Por trás do alarde quanto ao e-comércio

por Rahul Varman [*]

Faltam palavras para descrever a ascensão do e-comércio aos olhos da classe dominante e das classes médias, bem como dos media convencionais. Não se passa nem um dia sem que o sector capture as manchetes e um espaço destacado. Palavras como e-comércio, start-ups e Índia digital, assim como Flipkart, Amazon, Ola e Uber tornaram-se nomes familiares no nosso tempo. Estão a ser apresentados números maciços em termos de investimento, avaliações, etc no sector.

Fala-se do sector como motor de crescimento económico e fonte de "bons" empregos que equivalem às aspirações dos jovens e das pessoas educadas. Também nos dizem que as start-ups e o e-comércio estão a tornar o país inovador e empresarial – e que, pela primeira vez na história, os jovens estão a tornar-se fornecedores ao invés de buscadores de empregos. Após o anúncio do "Start-up Action Plan" do primeiro-ministro Modi em Janeiro deste ano, em meio a muita fanfarra, a assinatura do actual regime, e na presença da galáxia de alto nível de presidentes de empresa e de um grande número de grandes corporações que supostamente são "start-ups" em áreas relacionadas com a Internet, a Forbes India emocionou-se [1] : "Nunca antes na história económica da Índia foi dado ao "empreendedorismo" tamanho palco central por parte do governo e decisores políticos". Aparentemente o e-comércio tem respostas para todos os problemas e todos os males. O governo anunciou recentemente planos para criar um "mercado como a Amazon para agricultores" através da ligação online de mandis, isto é, mercadores agrícolas grossistas [2] . Em Maio, um relatório da PricewaterhouseCoopers patrocinado pelo Facebook [3] proclamava que a economia indiana pode acrescentar US$1 milhão de milhões (trillion) ao seu PIB (o que significa um acréscimo de quase 50 por cento à sua dimensão actual) bastando para isso que o acesso à Internet pudesse chegar a toda pessoa individual, o que quer que isso signifique! O e-comércio também se tornou sinónimo de alta tecnologia e representativo da "nova" economia e da sociedade moderna. Isto aparentemente representa impulsos como participação (sharing) que ultrapassam a mera competição baseada no mercado, o que é chamado de "gig economy". Deste modo, a Ola/Oyo são apresentadas apenas como um meio de conectar aqueles que estão à procura de um certo serviço com aqueles que desejam fornecê-lo.

Em suma, palavras como "start-ups" e "e-comércio" são, para os dominadores, poderosos novos símbolos de uma Índia em ascensão e, supostamente, representam as esperanças e aspirações da nova geração.

Nós a seguir tentamos duas coisas:   primeiro, reunir os factos e apanhar o sentido geral dos desenvolvimentos no sector do e-comércio. Em segundo lugar, examinar criticamente o alarde e as esperanças que estão a ser nele investidos. Para reduzir o âmbito do artigo, primariamente limitamo-nos à discussão de dois domínios básicos do e-comércio que têm atraído um bocado de atenção:   o e-retalho, especialmente companhias como Flipkart e Amazon e os agregadores de táxi como a Ola e a Uber. Na secção seguinte apresentaremos uma visão geral do sector do e-comercio, especialmente o e-retalho e os agregadores de táxi. Na Parte II discutiremos as questões regulatórias em torno do e-comércio, seguida por uma discussão de questões relativas ao empregado ( Parte III ). Na Parte IV mostraremos como toda a coisa está a ser conduzida em função da monopolização e da financiarização. Na secção final ( Parte V ) apresentaremos os seguintes pontos globais:

   1. A força condutora do e-comércio é a sujeição de serviços desagregados como o retalho e o táxi ao controle de corporações e dos monopólios através da tecnologia da informação.
   2. A tecnologia está a ser posicionada para fazer com que as relações reais do capital em relação aos empregados, clientes e estado se tornem invisíveis.
   3. O Estado existe primariamente para disciplinar o trabalho e não para disciplinar o capital.
   4. Para todos os propósitos práticos os altos comandos do e-comércio pertencem ao capital financeiro.
   5. Apesar de tais forças poderosas promoverem o e-comércio, ele está atolado nos constrangimentos estruturais mais vastos da economia indiana.

Os capítulos seguintes são:
I. E-commerce: An Introduction
II. Regulatory Issues & E-commerce in India
III. Employment Practices of E-commerce
IV. Towards Monopolisation & Financialisation
V. Making Overall Sense of the E-commerce Hype
Notas:
[1] Rupesh Mishra, "Everything you wanted to know about Start-up India", Forbes India , 26/2/2016, forbesindia.com/... , acessado em 01/06/2016
[2] "Modi government is creating Amazon-like marketplace for farmers", ET Bureau, Apr 14 2016, timesofindia.indiatimes.com/... , acessado em 08/08/2016
[3] Tanay Sukumar, "India's GDP can rise by $1-tn if everyone gets internet access: Report",  HT , May 30 2016, www.hindustantimes.com/... , acessado em 01062016

[*] rahulv[arroba]iitk.ac.in.   Shikhar Baid e Vikrant Bishnoi trabalharam comigo nos projectos de estudos especiais sobre e-comércio que me ajudaram a aprender muito a respeito. Também agradeço comentários e sugestões de Manali Chakrabarti, Shashi Shekhar, Arun Karthik e Manu Kanchan, da RUPE, acerca de um rascunho anterior. Pradeep ajudou-me amistosamente na elaboração das figuras.


O original encontra-se em rupe-india.org/65/hype.html

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
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