O 15 de Agosto na Venezuela Bolivariana:
Votar "NÃO" para que a Revolução não se detenha

por Carlos Aznárez [*]

O monstro. No dia 15 de Agosto toda a América Latina joga na Venezuela uma parte do seu destino. É exactamente assim que se vê e se pensa a partir dos extractos mais identificados com posições populares e anti-imperialistas da América Latina e do Terceiro Mundo, frente ao referendo que se realiza nesse dia no país caribenho para decidir se o Comandante Hugo Chávez fica ou vai.

Paradoxalmente, na Venezuela Bolivariana um NÃO quererá dizer SIM e um SIM significará a derrubada dos melhores sonhos de milhões de almas que finalmente, depois de serem ignoradas e humilhadas durante 40 anos, recuperaram a dignidade e a auto-estima.

Após esse impressionante NÃO que certamente será dado, os bolivarianos, os de dentro e os que de fora acompanhamos essa gesta, surgirá nas urnas a afirmação de que deve continuar no seu cargo do Presidente que mais fez para por o país no topo do contexto internacional.

Em alternativa, o SIM gorila, esquálido, reaccionário, fascista e subordinado à política dos Estados Unidos para o continente, converter-se-á, caso se imponha, naquilo que agora parece impossível até para os mais acérrimos opositores — em presente negro e futuro pior para venezuelanos e latino-americanos.

O momento actual vivido pela Venezuela recorda muito a Argentina de 1945, quando a população teve que escolher entre o nacionalismo anti-colonialista de Perón ou a unidade opositora ligada à oligarquia, seduzida igualmente tanto pelos ingleses como pelos norte-americanos. Por isso, naquele momento, as paredes de Buenos Aires cantavam claramente as duas opções: Perón ou Braden, numa clara alusão ao embaixador ianque no país.

Com essa linha de referência, o próprio Hugo Chávez não tem dúvidas em repetir reiteradamente aos seus partidários que no "referendo" reafirmatório (porque ele não tem dúvida que vai ser confirmado no seu cargo) a opção é entre a Revolução Bolivariana e o imperialismo norte-americano. Ou, tal como definem as paredes de Caracas e no resto da geografia venezuelana, Chávez ou Bush.

Nesse sentido, a oposição já dá sinais claros de que não pode suportar o peso das evidências. A maquinaria eleitoral chavista retirou-lhe muita vantagem porque conta a seu favor com todo o contrário do que costumam esgrimir os politiqueiros: poucas palavras e multidão de fatos positivos em favor das maiorias populares.

Provas em apoio. Ainda que já o saibamos, devemos repeti-lo até o cansaço para que todo o mundo se inteire. São estas as razões da vitória chavista:

No aspecto educativo o governo de Chávez conseguiu em muito pouco tempo — menos de seis anos — romper todas as barreiras do "não se pode" e vencer o analfabetismo estrutural que assola os países do Terceiro Mundo.

Desde os primeiros momentos, com as "escolas bolivarianas", foram abolidas as matrículas escolares e instaurou-se a política de proporcionar pequeno-almoço, almoço e merenda aos meninos e meninas pobres que haviam desertado das aulas devido à fome. Desta maneira pôs-se em marcha a engrenagem que permitiu recuperar quase 800 mil educandos que involuntariamente se haviam convertido em meninos da rua.

A seguir, vieram em aluvião as chamadas "missões" revolucionárias. Com a Robinson alfabetizou-se mais de um milhão de pessoas; com as Missões Ribas e Sucre incorporaram-se e diplomaram-se milhares de estudantes de educação média, gerou-se um aumento maciço nos salários dos docentes, insuflando um entusiasmo nessa área como nunca se havia visto no país.

Os universitários não ficaram atrás na nova Venezuela e após a criação da Universidade Bolivariana instalada numa das tantas sedes luxuosas da empresa nacional de petróleo, que até há pouco parecia um latifúndio de betão, permitiu-se aceder ao escalão da educação superior uns 18 mil estudantes, dando-se a prioridade nas bolsas aos mais necessitados.

