10/Set: Greve geral e paralização indefinida em França

André Fadda [*]
entrevistado por Ángeles Maestro

Paris, 10/Set/25.

Ángeles Maestro: O que disparou a greve geral?

André Fada: Há muito tempo, nos bares, em família, em encontros com os trabalhadores não se falava sobre a situação como se faz hoje em dia. Há muito tempo não se falava com tanto entusiasmo e raiva como estamos vendo nestes dias. Há meses já se discute, se fala, etc, mas a gota d'água foi o que fez transbordar o copo.

Ángeles Maestro: Bem, agora você nos contará concretamente do que se trata. Em que medida isso tem a ver com os planos da NATO, com os planos da Comissão Europeia, com um capitalismo agonizante que dá seus golpes mais fortes da maneira que sabe e é contra os explorados, contra as pessoas oprimidas. Enfim, muito obrigada André, e bem-vindo.

André Fada: Quando, no passado dia 15 de julho, de forma repentina, o primeiro-ministro Bayrou lançou provocações que ninguém esperava. Essas provocações que consistem na supressão de dois feriados, concretamente o dia 8 de maio, que aqui em França tem um significado muito importante porque comemora a vitória sobre o nazismo, em 8 de maio de 1945, e também foi suprimida a segunda-feira de Páscoa. Então, isso realmente desencadeou, foi a gota que transbordou o copo. Mas essa medida não veio sozinha, foi acompanhada por outras medidas como o congelamento dos benefícios sociais, das pensões, dos salários dos funcionários públicos, dos salários no setor privado, o que já é uma tendência generalizada há muito tempo... Em suma, isto gerou um desequilíbrio generalizado, porque o que estamos a ver é que estas medidas não são apenas a gota que fez transbordar o copo e que explodiu o cansaço, como eu dizia, mas sim o resultado de uma ofensiva da burguesia que é muito forte há mais de 20 anos e que tem aumentado cada vez mais, que tem precarizado tudo, aumentado a flexibilidade laboral, a precariedade e ganha cada vez mais terreno nas empresas, tanto no setor privado como no setor público. E isto vem acompanhado também de todo um ataque generalizado contra os serviços públicos, como a educação, o setor hospitalar, a saúde e os transportes... Concretamente, na saúde, são dezenas de milhares de camas hospitalares que foram suprimidas nos últimos anos. Quando falo de supressão de camas hospitalares, não me refiro apenas a uma cama hospitalar, refiro-me ao que é a cama, ao pessoal médico que presta cuidados de enfermagem, aos médicos que atendem essa cama, esse paciente e tudo o que é o equipamento técnico, o material técnico. É a supressão de tudo o que é o sistema de saúde e isso tem sido cada vez mais reduzido, chegando-se mesmo a entregar a direção dos hospitais a pessoas que nada têm a ver com o setor da saúde, pessoas macronistas; e a dirigir os hospitais como empresas. Então, esse é um exemplo de como o setor público está a entrar em colapso. Mais um pequeno exemplo: no setor, por exemplo, das urgências, as pessoas estão a morrer nos hospitais, nos serviços de urgência, as pessoas estão a morrer nas filas. Estes são elementos concretos porque não há pessoal suficiente, porque não há, digamos, capacidade; fecharam-se até maternidades em zonas rurais, onde, por exemplo, uma mulher grávida para dar à luz tem de percorrer de ambulância ou com familiares 60, 70, 80 quilómetros, ou seja, uma situação catastrófica.

