A troika interna e seus consensos (2)
por Daniel Vaz de Carvalho
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Aquele que conta com apoio estrangeiro, encontrará um amo no seu defensor
Maquiavel, O Príncipe.
"Deixai, ó vós que entrais, toda a esperança
Estas palavras eu vi em letreiro escuro
Por cima de uma porta escrito"
A Divina Comédia, Dante, canto III. 3
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3 - O CONSENSO NA UE
Se Dante voltasse agora ao Inferno aí veria expostos os tratados da UE.
Afirmou Lenine que os Estados Unidos da Europa capitalista nunca chegariam a
existir. Teve plena razão, a UE tornou-se o
caminho para a servidão de países previamente fragilizados.
A UE não passa de um conjunto de países em crise, divididos, com
interesses contraditórios, submetidos a diretórios e burocracias
dirigistas não eleitas que procuram a subordinação dos
povos a um império euro-atlântico em decadência. Esta
burocracia escudada em tratados não referendados, postos em
prática com total desconhecimento da generalidade dos cidadãos
iludidos com falsas promessas, age como a "Santa Aliança"
reacionária do século XIX, fazendo passar por interesse geral a
mesquinhez dos seus preconceitos.
A prioridade é a apropriação do excedente econômico
pela oligarquia, impondo a austeridade, o desmantelando das
funções económicas e sociais dos Estados, a venda ao
desbarato da propriedade pública.
A Alemanha considera que salva o seu euro controlando os OE dos outros
países. É espantoso que isto seja tolerado, mas além do
mais é uma mentira: a Alemanha não tem capacidade para salvar o
euro, nem para ajudar os outros países. O que pretende é
coloca-los na sua órbita, reduzi-los à condição de
mão-de-obra barata e sem direitos.
É neste sentido que a Merkel se arroga o insulto de dizer que Portugal e
Espanha têm licenciados a mais. O ministro Crato discorda, mas é
precisamente esta a política que está a ser posta em
prática pela austeridade, pela emigração forçada e
pelos sucessivos cortes de verbas às Universidades e à
investigação. Não menos espantoso, é aparecerem
"comentadores" a tentar justificar as palavras da chanceler
alemã.
O euro foi feito à medida dos interesses da grande indústria
alemã. A moeda única não poderia ter outro efeito
senão provocar a acelerada desindustrialização dos
países da periferia europeia levando ao bloqueio do seu desenvolvimento.
Em 1995 a Balança Corrente alemã tinha um défice de -1,25%
do PIB e em 2000, -1,7%, em 2008 já era positiva em +6,2%. Portugal sob
a ação de Maastricht e do euro passou no mesmo período de
-0,1% do PIB para -12,6%. A partir daqui começaram os PEC e veio a
troika. O saldo orçamental da Alemanha era em 2002, -3,8% do PIB, em
2012 +0,1%. Portugal passou no mesmo período de -3,4% do PIB para -6,4%.
Dizia De Gaulle que em política externa não há ideologias,
só interesses. Desenganem-se, pois, os que vão nos cantos de
sereia de "mais Europa". Quanto "mais Europa", pior os
países têm ficado. A Alemanha e os mais fortes defendem os seus
interesses à custa dos mais fracos. Ontem como hoje a expansão
alemã só pode ser contida se encontrar pela frente
"nações compactas e unidas capazes de manter uma vida
nacional independente." (Marx)
[1]
O insultuoso comentário da CE contra um mísero aumento do
salário mínimo, que nem sequer foi atualização,
não mereceu qualquer reparo do governo cuja
intenção é acabar com o salário mínimo ou
torna-lo irrelevante, considerando-o uma "imperfeição do
mercado" mas também o PS se calou.
É esta a UE para a qual a troika interna se volta em
orações, qual Meca dos europeístas. As
"orações" do PS não são muito diferentes
das do PSD e do CDS, no fundo apelam aos mesmos deuses.
Por que terão os Estados de pagar juros para se financiarem? Por que
não podem emitir moeda e o pode fazer (pelo crédito) a banca
privada? Com estas políticas os povos estão indefesos perante os
crimes financeiros, a usura e a especulação sobre as suas
economias. A pobreza aumenta na UE e nos EUA, apesar dos mais ricos terem cada
vez maiores fortunas. Pela financeirização da economia, das
privatizações, do serviço de dívida, a oligarquia
usurpa em seu benefício as disponibilidades públicas destinadas
ao desenvolvimento e à satisfação das necessidades
sociais.
