A lei fundamental da economia
para não economistas (2ª parte)
por Daniel Vaz de Carvalho
|
|
Reconhece-se que o sistema de crédito é causa da crise, como se o
próprio sistema de crédito não emergisse da dificuldade em
empregar capital "produtivamente", isto é, lucrativamente.
Marx, Teorias da Mais-Valia (T M-V, p. 1176)
[1]
A estupidez bovina da economia vulgar mistura certas espécies de lucro,
(como as baseadas na especulação)
. Esses asnos misturam itens das contas e as razões de
compensação dos capitalistas nas diferentes esferas, com
razões para explorarem os trabalhadores.
Marx, (T M-V, p. 1536)
|
4- O ESTADO GERIDO COMO UMA BOA "DONA DE CASA" O FARIA
Marx teria dito que quando se falava em liberdade, se devia perguntar:
"para quem". Na 1ª parte mencionámos uma "lei": ou
melhor, uma questão que não pode deixar de ser colocada nos temas
económicos e sociais: "quem paga" o quê, como,
para quê e para quem.
A direita, porém, adota, para justificar a sua ação, uma
"lei" fundamental, decalcada do fascismo salazarista: "o Estado
deve ser gerido como uma boa dona de casa o faria".
Trata-se no entanto de um enorme embuste. Ilude a questão da soberania,
sem a qual nem sequer existe Estado, digno desse nome. Ilude o papel da
economia politica, confunde micro e macroeconomia, omite a capacidade de
planeamento do Estado que o neoliberalismo alienou para a finança e os
monopólios, transmutados em "os mercados".. A partir daqui a
direita entra no discurso feito de banalidades, tão simples e evidentes
como
o Sol mover-se à volta da Terra.
Afirma-se que "viver em democracia implica pagar as dívidas e
não viver acima das suas possibilidades". A austeridade é
então a forma de se "viver de acordo com as nossas
possibilidades" ou que "só podemos ter os serviços
sociais que os nossos impostos podem pagar". Omite-se a questão de
quem paga e de quem foge aos impostos, da livre transferência de
rendimentos para paraísos fiscais, no essencial sem pagar impostos, e
que estes vão prioritariamente compensar má gestão,
fraudes bancárias, contratos leoninos das PPP ou dos SWAP e o
escândalo dos juros usurários promovido pelo BCE.
Para manter a especulação, difunde-se na população
a ideia que os direitos laborais, salários e prestações
sociais devem ser reduzidos, pois assim determinam "os mercados".
Para além da ladainha de "preocupações sociais",
desmentidas pela prática, a tese da direita é que o aumento da
produção será o resultado de trabalho sem direitos,
despedimentos arbitrários e empobrecimento para pagar a dívida.
Neste processo, a chantagem sobre os trabalhadores vai ao ponto de se
considerar que é melhor ter emprego sem direitos e com salários
abaixo do nível de pobreza, que não ter emprego nenhum: ou se
submetem ás exigências do "mercado" ou não
há "incentivos", a empresa fecha, deslocaliza-se, o capital
procura outros ativos, O governo lava as mãos
não interfere
no "mercado".
A diferença para a tal "boa dona de casa" é que o
Estado pode determinar como a riqueza é criada, tributada e
distribuída. O Estado decide quem paga, e está a fazê-lo,
simplesmente, não a favor do povo, mas da oligarquia.
A ilusão social-democrata / socialista de "criar riqueza para a
repartir" não ultrapassa a ideia que o salário é
"o capital a presentear o trabalhador com parte do seu ganho." (
T M-V, p. 1176
)
Os impostos deixaram de ser vistos como forma de redistribuição
de riqueza passaram a constituir formas de concentração de
riqueza. "Mas a forma de distribuição é apenas a
forma de produção sobre outro aspeto" (
T M-V, p. 1138
) o que por maioria de razão se aplica também à
distribuição do rendimento.
5- VALOR
A crise não tem nada a ver com défice do Estado e muito menos com
o designado Estado Social, é uma crise do sistema, uma crise com origem
da repartição do rendimento, na forma como este é
tributado (crise fiscal) e com conceitos anómalos de valor.