Então, o setor público está a ser desmantelado, desmantelado porque o objetivo é a privatização. Então, bem, tudo isto se soma e, claro, então a pergunta que se deve fazer é: porquê e para quem? Ou seja, temos, por um lado, uma classe trabalhadora muito precária, muito flexibilizada, onde a batalha ideológica desenvolvida pelos patrões e pelo capital através dos seus meios de comunicação social está a fazer mossa, ou seja, está a gerar individualismo, divisão, cada um por si, a lei da selva. Junto com isso, há também uma repressão antissindical muito forte nos últimos anos. Bem, vocês puderam ver os coletes amarelos em 2018. No ano de 2023-2024, tivemos uma greve geral pelas pensões, para defender as pensões, para evitar que a idade de reforma passasse para 64 anos. E bem, apesar de termos perdido, o importante é que houve uma mobilização muito grande durante esses meses. Então, quando a greve pelas pensões terminou em 2024, 23-24, caiu sobre nós uma repressão antissindical brutal. Porque os patrões, o capital, perceberam que os motores da greve nas empresas, obviamente, são os sindicatos, e que era preciso decapitar a qualquer custo os dirigentes sindicais, ou nas empresas os delegados, os representantes sindicais, os delegados de prevenção; ou seja, desencadeou-se uma ofensiva tal que houve um milhar de militantes sindicais, isto é, protegidos pela lei, porque exercem um cargo sindical e, em França, o cargo sindical está protegido contra o despedimento. Bem, então, desencadeou-se toda uma ofensiva com processos judiciais, perante o tribunal correcional, por terem restabelecido a eletricidade em bairros precários, no caso dos trabalhadores da energia. Bem, enfim, houve uma repressão muito forte; e então, durante esse tempo, entre 2023 e 2025, a cólera foi aumentando nas empresas, a repressão contra os trabalhadores foi muito mais forte e então nos deparámos com uma situação muito má. Chegamos então ao mês de julho, quando Macron e o seu primeiro-ministro anunciam uma série de medidas. As pessoas estão fartas, já até à exaustão de Macron. É então que se decide sair à rua no dia 10 de setembro para bloquear tudo. Então, quem lança esta mobilização? É preciso dizer as coisas como elas são. No início, são grupos de pessoas que não estão organizadas, que não estão filiadas a sindicatos, organizadas em sindicatos; algumas pessoas da extrema direita, é preciso dizer, mas também muitas pessoas que não têm nada a ver com a extrema direita; muitas pessoas que estão fartas. E é justamente esse setor da população que conseguiu fazer desaparecer a extrema direita dentro desse movimento de 10 de setembro. Há pessoas que foram coletes amarelos, há pessoas que trabalham em condições precárias, há até quadros de empresas, enfim, há de tudo, há de tudo. Eles convocaram a mobilização e então o importante é bloquear o país, esse é o objetivo.

Ángeles Maestro: André, há alguma estrutura organizativa, algum comité, algum conselho, algum...? Ou seja, já a nível territorial, como é que tudo isso se organiza? Porque, claro, não podem ir cada um por seu lado bloquear. Como é que tudo isso se organiza? Isso é muito importante, porque para nós, no Estado espanhol, a greve geral, estamos a falar da greve geral, é algo inatingível, na medida em que a desarticulação social e sindical é bastante grande, e os grandes sindicatos, como bem sabes, em Espanha, estão mais ao serviço dos patrões, ou seja, aconteça o que acontecer, eles não vão convocar uma greve geral. Como é que tudo isso se articula? Porque lembro-me que, quando houve a luta pelas pensões, tudo isso se articulou e tu mesmo falaste sobre como se engrenava a unidade dos diferentes setores. Conta-nos como é que isso funciona.

André Fada: Bem, há duas coisas; aqui há pessoas que se mobilizam fora das empresas, fora do local de trabalho; isso aconteceu com os coletes amarelos, mas também aconteceu na greve pelas pensões; e depois há o que é o envolvimento sindical na luta ou a convocação para a greve por parte da organização sindical. Então, historicamente, na CGT, quem decide é o sindicato na base. O sindicato na base, o sindicato da empresa, convoca as assembleias, toma a decisão e a greve acontece, seja por questões salariais ou por questões relacionadas às condições de trabalho. As federações da CGT têm total autonomia para convocar seu setor para a greve geral. A Confederação, ou o Bureau Confederal e o Comité Confederal Nacional, também têm de se submeter ao que a base decide. Estas são as regras de funcionamento da CGT. O Comité Confederal Nacional é onde estão representadas todas as federações setoriais e os sindicatos territoriais, ou seja, o que chamamos de União Departamental (aqui na França são departamentos, as províncias); e a Confederação tem de levar em conta o clima que existe na dinâmica da luta. Então...

Ángeles Maestro: Isso aconteceu quando, lembro-me que foi muito importante, quando o referendo para votar a Constituição Europeia; que, em princípio, isso é muito importante... Se quiseres lembrar-nos...

