. Isto terá como provável consequência um aumento do
consumo, e uma tendência para a redução das
preocupações ambientais nos processos produtivos (já que
se terão que baixar os custos para aumentar a competitividade).
Haverá também que construir mais redes de
distribuição e as linhas de alta tensão (assim como os
gasodutos
[18]
) produzem impactos sobre a saúde e o meio natural
[19]
.
Por último, há que destacar que continua a aposta nos
combustíveis fósseis (especialmente o petróleo e o
gás natural), ficando com uma quota residual as energias
renováveis (o objectivo da UE é alcançar os 12% de
energias renováveis para 2010). Para cúmulo, continua-se a
apostar no carvão, apesar de os relatórios da União
Europeia reconhecerem o seu elevado contributo para as alterações
climáticas, as chuvas ácidas ou a emissão de metais
pesados. É que, juntamente com a energia hidráulica, o
carvão é quase a única fonte energética
própria de que a União dispõe. E já para não
falar das novas pressões que partem do interior da própria
Comissão (novamente expressas por Loyola de Palacio) a favor da energia
nuclear, que agora passou a gozar do estatuto de super ecológica, por
não emitir gases com efeito de estufa.
ALIMENTAÇÃO E BIOTECNOLOGIA
Contaminação dos solos. Contaminação das
águas. Perda de biodiversidade. Bio-pirataria.
Desflorestação. Desertificação.
Alteração do ciclo do azoto. Desperdício de água.
Eutrofização de lagos e mares. Perda do direito dos povos
à independência alimentar. Vacas loucas. Frangos com dioxinas.
Campos despovoados. Desaparecimento do campesinato. Grandes multinacionais
agro-quimico-farmacêuticas controlando toda a cadeia de
produção agrária. Este é hoje em dia o sistema
agro-alimentar que a política da União Europeia ajudou a criar em
todo o mundo. A política agrícola, através da
Política Agrícola Comum (PAC), realiza-se à medida das
grandes multinacionais. A PAC favorece a concentração e as
grandes explorações
[20]
intensivas de monocultura, aposta num modelo que abusa dos fertilizantes
químicos
[21]
e dos pesticidas
[22]
, obriga a um gasto insustentável dos recursos hídricos (no Sul
[23]
) e de plástico (em estufas e em envasados), e potencia o uso de poucas
raças «hiper-produtivas» alimentadas com rações
compostas e atafulhadas a fármacos. E como o que importa é o
mercado, a produção agrícola europeia destina-se ao
comércio e à exportação (a preços de
dumping
que arruinam a produção da periferia), de tal forma que o
consumo energético do actual modelo agrícola também
aumenta
[24]
. Um estudo do Wuppertal Institut, da Alemanha, calculou as milhas de
transporte dos ingredientes de um iogurte. Apesar de todos os seus componentes
poderem ter sido produzidos num raio de 50 milhas, foram transportados mais de
7.000.
Nesta aposta na produtividade, os subsídios são orientados para
as grandes propriedades e determinadas regiões
[25]
. E as zonas que não recebem nenhum tipo de protecção,
são muitas vezes as de maior valor ecológico e aquelas em que a
diminuição da actividade agrícola origina uma forte
deterioração da paisagem.
A única novidade ambiental que vem sendo introduzida na PAC desde os
anos noventa, é o incentivo de duas vias paralelas que convivam na
produção agrícola: a intensiva «tradicional»,
que assegura a alimentação da maioria dos cidadãos, e a
ecológica, de maior qualidade.
No que respeita aos alimentos transgénicos, está ainda vigente a
moratória de 1998 sobre novas autorizações
[26]
. Esta moratória proporcionou um relativo alívio quanto à
introdução massiva de transgénicos. Mas o processo de
reforma legislativa que motivou a moratória está perto da
conclusão (falta apenas aprovar a directiva sobre sementes, que
previsivelmente será suficientemente permissiva para possibilitar a
contaminação de campos não transgénicos e a
impossibilidade de diferenciar uns dos outros), e há uma lista muito
longa de transgénicos pendentes de aprovação, aos quais a
Comissão procurará dar luz verde quanto antes, cedendo às
pressões dos Estados Unidos e da indústria biotecnológica.
Assim, a directiva aprovada abre a porta à entrada massiva de
transgénicos.
De toda a maneira, ainda que insuficiente, a directiva é mais restritiva
que a anterior, quanto aos requisitos para as autorizações de
novos transgénicos na UE, assim como à etiquetagem dos produtos
transgénicos. Apesar de ter generosas lacunas (um das mais graves
é a ausência de normativa que estabeleça a responsabilidade
civil da indústria biotecnológica em caso de danos ou de
contaminação por transgénicos).
Por último, a Directiva Europeia de Patentes permite, através de
artimanhas legais, patentear genes, linhas celulares, animais e plantas.
