A charada das taxas de juros reais – Parte I

A teoria económica da contradição

por Henry C. K. Liu [*]

Repentinamente, neste verão, todos os olhos do mundo estão apontados para os aumentos das taxas de juros. A expectativa dos bancos centrais, fechando ainda mais o cerco para afastar os efeitos de uma inflação retardada, interrompeu abruptamente a alta especular do mercado de ações gerada por uma anormal ampla liquidez, capaz de gerar um colapso no mercado. Em condições normais os aumentos dessas taxas baixam os preços das obrigações e também os das ações. Mas no corrente boom de liquidez isto está gerando uma persistente curva de rendimentos invertida, com as altas taxas das taxas de juros de curto prazo impactando sobre os rendimentos das obrigações de longo prazo, mas deixando os preços das ações mais altos do que os fundamentos dos mercados possam justificar.

Mesmo porque, na hipótese de que taxas de juros mais altas possam reduzir a liquidez para reverter os aumentos em bolsas, tal fato não irá deter o declínio real do dólar, como seria de se esperar. A anômala combinação de aumento das taxas de juros e dos sobre-preços das ações é explosivo bastante por si mesmo; mas acrescentado-se a este fato a impotência chocante de que altas taxas de juros não são suficientes para conter o declínio do dólar, temos como resultado uma instável mistura de uma mortal dinamite financeira em vias de ser detonada, mesmo por razões menores e aparentemente distantes.

Normalmente, altas taxas de juros elevam o câmbio de uma moeda, reduzem os preços de importação e reprimem, assim, uma inflação. Esta repressão é um dos benefícios compensatórios de uma rígida política monetária, que, por outro lado, torna mais lenta a economia. Aportes de capital são ainda atraídos por altas taxas de juros.

Mas o dólar não é uma moeda normal. É uma moeda fiat [1] , irresgatável e oficialmente decretada moeda corrente, que pode ser produzida à vontade pelos EUA e que não tem atrás de si nada com valor intrínseco, tendo já assumido o papel de uma moeda de reserva para o comércio e finanças internacionais. A característica sem igual do dólar é a que se assenta por trás da sua hegemonia.

As fiat moedas no mundo formam uma cobra e o dólar é a sua cabeça. Quando o fiat dólar declina em valor no logo prazo, como expresso em seu minguado poder de compra, todas as outras fiat moedas declinam com ele, devido à hegemonia do dólar em relação à arquitetura monetária das finanças internacionais; embora algumas moedas possam declinar nessas condições mais rapidamente devido as várias condições locais tais como diferentes taxas de juros e inflação. Nesses casos o mercado registra a alta do dólar em relação à essas moedas, enquanto em realidade, todas as moedas estão seguindo o dólar em seu persistente declínio líquido em relação aos ativos reais. As torcidas organizadas dos mercados então desqualificam a persistente elevação dos preços dos investimentos em relação à queda regular do valor da moeda como um sinal de boom de bons negócios numa alegada dinâmica economica global guiada pelo boom de liquidez dos EUA.

Simultaneamente, algumas moedas podem declinar menos em poder de compra em relação ao dólar, causando no mercado uma visão destas moedas como subindo em valor cambial com o dólar, quando, na realidade, elas estão declinando em valores reais. A divergência temporária ou convergência dos valores de câmbio entre as moedas, devido algumas vezes às ineficiências ou aos excessos do mercado, é que tornam lucrativa a arbitragem entre moedas, embora com o correspondente risco de perda.

Esta tendência global de declínio no valor das moedas tem prosseguido por diversas décadas na arquitetura da corrente internacional financeira e tem distorcido a histórica e convencional relação das taxas de juros, inflação e crescimento econômico. Esta distorção manteve os banqueiros centrais procurando desesperadamente, se não novas, até mesmo "novas" redescobertas de teorias econômicas, para construir aperfeiçoados algoritmos para guiar sua deliberação sobre política monetária, no novo paradigma econômico.

O NOVO GURU DO FED

The Wall Street Journal em 3 de outubro de 2000 publicou que o Federal Reserve, banco central americano então sob a presidência de Alan Greespan, ultimamente estava sob a influência da visão do economista sueco Johan G. K. Wicksell (1851 – 1926), especificamente nas relações entre taxas de juros, inflação e crescimento econômico. Wicksell argumentava que a política monetária contem melhor a inflação ao determinar as taxas de juros, não no nível da oferta de dinheiro como sugerem os livros de teoria economia neoclássica, mas sim no nível na taxa de retorno do investimento. Alguns críticos descrevem o novo capricho do FED ao se aconselhar com um finado, que nunca teve sequer uma chance de analisar os dados de hoje: Wicksell morreu três anos antes da queda de 1929.

Greenspan fez sua famosa fala da "exuberância irracional" no conservador American Enterprise Institute em Washington DC, em 5 dezembro de 1996, quando o "Dow Jones Industrial Average" (DJIA), índice Dow Jones, estava em 6.442, quase duas vezes mais do que o índice da pré-queda de 1987, de 2.722. Menos do que há um ano, em 31 de janeiro de 1996, o FED diminuiu a prime rate, [2] "FED Funds Rate – FFR", em 25 pontos base, de 5,5% a 5,25% para adicionar liquidez à mesma "exuberância irracional" que Greespan posteriormente fez a advertência contra. O FED não elevou a prime rate até quatro meses após a advertência de Greespan e então o fez apenas por 25 pontos base, retornando a 5,5%, em 25 de março de 1997.

Não surpreendentemente, o mercado continuou subindo a despeito das advertências de Greespan e no dia 14 de janeiro de 2000, com a prime rate ao nível de 5,5%, o índice Dow Jones chegou ao irracional nível de 11.723, elevando-se outros 83,5% acima do nível de alerta de Greespan. Mas o Produto Interno Bruto - PIB apenas subiu de $7,8 milhões de milhões em 1996 para $9,8 milhões de milhões em 2000, ou 25,6 %. O índice Dow Jones subiu três vezes mais que o PIB nos quatro anos após a advertência de irracionalidade de Greespan. Só podemos concluir que o dólar tenha declinado seu valor em 54,7 % naquele período.

Dois meses depois, após algumas "correções de um secular bull market " no qual as perdas eram apagadas por subsequentes ganhos, o índice Dow Jones teve, em 14 de abril de 2000 a maior elevação na história, 499,19 pontos, fechando em 10.630,60. Em 14 de abril de 2000, 22 dias depois. o índice Dow Jones despencou 617,78 pontos, fechando em 10.305,77, historicamente a mais alta queda em um só dia, mas o índice Dow Jones estava ainda 50% mais alto que os 6.442 pontos relativos á admoestação de Greespan sobre a exuberância irracional, há 4 anos. Esta volatilidade veio puramente das especulativas forças operando numa bolha de liquidez. A economia real não mudou nesses 22 dias de operação.