André Fada: Sim, era então o ano de 2005, lembro-me perfeitamente. Eu era então secretário-geral do Sindicato dos Estaleiros Navais e lembro-me bem que então o secretário-geral da CGT era Bernard Thibault, que vem do setor ferroviário. Embora ele tenha protagonizado lutas e greves muito importantes em 1995 e anos antes, no entanto a entrada da CGT na Confederação Europeia dos Sindicatos causou muitos danos. E Bernard Thibault defendeu a ideia de que era preciso votar a Constituição Europeia. Então, claro, foi convocado o Comité Confederal Nacional, porque é obrigatório dentro da CGT, e Bernard Thibault ficou em minoria – a maioria votou NÃO à Constituição Europeia. É assim que funciona dentro da CGT, e o tema da greve agora, concretamente, a 10 de setembro, a direção confederal tinha previsto uma intersindical e uma convocatória para greve no final de setembro. Mas a pressão da base e de várias federações que decidiram, concretamente no início de agosto, assim que saiu o apelo para bloquear o país a 10 de setembro por parte de diferentes coletivos de pessoas, várias federações como a Federação de Químicos, a Federação do Metal, a Federação do Comércio, a Federação... enfim, há várias federações e vários sindicatos territoriais, como o do Departamento de Lille, a cidade de Lille, no norte da França, e outros, bem, decidiram juntar-se a esse apelo de 10 de setembro. Então, o bureau confederal teve que se reunir e convocar a Comissão Executiva Confederal e, a partir daí, convocar o Comité Confederal Nacional. E lá foi decidido que as greves deveriam ser realizadas em todas as empresas a partir de 10 de setembro.

Greve, 18/Set/25.

Esse apelo é efetivo, é oficial, apesar de a Intersindical, ou seja, onde estão os sindicatos reformistas, a C7 também participa dessa Intersindical, ter imposto que haja uma greve, um dia de greve, em 18 de setembro. Bem, a CGT não vai esperar até 18 de setembro, a CGT convoca para 18 de setembro com a Intersindical, mas convoca para participar a partir de 10 de setembro nas manifestações, nas greves nas empresas, para bloquear as empresas, enfim... Isso foi possível porque a base se manifestou. E a base que está representada nos sindicatos territoriais e nas federações, pelas unidades territoriais e pelas federações, pelos sindicatos em si...

Ángeles Maestro: Uma coisa, Andrés, está a pensar numa greve indefinida ou é no dia 10 e depois se vê? Ou o que se espera que aconteça no dia 10 e se a greve indefinida está no horizonte, como suponho, com o objetivo de que a pressão das ruas possa derrotar os planos e o primeiro-ministro que os propõe?

André Fada: Bem, o apelo é para bloquear o país. E quando falamos em bloquear o país, é bloquear economicamente o país, que as mercadorias não circulem, que a petroquímica e as refinarias não sirvam uma gota de petróleo, de gasolina, que os comboios não circulem... Depois se verá; ninguém sabe que formas tomará a mobilização, porque é uma mobilização popular. Haverá muita gente a aderir, por um lado, os trabalhadores nas empresas, no setor privado e no setor público, tendo em conta o que vos disse antes, tendo em conta a forte repressão que houve e que continua a haver nas empresas hoje em dia. Mas, apesar disso, o cansaço é muito mais forte do que a repressão. Então, claro, não sabemos quais as formas exatas que esta mobilização assumirá; mas a verdade é que não há outra alternativa, que a rebelião e a revolta, o bloqueio, são as únicas respostas contra tanta injustiça e contra tanto desprezo. Imagino... Bem, estive em algumas reuniões nos últimos dias... Há empresas que já estão em condições de mobilização. Há outras em que custa um pouco mais devido ao medo que o patronato conseguiu incutir. Mas lá se está a trabalhar para que no dia 10 vá o máximo de gente possível. E não se trata apenas do dia 10, é que quando falamos em bloquear o país, em todas as lutas que temos vindo a desenvolver aqui, seja pelas pensões ou noutras mobilizações, os dias sempre se têm encadeado. Tradicionalmente, historicamente, a Confederação dentro da Intersindical sempre convocou, um dia ou a cada 15 dias, manifestações e greves. Mas isso já não serve, isso já não funciona. Aqui, o que funciona são dinâmicas impulsionadas a partir da base. E isso a direção confederal tem que levar em conta. Não há outra escolha. Tal como teve em conta quando houve as mobilizações pelas pensões em 2023.