Não é necessário o consentimento do doador, nem é
preciso que o país de origem do material biológico figure sequer
na patente. Tudo isto favorece o roubo por parte das multinacionais da
biodiversidade genética e o conhecimento milenar das culturas que a
utilizam
[27]
.
BIODIVERSIDADE E RECURSOS NATURAIS
A Comissão Europeia reconhece que «a perda de biodiversidade na
Europa se acelerou de forma drástica nas últimas
décadas»
[28]
. No entanto, não assinala a grande responsabilidade que, na
aceleração do processo de extinção de
espécies, na redução da diversidade genética e na
alteração dos habitats naturais, tiveram as políticas da
União Europeia.
Perante este panorama, os esforços realizados acabam por ser
ridículos. Para começar, não existe uma única meta
quantificável nem prazo concreto para cumprir os objectivos que a
União se propôs. Nem sequer estão a ter êxito os
esforços realizados nos últimos anos para conseguir a
implantação da Rede Natura 2000
[29]
na União, como demonstram os mais de cinco anos de atraso acumulados na
designação dos Lugares de Interesse Comunitário (LICs).
Ou, o que é mais grave, a destruição de muitos destes
lugares no prazo de tempo que transcorre entre a sua escolha e a sua
protecção eficaz.
No que respeita aos recursos pesqueiros, basta dizer que os sítios
piscosos
(caladeros)
que se encontram claramente em melhor estado são os do Atlântico
Nordeste, onde o ritmo de pesca leva a que uns 62% da população
esteja em perigo de extinção.
RESÍDUOS E SAÚDE PÚBLICA
A produção de resíduos na União Europeia, continua
a aumentar ano após ano
[30]
, apesar da incorporação nas normativas comunitárias,
desde 1991, do princípio de prevenção na sua origem. A
Comissão continua sem definir políticas económicas fiscais
que promovam a redução da quantidade e toxicidade dos
resíduos, limitando-se a regular os sistemas de recolha e a defender
objectivos mínimos de reciclagem
[31]
.
Chega-se ao absurdo total quando os documentos da União afirmam que
é possível uma «desmaterialização da
economia». Em que consistirá tal desmaterialização,
quando o consumo de produtos materiais e a produção de
resíduos, também muito materiais, não param de crescer?
A legislação europeia de protecção da saúde
pública relacionada com os resíduos, contudo, tem vindo a
aumentar
[32]
. E em alguns aspectos reduziu-se a contaminação (emissão
de precursores de ozono troposférico e dióxido de enxofre, ou
presença de fosfatos em rios). Mas a legislação é
insuficiente
[33]
, uma vez que os riscos que os resíduos acarretam continuam presentes
[34]
e aumentando em muitos casos (partículas em suspensão ou
nitratos em rios). Por exemplo, a UE aprovou recentemente a Directiva sobre
Responsabilidade Ambiental, que afectará unicamente determinados
sectores industriais (entre os quais não se encontram o nuclear nem o
petrolífero). Além disso, a Directiva não inclui a
obrigatoriedade de as indústrias de alto risco estarem cobertas por um
seguro que garanta que as despesas de limpeza ambiental não sejam
suportadas pelos contribuintes em caso de insolvência
[35]
. Outro exemplo é que a União alude ao princípio de
precaução (no actual projecto, diz-se explicitamente no artigo
III-129.2 que «a política da União no âmbito do
ambiente (...) se baseará nos princípios de cautela e
acção preventiva»), mas deste se exclui a energia nuclear,
os transgénicos, muitos aditivos químicos, ou as emissões
de antenas de rádio
[36]
.
PARA CONCLUIR: ALGUMAS LINHAS DE ACÇÃO
Num mundo sustentável, necessitaremos de economias que satisfaçam
equitativamente as necessidades humanas sem extrair recursos ou produzir
dejectos que excedam a capacidade de regeneração do meio. A
tarefa principal da economia deve ser a de estabelecer um fluxo
sustentável de recursos, para o qual haverá que reduzir (a
extracção e o consumo), como primeira medida, antes de maximizar
a reutilização e a reciclagem. Esta nova economia deve basear-se
em parâmetros como a energia, a entropia (a desordem), o tempo, e a
quantidade e qualidade física de diversos recursos. Isto apenas
será viável num modelo local ou regional, em que a
auto-gestão e o auto-abastecimento serão fundamentais.
Terá de ser aplicada tecnologia industrial capaz de viabilizar modelos
de produção limpa, que não produzam substâncias
tóxicas, que evitem a produção de resíduos na
origem e rejeição de efluentes contaminantes, e convertam os
subprodutos de umas indústrias em recursos para outras. O novo modelo de
ecologia industrial deve completar os ciclos. A redução de
resíduos na origem e a reutilização de objectos devem
preceder a reciclagem.
