Aristide e o regime de Lavalas são os grandes responsáveis
Aristide e o regime de Lavalas
são inteiramente responsáveis pelo reaparecimento dos
Macoutes e do FRAPH na cena política do Haiti.
Depois do sábado de 14
de Fevereiro de 2004, novos actores surgiram oficialmente na cena
política nacional. É com dolorosa consternação que
um vasto sector da população assiste, impotente, a esta
catástrofe a que nos conduziu a deterioração da
situação política, escolha deliberada do regime de Lavalas
que, deste modo, abre as portas de par em par a representantes de um sistema
que se julgava já passado. A informação é
pública: Louis Jodel Chamblin e Guy Philippe estão no Haiti, com
tropas armadas e juntaram-se à Frente da Resistência anti-Aristide
dos Gonaïves (Artibonite), o ex Exército canibal, um
bando criado e armado pelo poder de Lavalas e próximo deste até
Setembro de 2003, quando o seu chefe, o perseguido pela justiça, Amiot
Métayer, foi assassinado.
Estes senhores, chegados como
reforço, não se inibiram ao anunciar a sua intenção
de marchar sobre Port-au-Prince, sem dúvida nenhuma para
tomar conta do poder.
As informações
concordantes, dadas por diversos/as correspondentes de imprensa, tanto
nacionais como internacionais, confirmam que as populações de
Gonaïves e de Hinche (Plateau Central) aplaudem as acções
destes homens armados. É, de facto, aos gritos de Viva o
Exército do Haiti! que as tropas de Chamblin e de Philippe foram
aclamadas após o controle de Hinche. Estas tropas foram, igualmente,
aclamadas aquando da sua entrada em Gonaïves. As tropas de Chamblin e de
Philippe estão, portanto, presentes nas regiões
estratégicas, tendo em conta a configuração
geográfica do país.
Louis Jodel Chamblin era o
número dois do tristemente célebre grupo paramilitar golpista,
apesar do nome enganador de FRAPH, Frente Revolucionária para o
Avanço e Progresso do Haiti, grupo muito activo na repressão
durante o golpe de estado militar de 1991-1994, nomeadamente, nos bairros de
lata de Raboteau, em Gonaïves. O Guy Philippe é um ex-militar
treinado no Equador como polícia e tinha sido sucessivamente
comissário da polícia em Delmas (Port-au-Prince) e, depois,
director do departamento policial no Norte, suspeito de estar implicado no
tráfico de droga. Ele teve diferendos com o poder a respeito da
organização das eleições do ano 2000 e fora acusado
de fomentar um golpe de estado. Após o seu afastamento, refugiou-se, em
2002, na República Dominicana, onde as autoridades o encarceraram e,
seguidamente, o soltaram, por falta de provas. Desde então, o nome de
Guy Philippe tem sido associado, por várias vezes, a
operações armadas no Plateau Central.
Isto é pura e
simplesmente incrível! Aí está ao que nos conduziu a
política de Lavalas que, desde a sua chegada ao poder, em 1991, tudo fez
para arredar as massas populares, tanto do ponto de vista
político-jurídico como cultural, e jugular os movimentos sociais.
Eis o resultado doloroso de uma guerra sem tréguas que o regime de
Lavalas faz contra as populações desde 2001. Os carrascos de
ontem podem arvorar-se em salvadores, e dizerem-se preocupados com
o respeito pelos direitos e liberdades fundamentais. Para quando a vinda de
Emmanuel Constant, o conhecido Toto, esse outro dirigente da FRAPH?
