Em tempos de crise, alemães lembram Das Kapital e a RDA

por Victor Grossman [*]

Sim, a grande crise económica também está a atingir a Alemanha. As provas incluem os encontros apressados de políticos de topo e a decisão do governo de coligação de democratas cristãos e social-democratas de salvar os bancos em aperto com um crédito de 500 mil milhões de euros.

Outra prova: o famoso livro Das Kapital , de Karl Marx, está a vender bastante mais que nos últimos anos; o seu principal editor já vendeu 1500 cópias em 2008; no passado vendia, quanto muito, 500 cópias num ano inteiro. Mais pessoas parecem estar à procura de explicações e até soluções. (Mas o editor avisa que para leigos o livro pode ser de difícil leitura.)

Uma terceira prova: os empregados da fábrica da Opel da cidade de Eisenach, no Leste da Alemanha, passaram a trabalhar apenas quatro dias a cada duas semanas. A Opel pertence à General Motors, a qual se sabe estar a atravessar um mau bocado. Ainda me lembro da alegria dos trabalhadores de Eisenach há dezanove anos quando tiveram a oportunidade de trabalhar para uma tão famosa e gigantesca companhia – e de comprar os seus carros.

Alemães contra o capitalismo. Uma ainda mais curiosa prova: um recente inquérito a alemães de leste levado a cabo por uma importante revista descobriu que 52 por cento perderam a sua confiança na economia de mercado livre, enquanto 43 por cento apoiariam um regresso à economia socialista.

A maioria dos entrevistados para este artigo concordaram. Olhando de volta para os dias da RDA, um trabalhador de 46 anos da Berlim de Leste disse, "Na escola líamos acerca dos 'horrores do capitalismo'. Aí acertaram. Karl Marx tinha razão… Eu tinha uma vida bastante boa antes do Muro cair. Ninguém se preocupava com dinheiro porque realmente este não importava". Um ferreiro reformado disse: "O mercado livre é brutal. O capitalista quer espremer mais e mais e mais". E um funcionário da câmara juntou-se: "Não creio que o capitalismo seja o sistema certo para nós… A distribuição de riqueza é injusta. Agora estamos a vê-lo. As pessoas pequenas como nós vão ter de pagar por esta trapalhada financeira com impostos mais altos por causa de banqueiros gananciosos". Outro alemão de leste lembra-se de ter ficado encantado com a queda do Muro de Berlim e com a substituição do comunismo pelo capitalismo. Mas adiciona, "Demorou apenas algumas semanas para perceber tudo o que era a economia de mercado livre… materialismo gritante e exploração. Os seres humanos perdem-se. Não tínhamos os confortos materiais, mas o comunismo ainda assim tinha muito a seu favor".

Tais sentimentos aparecem nas urnas eleitorais. O jovem partido chamado A Esquerda (Die Linke), cujas origens remontam fortemente ao antigo partido dominante da Alemanha de Leste e cujos programas, apesar de muitas alterações, ainda apelam ao socialismo, ganhou o segundo lugar em quatro de cada cinco estados da Alemanha de Leste, é o mais forte partido de Berlim Oriental e actualmente lidera as sondagens em toda a Alemanha de Leste. Desde que se juntou a um partido de esquerda na Alemanha Ocidental, está lenta mas consistentemente a espalhar-se por aí também.

Tudo isto é de facto preocupante, mesmo alarmante, para os quatro partidos que até agora lideraram no poleiro político alemão. Mas estes não estão a abandonar a fortaleza do capitalismo da livre iniciativa de modo algum, com ou sem crise.

Quase todas as noites um ou outro canal alemão de TV explica aos espectadores como a vida era terrível na RDA. Por vezes vários canais competem por este trabalho. Dois temas constantes, claro, são os terrores da Stasi e os horrores do Muro de Berlim. Mas também há variedade: como eram na verdade muito maus os centros para crianças na RDA, como os atletas eram obrigados a sofrer, como as férias eram arregimentadas, como os líderes eram corruptos, como a música era pobre, como os livros, peças ou filmes eram censurados. Esta "iluminação" é frequentemente apresentada sob a forma de reportagem histórica, mas por vezes são-nos apresentados dramas de longa duração e até filmes de cinema, alguns muito bem feitos. Mensagens similares são introduzidas na forma de pequenas farpas, introduzidas até nas mais breves e irrelevantes notícias.

Alguns dos factos são indubitavelmente correctos. Muitas das impressões pessoais são certamente genuínas. Havia bastante mais burocracia que a necessária, havia dogmatismo, repressão e injustiça durante os quarenta anos que durou a República Democrática Alemã. Mas há três coisas que me ocorrem quando vejo estes programas ou, mais e mais frequentemente, os desligo após alguns minutos.