Necessitamos ainda de um novo ordenamento do território que garanta a
conservação dos espaços naturais, racionalize o seu uso e
desfrute, evite a deterioração dos solos e a
desertificação, recomponha as relações campo
cidade, e optimize para todo o território as necessidades da sociedade,
sem prejuízo da qualidade de vida e sem perda de identidade das pessoas
com o ambiente que as rodeia.
Modos de produzir, consumir e relacionar-se neste sentido, vão abrindo
caminho. Um exemplo é constituído pelas cooperativas de troca.
Estas, ao eliminar o dinheiro, apresentam uma série de vantagens muito
interessantes: a produção é necessariamente local,
não existe a possibilidade de especulação financeira,
todas as pessoas podem trazer algo à comunidade, ou pode conseguir-se
uma valorização dos serviços e das coisas mais ajustada ao
seu custo real e não ao que nos é imposto pelo mercado. Na
União Europeia existem poderosas redes de troca, como a que existe em
Amesterdão
[37]
. Mas no Estado espanhol também há numerosas redes a funcionar
desde há anos.
Um segundo exemplo seriam os grupos auto-geridos de consumo. Estes consistem
num grupo de consumidores/as e vários agricultores/as, de maneira que os
primeiros garantem uma compra estável e encarregam-se da
distribuição, e os segundos comprometem-se a cultivar de acordo
com princípios ecológicos e solidários. A ausência
de intermediários permite que os preços dos produtos sejam da
mesma ordem que os do supermercado. Grupos deste tipo existem em numerosas
partes de nossa geografia.
Os avanços tecnológicos permitem hoje em dia uma
produção de energia a partir de fontes renováveis e
descentralizadas como a eólica e a solar. Tudo isso, combinado com uma
arquitectura bioclimática, torna muito menos necessária a
produção maciça e centralizada de energia;
produção em que se poderia também estudar a
utilização de biomassa. Por alguma razão na Grécia
as crianças pintam as casas com painéis solares.
É também necessário falar das experiências de
recuperação e repovoamento do espaço rural que numerosos
grupos estão levando a cabo. Nestes espaços estão a
conjugar-se novas formas de relações entre pessoas e com o meio,
que apontam para a sustentabilidade.
É óbvio que a filosofia que anima o actual Projecto de
Constituição não contribuirá para impulsionar estas
transformações. O que faz falta, além das
necessárias mediações institucionais e jurídicas,
é uma mudança de valores a nível pessoal que se expresse
socialmente e que tenha a sobriedade como um dos seus pilares básicos.
Um processo deste tipo, em definitivo, pressupõe a
superação do sistema capitalista e a sua
substituição por outro, que comporte uma relação
harmoniosa com o meio, que introduza ciclos de produção completos
e que tenha como cimentos a solidariedade, a liberdade, a igualdade e a
justiça social.
Notas
[1] O presente texto é uma síntese de trabalhos anteriores de
Ecologistas em Acção, nos quais participaram principalmente Chusa
Lamarca, Cristina Rois, Elena Díaz, Isabel Bermejo, Goyo Álvarez,
Theo Oberhuber, Juan Bárcena, Paco Segura e Ramón
Fernández Durán. Faz também parte do livro A
ilusão constitucional editado por El Viejo Topo e cujos
coordenadores são Xavier Pedrol e Gerardo Pisarello.
[2] Vid. Chusa Lamarca Lapuente: La Unión Europea: retórica
sostenible y políticas insostenibles, 2001.
[3] Desde a Cimeira de Lisboa de 2000, que o objectivo da UE é o de se
converter na economia mais competitiva do mundo.
[4] O número de impostos mais ou menos ecológicos multiplicou-se
por 4 nos últimos 20 anos.
[5] A mobilidade pessoal cresceu de 17 km/pessoa/dia em 1970 para 35
km/pessoa/dia em 1998.
[6] Prevê-se que se quadruplique ou quintuplique o transporte na Europa
de Leste após a sua integração na UE.
[7] Um de cada três novos empregos criados na UE durante os
próximos 10 anos estará vinculado à logística,
segundo dados da Direcção-Geral de Transportes da Comissão
Europeia.
[8] Mesa Redonda Europeia das Indústrias, integrada por 45 grandes
empresas.
[9] 79% dos passageiros e 44% das mercadorias desloca-se por estrada. O
número de automóveis e de quilómetros de auto-estrada na
UE triplicou desde 1970 (na União já há um
automóvel por cada 2 habitantes). Entretanto, desde 1970, foram
encerradas ao tráfico 600 km de vias-férreas convencionais ao ano
(as estradas cresceram 12000 km/ano). A quota do transporte ferroviário
de mercadorias passou de 21,1 a 8% e a de passageiros de 10 a 6% desde 1970.