Toda a teoria económica tem de partir de uma definição de
valor, ou seja, em que consiste a criação de riqueza, o valor
económico. A política de direita baseia-se em que o capital
é o criador de valor. O trabalhador - a força de trabalho,
muscular e psíquica transforma-se assim num acessório,
algo secundário que terá de conformar-se com os interesses do
capital.
Porém, como Marx também salientou, o capital só tem valor
se representar trabalho acumulado e apenas esse valor é acrescentado ao
produto em que entra.
Diz ainda Marx: "Malthus transmuta a perceção de Ricardo
o trabalho é o criador de valor, na proposição
oposta: o capital é o criador de valor. O trabalho fica na
dependência absoluta da quantidade de capital disponível, sua
condição de existência". (
T M-V, p. 1315)
Nesta lógica, o que o Estado deve fazer é colocar o
máximo de dinheiro nas mãos dos capitalistas e não
interferir, pois o crescimento dependeria exclusivamente de mais dinheiro nas
mãos das entidades privadas e de menores "custos laborais",
(teses aliás opostas às do keynesianismo). Porém, o
neoliberalismo não faz distinção entre o investimento
produtivo e a especulação financeira.
Estas conceções explicam quase tudo da política de
direita, da saúde e do ensino à justiça, do sistema fiscal
ao código laboral e às despesas do Estado. Trata-se de
"transformar o criador de valor em mercadoria." "Os sindicatos
foram justamente criados para obstar a que o trabalhador fosse uma mercadoria,
sujeita à concorrência, oferecendo-se para trabalhar por menor
retribuição" (
T M-V, p. 1151)
)
Ao considerar o capital o criador de valor, abriu-se a porta a toda a
"mixórdia" de produtos financeiros tóxicos,
considerados riqueza disponível, causadores da crise financeira.
Não passam no entanto de capital fictício visto não terem
origem no trabalho. A austeridade, sendo a tentativa de transformar capital
fictício em valor, é exemplo das contradições
insanáveis do capitalismo: reduzindo salários, reduzindo
prestações sociais (salário indireto) o mercado contrai-se
para a produção capitalista, a estagnação ou a
recessão económica são o resultado.
Em 2010, o "inefável" Trichet prescrevia que era incorreto
considerar que a austeridade provocava recessão. Não admira que
com gente desta a UE esteja na situação em que está, por
mais hipotéticas "recuperações" que a propaganda
da direita queira vislumbrar.
A doutrina capitalista, para se libertar do conceito do valor-trabalho,
"concebe o valor como relação entre coisas", (a
utilidade, a oferta e a procura, etc.) quando o valor, configurado nas coisas,
"é (apenas) a expressão coisificada das
relações humanas, de uma relação social, o
relacionamento dos homens na sua atividade produtiva" (
T M-V p.1201)
6- DO ESTADO DE DIREITO AO ESTADO DOS DA DIREITA
[1]
A política da direita não hesita em destruir uma das bases da
democracia burguesa: o contrato social, assumido como "Estado
social", a forma encontrada para a conciliação de classes,
retirando a iniciativa política e o poder efetivo ao povo trabalhador,
às massas populares.
Contratos válidos são apenas aqueles em que intervêm os
interesses do grande capital. Direitos adquiridos, são válidos
apenas os das PPP e concessões, os da agiotagem da dívida e dos
SWAP, os da proteção à fraude e má gestão.
Perante estes, nada valem os direitos adquiridos pelos trabalhadores, nem mesmo
a Constituição, como insidiosa e persistentemente os comentadores
de serviço procuram justificar.
O capitalismo atual tornou-se assim um sistema meramente parasitário e
sem soluções de progresso económico e social, dominado
pela especulação e pela obtenção de rendas
monopolistas e financeiras. Em resultado desta expropriação os
povos são sacrificados na busca de uma impossível saída de
uma crise que o sistema originou.
As inúteis reuniões dos principais países capitalistas ou
as cimeiras da UE sucedem-se, limitando-se a repetir intenções e
apresentar falsas soluções que agravam os problemas ou no
mínimo adiam, servindo apenas para alimentar a propaganda.
A teoria económica neoliberal está tão errada que a
realidade aparece sempre como "surpresa" ou "anomalia".