Por vezes tentam fisgar a audiência através da aparência de imparcialidade admitindo, geralmente com um ligeiro sarcasmo, que, apesar de tudo, poderiam haver alguns aspectos aceitáveis na vida na RDA. Mas a mensagem avassaladora retorna sempre à usual imagem desfocada com todos os clichés, ignorando muitos dos aspectos da vida que eram normalíssimos e que podiam ser bastante agradáveis. Mas foi exactamente esta mistura de bons e maus factores que observei durante os 36 anos que vivi na RDA, participando no dia-a-dia como um aprendiz, um trabalhador, um estudante e um jornalista que visitou praticamente cada canto e buraco do país e falou, pública e privadamente, com pessoas de toda a espécie. Mas os media preferem destruir e esmagar, o resto é essencialmente esquecido, e os media não apresentam virtualmente qualquer hipótese de rebate.

Pode parecer um mistério o porquê de os programas que nos informam quão duros terão sido aqueles anos de miséria não terem diminuído em número e ferocidade, uma vez que a RDA está morta desde 1990. Porque é que insistem tanto em bater no cavalo morto?

A sondagem anteriormente citada responde mais obviamente que nunca. É verdade, o fim da RDA em 1990, oficialmente chamado reunificação alemã, mas também referido por muitos como "anexação", trouxe uma série de bens de consumo anteriormente difíceis de obter ou desconhecidos, desde bananas e kiwis a BMWs e viagens oceânicas. As viagens pelo mundo tornaram-se possíveis, o comércio de retalho expandiu-se, as casas foram renovadas, os cafés multiplicaram-se, o trânsito e a publicidade, desde luzes de néon a anúncios de televisão, virtualmente explodiram. Uma certa percentagem das pessoas certamente viveu e ainda vive melhor que antes, talvez cerca de um terço.

Mas muitos pagaram um pesado preço, que agora está a ser agravado pela nova crise financeira e económica. Milhões de empregos perderam-se após 1990 quando os preços "impostos" às fábricas da Alemanha de Leste as levaram à extinção ou a serem compradas por competidores ocidentais por ninharias e rapidamente encerradas. O desemprego manteve-se constante e o dobro daquele da região ocidental (está agora próximo dos 14 porcento) e os salários e pensões também consistentemente abaixo do nível dos alemães ocidentais, geralmente 30 por cento menos.

Muito gradualmente, algumas áreas começaram a levantar-se – alguns resorts no Báltico, algumas fábricas de partes de carro e de electrónica, por exemplo. Mas os outros factores pioraram. Os cuidados médicos tornaram-se mais e mais caros. As taxas subiram ou ameaçaram subir para o cuidado infantil e a educação. Os impostos, excepto para os ricos, aumentaram. As reformas, cada vez valendo menos, são agora aos 67 anos (na RDA os homens recebiam a reforma aos 65 e as mulheres aos 60). Pior que tudo, há pouca ou nenhuma segurança. Mesmo aqueles trabalhando para as poucas empresas famosas e bem estabelecidas que abriram fábrica na Alemanha de Leste nunca sabem quando os seus serviços serão dispensados; uma amiga minha perdeu o seu emprego exactamente no seu 50º aniversário. Para aqueles que são despedidos depois dos 45 ou 50, é extremamente difícil encontrar um novo emprego, e após um ano sem emprego os subsídios de apoio fornecidos reduzem os seus receptores à pobreza e virtualmente à subserviência. E agora, enquanto a situação ainda não atingiu as proporções dos EUA, os sem-abrigo estão a aumentar. Será surpresa que as pessoas se relembrem os dias da RDA quando os empregos eram seguros e os despejos eram proibidos por lei?

Mas tudo isso era conhecido como "socialismo". A própria ideia de tais recordações assusta as poderosas forças que controlam os três principais partidos e influenciam fortemente o quarto, o dos outrora progressivos Verdes. Há alguns anos um ministro social-democrata exigiu a "des-legitimação da RDA". Cada truque que exista, cada mecanismo de propaganda, está a ser utilizado nesta luta. Um grande campo de batalha é o sistema escolar onde, ao contrário da TV, existe algum diálogo. Os políticos de topo queixam-se constantemente que os alunos da Alemanha de Leste estão "mal informados acerca da história alemã recente" e que, em vez de ouvirem o que os professores são comandados a ensinar ou o que rezam os novos livros de texto, são frequentemente influenciados pelo que os seus pais e avós lhes contam sobre a vida nos velhos tempos, não apenas os maus, mas também os bons. Os políticos quase histericamente exigem métodos que cada vez mais forcem os alunos, livros cada vez mais parciais, ainda mais agora para os vindouros aniversários da fundação dos dois estados alemães (1949) e para a "Queda do Muro" (1989). Quem vencerá este jogo de puxar a corda? Ou melhor, quem ganhará mais terreno? As próximas eleições, a nível estatal e nacional – e talvez algumas demonstrações de protesto ou greves – podem fornecer algumas respostas.

20/Outubro/2008

Clique a imagem para encomendar. [*] Jornalista e escritor americano, reside em Berlim Oriental há muitos anos.
É o autor de Crossing the River: A Memoir of the American Left, the Cold War, and Life in East Germany (se encomendar o livro através deste link resistir.info poderá receber uma pequena comissão).


O original encontra-se em http://mrzine.monthlyreview.org/grossman201008.html
Tradução de João Camargo.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
23/Out/08