TAXAS DE JUROS E ELEIÇÕES

O FED na sua reunião de conselho a 3 de outubro de 2000, no mesmo dia da reportagem do Wall Street Journal sobre Wicksell, com o índice fechando a 10.719,74, deixou a prime rate a 6,5%, mantendo a inflação ajustada pela taxas de juros reais de curto prazo em sua alta histórica. Esta decisão deixou a prime rate em seu alto limite histórico e os Democratas com uma anêmica economia, a despeito do superávit fiscal e dos robustos ganhos das corporações sob o governo Clinton, nos meses cruciais antes das eleições presidenciais em Novembro. Embora uma diminuição da prime rate tenha sido garantida pela sabedoria convencional com base nos dados econômicos da semana e também pelos agouros dos principais indicadores econômicos, a prime rate manteve-se alta porque o mercado acreditava que o FED teria que cortar esta taxa logo em seguida, para prevenir uma profunda correção de mercado.

Quando saiu desta situação o FED não baixou a prime rate até a reunião de conselho de 3 de Janeiro de 2001, após a Suprema Corte ter arrebatado uma quase vitória dos seguidores israelitas do candidato democrata Al Gore e entregado uma amarga e contestada Casa Branca ao Republicano George Bush. O FED então diminuiu a prime rate por, mais largo do que o usual, 50 pontos, para 6%, para começar um largo ciclo de diminuição de taxas, com 13 mais cortes em 30 meses, para atingir um mínimo de 1% em 25 de junho de 2003, empurrando a prime rate de curto prazo abaixo da neutralidade ou melhor abaixo da taxa de inflação, alimentando uma multi-anual bolha de crédito.

Apenas cinco dias após a prime rate atingir a histórica baixa de 1%, o FED, numa epifania retardada na descoberta dos perigos da inflação que tinha sido visível porém não levada a sério por algum tempo, reverteu o curso e aumentou a prime rate em 25 pontos base, seguida por mais uma seqüência de 18 aumentos equilibrados, até chegar a 5,25% em 29 de junho de 2006 e a manteve constante por 11 meses até agora, sem sinalizar o fim à cautelosa pausa das variações da taxa de juros, estendendo um boom de liquidez que cria uma charada na política de fixação das taxas de juro.

CHARADA É OUTRO NOME DA CONTRADIÇÃO

Mestre Greespan confessou publicamente que, com toda sua reconhecida sabedoria, ele não podia entender porque as taxas de juros de longo prazo estiveram baixas a despeito de uma alta prime rate, enquanto a curva invertida de rendimentos tenha sido obviamente causada pelo FED em suas próprias ações prévias de oferecer muito crédito no sistema. Este crédito fácil canalizou um déficit externo o qual, devido à hegemonia do dólar, foi reciclado como um superávit das contas de capital no Tesouro Americano, empurrando as taxas de juros de longo prazo para baixo. Esta tendência prossegue e é exacerbada por uma liquidez endógena gerada internamente por securitização de débitos e hedging através de derivativos. O que determina as taxas de juros de longo prazo é uma liquidez monetária sustentada ou excesso de dinheiro já no sistema, a partir de prévias taxas de juros de curto prazo muito baixas e que permanecem por longos períodos; mas o subsequente gradualismo do FED nas elevações das taxas de curto prazo com data certa não poderia ser capaz de parar rápida e efetivamente o "momentum" em baixa das taxas de juros de longo prazo.

DETERMINAR O TEMPO NAS ELEIÇÕES

Em 9 de novembro de 2004, no dia da eleição para o segundo mandato de Bush, a prime rate estava em 1,75%, ainda bem abaixo da neutra, com os Índice de Preços Daw Jones chegando à alta incrível (bullish) de 10.386,37, dando a Bush um mercado temporário altista ( bull market ), se não "uma forte economia auto sustentada" para obter uma vitória fácil em relação à seu desafiante John Kerry, com o FED mantendo uma interna cara de pau como sendo uma instituição apolítica que opera nos verdadeiros princípios científicos monetários. O FED elevou a prime rate a 2% em sua primeira reunião após a eleição presidencial, quando era politicamente seguro elevar as taxas e mante-las subindo até a corrente taxa de 5,25 %.

O Índice de Preços Dow Jones fechou em 10.719,74 no mesmo dia da publicação Wicksell-Wall Streeet Journal, em 3 de outubro de 2000, tendo quebrado os psicológicos 10.000 pontos pela primeira vez na história em 19 de março de 1999. O Índice de Preços Dow Jones havia subido 50% desde sua prévia baixa de 7.161,15 registrada em 27 de outubro de 1997, quando sofreu uma grande baixa de 554,26 pontos, ou, 7,2%, por contágio pela Crise Financeira Asiática.

No dia 4 de junho de 2007, desafiando persistentes notícias de uma fraca economia, o índice de preços subiu 91% em relação a baixa de 1997, para fechar num recorde absoluto de 13.673.

O SANGRENTO EXPERIMENTO DE VOLCKER

Os monetaristas, que têm dominado o FED na maior parte de sua história, subscrevem a teoria de que a inflação só pode ser prevenida ou com altas taxas de juros, que reduzem o crescimento ao reduzir o crescimento da oferta de dinheiro, ou com alto desemprego para a redução de salários, que são na verdade, duas faces da mesma moeda. Wicksell argumenta que a política monetária trabalha melhor para conter a inflação fixando-se a taxa de juros ao retorno sobre o investimento, ao envés da oferta de moeda.

À teoria de Wicksell foi dada credencial empírica em 1980 com o breve experimento do Presidente do FED Paul Vocker, que procurava atingir a base monetária com seu automático ajuste de taxas de juros através de seu "procedimentos em novas operações". O desastroso e ruinoso resultado da violenta flutuação da prime rate forçou o FED a deixar cair pouco a pouco a mal sucedida proposta imprópria de Volcker depois de aproximadamente seis meses.

O "novo procedimento operacional" foi adotado em 6 de outubro de 1979 pelo FED, sob a presidência de Paul Vocker, como um tratamento terapêutico de choque para a Wall Street, que havia sido condicionada a perder fé na ação política do FED para conter a inflação por seu antigo presidente Arthur Burns, político imprudente e oportunista da era Nixon, nos anos 70. O "novo procedimento operacional", ao concentrar-se nos agregados monetários, deixando-os ditarem as mudanças da prime rate num intervalo de 13 a 19%, a serem autorizados pelo Comitê do Mercado Aberto do FED (FOMC - Fed Open Market Committee), era um exercício de "incerteza criativa" para forçar o mercado financeiro a sair da sua complacência quanto à política tradicional de estabilização e gradualismo das taxas de juro do FED.

Havia uma tradicional expectativa no mercado que mesmo que o FED estivesse para elevar as taxas ele o faria tão gradualmente, para não permitir a volatilidade do mercado, que os bancos poderiam continuar a emprestar na medida em que pudessem gerenciar lucrativamente o aumento gradual das taxas.

Sob os "procedimentos em novas operações" os bancos estariam expostos a riscos tais que as taxas de juros poderiam súbita e drasticamente ir contra mesmo às suas posições de crédito a curto prazo. Os bancos também estiveram procurando aumentar seus rendimentos expandindo novos empréstimos além dos depósitos recebidos, emprestando fundos de curto prazo a baixas taxas de juros. Esta prática recebeu dos reguladores bancários o benigno nome de "responsabilidade gerencial", permitindo aos bancos lucrar em spreads acima da curva de rendimentos. O FED raramente, se tanto, havia permitido que a curva de rendimentos se apresentasse invertida, quais sejam, taxas de curto prazo maiores do que taxas de longo prazo, ao menos por longo tempo.