A população
haitiana, particularmente as mulheres, têm ainda, nos seus corpos e nos
seus espíritos, as dolorosas marcas da terrível violência
que caracterizou o golpe de estado militar de 1991-1994. Marcas a que se juntam
as múltiplas e incessantes violações dos direitos dos/as
cidadãos/cidadãs, subsequentes à
institucionalização do mercenarismo, a seguir ao regresso de
Jean-Bertrand Aristide ao poder em 2001, após contestadas
eleições em que participou cerca de 5% do eleitorado. As
reivindicações expressas, desde 1986, documentam, contudo, com
clareza, algumas aspirações populares: desbancar (dechouke) o
Estado autoritário, para que os direitos políticos e sociais
sejam finalmente reconhecidos a todos e a todas, sem exclusão, e a sua
participação resolutamente inscrita nas práticas de
gestão da vida pública. O poder de Lavalas não só
foi incapaz de responder a estas exigências como ainda as desnaturou e
perverteu.
Desde as controversas
eleições de 2000, um movimento de contestação ao
regime de Lavalas emergiu progressivamente, um movimento que ganhou amplitude
em 2002, cresceu em 2003 e, a partir de então, atravessa todas as
camadas da sociedade, em todos os lugares. Este movimento reivindicativo
recobre os partidos políticos da oposição, as diferentes
organizações de cidadãos, o Movimento Estudantil, o
Movimento das Mulheres, o Movimento Sindical, o Movimento Camponês, com
as duas grandes formações que são o MPP (Movimento
Camponês de Papaye) e Tèt Kole Ti Paysan (União dos
Pequenos/as Camponeses/as), etc. É fundamentalmente um movimento de
essência pacífica que tendo reconhecido o mercenarismo e a
natureza tirânica do regime de Lavalas, considerou colectivamente o
Governo de Lavalas fora da lei e procura, através de diferentes meios
políticos, obter a sua destituição.
O Governo de Lavalas procura
tirar vantagem da situação existente em Gonaïves e em
Hinche, tentando meter no mesmo saco a oposição armada,
originalmente constituída pelos seus partidários de
Gonaïves, e a oposição pacífica. Ao fazer isto,
Lavalas pretendia recusar a legitimidade do movimento de
contestação e, subsequentemente, neutralizá-lo. Por sua
natureza e tendo em conta as reivindicações que exprime, o
movimento de contestação pacífica não poderia ser
associado às acções da Frente de Resistência
anti-Aristide (ex Exército canibal) e, muito menos,
às da FRAPH. Qualquer que seja o contexto ou o pretexto que leva
mercenários, opressores, a reclamar, de igual modo, a partida de
Aristide, nunca estaria em causa calar as suas responsabilidades nos graves
danos causados às populações e ao próprio
país. Os mercenários, os opressores, devem responder pelos seus
crimes, imprescriptíveis, perante a Nação.
A Comunidade Internacional
dispõe das informações necessárias para ficar
devidamente inteirada acerca de todos os pormenores da situação
política haitiana. Se, como declara, deseja realmente apoiar o povo do
Haiti, é sua missão ajudá-lo a criar os mecanismos
necessários com vista a prender e julgar os fora-da-lei, os opressores,
quaisquer que eles sejam.
A CONAP reafirma o seu apego
indefectível aos princípios democráticos e a sua fé
no carácter universal e indivisível dos Direitos da Pessoa
Humana. Assim sendo, a CONAP rejeita qualquer impunidade, seja qual for o
estatuto do/a violador/a desses direitos. Ontem, as populações
haitianas enfrentavam os tontons macoutes e os seus
chegados (paramilitares); hoje, estão confrontadas com
bandos armados, os quimeras (sicários), um outro rosto do
mesmo fenómeno. Teremos, colectivamente, de continuar a dizer NÃO
a todas as práticas políticas inaceitáveis, para que,
precisamente, possamos, amanhã, construir um Estado de Direito
fortemente enraizado (chouke) nos princípios de justiça, de
equidade e de respeito absoluto pela vida.
Não aos usurpadores do
poder, quaisquer que eles sejam!
Port-au-Prince, 17 de Fevereiro de 2004
[*]
Da Coordenação Nacional da Defesa dos Direitos das Mulheres
(CONAP).
Tradução de MJS.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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