Tal como ocorre com todo governo que realmente lança os seus fundamentos nas reivindicações populares, deu-se sinal verde à recuperação da juventude em todas as manifestações desportivas. Criaram-se centros específicos para cada actividade, gerou-se uma política de intercâmbio com Cuba para isso e decidiu-se o apoio governamental a cada uma das disciplinas desportivas.

Ao nível da saúde também há um antes e um depois a partir da posse do governo chavista. Com o apoio dos médicos cubanos produziu-se um milagre em que poucos acreditavam. Médicos de família instalaram a prática da medicina preventiva em cada um dos bairros de toda a geografia venezuelana. Com a "Misión Barrio Adentro", homens e mulheres, crianças e anciãos, contam com uma atenção médica inigualável. Pela primeira vez os recursos financeiros da renda petroleira são utilizados para reduzir as diferenças sanitárias entre cidadãos. Se até seis anos atrás muitos morriam por falta de cuidados, hoje o país começa a ganhar a batalha à mortalidade infantil e à negativa média de vida dos mais velhos, esses que em qualquer rincão da realidade latino-americana são considerados como seres inúteis. Os hospitais que, como muitos do continente, careciam dos meios mais elementares, deixaram de ser cemitérios antecipados para se converterem em estabelecimentos em que não precisam de recomendações nem de cartões de crédito para serem atendidos.

Também com a Constituição Bolivariana Hugo Chávez ganhou uma batalha essencial: a de acabar com privilégios ancestrais. Os povos indígenas recuperaram seus direitos, sua língua e o respeito governamental pelos seus costumes e tradições. As mulheres escreveram seus direitos, os homens do campo lançaram, e foram conseguindo, a Reforma Agrária que precisavam para sair da Idade Média na qual haviam sido desterrados. As crianças voltaram a ser os primeiros privilegiados.

Nem é preciso falar da política externa, na qual o governo bolivariano tornou a renovar o compromisso com os países não alinhados com o imperialismo norte-americano e as transnacionais. Irmã de Cuba socialista e factor de unidade latino-americana, a Venezuela advertiu aos demónios do intervencionismo gringo que se qualquer país do continente fosse invadido ou intervencionado teria todos juntos como num feixe para enfrentar tal covardia. Enfrentou igualmente tanto o militarismo como o capitalismo selvagem.

Com a Venezuela bolivariana, com Hugo Chávez, os povos latino-americanos, e também os demais do Terceiro Mundo, ganharam um aliado fundamental. Ou algo mais familiar: um irmão ou uma irmã, porque nesse pedaço do território do Caribe a política de género também começou a contar como nunca, que está disposta a dar tudo o que tem para que experimentos como a ALCA não possam instalar-se tão comodamente.

Por estas e por mil razões que não cabem nos limites de uma nota jornalística, mas que são muito bem conhecidas pelos habitantes do bairros populares de Caracas, de Valência, de Maracaibo, de Zulia ou de Nueva Esparta, o NÃO deve sonhar, a 15 de Agosto, como um disparo de vida e esperança. Mas também de advertência maciça — e nisto não estarão sós os venezuelanos e venezuelanas — aos energúmenos fascistas como o Carlos Andrés Pérez, ex-presidente e grande amigo do GALoso espanhol Felipe González, que a partir de Miami apelam ao assassínio de Chávez "seja como for".

Definitivamente, o NÃO do 15-A reafirmando Hugo Chávez será a melhor resposta a estas ameaças autoritárias daqueles que tiveram todo o poder e utilizaram-nos para afundar o bravo povo venezuelano na miséria e na marginalidade. Mas NÃO o conseguiram e é isso que os sectores populares festejam diariamente na Caracas de Bolívar, com suas risadas, seus tambores, seus punhos erguidos, sua confiança bolivariana de continuar a forjar a pátria.

[*] Editor da mailing list Resumen Latinoamericano/Diário de Urgência . O original encontra-se no nº 475.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info .

04/Ago/04