Esta prática de arbitragem em taxas de juros veio a ser depois chamada de carry trade no jargão bancário e quando internacionalizada levou eventualmente à crise financeira asiática de 1997, quando as taxas de juros e a volatilidade das taxas de câmbio tornaram-se o novo paradigma para turvar os mercados de participação e de moedas.

Os "procedimentos em novas operações" teria aumentado bastante o risco de exposição dos bancos, ao menos antes da muito difundida prática da "loan securitization" (proteção aos empréstimos) que mudou os riscos bancários individuais para um risco sistêmico do mercado financeiro completo. No topo de tudo isto, Volcker também estabeleceu um adicional de 8% de reserva nos empréstimos bancários. Os "procedimentos em novas operações" violaram o tradicional mandato do FED, o qual, como um banco central, era suposto ser responsável por manter o mercado em ordem, o que significa serenas e graduais mudanças nas taxas de juros, o que, por seu turno, manteria a flutuação do suprimento de moeda moderada e gradual, de modo que os preços não estariam excessivamente desligados dos fundamentos do mercado. Os "procedimentos em novas operações" eram políticas para provocar ameaças de severas panes de curto prazo para estabilizar a expectativa de inflação de longo prazo.

Muitos economistas concordam que quando o crescimento da moeda é baixo, os juros de mercado aumentam. O problema com o uso da prime rate para controlar o suplemento de moeda é que isto devia ser feito através do processo fiat money, o que expunha o FED a pressões políticas para deter o boom de liquidez que sempre acompanhava este processo. Um "case" pode ser levantado, e é freqüentemente levantado, que as variações da prime rate tendem a ser profecias auto-cumpridas ao invés de uma ferramenta para manejar futuras tendências. do FED. Altas prime rates deflacionam enquanto baixas prime rates inflacionam e há poucos argumentos a respeito desta relação, ao menos antes da era das "finanças estruturadas" quando moeda virtual pode ser criada dentro de uma sistema circulatoriamente fora do controle do FED. Sob as "finanças estruturadas" altas prime rates podem realmente inflar porque elas elevam o custo do dinheiro necessário para proteção através do hedging e na feitura de lucros através da arbitragem financeira.

Mas há muitos argumentos a respeito da competência do FED em suas projeções na economia. A história mostrou que o FED, muito freqüentemente, tem tomado decisões erradas baseadas em projeções errôneas, que as vezes margeia na cega contradição porém com base em dados claros. Os "procedimentos em novas operações" deixariam os agregados monetários estabelecer a prime rate cientificamente e dariam uma cobertura política para ela fosse a dois dígitos. Isto atinge o monetarismo pela porta traseira, não por heróica convicção intelectual mas por covardia política.

O Conselho Federal Consultivo ("Federal Advisory Counsil – FAC") do FED ("Federal Reserve Board") é único, uma instituição peculiar, porque é um gigantesco lobby bancário composto por doze representações da indústria bancária que oficialmente dá consultoria ao FED: é toda uma poderosa Instituição pública com a força da lei, mas tendo como proprietários, os bancos privados. A FAC se reúne secretamente quatro vezes ao ano com os membros do FED para dar à industria bancária uma particular rota de influência nas deliberações ou nas próprias decisões do FED. As ainda não secretas anotações da FAC mostram que quatro semanas antes dos anúncios de Volcker sobre os "procedimentos em novas operações", em 6 de outubro de 1979, a FAC tinha recomendado ao FED uma revisão de seu "tradicional" procedimento operacional, antes mesmo que o presidente do FED estivesse alerta sobre as deliberações e decisão final de adotar os "procedimentos em novas operações" . Inicialmente a FAC estava preocupada que a pressão política iria por certo empurrar a prime rate para baixo, não antecipando que o suprimento de moeda se tornaria volátil criando uma extrema volatilidade nas taxas de juros. Carter, preocupado com a crise dos reféns do Irã, estava totalmente no escuro sobre a ameaçadora política das voláteis taxas de juros com a qual o FED sobre a presidência de Volcker, um republicano, estava a atingir a administração democrática de Carter, em direção à sua segunda eleição, em um ano.

Para estabilizar o suprimento de moedas o FED anunciou em 14 de marços de 1980 um programa de emergência do controle de crédito. O programa afetou não apenas os bancos comerciais mas também os fundos mútuos e companhias de varejo (retalho) que emitem cartões de crédito. Os bancos estariam limitados a 9 % de crescimento de seus créditos ao invés de 17% até fevereiro. Em abril, o FED ficou chocado pelos dados que davam o dinheiro como desaparecido do sistema financeiro numa alarmante e rápida velocidade. Nas últimas duas semanas de março $17 mil milhões desapareceram, representando um grau de encolhimento anual de 17%, gerando uma mudança de 34% na oferta de moeda. A moeda estava a evaporar-se do sistema bancário como crédito estéril, com os devedores pagando seus débitos em resposta à persuasão moralista de Carter que visava salvar a nação da hiper-inflação através da restrição pessoal ao consumo. Outra causa era a mudança dos depósitos bancários para as Notas do Tesouro de três meses, que estavam pagando 15% ªª de juros, causando uma saída da moeda de novo para a caixa forte subterrânea do FED.

Os "procedimentos em novas operações" de Volcker, adotado seis meses antes, agora enfrentava um teste crítico. De acordo com a teoria monetarista, o FED agora precisava bombear novas reservas bancárias para parar a contração da oferta monetária. Mas na prática, Volcker e o Comitê do Mercado Aberto do FED (FOMC - Fed Open Market Committee) estavam aplicando um monetarismo, o qual, por definição, deveria ser uma política de longo prazo, para turbulência de curto prazo e no processo minaram seus próprios esforços na luta contra a hiper-inflação e pior ainda, desestabilizaram a economia desnecessariamente. Quando os mortais fazem-se de deuses, outros mortais morrem, não necessariamente.

Em 6 de maio de 1980, com o Balcão do Mercado Aberto de Nova Iorque ("New York Fed´s Open Market Desk") furiosamente tentando reverter uma devastadora contração da oferta monetária, bombeando dinheiro no sistema, comprando títulos do governo e depositando os fundos nos bancos para criar nova moeda adicional de alta potência, aumentando a reserva dos bancos para empréstimos, os juros caíram repentina e abruptamente. A prime rate caiu 500 pontos em duas semanas, de 18% para 13%, seu nível mais baixo, e estava sendo realmente negociada em 1 ponto abaixo da mais baixa taxa prevista pelo Comitê do Mercado Aberto do FED (FOMC) nos "procedimentos em novas operações".

