Venezuela
A oposição prepara-se para ignorar o árbitro
e provocar uma situação de caos
por Marta Harnecker
1- Frente à possibilidade cada vez maior de que as assinaturas
válidas não sejam suficientes para dar continuidade ao processo
revogatório, os líderes da oposição anti-chavista
assessorados pelos seus aliados externos , anunciam abertamente a
sua disposição de não reconhecer o veredicto do Conselho
Nacional Eleitoral. Chegaram ao extremo de ameaçar boicotar a vida
institucional do país se não se realizar o referendo. O que
procuram é criar uma situação de caos que justifique a
intromissão estrangeira. Estão dispostos a entregar a
Pátria desde que recuperem o poder perdido.
2- Nesse contexto, as declarações coincidentes com a
oposição da parte de altas personalidades do governo
estadunidense, a começar pelo próprio Bush
[1]
, são sintomáticas e muito preocupantes
[2]
. Não se pode esquecer que o quarto documento de Santa Fé, que
orienta a política externa de Bush, assinala como principais inimigos
dos Estados Unidos na América Latina o "eixo Cuba, Venezuela e a
guerrilha colombiana"
[3]
.
3- Como os líderes opositores sabem que não contam com uma
correlação interna de forças suficiente para retirar
Chavez do governo de forma democrática, o seu futuro joga-se no apoio
internacional que consigam obter. Os seus grandes aliados, a transnacionais da
informação, esforçam-se por semear a dúvida acerca
neutralidade do árbitro eleitoral e tentam convencer o mundo de que os
autores da fraude não são as forças anti-chavistas e sim o
governo em conluio com o Conselho Nacional Eleitoral.
4- Como se sabe, depois de ter fracassado tanto na sua tentativa de golpe de
Estado contra Chávez como na sua tentativa de paralisar economicamente o
país para obrigá-lo a abandonar o governo, a maior parte da
oposição opta por avançar com um processo de referendo
revogatório contra o Presidente da República.
5- As novas regras do jogo político estabelecidas na
Constituição de 1999 assim permitem. O Conselho Nacional
Eleitoral (CNE), composto por cinco membros eleitos com a
aprovação de dois terços dos membros da Assembleia
Nacional, é a entidade encarregada de levar adiante o processo
referendário
[4]
.
6- Uma vez que os deputados chavistas têm uma escassa maioria na
Assembleia Nacional, a oposição pode prolongar durante meses a
nomeação dos membros do CNE. Para romper o impasse o governo
teve que recorrer ao Tribunal Superior de Justiça, o mesmo que absolveu
os militares golpistas de Abril de 2002. Ninguém poderia
acusá-lo de parcialidade em favor do governo.
7- O CNE acabou finalmente por ser composto por dois membros próximos
à oposição, dois membros próximos ao governo e um
quinto membro e presidente da referida entidade, Francisco Carrasquero, que
não só foi considerado por todas as partes como uma pessoa neutra
como também recebeu o apoio público de conhecidos membros da
oposição. Por fim parecia haver saído o fumo branco.
8- A entidade reitora do processo revogatório teve que elaborar as
normas que regeriam o processo inédito. Ainda que conhecendo a
tradição fraudulenta dos partidos tradicionais e para não
atolar o processo, os chavistas tiveram que aceitar coisas inauditas como a
possibilidade de que nas mesas de colheita de assinaturas existissem as folhas
itinerantes, ou seja, a possibilidade de recolher assinaturas fora do
espaço onde estava situada a mesa. O regulamento, por outro lado,
não obrigava esta mesa a entregar a folhas física e sim apenas as
actas onde constava a quantidade de folhas e assinaturas nelas contidas.
9- A consulta popular transcorreu sem grandes problemas. Centenas de milhares
de pessoas apresentaram-se para inscrever as suas assinaturas perante
observadores de ambos os lados durante os quatro dias que durou o processo,
reflectindo perante o mundo o espírito cívico do povo venezuelano.
10- Ainda que um grupo de observadores internacionais, dentre os quais
encontravam-se vários parlamentares da Europa e da América
Latina, e personalidades de diversas latitudes (jornalistas, juízes,
professores universitários
[5]
, dirigentes de movimentos sociais
[6]
) denunciaram publicamente haver notado certas irregularidades, não foi
possível detectar então as manipulações ocultas de
personagens da oposição educados em décadas de conduta
fraudulenta.
11- A incompetência e falta de vigilância de muitas das testemunhas
simpatizantes do governo juntamente com a perícia da
oposição, que soube aproveitar impunemente as debilidades do
regulamento eleitoral, criaram as condições para a
realização de uma fraude significativa.
12- Receando não ter conseguido as assinaturas exigidas, tudo parece
provar que os quadros políticos opositores, aproveitando-se da
possibilidade de manter as folhas nas suas mãos, lançaram-se a
reproduzir e preencher centenas de milhares destas com assinaturas fraudulentas
e métodos refinados, apostando em que o Conselho Nacional Eleitoral
seria muito menos rigoroso na análise das folhas e em que o atraso
tecnológico do sistema de inscrição venezuelano faria
quase impossível conferir uma por uma as assinaturas. Estavam
tão seguros disto que não tiveram sequer o cuidado de mudar a
letra de cada novo assinante que incluíam.