O problema da Intersindical é que existem alguns sindicatos reformistas, como a CFDT [Confédération française des travailleurs chrétiens], próximos do Partido Socialista, e outros sindicatos pequenos que estão continuamente a sabotar e a travar. E depois, dentro da Direção Confederal da CGT, também há divergências e problemas, porque a CGT não é monolítica, embora nos reivindiquemos como sindicato de classe. Também há pessoas que vêm da CFDT que entraram na CGT há muitos anos, pessoas com um espírito muito reformista. Também as temos dentro do CST [Comité Social Territorial], claro. Claro, isso também acarreta as suas dificuldades, e essa burocracia sindical que, bem, às vezes atrapalha um pouco. Mas, como eu dizia, os estatutos da CGT prevêem que é na base e de forma assembleária que se decide. Não é o bureau confederal que decide. O bureau confederal tem de assumir e respeitar o que é decidido nos sindicatos e, portanto, o que vem das federações e das reuniões territoriais. Então, vamos ver; pode haver bloqueios de portagens como os que ocorreram em 2023, com portagens gratuitas... O tipo de ações pode ser variado. Nós tivemos que bloquear a refinaria de Donges, aqui perto de Saint-Nazaire. Lá, aguentamos dez dias até que a polícia de choque da Gendarmerie nos expulsou à uma da manhã. Bem, foi difícil expulsar-nos. Houve quatro horas de confrontos; no início, não conseguiram expulsar-nos; conseguiram através de uma carga brutal da Gendarmerie. Nós controlávamos o depósito de petróleo, perto da refinaria. Esse depósito é de gasolina e gasóleo. Daí saem os camiões para ir para o oeste de França abastecer essas bombas de gasolina. Este é um exemplo que vos dou para que vejam como foram as características de uma mobilização deste tipo. O depósito em questão foi bloqueado e lá estávamos nós, portuários, gente da Airbus, gente da Naval, ferroviários, estudantes, professores, gente da saúde... Enfim, era interprofissional. Aqui temos de partir de uma realidade, que é que as lutas, apesar de haver muito corporativismo em certos setores, quando se faz um apelo à greve geral com estas características, são interprofissionais e intergeracionais. Aqui há jovens, idosos, reformados... Os reformados mantiveram um piquete para travar a gendarmerie na parte do rio. Quero dizer que aqui toda a gente se mobilizou. Fomos expulsos após quatro horas de confronto, mas, dois dias depois, o depósito de petróleo foi retomado; e foi retomado porque o posto policial que estava lá era pequeno e chegaram trezentas pessoas de diferentes sindicatos da CGT para retomar o depósito. Ou seja, esse tipo de dinâmica é o que ocorre no calor da batalha, no calor da luta.

Mas, claro, essas são decisões que são tomadas em assembleias, em reuniões. As pessoas já estão muito bem preparadas para esse tipo de luta e, claro, tudo depende da capacidade de bloquear o país. Porque uma coisa são as refinarias, as centrais nucleares... Em 2023, conseguiu-se parar a produção de energia de várias centrais nucleares. Os portos também foram bloqueados. O setor ferroviário também foi bastante... destacou-se bastante na HG. E já vos digo que não é coisa de um dia, mas que, quando se convoca a HG, é preciso manter a mobilização a qualquer custo, bloqueando as empresas, bloqueando a entrada de mercadorias nas empresas, bloqueando os camiões de transporte nas rotundas... Enfim, aí todos se juntam. Esta greve de 2023 decorreu assim durante vários meses. E por isso a repressão que se seguiu foi brutal. Porque não nos perdoaram por isso; mas, apesar de tudo, a raiva e o cansaço, como eu disse no início, continuam presentes, porque apesar da batalha ideológica que travam, para a qual contam com o apoio dos media, para fragmentar a classe trabalhadora, para gerar e promover o individualismo. Apesar disso, o que mais se pede (o corpo) às pessoas é poder comer todos os dias, poder ir a um hospital, poder ter transportes públicos de qualidade... Enfim, é tudo isso. A raiva, a ira social, vem a ferver há anos, não é? Então isto explode.