DIZENDO AO COMBOIO MONETÁRIO PARA IR EM DIREÇÕES OPOSTAS SIMULTANEAMENTE

O FED estava em perigo de perder o controle da prime rate no mercado e pondo em risco sua própria credibilidade. O FED de Nova Iorque notificou o Comitê do Mercado Aberto do FED (FOMC) que o FED poderia continuar a seguir os "procedimentos em novas operações" injetando mais reservas nos bancos para deixar a "prime rate" cair abaixo do baixo limite estabelecido pelo Comitê do Mercado Aberto do FED (FOMC) ou restringir o suprimento de reservas para fazer com que a prime rate atingisse de novo os 13% estabelecidos por este comitê, mas que não poderia seguir ambas as alternativas, assim como um trem não poderia ir em direções opostas simultaneamente.

Volcker optou por continuar os "procedimentos em novas operações" e arranjou um telefone para conferência de emergência junto à FOMC para autorizar uma nova mais baixa prime rate de 10,5%, menor do que prime rate de 13%, mas abaixo da taxa de inflação de 12%.

As condições do mercado eram tais que as taxas de juros caindo abaixo de 10% significariam estar abaixo do neutro, com taxas de juros negativas após o ajuste inflacionário, o que faria com que se iniciasse uma outra farra de empréstimos para piorar as futuras inflações. A falha fundamental do monetarismo estava sendo exposta pela vida real. O clamor para estabilizar a oferta de moeda e que também estabilizaria as taxas de juros, estava mostrando-se inoperativo nos eventos econômicos. Na realidade, tentativas para estabilizar a oferta monetária realmente desestabilizavam as taxas de juros e as puxavam para baixo num mercado dinâmico de rápida reação, num ambiente de contração de liquidez.

Desesperado, o FED, sob o comando de Volcker, com a concorrência de uma Casa Branca de Carter atacada de pânico, começou a desmontar o Controle Emergencial de Crédito mais rapidamente do que as medidas administrativas o permitiam; assim, a demanda por crédito não seria artificialmente fechada, na esperança de fazer com que o mercado de taxas de juros subisse a partir de mais empréstimos. Assim ficamos até julho de 1980, antes de que o derradeiro controle de crédito fosse levantando. Em abril passado, o FED de Nova Yorque tinha injetado reservas adicionais no sistema bancário numa taxa anual de 14% e em maio numa taxa anual de 48% em reservas não emprestáveis, empurrando as taxas de juros para baixo e preparando o terreno para a futura inflação.

É obvio que Volcker ficou apavorado e assombrado pelo imediato colapso econômico provocado por seu próprio programa de controle de crédito que pararia o crescimento de oferta de moeda. Na última semana de julho, a prime rate caiu abaixo de 13%, ou seja, 8,5% a menos do que os 20% de março. Num dia de negociação ela mergulhou a 7,5% e foi nestas circunstâncias que o FED perdeu o controle. A taxa de curto prazo que a política monetária regulava mais diretamente estava livre e flutuando para baixo a seu bel prazer, sem articulação com a prime rate estabelecida pela Taxa de Juros Federal do FED (FFR - Fed Federal Rate). Com uma prime rate abaixo da taxa de desconto, ela poderia ser zero por bancos que respondessem às forças do mercado. Assim a pressão para abaixar a taxa de desconto era esmagadora. Os mercados financeiros jamais haviam visto nada como isto. O mercado financeiro tornou-se um jogo no qual os guardas foram reunidos em sua torre enquanto os ocupantes deixavam o hospício.

CORRIGINDO A ULTRAPASSAGEM DO LIMITE COM NOVA ULTRAPASSAGEM

A prime rate caiu de 20% em abril para 8,5% em 10 semanas, banindo efetivamente o gradualismo nas taxas de juros para locais menos povoados. No outono de 1979 o FED tomou a iniciativa de puxar para cima o preço do dinheiro em 100%, para lutar contra a inflação. Agora abertamente, sete meses depois, o mesmo FED, deixou o preço do dinheiro cair ainda mais rapidamente, para reverter a contraída oferta de moeda, dando uma importância pequena à inflação-torpedo, que viria com frenesi à frente, com toda a velocidade, num mar de liquidez. A recessão abruptamente chegou ao fim devido à reação desmedida do FED e Volcker, o auto-ordenado matador do dragão da inflação, tornou-se de um dia para outro um criador de bebês-dragões, de DNA inflacionário ainda mais agressivo e a economia enfrentava uma inflação pior e problemática devido à sua imunidade às taxas de juros do que quando o mesmo assumira a presidência do FED há menos de um ano.

Muitos negócios que eram lucrativos durante um regime constante de taxas de juros foram à bancarrota durante o breve período da súbita volatilidade da liquidez produzida pelo FED, mas os bancos dançavam nas ruas com os lucros trazidos pelos ventos e com o excesso de caixa para emprestar. O experimento "procedimentos em novas operações" de Volcker colocou de novo o FED em sua trajetória original: foco nas taxas de juros e não nos números do suprimento de moeda, jurando novamente focar apenas no longo prazo. Até para o longo prazo, o suprimento de moeda era o correto barômetro, enquanto para o curto prazo, a taxa de juro era a ferramenta apropriada. O FED pareceu não ter aprendido nada, a despeito de ter feito a nação e o mundo pagar uma instrução bastante cara.

A política das altas taxas de juros de Volcker ocasionou que o dólar subisse nos mercados externos, fazendo as exportações norte-americanas se tornarem menos competitivas, porém menos caros os seus investimentos. A elevação nos preços de importação era moderado pelas baixas taxas de lucro disponível aos importadores estrangeiros cujos ganhos em dólares agora valiam mais em suas moedas locais.

Ao invés de reestruturar a economia dos Estados Unidos e reformar os termos do comércio globalizado para endereçar-se ao suporte do déficit estrutural de sua balança de pagamentos, o secretário do Tesouro James Baker, com Reagan Presidente, optou pela maneira mais fácil e engenhou o "Plaza Accord" em 22 de setembro de 1985, para empurrar o dólar para baixo pela intervenção combinada dos bancos centrais dos Estados Unidos e Japão, e Alemanha, França e Inglaterra. Duas semanas antes, em 6 de setembro, o FED elevou as taxas da prime rate em 25 pontos base para 8%, de 7,75% estabelecida em metade de julho, pondo uma pressão de alta no dólar, a despeito do Tesouro estar tentando empurrar o dólar para baixo.

O "Plazza Accord" quando finalmente posto em prática com a intervenção do banco central, empurrou o yen japonês para baixo acima de 50% contra o dólar. Mas isto teve pouco efeito visível no déficit da balança de pagamentos dos EUA. Permitiu, por certo, aos EUA exportar deflação ao Japão, usando a baixa taxa de juros do dólar para impulsionar nominalmente os valores dos seus ativos.

O "Plazza Accord" desuniu a taxa de juros do dólar de sua taxa de câmbio, e também a tradicional ligação entre o aumento das taxas de juros e a queda dos preços dos papéis participativos.