[10] Actualmente, o transporte é responsável por 28% das
emissões de CO2 (das quais 82% provêm do transporte por estrada).
Para 2010 está previsto que a sua contribuição para a
emissão de CO2 aumente até 40%.
[11] Nos últimos 20 anos a superfície edificada na UE aumentou
20%, enquanto que a população cresceu 6%.
[12] 10% das estradas são afectadas diariamente por engarrafamentos; 20%
da rede ferroviária é considerada «entupida» e os 16
principais aeroportos sofrem atrasos superiores a 15 minutos em 30% dos voos.
[13] Vid. Juan Bárcena y Paco Segura: «El mito de las
infraestructuras», El Ecologista, nº 30, 2002.
[14] Vid. Ecologistas en acción: Crítica a la Estrategia Europea
para un desarrollo sostenible (2002-1)
[15] Vid . Cristina Rois: «El comercio de emisiones de la UE», El
Ecologista, nº 37, 2003.
[16] A UE é o segundo consumidor mundial de energia e os
intercâmbios energéticos representam 25% do PIB da União.
[17] Realmente haveria que falar de mercados, já que são
distintas as situações do petróleo, do carvão, do
gás natural e da electricidade.
[18] A extensão da rede de gasodutos implicará o aumento de fugas
de metano, que é um agente de efeito de estufa vinte vezes mais poderoso
que o CO
2
.
[19] Vid. Ecologistas en acción: Foro ecologista con motivo de la cumbre
de la UE de Barcelona. Unión Europea: discursos sostenibles,
políticas insostenibles (2002-2).
[20] 80% da produção agrícola são obtidos em 20%
das terras.
[21] Entre 1985 e 1996, o seu uso aumentou 29,7%, se bem que nos últimos
anos a tendência tenha sido levemente descendente.
[22] A sua utilização cresceu 82,1% entre 1985 e 1996, apesar de
nos últimos anos a tendência ter sido levemente descendente.
[23] No Estado espanhol 80% da água doce é utilizada na
agricultura.
[24] Em Espanha, entre 1985 e 1996, o consumo de energia na agricultura
aumentou 27,7%, ao mesmo tempo que a superfície agrícola
útil diminuía 5,6%.
[25] 50% das explorações agrícolas são pequenas e
leva apenas 8% do orçamento, enquanto que 4% das
explorações maiores absorve 40%.; e isto continuará com a
reforma da PAC, apesar da sua retórica de corte das ajudas às
grandes extensões.
[26] O que se autoriza a nível da UE não é uma variedade,
mas sim o «evento», ou seja, uma «cassette» genética
foi incorporada a uma linha varietal de uma determinada planta e que pode ser
introduzida posteriormente numa infinidade de variedades dessa mesma planta.
Por isso, no Estado espanhol têm continuado a ser autorizadas novas
variedades transgénicas nestes últimos anos.
[27] Vid . Ecologistas en acción, Crítica a la Estrategia Europea
para un desarrollo sostenible, ya citado.
[28] A perda de raças autóctones e de variedades nas
últimas décadas, foi também devastadora, e representa uma
gravíssima ameaça para o futuro da agricultura europeia.
[29] O seu objectivo é proteger as zonas de maior valor
biológico.
[30] Nos anos noventa, a produção de lixo na UE aumentou 14%, de
maneira que cada europeu produziu 545 quilos de resíduos a ano.
[31] Em 1998 só se reciclavam 20% do lixo, enquanto 57% era
lançado em lixeiras e aterros.
[32] Por exemplo, com o Livro Branco sobre Substâncias e Preparados
Químicos o com a assinatura do Protocolo de Estocolmo sobre
contaminantes orgânicos persistentes.
[33] Por exemplo, o novo sistema REACH, que pretende reavaliar o risco para a
saúde de 30.000 substâncias químicas, deixará fora
70.000, que continuarão a ser comercializadas quase sem controlo.
[34] Não existe informação suficiente sobre a salubridade
de 90% das substâncias existentes no mercado, e existem provas da
toxicidade de muitas outras (PTS, PCB o PBDE). À excepção
das regras que se aplicam aos medicamentos, pesticidas ou aditivos alimentares,
a legislação comunitária não prevê um sistema
de autorização prévia da comercialização de
produtos. Na maioria dos casos, tem de ser a cidadania a demonstrar o risco que
acarreta determinado procedimento ou produto, uma vez comercializado.
[35] Como aconteceu no derrame de lamas tóxicas de Boliden Apirsa, a
empresa mineira de Aznalcollar.
[36] Em 2001, o Tribunal da UE condenou a França por sobrepor o
princípio de precaução ao Mercado Único e manter o
embargo aos bovinos britânicos.
[37] Basta saber que o município quer que pague impostos para fazer uma
ideia da sua implantação.
O original encontra-se em
http://www.rebelion.org/noticia.php?id=4735
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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