A troika interna unida no seu europeísmo não concebe qualquer
política fora do dogmatismo dos tratados europeus, do euro e das
ameaças provenientes de um unilateralismo hegemónico em que
não existe: "uma nação um voto" mas seis
países podem fazer maioria e ditar aos demais o que bem aprouver aos que
detêm a hegemonia. É "a Europa a falar a uma só
voz" que os propagandistas do sistema proclamaram como prioridade
essencial.
O PS parece não ter consciência desta situação ou
conforma-se com a chantagem dos interesses dominantes sem ter em conta as
contradições do fundamentalismo neoliberal da UE. Quaisquer que
sejam as suas "boas intenções", logo ignoradas perante
as pressões do grande capital.
O PS pode ter as ilusões e sonhos europeus que quiser, mas que fazer
deste país?
A questão que se coloca é: qual o plano B que o PS propõe
para defender os interesses nacionais se as suas quimeras europeístas
não se concretizarem?
Não existe, tal como o PSD e o CDS não o têm.
Nada indica que a Alemanha esteja disposta a alterar o que quer que seja das
suas políticas, além de alguma cosmética, mas até
agora nem isso. Muito pelo contrário, quer o seu reforço e um
"ministro das Finanças da UE" ao serviço dos seus
interesses. Aliás a atual CE é constituída por gente
devotada à ortodoxia neoliberal e à hegemonia alemã. Ao
anúncio da França e da Itália excederem o défice
orçamental permitido de 3%, logo a Alemanha impôs: "todos
têm de cumprir", secundada pela CE, obrigando esses países a
aplicar mais medidas de austeridade. "Mais Europa" e federalismo
não são mais que processos de espoliação da riqueza
e da soberania dos povos que deixam de poder determinar o seu presente e o seu
futuro.
A. Costa fala em aplicar forma "flexível e inteligente" o
absurdo, iníquo e classificado como estúpido, tratado
orçamental. Mas qual é a forma flexível de interpretar um
tratado que condena ao atraso e estagnação os países com
menor desenvolvimento, um tratado que dá plena liberdade, sem apelo,
à CE para aplicar multas e reter verbas aos países
"não cumpridores"? Será "forma
flexível" o país passar a mendigar exceções
permanentemente, à custa de compromissos e cedências? A forma
inteligente e patriótica de o aplicar é recusá-lo.
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"O socialismo burguês resume-se precisamente nesta
afirmação: os burgueses são burgueses no interesse da
classe operária".
C. Marx e F. Engels, Manifesto
"Haverá entre os partidos burgueses, ainda entre os que se reputam
de mais radicais, um só que subscreva tal programa? Não
há, porque ele implica a destruição da sociedade de que
eles são os naturais representantes. Radicais abstratos, os jacobinos
recuam diante desta tremenda realidade com tanto horror como os conservadores.
Um jacobino é um conservador incoerente com frases de demagogo. (
)
Burgueses radicais a vossa república não é mais que a
república do capital assim como a monarquia dos conservadores não
é mais que a monarquia do capital"
Antero de Quental
[2]
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4 O CONSENSO NA ALTERNÂNCIA
De que programa falava Antero? Falava da "alteração radical
da ordem económica", "o fim do reinado da usura, a soberania
do trabalho organizado, a igualdade económica, a
organização do crédito como função
coletiva". Não podia ser mais atual. E que parte deste programa
subscreve sem evasivas o PS hoje? Pela sua prática e
declarações, nenhuma, rendido aos critérios do BCE,
á neoliberal "economia do lado da oferta", aos
monopólios privados, à banca privada.
PS, PSD e CDS saudaram a troika, o PS comprometeu-se com o
"memorando" como se fosse a salvação nacional:
tratou-se apenas de salvar a finança nacional e estrangeira e submeter o
país ainda mais ao jugo da oligarquia.
A. Costa fala em "romper com a visão a curto prazo, reunir
vontades, construir compromissos, mobilizar energias em torno de uma nova
agenda mobilizadora", mas que no final se resume a "fomentando o
empreendedorismo, a inovação, fortalecendo as empresas e apoiar a
sua internacionalização" (
Público,
26/07/2014). Eis um conjunto de frases destituídas de conteúdos
concretos que o PSD e o CDS nunca se cansaram de repetir. Vale como
voluntarismo destituído de substância. A questão é
que nenhum dos partidos da troika interna diz o "como".