Ángeles Maestro: Uma coisa, André. Evidentemente, os planos do Governo Macron surgem muito relacionados no tempo com a decisão da Comissão Europeia, a pedido da NATO, de destinar quantias exorbitantes de dinheiro público a gastos militares. Claro, além do capitalismo em crise, além da dívida gerada, da dívida pública gerada por outras circunstâncias, a questão dos gastos militares está aí. Pelo menos no Estado espanhol, estamos a tentar que as pessoas percebam como essa enorme quantidade de dinheiro público está diretamente relacionada com a precarização, com os cortes sociais e laborais. Em que medida isso também está presente nesta mobilização?

André Fada: Sim. Efetivamente, esta questão é muito importante porque é preciso compreender por que se chega a esta situação. Não se trata apenas do cansaço de vários anos e da náusea que Macron pode provocar. A pergunta que se deve fazer é:   por que e para quem o governo implementa essa série de medidas? Em que contexto? Há o contexto da dívida, mas não é só isso; há a guerra imperialista contra a Rússia que está na ordem do dia... E isso tem que ser analisado, não é? Então, aí está. As pessoas estão conscientes disso. As pessoas estão conscientes de que, por um lado, estes esforços que Macron e a sua camarilha estão a exigir são para satisfazer, para poder continuar a pagar, a distribuir os presentes que faz todos os anos às grandes empresas, à burguesia... Acho que são mais de 200 mil milhões de ajudas públicas que foram distribuídas anualmente às grandes empresas. E, além disso, sem contrapartida, claro. E, por outro lado, como bem dizes, é para continuar a preparar a guerra, para apoiar a Ucrânia, que tem a batalha perdida, e, acima de tudo, para manter esse confronto que a NATO desenvolve com a UE contra a Rússia. Aqui, as pessoas sabem perfeitamente que a NATO e Marc Rute, o seu secretário-geral, apesar de terem tentado esconder esta informação, ela circulou bastante aqui em França, no mês de dezembro, quando este indivíduo, Marc Rute, disse numa reunião que é preciso aumentar o orçamento militar; os orçamentos de defesa para enfrentar a Rússia, e sobretudo de que forma. Porque ele diz isso na Euronews e em diferentes meios de comunicação aos quais as pessoas têm acesso, e que depois corre pelas redes sociais, onde diz:   «É preciso minar, é preciso amputar os orçamentos da Segurança Social, as pensões, congelar os salários...» Ele disse isso claramente em dezembro de 2024. Então, as pessoas não são tolas, sabem onde isso vai dar. E quando o orçamento da defesa que se pretende aumentar para 5% do PIB, pois quando se vê que hoje já estão previstos 55 mil milhões de euros em 2025 para o orçamento militar e depois aumentá-lo em 2027 para 64 mil milhões de euros, então isso, além dos presentes fiscais aos poderosos, aos ricos..., já é uma declaração de guerra de Bayrou aos trabalhadores.