Esta ideologia que nega a ideologia (como no fascismo) entregou-se ao
conformismo tecnocrático que rejeita conteúdos sociais, num mundo
de crescentes desigualdades em que o poder pertence a uma pseudo elite
predadora dos recursos criados e aos restantes compete obedecer e
periodicamente confirmar o seu poder.
A desinformação social e seus "comentadores" escondem
que os serviços públicos subsidiados são uma forma de
reduzir o custo de vida e que portanto dinamizam a economia e tornam-na mais
competitiva, com um mínimo de custos sociais. Gastos públicos
(que são investimento e consumo, se bem orientados), são
apresentados como pesos mortos na economia. Não importa que a
evidência e as experiências passadas mostrem justamente o
contrário.
Os trabalhadores, em particular os mais jovens, foram iludidos a partir dos
anos 80 com empréstimos fáceis que substituíram os baixos
salários obtidos, os direitos dos trabalhadores eram "coisa
obsoleta" defendida pelas "cúpulas" dos sindicatos, a
precariedade era
mais liberdade (para quem?).
Sob os dogmas de uma "ciência económica" concebida para
defender expressamente, o interesse privado, chamam
"eficiência" ao desvio do planeamento e dos recursos do Estado
para a finança e os monopólios, à
privatização de empresas e serviços públicos, (como
no ensino, saúde, etc.), para o capital privado, alargando o
âmbito do capitalismo rentista para a esfera social.
Acerca da especulação afirmou Marx: "É difícil
entender como pode originar-se um lucro, por venderem os participantes da troca
uns contra os outros suas mercadorias a preços excessivos resultantes do
acréscimo da mesma taxa, logrando-se reciprocamente (
) (isto
é, uma classe capitalista) que comprasse sem vender."
(T M-V p.1104)
O plano da finança é então extrair rendas, juros e outros
encargos financeiros, até ao ponto de absorverem o máximo do
rendimento disponível.
Em "O Capital" Marx mostrou que na origem das crises capitalistas
estava a pobreza e o reduzido consumo das massas trabalhadoras. Portugal, como
os demais povos, têm de pôr fim à finança
parasitária promovendo um modo de desenvolvimento guiado pela
satisfação das necessidades sociais e preservação
ambiental. Uma economia em que os custos sociais tenham prioridade sobre os
riscos especulativos e perdas financeiras que os trabalhadores são
chamadas a compensar. É necessário, pois, "expropriar os
expropriadores", como também referiu Marx.
A solução para as crises provocadas pelo sistema capitalista
está na visão marxista de um socialismo voltado para crescentes
padrões de vida e de organização económica
racional, pondo fim ao retrocesso civilizacional de um poder neofeudal
rentista.
[2]
Notas
1- T M-V Teorias da Mais-Valia, Livro 4, Vol. III, de "O
Capital", Difel, S.Paulo, 1985, tradução a partir da MEW
26.2, Dietz Verlag, Berlim, 1974.
2- A expressão é de Erich Honecker, em 1993 perante o
tribunal alemão que o julgava. Já doente, com cancro, em Moscovo,
o traidor Ieltsin revelou mais um traço da baixeza do seu caracter ao
extradita-lo para a Alemanha. Pretendia-se apresenta-lo, debilitado e vergado
ao infortúnio, perante o capitalismo triunfante. Tal não
aconteceu. Honecker, fiel aos ideais pelos quais lutou desde a juventude,
assumiu todas as responsabilidades pela defesa da RDA como Estado soberano,
demonstrou a superioridade do socialismo e denunciou o julgamento como mais um
episódio nos "quase 190 anos de perseguições da
burguesia alemã aos comunistas", a todos os lutadores pela paz e
pelo socialismo; transformou os acusadores em réus. Os objetivos da
direita e da social-democracia falhavam, optaram por silencia-lo e o julgamento
terminou com a alegação do seu estado de saúde, como se
tal não fosse evidente desde o início. Faleceu 1994 no Chile
(pátria do seu genro) na companhia deste, da mulher e da filha.
3- The bubble and beyond, Michael Hudson, Ed. ISLET, p. 203
A primeira parte encontra-se em
resistir.info/varios/lei_fundamental_1.html
Este artigo encontra-se em
http://resistir.info/
.
|