A troika interna e seus consensos (1)
por Daniel Vaz de Carvalho
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Assim Deus me ajude, não vislumbro senão uma certa
conspiração de ricos procurando suas próprias vantagens em
nome e sob a tutela da comunidade. Inventam todos os meios e possibilidades
(
) para usar e abusar do trabalho e labor dos pobres pelo mínimo
possível de dinheiro. Esses planos quando o rico os decretou são
tornados leis.
Thomas More, Utopia
(Numa sociedade dividida em classes) nada se pode dar a uma que não se
tire a outra.
Marx, O 18 do Brumário de Luís Bonaparte
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1 Existe uma troika interna?
A troika interna, PS, PSD, CDS, existe. A aparente veemência dos debates
pode levar a pensar que não. Contudo as controvérsias entre estes
partidos processam-se à volta dos mesmos conceitos de base neoliberal e
do mesmo pensamento sobre a UE, sua burocracia e dogmatismo.
Tudo isto está refletido nas suas políticas quando no governo,
nas suas votações na AR e no Parlamento Europeu.
J. Seguro queria estabelecer consensos com o PSD; A. Costa quer que o PSD
faça consensos com o PS. Francisco Assis, defendeu uma
coligação governativa com o PSD. Ana Gomes afirmava que "o
bloco central (governo PS-PSD) pode ser necessário. Não o
descarto".
A troika interna constitui-se como garantia da democracia oligárquica.
[1]
As diferenças entre o PS e o governo não são maiores do
que determinados elementos do PSD ou do CDS publicamente expressam. A UGT
é o alter-ego sindical da troika interna e os consensos tornam-se claros
nesse âmbito. A sua direção convidou para
comemorações do 36º aniversário o primeiro-ministro,
recebido com aplausos, tal como os discursos de membros do governo tão
descredibilizados como Nuno Crato, Mota Soares e secretários de Estado
convidados. Passos Coelho elogiou o papel da UGT nos acordos da
"concertação social", em que foram retirados direitos e
salários aos trabalhadores e atacada a contratação
coletiva, considerando os seus elementos "aliados
estratégicos" das políticas do governo.
O PS é um partido com raízes democráticas, algo que escapa
a boa parte do PSD e do CDS, porém, servindo-se do anticomunismo liderou
o processo de fusão ideológica com a direita e aprofundou a
ligação ao grande capital monopolista e financeiro. A
compensação foi um acumular de lugares de destaque, altamente
remunerados, numa partilha de poder ao serviço do grande capital, como
no falido Grupo Espírito Santo, em empresas monopolistas e onde o Estado
tinha participações.
O PR, descredibilizado ao nível de um Américo Tomás antes
do 25 de Abril, simples marioneta do governo nas suas políticas
pró oligarquia, insiste no abafamento da democracia procurando
formalizar a troika interna numa espécie de partido único
neoliberal, um "consenso" que permita nova revisão da
Constituição, concretizando os objetivos da atual maioria: para
que cada parágrafo de defesa da democracia contenha a sua própria
antítese, que direitos e garantias possam ser efetivamente condicionados
pela maioria parlamentar.
A direita/extrema-direita no poder pretende uma democracia que funcione como
ditadura do grande capital, é uma direita saudosista do antes do 25 de
Abril, mas que aspira a não ser mais que um protetorado da
potência europeia hegemónica. Eis para onde os apologistas da
"economia de mercado" conduziram o país.
Ferro Rodrigues disse, e bem, que este governo põe em causa o regime
democrático, mas como pensa impedi-lo? O PS tem uma visão
minimalista da Constituição, as suas tergiversações
no passado, o ter promovido e assinado na UE tratados que se sobrepõem
à Constituição, a sua posição
favorável ao catastrófico TTCI,
[2]
constituem perigos acrescidos para a democracia e soberania do país. A
luta contra o espírito do 25 de Abril, a destruição dos
seus avanços progressistas, implicou a aliança do PS com a
direita e com a contra-revolução interna e externa, recusando
qualquer convergência política à sua esquerda.
A troika interna tem seduzido o eleitorado, aclamando a "economia de
mercado", a "estabilidade" e outros mitos como o da prosperidade
pelo federalismo europeu e pela moeda única, máscaras para o
domínio do grande capital. Em consequência, o país
empobreceu drasticamente, dezenas de milhares de MPME foram levadas à
falência, as camadas médias viram hipotecas a serem acionadas
sobre o que pensavam ser seu. E tudo isto em nome da defesa da propriedade e do
mercado.