Estas medidas acabam com o Estado social francês, que é o nome que tem desde a Libertação contra o nazismo em 1945. É a segurança social, o sistema de pensões, por exemplo. É acabar com os serviços públicos, é isso que significa. Então, as pessoas estão bem conscientes do que se está a cozinhar. Aqui, concretamente na cidade de Saint-Nazaire, vai começar a construção de um porta-aviões gigantesco, o maior porta-aviões que a França já teve, com uma projeção geoestratégica para o mar Pacífico, onde estão as colónias ultramarinas, onde está Kanaky na Nova Caledónia... Mas há também o facto de que as grandes empresas de armamento da França, como a Naval Group, entre muitas outras, estão a beneficiar da guerra contra a Rússia na Ucrânia, não é? Produzindo armamento, canhões, tanques em grande intensidade; recorrendo a contratos precários porque os quadros permanentes não dão conta de aumentar a produção. E quem está a beneficiar com isso? Pois são as grandes empresas de armamento francesas. Então, sim, as pessoas estão conscientes do que está a acontecer. Além disso, há outra medida que me esqueci de comentar e que é muito importante neste sentido do ataque contra os trabalhadores; por exemplo, estigmatizar os trabalhadores que se beneficiam da baixa por doença. Esta é uma medida prevista no Plano Bayrou que consiste em impedir que os médicos concedam baixas por doença a muitos trabalhadores que se encontram em situações de esgotamento total. As pessoas nos locais de trabalho estão a sofrer muito. Há muito sofrimento devido ao assédio moral por parte dos chefes, devido à exposição a produtos cancerígenos, a produtos químicos, sem proteção. Nos locais de trabalho, há muitas pessoas que estão a cair como moscas. Há muitos acidentes de trabalho. A França caracteriza-se, agora não tenho os números, mas podem verificar, por ser o país onde os acidentes de trabalho estão a aumentar e acho que já atingiram o pico dentro da UE. Claro, uma coisa é o acidente de trabalho, que é físico, visível, e depois há as doenças profissionais, que são invisíveis: o amianto, os produtos tóxicos... Nos últimos dez ou quinze anos, vimos como a proteção na saúde no trabalho, a prevenção na saúde no trabalho, tem-se deteriorado, porque até aos delegados de prevenção foram reduzidas as horas que lhes permitem ir verificar as condições no terreno, etc, etc. Portanto, há situações que são terríveis, catastróficas, em que há pessoas que estão a envenenar-se porque não têm as proteções adequadas. Há um aumento muito significativo de trabalhadores que vão ao médico e pedem baixa por doença por quatro dias, cinco, uma semana... enfim, estão doentes e precisam de se curar. O que fazem os médicos? Dão-lhes a baixa, o que é lógico, o que é normal. Ora, agora foi implementada no Plano Bayrou uma medida de repressão contra os médicos, já têm uma lista de 500 médicos que estão a ser investigados por terem dado demasiadas baixas laborais aos trabalhadores. Ou seja, a repressão não é apenas dentro da empresa, mas também dentro dos serviços sociais do Estado; vai-se reprimir o profissional de saúde que está a exercer o seu trabalho corretamente e que tem diante de si um trabalhador que não está em condições de continuar a trabalhar e precisa de se ausentar; pois aí também se vai reprimir essas pessoas, esses profissionais. Então, é um leque muito amplo o que está a acontecer em diferentes níveis.

Manif em Madrid, 10/Set/25.

Ángeles Maestro: O que eu queria perguntar, André, é que, evidentemente, a situação a nível da UE é muito semelhante. Ou seja, a burguesia, a Comissão Europeia, a NATO, tomam decisões que são uma verdadeira declaração de guerra à classe trabalhadora e aos povos da UE. Em França, a CGT ou alguma instância pensa em dirigir-se, embora não tenhamos nem uma internacional, nem mesmo a nível sindical existe algo; porque o que existe vai no sentido contrário à promoção da coordenação nas lutas. A questão é:   a classe trabalhadora francesa está a pensar em dirigir-se a outros povos para que, de alguma forma, as lutas possam ser coordenadas e para que esses planos, que não são apenas do governo Macron, mas sim os planos gerais dos governos da burguesia, independentemente da sua cor, sejam derrotados? Por exemplo, em Madrid, vamos convocar no mesmo dia 10 de setembro uma concentração, não de solidariedade com o povo francês, mas entendendo que a classe trabalhadora francesa está a abrir um caminho de luta com objetivos e contra inimigos que são os mesmos para toda a classe trabalhadora europeia. Há alguma possibilidade, André, de estabelecer laços, coordenar lutas, com objetivos e contra inimigos que são os mesmos?