A revista Time publicou em 26 de janeiro de 1987 que John Makin, diretor de estudos de política fiscal da "American Enterprise Institute" de Washington, argumentou que o valor do dólar era "totalmente irrelevante. Se o déficit do orçamento não o iria empurrar para baixo o suficiente, o déficit na balança de pagamentos também não o iria." Sidney Jones, um economista do "Brookings Institution", também advertiu do perigo se a taxa de câmbio do dólar continuasse a servir como o principal instrumento no controle do balanço de pagamentos: o risco de que a inflação, cerca de 2% em 1986, fosse subitamente despontar. "Uma vez que subam aqueles preços de importação, então você poderá safar-se aumentando os preços domésticos. Este é provavelmente um grande risco da inflação, maior do que simplesmente aumentar os preços dos produtos importados," – Jones foi citado falando. Até agora a Casa Branca passou uma altamente restritiva conta de comercio externo para todos; mas isto tem sido protelado pelo Senado (controlado) da República, favorável ao comércio externo.

A CHINA ENTRA NO QUADRO DO COMEacute;RCIO

Como era de esperar, a mesma paixão pelo jogo comercial do Japão, há duas décadas, está agora sendo desenvolvida pela China. E se a China submeteu-se, como fez o Japão, à pressão dos EUA para revalorizar sua moeda contra o dólar, a China vai fazer frente a décadas de deflação, como fez o Japão. A China começou sua reforma econômica e sua política de abertura para o exterior em 1978 e uma boa parte do excesso global de liquidez resultante da reciclagem das rendas do petróleo após a crise do petróleo de 1973 foi para a China após 1978, e também para outras economias na Ásia, fundando os "Newly Industrializad Countries (NICs)", conhecidos como os Tigres Asiáticos, ávidos para comercializar com e investir na China. Por quase três décadas, a China foi conduzida num meio de altíssima liquidez, criada pela ação secreta de desvalorização do poder de compra do dólar, pelo FED dos EUA.

Ironicamente, pânditas de todas as cores tem desde então aplaudido a China por sua sabedoria em adotar o capitalismo de mercado como trajetória para sua fuga da pobreza, enquanto todo o mundo tem-se tornado viciado no dinheiro fácil denominado dólar de valor decrescente, que atualmente produz de cada um um pobre em termos reais, só que alguns se tornam mais rapidamente, e por comparação, mais pobres. Pateticamente, os economistas neoliberais caíram sobre si próprios saudando o poder de erradicação da pobreza do fundamentalismo de mercado.

O LOGRO DA IGUALDADE DE RENDAS

J. Bradford DeLong, como professor de economia da Universidade da Califórnia e ex-assessor de Clinton, atraiu as atenções ao alegar, em artigo de fevereiro de 2001, "A Distribuição de Rendas no Mundo Está Virando a Esquina?" (The World"s Income Distribuition: Turning the Corner?), que a distribuição global de rendas está tendendo à igualdade, através da globalização. Tal alegação não apenas toca a face do Banco Mundial, com seus Coeficientes de Gini que medem as des(igualdades) de renda na economia, mas ignora o fato de que todos os salários estão caindo globalmente em seu poder de compra, mesmo se subindo nominalmente, melhorando a igualdade estatística, como salários nominais, nas alterações para mais das economias pobres, que sobem numa maior velocidade porque elas partem de uma base mais baixa, quer seja em termos nominais ou reais.

A ideologia neoliberal afirma que a desigualdade é o resultado da pobreza e que quando a pobreza é aliviada a desigualdade retrocede. Esta asserção nega a possibilidade da desigualdade por si mesma causar a pobreza, não como um resultado de um jogo de soma zero, mas como um abafador na demanda de consumo numa economia global contaminada pela supercapacidade de produção. O comércio externo globalizado, melhor que o desenvolvimento doméstico, tem sido aclamado pelos economistas neoliberais, como a solução para ambas, a desigualdades e a pobreza. A oposição à globalização pelo mundo pobre tem sido rotulada como tolice pelas correntes neoliberais que mantêm o poder de monopólio na mídia, em desprezo pela evidente condição da pobreza decorrente destas razões.

O MODELO HARROD-DOMAR DE DESENVOLVIMENTO

Os economistas neoliberais apontam o Modelo Harrod-Domar de crescimento econômico para argumentar que uma distribuição desigual de renda promove um mais rápido crescimento econômico e um maior emprego, porque os ricos poupam mais do que os pobres, de tal forma que um maior volume de poupanças domésticas irá aumentar o estoque de capitais disponíveis para investimentos; e a acelerada formação de capitais irá fazer crescer o produto interno bruto e as resultantes rendas, um círculo virtuoso dando como resultado maiores poupanças. Então, desigualdades de rendas, mesmo com pobreza generalizada, é considerada como boa para o desenvolvimento, não como um compromisso transitório, mas como uma permanente necessidade estrutural. Este é essencialmente o modelo FMI/OMC de fundamentalismo de mercado, desde então desacreditado pelos dados fatuais.

Até mesmo Deng Xiao-ping, supremo líder da reforma econômica chinesa, caiu nesta falácia e aceitou a necessidade de "algumas pessoas tornarem-se ricas primeiro".

Afirmativamente, a palavra "primeiro" logo desapareceu das deliberações da política econômica chinesa, até ser demasiado tarde. Finalmente, as novas lideranças da China estão há tempos chamando a atenção sobre o problema das disparidades de renda, primeiro, entre a população e segundo, entre regiões, mas a tarefa é cada vez mais hercúlea pelas duas décadas de longa solidificação de uma superestrutura política e burocrática engastada com a poderosa resistência dos interesses especiais daqueles que ficaram ricos primeiro e querem ficar mais ricos permanentemente.

Não obstante o modelo de Harrod-Domar poder não ser operativo num mundo infestado por capacidades em excesso devido ao sobre-investimentos, e insuficiente demanda devido à desigualdade de rendas, o modelo omite o fato de que, sob o capitalismo financeiro globalizado, mesmo a poupança dos ricos em economia pobres são sifonadas para os mercados de capitais americanos, esgotando a economia local dos capitais desesperadamente necessários. A abundância do dólar global no contexto da hegemonia do dólar que o presidente do FED, Ben Bernanke, interpretou mal como a abundância da poupança global é a evidência viva contra a validade do modelo de Harrod-Domar de crescimento econômico. As desigualdades de renda nas economias que exportam para os EUA prevêem formação de capital apenas para os EUA ao financiar uma conta superavitária de capital norte-americano com os superávites correntes que essas economias conseguem no comércio exterior.

Tal situação eleva o custo do capital para as economias exportadoras que tem que oferecer retornos drasticamente mais elevados que o retorno que eles obtêm dos EUA e seu soberano débito, meramente para induzir o seu próprio capital que volte para casa.

E ainda assim, o capital flui apenas para o setor exportador para ganhar mesmo mais dólares, que pagam capitais estrangeiros denominados em dólares, colocando essas economias numa perpétua desvantagem competitiva na obtenção de capitais globalizados. A China é o perfeito exemplo de uma economia em rápido crescimento apanhada nesta armadilha. Procurando resultados melhores do que seus dólares em reserva obtêm do Tesouro dos EUA, a China está começando a perseguir o assim chamado "investimento alternativo" em empresas privadas de alto risco enquanto continua a encarar deficiência de capital em suas regiões rurais e na maior parte de seus setores não exportadores.