Estes partidos pensam obter resultados diferentes com os mesmos processos.
Fazem crer que se podem resolver problemas com os mesmos critérios que
os originaram, apenas variando a forma como são executados os processos
que o sistema admite. Estamos no domínio da alquimia política.
A política de direita desgovernou o país, atingiu com o governo
PSD-CDS foros do inconcebível em termos de incompetência,
falsidades e abandono dos interesses nacionais. Na realidade, aprofundou
como é da sua natureza de classe as políticas encetadas
pelo PS.
A degradação política da direita/extrema-direita no
governo é tal que se aplica o princípio de que uma mão
lava a outra: os escândalos, as mentiras, o descalabro das
instituições públicas, os resultados desastrosos para o
país e para a vida das pessoas, atingiram tal nível, que a sua
vertiginosa sequência leva a que umas façam esquecer as outras e
acabem por provocar confusão e apatia em boa parte da opinião
pública. Acresce a retórica de uma maioria que manipula dados e
apresenta opiniões como se fossem verdades comprovadas.
As tergiversações do PS colocaram o país na mão de
tartufos que se empenham em conversas sobre empreendedorismo e põem em
prática trabalho cada vez mais precário, jovens qualificados com
salários de miséria, despedimentos massivos de trabalhadores
experientes.
Com o poder económico e financeiro nas mãos da oligarquia as
críticas do PS ao governo PSD-CDS, são tanto mais veementes
quanto mais inúteis de facto, pois recusa o papel interventivo das
massas populares e compromissos à sua esquerda.
O PS afirma pôr fim à austeridade e ter crescimento, sem
clarificar que para isso é preciso enfrentar a finança, romper
com os atuais tratados da UE e com o euro. Difunde a miragem de "sinais
positivos" na UE, diz que fará acordos à esquerda e à
direita. Tal não passa da habitual máscara para captar votos
à sua esquerda. Máscara que caiu rapidamente quando o PCP
apresentou na AR propostas sobre renegociação da dívida,
debate sobre a saída do euro, controlo público sobre a banca.
Diga-se que eram propostas muito moderadas, embora fundamentais para o
país sair do impasse da crise. Pois bem, o PS votou contra todas ao lado
do PSD e do CDS; PCP, PEV, a favor, o BE a favor, exceto na questão do
euro em que se absteve. A posição do PS é reveladora das
suas ambiguidades, aliado no essencial à sua direita.
Podia não estar de acordo com os considerandos ou a forma do PCP abordar
as questões, mas podia pelo menos mostrar concordância de
princípio com a necessidade de debater aquelas questões.
Então teria optado pela abstenção. Mas não, votou
ao lado do PSD e do CDS. Foi a troika interna a funcionar. É caso para
pensar que os oligarcas, especuladores e agiotas, podem contar com o sr.
António Costa e o seu PS!
Quando o PSD e CDS se afundam no descrédito, o PS substitui-os mantendo
políticas idênticas. Quando o PS se afunda, o PSD-CDS
substituem-no aprofundando as mesmas políticas. Também aqui se
pode dizer que uma das mãos lava a outra. É a alternância
sem alternativas.
Estas políticas mergulharam Portugal, bem como a generalidade dos
países da UE, na estagnação económica, aumento da
pobreza e das desigualdades estruturais. O Estado democrático é a
única entidade que pode proteger os cidadãos e promover o seu
desenvolvimento, não a finança nem a burocracia europeia.
Não há portanto alternativa credível que não se
baseie num programa que tenha como princípios o reconhecimento da
soberania constitucional, económica e monetária do nosso
país.
A primeira parte deste artigo encontra-se
aqui
[1] Revolução e Contra-revolução na Alemanha, Obras
Escogidas de Marx e Engels, Ed. Progresso, Moscovo, 1973, p. 372. O texto
terá sido escrito por Engels, revisto e assinado por Marx para
publicação no
New York Daily Tribune.
2 - Antero Quental, Carta à Comissão Eletiva do PS em 1880, Seara
Nova, agosto de 1971, segundo Cartas de Antero Quental, Coimbra, 1921, p. 92 e
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Este artigo encontra-se em
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