13- Certos de pode convencer o CNE da legitimidade das assinaturas entregues, a
oposição começou a realizar uma campanha mediática
nacional e internacional fazendo crer ao mundo que Chávez desconheceria
os resultados da consulta democrática. As declarações
categóricas exprimindo a sua decisão de respeitar o veredicto do
árbitro tanto do presidente venezuelano como das personalidades
políticas que o apoiam lançaram por terra a referida campanha.
14- Esgotados esses recursos e constatando que o CNE não se deixava
amedrontar nem pressionar, a oposição dirigiu agora as setas
contra a própria instância arbitral.
15- Os mesmos que durante meses impediram a nomeação do CNE e a
seguir retardaram durante 30 dias a entrega de assinaturas acusam-no agora de
atrasar o processo argumentando com o excesso de tecnicismo. Argumentam que se
o processo revogatório continuar a prorrogar-se por muitas semanas mais
ainda que consigam ir ao referendo e ganhá-lo não haverá
eleições presidenciais e o chavismo continuará no governo.
Segundo a nova Constituição, se o mandatário for revogado
depois de cumprir quatro anos do seu mandato, o que acontece em Agosto,
é o vice-presidente que deve assumir o governo durante o resto do
período presidencial.
16- Dizem estar preocupados com o prazos, quando na realidade estão
preocupados em que o tempo permita descobrir a magnitude da fraude. Daí
o seu esforço para tentar impedir a todo custo uma revisão
minuciosa.
17- Enquanto isso, o CNE não se deixou intimidar e continuou a cumprir
consequentemente as suas funções. Perante as contundentes
denúncias de fraudes apresentadas por Chávez e seus
partidários viu-se obrigada a conferir em pormenor todas as folhas
entregues, o que retardou o processo para além do previsto.
18- A cada dia aparecem mais assinaturas que correspondem a pessoas mortas,
estrangeiros não registados, menores de idade ou números de
cédulas pertencentes a pessoas que não assinaram.
19- Segundo anunciou o presidente do CNE, numa entrevista ao Canal 8 da TV,
este organismo detectou até agora cerca de 150 mi folhas cujas
assinaturas são suspeitas. Dados que acompanham as diferentes
assinaturas (nome, direcção, cédula) preenchidos por uma
mesma mão contra as instruções dadas de que cada pessoa
pusesse os dados com o seu próprio punho e letra (salvo impedimento
grave) e impressões digitais pouco nítidas obrigarão
à revisão de cerca de 1.400.000 assinaturas.
20- Em menos de uma semana, no próximo domingo 29, o CNE
anunciará oficialmente o que todos sabem: que as assinaturas
válidas não são suficientes para avançar como
referendo revogatório e a partir daí deve iniciar-se um processo
de revisão das firmas duvidosas pelos próprios assinantes
questionados para ver se assim se consegue acumular as assinaturas
necessárias.
21- Consciente de que os líderes opositores não
reconhecerão a sua derrota e que não renunciarão ao uso de
qualquer meio para impedir o avanço do processo revolucionário
bolivariano, o processo povo venezuelano prepara-se para defende-lo. Fortalece
as suas organizações e prepara-se para realizar uma grande
mobilização de todo o país em direcção a
Caracas em 29 de Fevereiro próximo.
22- Em momentos como este, em que a oposição não
está só pois conta com o apoio das mais retrógradas
forças políticas e mediáticas internacionais, a
solidariedade internacional é mais necessária do que nunca.
Neste sentido, foi importante a recente declaração feita pelo
Fórum Parlamentar mundial realizado em Mumbai, Índia, em Janeiro
último, onde parlamentares de todos os continentes exprimiram "o
seu mais firme apoio ao processo de transformação social na
Venezuela" e recusaram "qualquer tipo de ingerência
estrangeira".
23- É hora de activar os círculos bolivarianos no exterior e
criar novos onde não houver. Há que incluir a Venezuela na
grande mobilização mundial contra a guerra e contra a
intervenção, planeada para 20 de Março. Mobilizemo-nos em
1º de Março próximo junto às embaixadas americanas
nos diversos países.
24/Fev/2004
NOTAS
1. Sobre este tema ver
Declaraciones de los Estados Unidos sobre el proceso revocatorio
, Mónica Saiz, 23/Fev/2004.
2. Hugo Chávez Frías,
Extractos del discurso del 17 de febrero 2004
na Presentación del Plan Estratégico de Compras del Estado, III
Rueda de negocios, Caracas.
3.
Investigación realizada por IU sobre la participación de
España y Estados Unidos en el golpe de estado en Venezuela
,
http://www.izquierda-unida.es/Actualidad/docu/2002/informegolpevenezuela.htm
4. Sobre este proceso ver: Francisco Palacios,
Breve sinopsis informativa del proceso de referendo revocatorio en Venezuela,
documento inédito, 23 febrero 2004.
5. Ver
Informe del Grupo de Observadores Internacionales sobre proceso de
recolección de firmas, 30 de noviembre 2003
(Assinado por um grupo de 52 intelectuales, parlamentare, líderes
sociais, comunicadores/as, e outras pessoas, de 35 países do mundo).
6. Ver
Pronunciamiento sobre el proceso de recolección de firmas en la
República bolivariana de Venezuela,
Secretaría Política del Congreso Bolivariano de los pueblos,
Caracas, 30/Nov/2003.
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info
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