O drama do Haiti

por Carlos Flanagan [*]

Clique para ampliar. Assistimos nestes dias a um novo capítulo de uma velha e trágica história para o povo haitiano. Justamente no ano em que se comemoram os 200 anos da gesta independentista do Haiti, a primeira na América Latina, logo após a Revolução Norte-americana, quando no 1º dia de Janeiro, os escravos encabeçados por Toussaint Louverture derrotaram as tropas napoleónicas e declararam a independência nacional, tomando as bandeiras da liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução Francesa, de novo estala a violência, em consequência duma prolongada crise política.

Para compreender os acontecimentos presentes, devemos fazer uma breve resenha dos antecedentes dos últimos anos.

Recordemos que o Haiti sofreu a ditadura de Maurice Duvallier -- o terrível “Papá Doc” dos Ton-Ton Macoutes -- a partir de 1957, até à sua morte. A ditadura prosseguiu com a breve sucessão do seu filho “Baby Doc”, que acabaria por fugir para França em 1986. Foram quase três décadas de latrocínio, corrupção, terrorismo de Estado, perseguições, torturas, pobreza e marginalização social do povo.

Nessa época, começa a ganhar notoriedade um jovem sacerdote salesiano, Jean Bertrand Aristide, pelas suas sistemáticas denúncias da angustiante situação do povo haitiano e da necessidade de realizar eleições livres. Em 1988 seria expulso da sua Ordem pelas autoridades eclesiásticas, acusado de “incitação à violência e à luta de classes no país”. Juntando-se a outros prestigiosos militantes democráticos, como Gérard Pierre - Charles, fundam o Movimento Lavalas (que em crioulo significa avalancha), que obtem uma esmagadora vitória eleitoral, levando-o à Presidência; que assume em 1990.

Oito meses depois, em 1991, o seu governo é derrubado por um golpe militar dos sectores duvallieristas, encabeçado pelo General Raoul Cedras. Exilou-se primeiro na Venezuela e logo a seguir em Washington. O exército norte-americano repõe-o no governo em 1994 e os Estados Unidos concedem-lhe um empréstimo de 500 milhões de dólares. A partir desse momento, efectua uma reviravolta completa, conduzindo o governo por uma via declaradamente neo-liberal, subordinada aos organismos de crédito internacionais e ao governo dos Estados Unidos da América. Em consequência, os sectores progressistas que o tinham apoiado passam à oposição. Gérard Pierre – Charles funda a Organização do Povo em Luta e forma com outros sectores a Plataforma Democrática. Também se constituiu o chamado Grupo dos 184, que agrupa associações de empresários, trabalhadores rurais, estudantes e organizações cívicas e religiosas. Em 1996, Aristide abandona a Presidência ao seu braço direito René Preval.

Em Maio de 2000 realizam-se eleições parlamentares fraudulentas, a que não se apresentou a oposição, e Aristide volta a assumir a Presidência pelo período de 2001 – 2006, governando de forma autocrática. A miséria continua a flagelar o povo haitiano; dizimado pela Sida, pelo tifo, pela tuberculose, com uma taxa de mortalidade infantil de 74 por mil e uma média miserável de rendimentos da ordem de um dólar diário. Se é facto que dissolveu o exército em 1995, não o fez por um proclamado propósito democratizador, mas sim para se desembaraçar dos velhos sectores duvallieristas que o haviam deposto, e encabeça agora um regime corrupto baseado na repressão policial.

A situação é hoje bastante confusa. Registaram-se levantamentos na maior parte das cidades do país, durante os quais foram executados linchamentos e a polícia abandonou os seus postos, retrocedendo para a capital, Port-au-Prince. Os levantamentos tiveram justamente início em Gonaives, uma cidade de 200.000 habitantes, onde em 1804 foi declarada a independência.

Apesar da oposição da Plataforma Democrática e o Grupo dos 184 exigirem a renúncia de Aristide, a instalação de um governo de conciliação nacional que leve por diante um processo de transição pacífico até à convocação de eleições gerais livres e sérias, os levantamentos armados são levados a cabo por grupos paramilitares, que estavam ao serviço do governo aplicando o terrorismo de Estado, e se sentem agora traídos. Mesmo assim, Bush e a União Europeia bloquearam de facto economicamente o governo, seguramente com apetites neo-colonialistas. No caso dos Estados Unidos, parece mesmo claro o objectivo de ocupação directa ou indirecta, a fim de assegurar uma base geo-estratégica, a partir da qual possam influir em toda a região e eventualmente utilizá-la como base de agressões a Cuba.

No meio desta situação caótica e uma vez mais desgraçada, para o martirizado povo do Haiti, torna-se clara a necessidade de nos juntarmos à campanha internacional de denúncias contra o regime de Aristide e apoiar os militantes provadamente democráticos e progressistas, como a Organização do Povo em Luta de Gérard Pierre – Charles, co-fundador do Fórum de São Paulo e candidato ao Prémio Nobel da Paz, que lutam por uma saída verdadeiramente pacífica e democrática. Devemos, ao mesmo tempo, alertar para os espúrios objectivos de certos “apoios” do imperialismo, ao estilo da fábula do tubarão e das sardinhas, de que nos falava J. J. Arévalo, por altura da intervenção ianque no derrube do governo de Jacobo Arbenz na Guatemala, na década de 50.

13/Fev/2004
[*] Secretário de Relações Internacionais do Partido Comunista do Uruguai.


Intelectuais mexicanos pronunciam-se
em carta ao jornal La Jornada

Os membros firmantes do capítulo México da rede internacional En Defensa de la Humanidad manifestam a sua sincera solidariedade com o povo haitiano, no momento em que este se debate na encruzilhada de um governo corrupto, repressivo e anti-democrático e uma rebelião armada em que muitos dos seus integrantes são ex-soldados e ex-polícias com antecedentes de violação dos direitos humanos e um longo historial de delinquências. É evidente que para a oposição democrática, na qual se encontram os distingos integrantes da nossa rede, Susy Castor e Gérard Pierre-Charles, a única opção desejável é a fundamentada na vontade soberana do povo haitiano que deseja viver em paz com democracia e prosperidade. Declaramos a nossa enérgica recusa a qualquer forma de intervenção militar, como a proposta hoje pelo governo da França, e pronunciamo-nos pelo respeito à autodeterminação do povo haitiano e uma solução pacífica e democrática para a crise política nesse país irmão.

Miguel Álvarez, Ivan Altesor, Armando Bartra, Ana Buriano Juan Brom, Ana Colchero, Alicia Castellanos, Víctor Flores Olea, General José Francisco Gallardo, Ángel Guerra, Carlos Fazio, Pablo González Casanova, Dolores González, Gilberto López y Rivas, Hermilo López Bassols, Nayar López Castellanos, Alfredo Rajo, Adolfo Sánchez Vázquez, José Steinsleger, Marco Velázquez

México, D. F., 18 de Fevereiro de 2004

Este textos encontram-se em http://resistir.info .

21/Fev/04