Assistimos nestes dias a um
novo capítulo de uma velha e trágica história para o povo
haitiano. Justamente no ano em que se comemoram os 200 anos da gesta
independentista do Haiti, a primeira na América Latina, logo após
a Revolução Norte-americana, quando no 1º dia de Janeiro, os
escravos encabeçados por Toussaint Louverture derrotaram as tropas
napoleónicas e declararam a independência nacional, tomando as
bandeiras da liberdade, igualdade e fraternidade da Revolução
Francesa, de novo estala a violência, em consequência duma
prolongada crise política.
Para compreender os
acontecimentos presentes, devemos fazer uma breve resenha dos antecedentes dos
últimos anos.
Recordemos que o Haiti sofreu a ditadura de Maurice Duvallier -- o
terrível Papá Doc dos Ton-Ton Macoutes -- a partir
de 1957, até à sua morte. A ditadura prosseguiu com a breve
sucessão do seu filho Baby Doc, que acabaria por fugir para
França em 1986. Foram quase três décadas de
latrocínio, corrupção, terrorismo de Estado,
perseguições, torturas, pobreza e marginalização
social do povo.
Nessa época, começa a ganhar notoriedade um jovem sacerdote
salesiano, Jean Bertrand Aristide, pelas suas sistemáticas
denúncias da angustiante situação do povo haitiano e da
necessidade de realizar eleições livres. Em 1988 seria expulso da
sua Ordem pelas autoridades eclesiásticas, acusado de
incitação à violência e à luta de
classes no país. Juntando-se a outros prestigiosos militantes
democráticos, como Gérard Pierre - Charles, fundam o Movimento
Lavalas (que em crioulo significa avalancha), que obtem uma esmagadora
vitória eleitoral, levando-o à Presidência; que assume em
1990.
Oito meses depois, em 1991, o seu governo é derrubado por um golpe
militar dos sectores duvallieristas, encabeçado pelo General Raoul
Cedras. Exilou-se primeiro na Venezuela e logo a seguir em Washington. O
exército norte-americano repõe-o no governo em 1994 e os Estados
Unidos concedem-lhe um empréstimo de 500 milhões de
dólares. A partir desse momento, efectua uma reviravolta completa,
conduzindo o governo por uma via declaradamente neo-liberal, subordinada aos
organismos de crédito internacionais e ao governo dos Estados Unidos da
América. Em consequência, os sectores progressistas que o tinham
apoiado passam à oposição. Gérard Pierre
Charles funda a Organização do Povo em Luta e forma com outros
sectores a Plataforma Democrática. Também se constituiu o chamado
Grupo dos 184, que agrupa associações de empresários,
trabalhadores rurais, estudantes e organizações cívicas e
religiosas. Em 1996, Aristide abandona a Presidência ao seu braço
direito René Preval.
Em Maio de 2000 realizam-se eleições parlamentares fraudulentas,
a que não se apresentou a oposição, e Aristide volta a
assumir a Presidência pelo período de 2001 2006, governando
de forma autocrática. A miséria continua a flagelar o povo
haitiano; dizimado pela Sida, pelo tifo, pela tuberculose, com uma taxa de
mortalidade infantil de 74 por mil e uma média miserável de
rendimentos da ordem de um dólar diário. Se é facto que
dissolveu o exército em 1995, não o fez por um proclamado
propósito democratizador, mas sim para se desembaraçar dos velhos
sectores duvallieristas que o haviam deposto, e encabeça agora um regime
corrupto baseado na repressão policial.
A situação é hoje bastante confusa. Registaram-se
levantamentos na maior parte das cidades do país, durante os quais foram
executados linchamentos e a polícia abandonou os seus postos,
retrocedendo para a capital, Port-au-Prince. Os levantamentos tiveram
justamente início em Gonaives, uma cidade de 200.000 habitantes, onde em
1804 foi declarada a independência.
Apesar da oposição da Plataforma Democrática e o Grupo dos
184 exigirem a renúncia de Aristide, a instalação de um
governo de conciliação nacional que leve por diante um processo
de transição pacífico até à
convocação de eleições gerais livres e
sérias, os levantamentos armados são levados a cabo por grupos
paramilitares, que estavam ao serviço do governo aplicando o terrorismo
de Estado, e se sentem agora traídos. Mesmo assim, Bush e a União
Europeia bloquearam de facto economicamente o governo, seguramente com apetites
neo-colonialistas. No caso dos Estados Unidos, parece mesmo claro o objectivo
de ocupação directa ou indirecta, a fim de assegurar uma base
geo-estratégica, a partir da qual possam influir em toda a região
e eventualmente utilizá-la como base de agressões a Cuba.
No meio desta situação caótica e uma vez mais
desgraçada, para o martirizado povo do Haiti, torna-se clara a
necessidade de nos juntarmos à campanha internacional de
denúncias contra o regime de Aristide e apoiar os militantes
provadamente democráticos e progressistas, como a
Organização do Povo em Luta de Gérard Pierre
Charles, co-fundador do Fórum de São Paulo e candidato ao
Prémio Nobel da Paz, que lutam por uma saída verdadeiramente
pacífica e democrática. Devemos, ao mesmo tempo, alertar para os
espúrios objectivos de certos apoios do imperialismo, ao
estilo da fábula do tubarão e das sardinhas, de que nos falava J.
J. Arévalo, por altura da intervenção ianque no derrube do
governo de Jacobo Arbenz na Guatemala, na década de 50.
13/Fev/2004
[*]
Secretário de Relações Internacionais do Partido Comunista do Uruguai.
Intelectuais mexicanos pronunciam-se
em carta ao jornal
La Jornada
Os membros firmantes do capítulo México da rede internacional
En Defensa de la Humanidad
manifestam a sua sincera solidariedade com o povo
haitiano, no momento em que este se debate na encruzilhada de um governo
corrupto, repressivo e anti-democrático e uma rebelião armada em
que muitos dos seus integrantes são ex-soldados e ex-polícias com
antecedentes de violação dos direitos humanos e um longo
historial de delinquências. É evidente que para a
oposição democrática, na qual se encontram os distingos
integrantes da nossa rede, Susy Castor e Gérard Pierre-Charles, a
única opção desejável é a fundamentada na
vontade soberana do povo haitiano que deseja viver em paz com democracia e
prosperidade. Declaramos a nossa enérgica recusa a qualquer forma de
intervenção militar, como a proposta hoje pelo governo da
França, e pronunciamo-nos pelo respeito à
autodeterminação do povo haitiano e uma solução
pacífica e democrática para a crise política nesse
país irmão.
Miguel Álvarez, Ivan Altesor, Armando Bartra, Ana Buriano Juan Brom, Ana
Colchero, Alicia Castellanos, Víctor Flores Olea, General José
Francisco Gallardo, Ángel Guerra, Carlos Fazio, Pablo González
Casanova, Dolores González, Gilberto López y Rivas, Hermilo
López Bassols, Nayar López Castellanos, Alfredo Rajo, Adolfo
Sánchez Vázquez, José Steinsleger, Marco Velázquez
México, D. F., 18 de Fevereiro de 2004
Este textos encontram-se em
http://resistir.info
.