Afinal, nem casas, nem empresas, nem outros bens ou rendimentos eram sua
propriedade, eram crédito e o crédito tinha deixado de estar sob
controlo ou mesmo regulação democrática: com apoio dos
seus votos, tinha sido entregue à gula financeira. Foi esta a
vitória que a oligarquia obteve graças alienação
das camadas médias, em nome da "livre iniciativa" e contra o
"Estado a mais". "Estado a mais" que seria a real garantia
de proteção dos seus interesses.
Politicamente, o engenho de Passos Coelho é mentir compulsivamente, tal
como a generalidade dos seus ministros. Queixou-se da comunicação
social num descabelado ataque aos jornalistas. Não entende nada da vida
ou finge. Não percebe que os políticos da troika interna
não passam de atores a quem os oligarcas entregam um guião.
Pretendiam com o governo PSD-CDS a epopeia das "reformas
estruturais", o drama épico dos "sacrifícios para
todos". Afinal o elenco escolhido transformou-o numa farsada, desempenhada
por "canastrões" de palco, perante um público que lhes
voltou as costas, e já nem a claque se atreve a aplaudir
incondicionalmente.
Os mesmos que elogiavam o Sócrates dos PEC transformaram-no depois em
vilão. Quiseram fazer de Passos Coelho um herói shakespeariano,
um Coriolano, (estou-me lixando para as eleições
),
saiu-lhes um Tartufo mal talhado. A comunicação social controlada
não defende políticos, defende políticas. Nos palcos da
democracia oligárquica os seus políticos são meros atores
prontos a serem substituídos. A mesma claque que tinha incensado como
heróis da direita Cavaco Silva e Passos Coelho, assiste à pateada
geral e vai preparando o público para outra encenação da
mesma peça o europeísmo neoliberal com novo elenco,
tendo como cabeça de cartaz o sr. António Costa.
2 O CONSENSO NEOLIBERAL
O neoliberalismo é uma das componentes da troika interna. O PS clama
contra o radicalismo ideológico do governo PSD-CDS, mas apenas contra
esse radicalismo, pois os critérios ideológicos que segue, para
além da cosmética pré-eleitoral, estão na mesma
linha de pensamento, ligada à conformidade vigente na UE quanto à
dívida, ao euro, à finança.
"O neoliberalismo representa hoje o principal perigo que ameaça a
República, o extremismo mais subtil e mais incompreendido, portanto o
mais subestimado, na sua capacidade destrutiva. Serve antes de mais os
interesses da política estrangeira dos EUA e suas multinacionais. Mas
é igualmente vantajosa para uma nova aristocracia apátrida,
(
) que dirige os mercados e que domina os círculos
mediáticos, económicos e políticos."
[3]
O neoliberalismo serviu de máscara à vitória dos
monopólios e da especulação à custa da austeridade
para as camadas não monopolistas.
Perante a ascensão do liberalismo, afirmou no seu tempo Abraham Lincoln:
"Abandonámos o poder às grandes empresas e vamos conhecer
uma onda de corrupção sem precedentes que vai infiltrar-se
até os mais altos níveis do Estado. As forças do dinheiro
vão tentar permanecer no poder excitando as classes sociais umas contra
as outras, até que a riqueza fique concentrada em poucas mãos e a
nossa República se afunde".
[4]
O neoliberalismo representa uma espécie de feudalismo financeiro.
Então os reis distribuíam o território da
nação pela nobreza. Agora o poder político distribui o
património público pela oligarquia. É este o significado
das privatizações e das PPP, levadas a cabo por PS e PSD-CDS.
No feudalismo os camponeses tornavam-se servos, totalmente dependentes dos
senhores e seus administradores. Hoje o proletariado torna-se totalmente
dependente das novas formas de servidão impostas pela flexibilidade
laboral. Num filme "made in Hollywood" expressa-se esta
situação no seguinte diálogo: "A empresa é
minha e eu despeço quem eu quiser". Ao que o advogado da empresa
responde: "Não, é o patrão e tem o dever de ser
imparcial". Ou seja, não deixa de poder despedir
segundo a sua
"imparcialidade".