André Fada: Pensamos que estamos perante uma conjuntura não revolucionária mas talvez pré-revolucionária, é provável. Porque, por um lado, temos o cansaço da classe trabalhadora, das massas, que se está a traduzir em rebelião; temos um papel a desempenhar aí, que é o de introduzir a batalha ideológica nessa rebelião. Para isso, a ferramenta na empresa é o sindicato, as assembleias, o que é permitido dentro do local de trabalho; poder ampliar, consolidar, levar e travar a batalha ideológica. Isso é muito importante. Por outro lado, fora da empresa, nesses coletivos que se organizam, também temos um papel a desempenhar, que é estar com as massas; ou seja, contribuir com o elemento ideológico para que a rebelião se transforme numa luta revolucionária. Isso é muito difícil, porque, por outro lado, temos a extrema direita que também está a se beneficiar de tudo isso. O capital tem interesse em manter a extrema direita bem ativa e colocá-la em evidência para que ela seja justamente a válvula de escape do capital. Lá está Le Pen com seu delfim Jordan Bardella, que certamente, se houver dissolução da Assembleia Nacional nos próximos dias, é possível que vá para as legislativas ou para as presidenciais, dependendo da capacidade de luta do povo. Mas a verdade é que a extrema direita se alimentou de toda essa desesperança, de toda essa raiva, porque os meios de comunicação estiveram lá levando e promovendo o individualismo, ocultando a luta de classes, ocultando as lutas. Então, é muito importante que nesta fase em que estamos, estejamos conscientes de que, claro, não vai ser fácil. Mas no que diz respeito à coordenação a que te referes aqui, claro, penso que a primeira necessidade é internacionalizar o conflito. Ou seja, a classe trabalhadora deve internacionalizar o conflito, deve sair da concha em que os meios de comunicação social nos colocaram; seja em França, seja em Itália ou em Espanha, estão sempre a falar de outros assuntos, mas não das lutas que o vizinho está a desenvolver.

É importante que as lutas que se desenvolvem na Europa sejam conhecidas. Há coordenação em alguns setores, como o setor portuário e dos estivadores, por exemplo. Sei que os portuários de Marselha se coordenam, ou os de Le Havre, na Normandia, se coordenam com outros sindicatos portuários e chegaram a realizar ações conjuntas acerca da questão da Palestina, por exemplo, a solidariedade internacionalista. Aí foi possível ver o que é a auto-organização operária, não é? Ou seja, o sindicato foi capaz de bloquear o porto de Marselha. E vou dar-vos um dado interessante, sem querer ser muito prolixo, mas é um dado muito interessante sobre como também se forjam as lutas e as resistências. O sindicato de Marselha recebe informação do sindicato dos funcionários aduaneiros da CGT de que há contentores que vão partir com destino a Israel, mas com documentação que não corresponde à realidade. Ou seja, o material que vão transportar nesses contentores é, na realidade, armamento para Israel, quando na documentação constava que eram peças sobressalentes para não sei que trator. Bem, essa coordenação entre os sindicatos permitiu que o sindicato dos portuários de Marselha e os estivadores bloqueassem a saída desses navios. A coordenação também pode ser levada a nível internacional com esse tipo de ações, não é? Internacionalistas; de solidariedade internacionalista com o povo palestino, por exemplo. Mas ao nível das lutas que estamos a desenvolver em França ou que podem ser desenvolvidas na Andaluzia, por exemplo em Cádiz, pensando na Naval de Cádiz, não é? Como fazemos para que essas lutas, que aqui não são conhecidas, sejam conhecidas? Porque aqui ninguém fala da luta de Cádiz ou dos auxiliares de Cádiz. Nós comentamos algo, fizemos uma reunião explicando isso aqui; mas, claro, isso tem que ser amplificado mais, não é? Temos que chegar a um nível em que a batalha da comunicação seja desenvolvida de forma coordenada, e isso é necessário. Por um lado, ideologicamente sobre o conteúdo, mas também sobre a forma, não é? Seria muito longo explicar agora neste vídeo, mas é importante analisar como o capital tem promovido a fragmentação da classe trabalhadora. É aí que temos um papel a desempenhar.

08/Setembro/2025

Ver também:
  • 10 septembre : une première étape réussie. Encore plus forts le 18 pour gagner !
  • Bloqueios de 10/Setembro em França.
  • Vídeo da entrevista:

    [*] Sindicalista da CGT francesa.

    O original encontra-se em mpr21.info/entrevista-a-andre-fadda-sindicalista-de-la-cgt-francesa-sobre-la-huelga-indefinida-que-comienza-el-miercoles/

    Esta entrevista encontra-se em resistir.info

    11/Set/25

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