Informação em contínuo, jornalismo ausente

por Hassina Mechaï [*]

. Aqui, computadores de ecrãs múltiplos, sabiamente alinhados. Nada de livros, poucos jornais, excepto os incontornáveis Financial Times ou Wall Street Journal, breviários do capitalismo, mais arvorados a tiracolo do que lidos. Nos ecrãs, descarregam-se números bem ordenados da especulação, ordens de compra ou de venda que se realizam sobre produções de que nada sabemos a não ser o valor no momento escolhido para os trocar. Postos em circulação unicamente como valor acrescentado, nada de produzido concretamente, a finança falsamente racional para uma economia que enlouqueceu. Negociantes em pontos fulcrais da finança imaterial do planeta, a economia virtual ao alcance de um simples clique.

Ali, computadores de ecrãs múltiplos, sabiamente alinhados. Nada de livros, poucos jornais, ou então apenas os que contam entre os "fabricantes (ou inventores) de opinião". E, a um canto, uma televisão sempre acesa no canal de informações contínuas do momento. Nos ecrãs, descarregam-se as informações pré-formatadas da actualidade do dia: telegramas prontos para montagem e outros desbastamentos ("bâtonnages), mas também "sites" da actualidade em tempo real e, mais recentemente ainda, "tweets" e redes sociais. Pôr ou repor em circulação "informações" produzidas por outros, apenas com o valor acrescentado de serem postas à disposição, ao alcance de um simples clique.

Jornalistas zombies

A profissão do jornalista, na era da Internet, vê perderem-se lentamente as suas regras de base: já não é preciso procurar, verificar, cruzar as informações. Pura e simplesmente, basta recolhê-las e integrá-la nos interfaces. O sistema de produção da informação, com as suas entregas de telegramas pré-formatados, tem cada vez mais o aspecto de uma comida fastfood em que não se pede que se cozinhe mas que se montem o mais rapidamente possível os ingredientes, em mil-folhas indigestas.

O problema com certos sites de informações, não é tanto que os jornalistas estejam de cócoras diante dos poderes, mas que estejam simplesmente sentados, fisicamente sentados, sempre sentados. Assistimos assim ao nascimento duma nova profissão que será mais de técnico de informações do que de jornalista. Porque na Internet os sites de informações contentam-se sobretudo em publicar um telegrama, acompanhando-o com um título e uma foto o mais atraente possível. E, se isso não chega para preencher o espaço, podem sempre acrescentar-se linhas inteiras de reacções no "twitter", tendências de redes sociais, como se a reacção à informação fosse necessariamente uma informação em si mesma, num caminho sem fim para o abismo. Trata-se simplesmente, para estes jornalistas 2.0, de integrar ligações de hipertextos, apanhados aqui e ali, dando a ilusão de ter realizado um autêntico trabalho jornalístico.

Mas a AFP já criou um serviço específico que propõe aos seus clientes garantir a si mesma o "bâtonnage" (ou a re-escrita) dos telegramas de acordo com a sua linha editorial. É assim uma espécie de serviço que vai ter em conta os desejos dos clientes quanto aos títulos, à iconografia, às ligações inseridas. Uma ilusão de jornalismo que o técnico de informações do site em questão se contentará de integrar no interface, sem ter mais nada que fazer. Uma única ligação a copiar simplesmente.

O turbilhão do vazio

Na era da Internet, a circulação das informações que Bourdieu classificava de circular, tanto os meios de comunicação se alimentam sobretudo dos outros meios de comunicação, acelerou-se profundamente. Traduz-se por um mimetismo quase universal dos sites de informações em linha que reproduzem informações idênticas e intermutáveis. Nada deve ultrapassar e nada pode ultrapassar. Nenhuma vontade humana de uniformização, apenas a lógica de um sistema que quer que todos bebam da mesma fonte.

Mais ainda, certas redacções web compram soluções de detecção de tendências, a fim de figurar no novo templo sagrado do jornalismo que passou a ser o Google news. Isto constitui simplesmente em (tentar) dar aos leitores aquilo que eles desejam ler, confiando a algoritmos o cuidado de o descobrir e de criar uma linha editorial em conformidade.

Para além da linha editorial, o jornalista também vê a escrita de certos artigos disputada por estes algoritmos, de acordo com a última tendência vinda da imprensa anglo-saxónica. Assim, o Los Angeles Times utiliza já fórmulas matemáticas elaboradas para cobrir os faits divers. Segundo o site do Monde Big Browser (18/Março/2014): "Também acontece ao diário americano utilizar algoritmos para cobrir os faits divers. Assim, os jornalistas recebem diariamente um ficheiro enumerando todas as detenções da polícia de Los Angeles. De seguida, há um algoritmo encarregado de identificar as profissões das pessoas detidas – haverá políticos ou celebridades? Também pode verificar quem praticou a infracção mais grave em função do montante da caução e, nessa base, decidir, de acordo com as regras estabelecidas pelo programador, fazer um artigo ou não. Assim, as primeiras linhas do artigo são redigidas por um robô. De seguida, compete ao jornalista enriquecê-lo".