A MIRAGEM DO CRESCIMENTO DO PIB

Na metade dos anos 60, a teoria equacionando o crescimento interno com o crescimento do PIB não estava ainda empiricamente apoiada pela evidência. O PIB atribui lucros ao país onde fábricas ou minas ou instituições financeiras estão localizadas, não fazendo menção da nacionalidade do país proprietário, mesmo que lucros e investimentos possam não estar permanentemente neste país. A mudança na contabilidade do PNB – Produto Nacional Bruto, que mede o valor total adicionado pelas economias interna e externa, declarada pelos residentes de um país, para o PIB, mudou muitos debates: não se falou mais de economias exploradas, mas sim em estatísticas de boomtowns enquanto se seduziam os líderes locais a abraçar a economia global, seus países deslizavam para uma pobreza maior.

Mas tais micro evidências têm sido sistematicamente rejeitadas pelas principais correntes da economia, porque elas vão além do predominante macro paradigma da globalização do comércio, a qual é considerada intelectualmente incontestável e ideologicamente correta. Além disso, a evidência vai contra o poderoso interesse econômico das ricas economias e é rejeitado como o resultado de um déficit da democracia. Nas regras do desenvolvimento, o capital é tratado como mais escasso do que o trabalho sendo o mais precioso fator de produção; os donos do capital são logicamente justificados por receber uma maior parte dos benefícios do desenvolvimento.

Lawrence Summers, como economista chefe do Banco Mundial, usou um argumento econômico similar para descarregar a poluição das economias avançadas nas economias em desenvolvimento, de modo a conseguir um custo geral mais baixo, globalmente.

O único problema com esta pervertida aproximação do custo-benefício para a economia do bem estar, é que isto não é verdade. O desenvolvimento ótimo requer capital e trabalho para ser considerado legítimo e ter valor eqüitativo; assim a oferta e demanda têm que estar em equilíbrio e toda a existência humana deve ser tratada com igualdade porque muitos no mundo já reconheceram que o aquecimento global não reconhece economias ou fronteiras nacionais.

COMPRADORES CATIVOS DO DÉBITO SOBERANO DOS EUA

Em 1995, um ano após o FED ter começado o grande passeio com a prime rate e abruptamente ter reduzido suas próprias compras das notas do tesouro americano, disparando a crise do peso mexicano e a subseqüente diminuição do crescimento dos EUA, o Banco do Japão iniciou o programa de uso de suas moedas externas, comprando $100 mil milhões de notas do tesouro americano. A China comprou $80 mil milhões. Hong Kong e Singapura compraram $22 mil milhões. Coréia, Malásia, Tailândia, Indonésia e Filipinas, compraram $30 mil milhões. As compras da Ásia totalizaram $260 mil milhões de 1994 a 1997, um crescimento inteiramente em dólares dos EUA, mantidos em reserva.

Em 1995, o leste da Ásia sustentou 47% dos fluxos de capitais para todos os países de baixa e média renda. Somente em 1996, cerca de $100 mil milhões fluíram o para leste da Ásia, tendo Banco Central Asiático de comprá-los por moeda local, investindo-os no tesouro americano.

Mas em 1997, $150 mil milhões fluíram para fora nos três meses após julho, exacerbando a Crise Financeira Asiática ao secar as reservas de moeda externa mantidas pelos bancos centrais asiáticos. Esses dólares reciclados empurraram para cima os preços das ações dos EUA, antes e depois da Crise Financeira Asiática.

AS "FINANÇAS ESTRUTURADAS" TORNAM INOPERATIVO O GRADUALISMO DAS TAXAS DE JUROS

Os "procedimentos em novas operações" de Volcker iniciaram-se em 1980, 27 anos atrás. Hoje em dia, com as "finanças estruturadas", as quais podem adicionar liquidez endógena criada internamente por esquemas de gerenciamento de riscos para a proteção contra uma trituração (crunch) de liquidez, uma nova dimensão deve ser somada. Por esta nova dimensão, ao estabilizar a oferta de moeda, ao invés de levar as taxas de juros para baixo, a taxa de juros será mandada aos céus devido à violenta competição por moeda pelos participantes do mercado. Viciados num suprimento sem fim de moeda barata, transformando um aumento rápido de liquidez em um aumento rápido de falências. Quando o mercado antecipa que a moeda tornar-se-á escassa, todos os agentes querem emprestar antes que a moeda acabe. A moeda torna-se fácil só se há poucos emprestadores para a moeda disponível para empréstimos. Quando cada um quer mais dinheiro fácil, inclusive emprestadores que precisam emprestar mais dinheiro para concederem mais empréstimos, a moeda torna-se difícil de conseguir muito rapidamente.

Reconhece-se que a maneira mais efetiva para que o FED estabilize o sistema monetário é através de um consistente, gradual e "mais regular" política de taxas de juros, sem surpresas ou bruscas mudanças. O mercado de crédito tem crescido acostumado a graduais políticas de taxas de juros. Este é o racional para uma boa aterrissagem, que amorteça os efeitos adversos de uma bolha preexistente. O problema com o gradualismo é que a sua aproximação é crescentemente fora de passo com um mundo financeiro de rápido-passo, dirigido por "finanças estruturadas" com derivativos financeiros de todas as espécies, que tendem a criar uma súbita super volatilidade sistêmica ainda que os instrumentos financeiros empregados fossem destinados para assegurar estabilidade para os participantes individuais do mercado. Alta volatilidade tornou-se oportunidade de lucro para os hedge funds, bancos e traders.

O GRADUALISMO CHINÊS SOB ATAQUE

Ironicamente, o gradualismo da China na reforma financeira e no ajustamento das taxas de juro tem sido veementemente atacado por impacientes funcionários públicos americanos, não obstante a tradicional preferência do FED pelo gradualismo monetário. Ironicamente, o gradualismo opera num controlado mercado de capitais, o qual a China ainda tem, mas não num não-controlado mercado de capitais conduzido pelos Estados Unidos .

WICKSELL DÁ A GREENSPAN UMA COBERTURA CIENTÍFICA

A teoria de Wicksell de unir a taxa de juros à taxa de retorno do investimento providenciou uma oportuna cobertura científica para a política de altas taxas de juro de Greenspan em face da lenta economia, ao aproximar-se a eleição presidencial de 2000. As taxas de juros poderiam estar altas e a justificativa teórica seria que os investimentos no estrangeiro estavam obtendo bons retornos, mesmo no caso da economia doméstica estar mostrando claros sinais de estagnação.

A oferta global de moeda continua a se expandir através da política do FED sob a hegemonia do dólar, que permite o déficit comercial dos EUA para financiar o superávit na conta de capital dos EUA, mantendo a taxa de juros de longo prazo do dólar baixa, mesmo quando o FED mantém a prime rate alta. A curva de rendimentos achatada, ou invertida em certos momentos, significando taxas de longo prazo caindo abaixo das taxas de curto prazo, não trazem recessões no longo prazo porque a liquidez é mantida alta pelo fluxo circular do déficit comercial que volta na conta de superávit de capital, com a inflação mantida baixa pelos baixos salários artificialmente mantidos e dos preços dos ativos mantidos altos pelo excesso de dinheiro que regularmente perde poder de compra.