A política de direita proclama a "eficiência privada" e
as teses antikeynesianas da "economia do lado da oferta", como
argumento para favorecer os monopólios e a finança. As
consequências desta política são a austeridade, forma
perifrástica de espoliar a classe trabalhadora e as MPME, a favor do
grande capital. O recurso á "austeridade" mostra como
"só o roubo pode salvar a sociedade burguesa". (Marx)
[5]
A política de direita resume-se, como se tem visto, a este roubo. A
austeridade tem sido amplamente contestada demonstrando-se o seu não
fundamento, a sua perversidade. Autores marxistas, keynesianos e outros nem uma
coisa nem outra, têm-se pronunciado consistentemente no mesmo sentido.
Mas a ortodoxia neoliberal não tolera a confrontação de
ideias e aquilo que devia ser previamente justificado e demonstrado é
assumido como uma verdade absoluta e um facto inevitável.
Os PEC representavam a linha neoliberal da UE e do FMI de
privatizações, austeridade, apoio à finança,
redução de impostos ao grande capital (isenções e
benefícios às SPGS e à banca, livre transferência de
rendimentos, etc.). Os PEC foram a antecâmara da troika. O
falhanço destas medidas para resolver a crise capitalista levou a
sucessivas revisões do "memorando" sempre com mais
exigências, que prosseguem nos relatórios da OCDE, FMI, CE.
A direita/extrema-direita alcançou o governo, mentindo despudoradamente.
Tinha então, ao abrigo da tão desejada e elogiada troika externa,
a sua oportunidade para não deixar pedra sobre pedra do 25 de Abril,
procurando até destruir o que de mais elementar a
Constituição possui e a revisão das leis eleitorais.
Conduziu o país ao descalabro e à perda de soberania, no caminho
preparado pelo outro parceiro da troika interna.
Por cada euro retirado ao défice entre 2011 e 2014, a dívida
pública aumentou 56 euros, os juros pagos atingiram 29 mil M; 33,8
mil M desde 2010. Era este o "bom caminho" que os comentadores
de serviço ao sistema aplaudiam dizendo que "estava a ser feito a
que tinha de ser feito" e a maioria considera ser a
"consolidação das contas públicas"!
Balança, défice, dívida não têm que ver com
"falta de rigor", ou "peso do Estado". Mas sim com o euro,
com a política do BCE a favor da especulação financeira. A
Alemanha sabe-o bem, mas a sua intenção é tornar
dependentes os países mais frágeis, apropriando-se da sua
riqueza, nomeadamente através do endividamento, ser a potência
europeia dominante, liderando os outros Estados através de governos
submetidos aos seus critérios e ser o interlocutor privilegiado perante
o imperialismo dos EUA.
O crescimento da pobreza e simultaneamente dos multimilionários mostra a
ânsia de riqueza dos oligarcas e seus agentes políticos,
indiferentes à miséria que originam, apoiados numa delirante
propaganda e esquizofrénicos relatórios de
instituições como a OCDE, FMI, CE. A ideologia ao serviço
dos oligarcas perdeu toda a capacidade de entender a realidade.
Criam-se neologismos como a "flexisegurança", usam-se
eufemismos como a "requalificação" para mascarar
despedimentos, a estatística retira do rol do desemprego quem trabalhou
uma hora remunerada no período. A social-democracia da troika interna
fantasia um "capitalismo de rosto humano", quando este "rosto
humano" só existiu como máscara por curtos períodos
históricos, logo deixada cair assim que a relação de
forças se lhe tornou favorável, graças ao anticomunismo da
social-democracia/socialismo reformista e a sua rendição ao
neoliberalismo.
A recessão, o desemprego mascarado com artifícios
estatísticos, o rasgar do contrato social com as classes trabalhadoras,
mostram as contradições e as consequências do sistema. Com
a crescente decadência das camadas médias, das MPME, dos pequenos
agricultores, as sociedades que assentam no grande capital monopolista e
financeiro estão a desmoronar-se. O PS não mostra entender isto,
donde a necessidade não das alternâncias da troika interna, mas de
uma real alternativa política, económica e social,
patriótica e de esquerda.
[1]
Cretinismo parlamentar e democracia oligárquica
[2] Tratado Transatlântico de Comércio e Investimento. Ver:
O tratado de comércio livre EUA-UE: a grande golpada
e
Le Monde Diplomatique,
ed. portuguesa, junho 2014,
[3]
Le fascisme réel
, Maxime Chaix,
[4] Abraham Lincoln, citado por Chems E. Chitour,
www.legrandsoir.info/...
[5] Marx, O 18 do Brumário de Luís Bonaparte, Obras Escogidas de
Marx e Engels, Ed. Progreso, Moscovo, 1973, p. 495
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