A louca circulação circular das informações manda também para as margens da actualidade todas as informações que não aparecem à superfície da tela – condenando-as à inexistência mediática, ou seja, à inexistência pública e política. Donde esta impressão de ler constantemente as mesmas coisas em todos os sites de actualidades que visitamos. O jornalismo zombie participará desde logo ainda mais num ritual de entre-devoração, alimentando-se uns dos outros, o que desemboca numa actualidade cooptativa, vasta mas vazia. A verdade da informação já não está na verificação e no cruzamento dos factos mas na simples repetição ou retoma da informação [1] [NR] . Frequentemente, o primeiro gesto dos jornalistas de sites não é verificar uma informação mas assegurar-se de que o concorrente directo ou o jornalista do meio de comunicação predominante tratou dela. A simples deontologia já não existe, cada meio de comunicação pode desculpar-se com outro, em caso de erro, alegando que "de qualquer modo, a informação estava por toda a parte".

Realidade mediática e presente perpétuo

Antes da informação vudu, havia o conceito da economia vudu, essa economia louca que pretendia moldar a realidade das trocas humanas. Com a economia vudu, o mundo fica reduzido a ser financeiro, já que a finança é a economia apanhada pelo virtual e pela especulação. Segundo as palavras de Viviane Forrester no seu ensaio, L'Horreur économique, a economia vudu leva a uma civilização que nega o mundo real e "o famoso mundo tal como ele é"; é um artefacto total que impõe o seu poder des-realizante: "Saído duma ideologia, o império especulativo domina, o que destitui a economia".

Se a economia se tornou especulativa sob o jugo da finança, a informação, quanto a ela, tornou-se encantatória, tirando a sua realidade da repetição sem fim que a tela permite. Mas economia e informação têm em comum serem virtuais e imporem o seu poder à realidade, de tal modo que pretendem ambas moldá-la. Com efeito, criadas ambas pela palavra mágica, o "abra ka dabra" hebraico ("crio enquanto falo"), uma outra realidade. Trata-se aqui, através das palavras, através do verbo repetido, insistente, totalitário, de transgredir, de alterar, de influenciar as leis da realidade, da verdade portanto. Pela magia do dispositivo mediático aparecem na vida factos que, no entanto, por vezes não correspondem minimamente à realidade. Tal como o feiticeiro vudu pretende, através de encantamentos mágicos, dominar a realidade biológica, tal como a economia vudu pretende, à custa de encantamentos económicos, moldar a realidade social, a informação vudu pretende, à custa de encantamentos mediáticos, moldar a realidade. [2]

Porque, no fim de contas, os meios de comunicação conferem a todos os acontecimentos – pelo simples facto de os tratar – a qualidade de informação. Os factos que existem, enquanto tais, fora da consciência das pessoas dos meios de comunicação, não podem pois ser tomados em conta senão por sua colocação no mundo mediático, que os tornam um "acontecimento" mediático. Assim, nunca estamos longe da inversão que colocaria que a realidade se reduz à realidade mediática, ou seja, daquilo que os grandes meios de comunicação se apercebem: a actualidade procede da realidade ou a realidade procede da actualidade servida pelos meios de comunicação?

É talvez por isso que os que interrogam a verdade dessa realidade mediática correm imediatamente o risco de se verem rotulados de "conspiracionismo": fora do ponto de vista mediático, que pretende esgotar o real, nada de verdade. E assim como pudemos falar de "economia real" por oposição à finança ou à economia especulativa, poderemos um dia falar da "realidade real" em contraposição à "realidade mediática"?

O dispositivo mediático impõe igualmente um nivelamento dos factos, tendo tudo o mesmo valor numa informação mediática que nega toda a profundidade histórica e toda a temporalidade que exceda a do "furo" e da actualidade imediata. Tendo tudo o mesmo valor, nada mais pois tem importância. Uma loira imitando uma interacção telefónica pode destronar facilmente a crise na Síria ou uma luta de milhares de assalariados contra um plano de despedimento.

Esta realidade mediática vai buscar a sua força na quase-imediaticidade que impõe a informação em contínuo, que apaga todas as fronteiras, todo o regresso reflexivo, tudo o que é posto em causa, toda a historicidade. O depois não existe, o antes já não existe, só conta o presente imediato, tal como é apercebido pelo olho mediático, que segmenta o tempo em sequências autónomas, sem memória e sem ligação. Porque, se o ontem nunca existiu, este sistema mediático não tem responsabilidade e tem sempre razão, neste presente perpétuo. E se o amanhã não existe, tudo é permitido…

18/Abril/2014

Notas
[1] O precedente mais famoso é evidentemente o conhecido assunto das falsas carnificinas de Timisoara. Um jornalista francês enviado especial na Roménia que informou o seu redactor-chefe em Paris que não tinha visto nenhuma dessas carnificinas em Bucareste, recebeu como resposta que procurasse melhor porque todos os meios de comunicação franceses tinham falado nisso.
[2] Abundam os exemplos, entre os quais o mais dramático será talvez a segunda guerra do Iraque, à custa de armas de destruição maciças nunca encontradas e da pretensa implicação de Saddam Hussein nos atentados de 11 de Setembro. Onze anos depois, o resultado duma irresponsabilidade mediática colectiva: 700 mil a um milhão e meio de mortos, êxodo de 2 milhões de iraquianos e um país destroçado pelas tensões religiosas e étnicas.

[NR] Além de inventarem "notícias" (como a do massacre de Timisoara) os media que se auto-proclamam como referência também escondem notícias verdadeiras.   Exemplo: o confisco pelos EUA das reservas-ouro do Banco Nacional da Ucrânia após o golpe que promoveram em Kiev.   Em Portugal, nenhuma estação de televisão nem nenhum jornal corporativo deu esta notícia – silenciamento total.


[*] Jornalista.

O original encontra-se em www.acrimed.org/article4319.html . Tradução de Margarida Ferreira.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
06/Mai/14