CONTRAPARTIDA (TRADE-OFF) ENTRE OS CRESCIMENTOS GLOBAL E INTERNO

Este era o ponto pelo qual a economia política dos Estados Unidos começou a fazer a macro contrapartida (trade-off) procurando os benefícios da globalização às expensas de sua economia doméstica. Esta contrapartida tornou-se possível devido à hegemonia do dólar, na qual o comércio e as finanças mundiais são denominadas em fiat dólares, que os Estados Unidos e só os Estados Unidos podem emitir à vontade e com poucas penalidades no curto prazo.

Para o capital é permitido explorar o trabalho em todas as economias, inclusive nos Estados Unidos, de tal modo que a taxa interna de retorno pode ficar alta. A tradição de baixar a taxa de juros de curto prazo em resposta à uma economia lenta tem sido nos Estados Unidos substituída pela necessidade de manter maiores a taxa de juros de curto prazo para atrair fluxos de capital e para compensar a contínua desvalorização do dólar independentemente das flutuações das taxas de câmbio no curto prazo. Altas taxas de juros são necessárias para sustentar o superávit na conta de capital. Com a ajuda do FED, o tesouro americano tornou-se o principal jogador no "carry trade business", pagando baixas taxas de juros nos títulos do tesouro, emprestando essas importâncias aos bancos à taxas maiores, os quais, por seu turno, emprestam às corporações e agentes privados a taxas maiores ainda.

Enquanto esta contrapartida (trade-off) não foi inteiramente compreendida pelos economistas de Clinton, liderados por Robert Robin (antes de se juntar à Casa Branca de Clinton foi um senhor vendedor de títulos da Goldman Sachs), o público, trabalhadores particulares, ficou por muito tempo completamente esquecido, sujeito a um destino ameaçador ou seja perder a camisa que protegia suas costas, feita pelos membros da "União das Senhoras Trabalhadoras na Indústria do Vestuário", que seriam substituídos por roupas mais baratas, feitas por baixos salários na Ásia, particularmente na China.

A RUÍNA DO MERCADO DE TÍTULOS

William H. Grossm da "Pimco – Total Return Bond Fund", um veterano e altamente respeitado gerente do mercado de títulos, com um impressionante récorde ao manejar com lucros um fundo de títulos acima de U$ 100 mil milhões, o maior do mundo, recentemente admitiu publicamente que cometeu um erro muito grande apostando nas taxas de juros do FED em processo de queda para compensar a lentidão da economia americana causada por um colapso no setor habitacional devido ao colapso do mercado sub-prime [3] de hipotecas. Como investidor no mercado de títulos, Gross, compreensivelmente, colocou sua visão apenas em uma dimensão, no movimento das taxas de juros, uma vez que o preço dos títulos move-se em direção oposta às taxas de juros.

Enquanto Gross acuradamente previu uma economia mais lenta, falhou em compreender que o FED estava determinando as taxas de juros para os altos rendimentos nominais globais corporativos encorajado por um regime de total desvalorização monetária, mas com o dólar se desvalorizando numa velocidade mais alta do que as demais moedas, aumentando então as rendas externas em termos de dólar. A carteira de títulos da Pimco perdeu em dois níveis em sua má opção sobre taxas de juros: num colapso nos preços nominais pois as taxas permaneceram altas, e num declínio a longo prazo que seus títulos tiveram após uma persistente desvalorização no poder de compra real do dólar frente a valores reais.

UM DÓLAR FORTE É DO INTERESSE NACIONAL DOS EUA

Naturalmente, o Tesouro, o qual, por lei, requer o FED para apoiar suas políticas de taxas de câmbio como matéria de segurança nacional, tem repetidamente declarado que é do interesse nacional dos Estados Unidos um dólar forte. E um dólar forte, na arquitetura das finanças internacionais, requer uma alta taxa de juros. Agora, em adição à segurança nacional e justificando este interesse nacional, uma respeitável teoria científica está sendo ressuscitada para apoiar a política de altas taxas de juros de Greenspan requerida por sua bolha de liquidez.

Com a globalização do comércio e das finanças, os dados de campo tem então demolido a sabedoria convencional de que o desemprego abaixo do nível estrutural de 6% cause inflação, porque os preços de consumo dos Estados Unidos são mantidos baixos pelos baixos preços das importações devido à arbitragem salarial global e pelos baixos salários pagos aos imigrantes ilegais, a despeito do declínio global do poder de compra de todas as moedas guiadas pela hegemonia do dólar. Greenspan chamou suas altas taxas de "taxas de juros de equilíbrio". Mas um dólar é forte apenas em relação a outras moedas chaves, enquanto todas as moedas continuam a se desvalorizar contra valores reais numa tendência global à se tornarem fracas, guiadas pelo dólar. A despeito da retórica, os Estados Unidos não tem tido uma política de dólar forte por décadas.

A POLÍTICA DA ECONOMIA

O FED, não obstante sua pretensão intelectual e auto-proclamação de independência política, foi sempre uma instituição política. A política do monetarismo econômico repetidamente ressuscitada na "terra do lixo intelectual" (intelletual wasteland), como uma Sibéria teórica, tem contado com novos gurus para apoiar suas últimas interpretações ideológicas de uma sempre mudada economia. Ganhadores do Prêmio Nobel são proponentes de teorias que explicam "cientificamente" as últimas ondas das políticas deficitárias.

A lista inclui a maior parte dos Prêmios às políticas contestadas de Gunar Myrdal e Friedrick August von Hayek (em 1974, Myrdal, pela interdependência dos fenômenos econômicos, sociais e institucionais), em contraste com Hayed, pela teoria da moeda, flutuação econômica e fundamentalismo de mercado, que fez com que Myrdal encabeçasse a lista pedindo a abolição de qualquer homenagem no terreno da moralidade. Outros na lista eram: Milton Friedman (1976, história monetária, teoria monetarista e política de estabilização), Theodore W. Schultz e Arthur Lewisn (1979, desenvolvimento econômico e países em desenvolvimento), James Tobin (1981, mercados financeiros e decisões de despesas, emprego, produção e preços), George J. Stigler (1982, estruturas industriais, funcionamento do mercado e causas e efeitos da regulamentação pública), Franco Modigliani (1985, poupanças e mercado financeiro), Robert M. Solow (1987, crescimento econômico). Robert Lucas (1995, expectativas racionais), Amartya Sem (1998, economia do bem estar), Robert C. Merton e Myron S. Scholes (1997, valor preciso das opções e derivativos), Robert A. Muldell (1999, regime das taxas de câmbio), George A. Ackerlof, A. Michael Spence e Joseph E. Stiglitz (2001, mercados com informações assimétricas), etc, etc.

Não é difícil notar que muitos conceitos econômicos honrados pelo Comitê Nobel, por trabalhos usualmente realizados décadas anteriores, eram conceitos muito em voga no tempo em que os prêmios foram concedidos, e não para serem seguidos nos desastres da vida real causados pelas inquestionáveis e muito difundidas aplicações desses mesmos conceitos admiráveis. O último exemplo é Stiglitz, que, parte integrante da instituição econômica que promovia o fundamentalismo de mercado, sumarizado pelo Consenso de Washington, a despeito de seu trabalho anterior sobre informações assimétricas do mercado, só com atraso levantou questões sobre os reclamos do mercado fundamentalista como as soluções enviadas por Deus para a ordem econômica depois da Guerra Fria. Como o prêmio Nobel da Paz, o Nobel da Economia é altamente politizado.

Wicksell providencia uma cobertura intelectualmente respeitável para Greenspan, que abdica da sua responsabilidade como o presidente do mais forte banco central do mundo ao pretender seguir os fluxos do mercado, para tratar as taxas de juros como o preço do dinheiro estabelecido por forças do mercado e não como uma autoridade monetária com um mandato para promover o pleno emprego e o crescimento balanceado nas economias interconectadas do mundo. A questão embaraçosa é que nunca é perguntado porque um banco central é mesmo necessário se o mercado financeiro está com um piloto auto-ajustado.

TODOS TÊM UMA POLÍTICA DE RENDAS

O fato é que os monetaristas do FED estão fervorosamente e incessantemente intervindo nos mercados financeiro e monetário; a única diferença entre eles e os Keynesianos é que eles intervêm para favorecer o capital como expresso pelo valor nominal da moeda, enquanto os Keynesianos intervêm para proteger o trabalho do desemprego estrutural e dos salários abaixo da inflação, suposto necessário pelos monetaristas em sua luta contra a inflação. Como o economista pós-Keynesiano Paul Davidson com todo o discernimento disse: " todos têm uma política de rendas; eles não gostam da política de rendas de seus outros colegas mas afirmam que sua própria é determinada por um mercado inteiramente livre ". Estendendo seu desagrado pela inepta burocracia, os neo-conservadores monetaristas rejeitam a política imperativa dos governos, enquanto que os neoliberais monetaristas rejeitam a responsabilidade do governo visando o bem estar de todos os cidadãos, defendendo uma política de rendas que favoreça à classe dos ricos.

UM NOVO GURU

A instalação de um novo Guru no FED estimula o re-pensamento em Wall Street. Traders e investidores agora têm que reverter as suas tradicionais reações automáticas para vender, assim que o FED aumenta suas taxas de juros de curto prazo. Mesmo quando os ganhos reais das corporações caem no meio das taxas de juros em elevação, tais quedas são mascaradas nominalmente como lucro, no giro da desvalorização da moeda.

UMA PALAVRA ACERCA DE WICKSELL

Knut Wicksell, nascido em Estocolmo, Suécia, publicou seu livro: "Value, Capital and Rent" (Valor, Capital e Rendas) (1893) em sueco, o qual não foi traduzido para o inglês até 1954. Em seus dois volumes, "Lectures on Political Economy" (Conferências sobre Economia Política) (1901-6) e "Selected Papers on Economic Theory" (Artigos Selecionados sobre Teoria Econômica) (1958) foram lidos apenas por profissionais. Wicksell fez um trabalho rigoroso sobre a teoria marginal de preços e distribuição e sobre a teoria monetária. "Lectures on Political Economy" foi considerado competentemente um "livro texto para professores". Numa carreira inusualmente volátil, incluindo breve prisão por exercer direitos de discursar em público sem autorização, ele escreveu e conferenciou incansavelmente sobre "princípios fundamentais na economia", que não figura entre as atitudes admiradas por Greenspan, um discípulo de Ayn Rand, devoto do objetivismo com extremo individualismo.

Wicksell era um defensor das reformas econômicas e sociais de toda a sorte, muito notadamente do conceito Neo-Malthusiano de controle da população. Ele estendeu o conceito de Ricardo sobre a distribuição de rendas desiguais com base na lei férrea dos salários, asseverando que uma economia totalmente livre não equalisa naturalmente a distribuição da riqueza; assim a riqueza criada pelo crescimento seria distribuída em sua maior parte para aqueles que já tenham riqueza. Wicksell defendeu a intervenção do governo para impulsionar o bem estar público e nacional através de uma equitável distribuição dos benefícios do crescimento.

A teoria dos juros de Wicksell, publicada no seu livro de 1898, "Interest and Prices" (Juros e Preços), distingue a taxa de juros natural da taxa de juros da moeda. A taxa de juros da moeda, ou taxa de juros nominal, é meramente a taxa de juros no mercado de capitais enquanto a taxa natural de juros é a taxa de juros que é neutra em preços do mercado real, ou melhor, é a taxa de juros à qual oferta e demanda no mercado real estão em equilíbrio. O crescimento econômico acontece quando a taxa de juros natural é maior do que a taxa do mercado; uma visão compartilhada pela Escola Austríaca, a despeito da diferença que o individualismo austríaco tem, com o institucionalismo de Wicksell.

Nos seus últimos anos, Wicksell foi admirado por uma nova geração de economistas que se tornaram conhecidos como a Escola de Estocolmo, entre cujos membros incluía-se o Prêmio Nobel Gunnar Myrdal (1974 – Interdependência Institucional) e Bertil Ohlin (1977 – Teoria de negócios). Eles desenvolveram as idéias de Wicksell sobre o processo cumulativo dentro de uma teoria dinâmica de macrodinâmica monetária com, mas independentemente, da revolução Keynesiana.

O uso seletivo das idéias de outras pessoas é notório em Greespan. Sua predileção pela "destruição criativa" de Schumpeter, que ele cita em praticamente todas as falas, sempre deixa de lado a segunda metade da visão de Schumpeter: que a "destruição criativa" nos encaminha aos monopólios (à Microsoft) e acelera a vinda do socialismo, o pesadelo pior possível de Greespan e seus amigos do banco central.

Joseph A. Schumpeter (1883-1950) escreve em seu "Capitalismo, Socialismo e Democracia" (1942 Capítulo 3): "O progresso econômico na sociedade capitalista significa desordem." E, no capítulo 13, seção 2, escreve; " O capitalismo inevitavelmente e em virtude da própria lógica de seu ato de civilizar, cria, educa e subsidia um interesse fixo no desassossego social. Os Keynesianos desejam salvar o capitalismo subjugando suas contradições internas com uma dose moderada de prescrição socialista.

12/junho/2007

[1] Fiat money: papel moeda emitido sem qualquer vínculo com metais preciosos.
[2] Prime rate: taxa de juros que mais se aproxima daquela paga pelo investimento sem risco, isto é, aquela proporcionada pelos títulos de primeira linha ou de alta qualidade. No mercado financeiro internacional os títulos do governo estado-unidense eram os considerados mais próximos do risco zero.
[3] Sub-prime market: Mercado de empréstimos a tomadores insolventes ou não qualificados devido a problemas com o seu historial de crédito.


A seguir: Desvalorização de divisas deprime os salários globalmente.

[*] Presidente de um grupo privado de investimento com sede em Nova York. O seu sítio web pessoal encontra-se em www.henryckliu.com .


O original encontra-se em http://www.henryckliu.com/page135.html . Tradução de COM.

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
24/Jul/07